Notas iniciais
Vou contar a história aos poucos... para que todos possam acompanhar esta grande aventura e dar boas risadas, kkkkk

Pronos sabia que o perigo era iminente, e abriu os dois olhos. Através dos séculos, desenvolvera a sabedoria necessária para decifrar aqueles acontecimentos. E além disso, seu próprio instinto natural também lhe mostrava o mesmo. Havia passado antes por várias adversidades e aprendera, com muito sacrifício, a captar as evidências espalhadas ao seu redor. Virou-se para um lado, depois para o outro, inquieto, desconfiado demais.

No entanto, sua certeza nunca se fazia absoluta, apesar do estômago bastante revirado... Aquela sensação proveniente de seu profundo íntimo deveria traduzir-se em um vestígio nítido, numa pista concreta da verdade. Por ínfimo que fosse, precisava refletir qualquer pequeno sinal da realidade, algum sinal do que se desenrolava lá fora.

Mesmo que Pronos tivesse ciência de que, no Mundo Maior, uma impressão colhida no âmago do ser possuísse valor inestimável. Assim, não lhe restavam muitas dúvidas: O mal estava evoluindo, progredindo com desenvoltura fora do comum, embora se fazendo valer de velhos artifícios. Ocultava-se em ardilosas artimanhas, a fim de esconder seus cruéis propósitos.

Feitiçarias antigas!, pensava sem parar, com seu cabeção já zonzo. Desde que me lembro, essas criaturas nunca foram diferentes, recordou o duende em sua quase inabalável memória. De acordo com seu entendimento, e após uma pontada no coração vetusto, sentia o quadro se agravar a cada instante. Nem a força fundamental, nem a própria harmonia universal estariam livres da sombra que furtivamente espreitava. Em vez disso, tudo estaria correndo grave risco de perecer, inclusive a medíocre vida que conhecia de perto.

Dessa forma, aliás como era de costume, Pronos ficou preocupado demais. Beirava um profundo abismo de insanidade onde, cedo ou tarde, tudo acabaria por se tornar alarmante. Mesmo que se tratasse de seu único dever, sua função, sua razão de existir. Mas seu próprio exagero também aparecia logo, e sem ser sequer convidado. Igualmente teimoso, acabava por se transformar num companheiro inseparável do duende, roubando seu precioso ar. Então, sempre desse jeito, de narinas arreganhadas, ele pensava e agia, refletia e concluía.

Com um olhar injetado, estava mais e mais irritadiço, quase explodindo para dentro. Somente agora porém, dava-se conta que essa percepção não era nem um pouco recente. Pelo contrário, recente para Pronos era o fato de não dormir direito há pelo menos dois anos, segundo suas contas mais grosseiras. Que absurdo!, ponderou fora de si, achando que sempre merecera o sono dos justos.

E, embora navegando num mar de tormentas, quase afogado entre questões que se debatiam, ainda precisava encontrar certa coragem. Algum resquício, por difícil que fosse, para revelar o assunto a Neshoa... Um detalhe que só servia para aumentar a pressão, sua nuca latejando, fazendo com que chegasse perto do limite que poderia suportar. Mesmo que uma firme convicção mostrasse que o temor tinha fundamento; que não se tratava de um mero delírio cavernoso de sua parte.

É crucial haver um bom motivo!, refletiu ao pousar um dedo comprido no queixo afundado. Não posso fazer besteira... Mas... Onde obterei provas? Como? Com quem? Raciocinava depressa, procurando uma saída que parecia estar escondida sob seus próprios neurônios.

Apesar da angústia tamanha, também seria necessária muita paciência, nem que fosse a contragosto. Pronos devia se esforçar para tanto, e se assegurar para não cometer nenhuma espécie de precipitação. Não queria encontrar-se de novo em situação desconfortável, conforme ocorrera menos de um século atrás, quando atrapalhou o Ser Supremo em suas elevadas missões. O duende veio com um monte de hipóteses levianas, que não se confirmaram, e apenas o deixaram receber o descrédito como recompensa.

Mas afinal, nesse ínterim quase centenário, devia ter aprendido a lição. Alguma coisa que prestasse haveria de entrar em seu vasto crânio após tantos anos. Além disso, suas desconfianças recaíam sobre uma criatura conhecida há tempos. Uma figura abominável, capaz de tudo para alcançar o poder absoluto dos Três Reinos.

Sem importar-se com nada, nem ninguém, engolia quem aparecesse pela frente, a fim de ganhar forma, atingir seus objetivos. E não havia quem conseguisse decifrar com clareza esses terríveis desejos, além do simples prazer de praticar o mal. Este era Vanthorp.

Então, ainda mordendo o beiço, Pronos lembrava de outra coisa, por mais estranha que pudesse parecer... Não por acaso, tinha conhecimento da sombra da força, com sua intrínseca energia maligna, apenas por existir. Mesmo sem precisar de qualquer motivo, embora muitos pensassem o contrário. De longa data, sabia que se traduzia numa potência tão avassaladora quanto qualquer outra. Não resta dúvida, divagou rapidamente, com um tremelique na bochecha.

Esse devia ter sido o alimento de Vanthorp através dos anos, talvez sua própria essência. Um combustível odioso que havia aumentado muito nos últimos tempos, tamanha a sujeira que surgira no Mundo Conhecido. E que forjava um tenebroso caldo de acidez, escorrendo perenemente para os subterrâneos, habitat preferencial das formas rastejantes que se escondem. Nunca encontrara outra explicação para essa criatura quase indestrutível.

Apenas sua imagem, raríssimas vezes presenciada por Pronos, o fez revirar-se num sobressalto agourento em cima daquilo que ousava chamar de cama. Seu corpo inteiro estremeceu e, nesse efêmero instante de extrema sensibilidade em alerta, percebeu uma vibração sutil porém visceral.

Provocando-lhe um arrepio na espinha, uma pequena eletricidade percorreu seus sentidos bastante evoluídos. Pronos possuía nervos suscetíveis além do normal, e portanto capazes daquela detecção tão tênue quanto insólita. Somente energias de extrema magnitude sendo perturbadas poderiam influenciar o equilíbrio dos mundos daquele jeito. E fazendo com que o duende sentisse com precisão mesmo a uma distância estupenda.

Agora suas desconfianças se multiplicaram por mil. Após um aperto no peito, pressentiu que o motivo seria ainda pior do que havia imaginado no início, sua vista ameaçou ficar turva. Pela única reverberação que captou, deveria se tratar de um artefato sem igual. Gaguejando sem som, Pronos custava a crer que tremenda energia concentrada pudesse estar sendo manipulada.

Dali para frente, teve uma perfeita noção do que poderia ser, e se engasgou de vez, um grito estrangulado na garganta. Seria proveniente da coisa mais temida das últimas eras... Uma coisa que, uma vez utilizada, seria capaz de causar estragos imprevisíveis, principalmente em mãos erradas. Teriam encontrado a Caixa Blindada? A língua lilás do duende deu um pulo para fora.

_ Impossível! Não pode ser verdade! Não pooode!!! – berrou enfim, renitente no vazio, soltando um bafo tenebroso.

De tempos em tempos, porém, Pronos entendera que certos ajustes se mostravam necessários. Algumas arestas precisavam ser aparadas, como as plantas necessitando da poda, a fim de crescerem com vigor outra vez. Ainda assim, o duende não desejaria ver esse medo se realizando nunca em sua vida. Mesmo que ela já fosse longuíssima, valendo por muito mais de duas, no mínimo, normais.

Notas finais
Seria ótimo que todos gostassem da história e assim pudessem fazer comentários interessantes... Estou aguardando e desde já agradeço. Valeu!!!