Notas iniciais
Espero que todos estejam gostando tanto quanto eu... Aliás, já estou com muitas partes da história adiantadas e ficou um barato! Só falta revisar, kkk

Pronos estava profundamente acostumado a farejar encrencas com aquele seu nariz comprido de longe. E, ainda que não fosse infalível, devia continuar aprendendo a confiar em suas premonições. Mesmo apesar dos melindres, sempre lhe diziam quando algo estava errado.

Assim, o duende mudou o foco e passou a prestar atenção em seu Peixe Borbulha no aquário. De olhos faiscantes, o peixe já estava a encará-lo atentamente, a cauda sacudindo demais. Desse modo, após alguns segundos de hipnose mútua, soltou uma bolha, depois outra e, um pouco depois uma última, que foi das grandes. Uma das maiores bolhas que Pronos, de queixo caído, tivera chance de presenciar.

Ele sentiu um arrepio na espinha quando viu o sinal que identificava como ninguém. Buba não está nadando de ponta cabeça à toa, concluiu engasgado, percebendo que o peixe também devia ter seus motivos para estar estranho.

_ É meu amiguinho, eu sei, eu sei – falou com o bichinho, dentro d’água, como se fosse comum, alisando o aquário com todo carinho. – Você deve ter suas razões, eu compreendo e também... – Um estampido fez o duende meter a careca no vidro, que por pouco não rachou. Mas pelo menos o fez voltar ao normal, apesar do inchaço crescente na testa.

Dessa vez foi o bico da chaleira, interrompendo aquela conversa indecifrável. Começou a apitar sob o fogaréu que agora dominava por completo a lareira. O chá dentro em breve estaria pronto e Pronos lambeu os beiços após o susto. O preparado precisava apenas ficar alguns breves minutos sob intenso calor. Um sorriso iluminou o semblante do duende que esfregou as mãos lentamente.

Pouco depois, retirava o recipiente para que a fervura baixasse. Pegou sua xícara e despejou o líquido ainda fumegante, e encorpado, conforme era de seu gosto. Quase vesgo, não entendia como adorava aquele azedume, um aroma acre pelos ares. Fez até uma cara de zangado para o vaga-lume que se afundou de novo em sua toca. Parecia arrependido, apesar do gemido desdenhoso no último instante.

_ Isso mesmo... Quero respeito aqui! – bradou Pronos num tom forçado. – Nada de desordem, entenderam?

Virou-se, deixando escapar uma risadinha rabugenta no canto da boca. Apesar das broncas, não queria guardar rancores, muito menos do vaga-lume. Sabia como sua luz era importante, porém não deixava de implicar com ele também, provocando-o para que não dormisse para sempre dentro da toca. Chegou a se divertir com a situação, esquecendo sua própria falta de humor.

Entrementes, o cheiro do chá dominou o recinto por completo, quase insuportável. Mas Pronos parecia não ter percebido nada, suspirando a plenos pulmões. E ainda quis filosofar, tentando definir qual aspecto da bebida seria melhor. Nem se preocupou com qualquer nariz torcido à sua volta.

_ Não sei o que é mais gostoso... – sibilou de olhinhos revirados. – Esse chá, ou esse cheiro.

Pronos se manifestava em puro êxtase, enquanto sentia suas mãos se aquecerem com o calor da xícara e a proximidade da degustação. Começou a salivar, a língua lilás indócil querendo sair, igual a uma cobra naja pronta para o bote. Era preciso relaxar e ele estava sedento para tomar seu chá o quanto antes. Seria o elixir para fazer com que seus pensamentos clareassem. Aquela tensão incessante engessava sua busca por soluções interessantes, lançando-o num verdadeiro fosso de cinzas.

Sentou-se em sua poltrona favorita e colocou os pés em cima da Tartaruga de Mesa, que recolheu a cabeça prontamente. Não queria saber de amolação, enquanto Pronos não conseguia encontrar uma posição satisfatória, remexendo os fundilhos a todo instante. Uma vez acomodado, o duende passou a degustar e suspirar repetidas vezes, deixando os devaneios o dominarem por inteiro. Talvez assim conseguisse desvelar o que poderia estar acontecendo, agora sob outro prisma.

_ Uuuuh! Uuuuh! – exultava ao sorver cada gole, deixando que escorresse lentamente pela garganta. Chegava a levantar a cabeça e uivar de satisfação, atiçando os outros nesse seu deleite.

Era um dos poucos, senão o único prazer de Pronos há tempos.

Mas o efeito do chá se mostrava impressionante, e rapidamente o enfeitiçava. Era muito forte, elaborado a partir de uma receita antiqüíssima, recebida de seus ancestrais. Feito à base de raízes quase extintas, embora Pronos fosse um dos poucos que ainda soubesse onde encontrar. Afinal, para ele não havia limites em suas andanças. Poderia ir, no lugar e na época que quisesse. Faltava vontade, este sim o verdadeiro ingrediente em extinção na sua vida. Às vezes, o duende ficava cansado só de pensar, no entanto acabava se obrigando a ir. Senão acabaria enterrado vivo, de vez, em seu casulo pétreo.

Recostou-se um pouco e dava impressão de que iria... dormir. Era difícil de acreditar, agora, diante da grave desconfiança que assomava em seu cérebro. Devia ser o efeito somático do chá, não se encontrando outro motivo para tremenda contradição. Sem nenhuma vergonha, Pronos aconchegava os pezões da melhor forma possível. Um chulé sem igual se espalhando, e ele, esfregando um sobre o outro, devagar, dando a entender que se preparava para uma pequena soneca. Mesmo tendo acabado de acordar, sem ter dormido. Um bocejo arrepiante brotou, sugando uma mosquinha que passava por perto.

Então, no instante em que mirou um canto no teto, acabou a preguiça. Pronos logo notou algo que lhe deu outro susto, espantando a sonolência e chamando sua atenção: A goteira, que formava uma enorme estalactite há séculos, e decorava o encruado recinto, havia secado. Como? As próprias energias minerais estariam sofrendo as conseqüências nefastas da estranha alteração que rondava. De imediato, o duende tratou de recobrar a consciência e retomar o estado de alerta. Os olhos saltados das órbitas, justo quando começava a relaxar.

_ Logo minha estalactite, que eu acompanhava desde pequenina – lamentou consternado. – Queria tanto que ela crescesse bastante para completar a decoração. Que droga! Seria uma grande escultura, unindo o bico de cima com o de baixo, como a união do céu e da terra. Seria uma beleza. – Choramingou bestamente, as mãos na cabeça.

_ Quanta frescura – balbuciou a planta, sacudindo a folhinhas. – Nunca vi ninguém chorar por causa de uma goteira.

De repente, mesmo sem ter escutado a ironia, Pronos percebeu o ridículo daquela cena e voltou a lembrar dos perigos. Com um aperto no peito, sua expressão tornou a ficar séria, digna da maldade que espreitava. Uma onda de preocupação se manifestou nele, fazendo as rugas se redobrarem, marcantes como nunca.

Horrorizado com a carranca, o vaga-lume ficou com as antenas imóveis. Pretendia se aventurar outra vez, colocando as asinhas de fora, porém empacou ao sentir o mau presságio. E, temendo que sobrasse alguma bronca, soltou uns chiados característicos e chafurdou de volta. De certo modo, tapou inclusive alguns orifícios grandes da toca para se prevenir. Deixou o ambiente na penumbra, criando um clima obscuro por ali, onde a incerteza passou a reinar soberana.

Notas finais
O duende Pronos vai se enrolar mais e mais até não ter outro jeito. Precisará falar com o Supremo Neshoa para obter uma luz, kkk
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.