Notas iniciais
Pessoal, Esqueci de dizer que a ortografia ainda é das antigas, ou seja, não tem aquele monte de mudanças que ainda não decorei, e nem o meu Word... Mas acho que a essência permanece! Boa diversão!

Então, pouco depois daquele gemido gutural, Pronos ergueu o pescoço. Olhou em volta, numa ligeira impressão de que sua proclamada cama tinha ficado ainda mais fria e dura que o usual. Como se fosse possível, tendo em vista que o leito não passava de um grande bloco de pedra, cheio de protuberâncias e arestas pontudas, quase sem conforto algum. Era recoberto unicamente com alguns trapos e farrapos de tecidos, lãs e couros, corroídos por completo, que o separavam da vida de um legítimo eremita.

_ Talvez seja eu... – sibilou ainda deitado, ajeitando o traseiro. – Estou tão tenso, todo enrijecido e suando frio sob essa pressão toda. E colocando a culpa na minha adorável caminha – completou num elogio descabido.

Finalmente, após uma comprida espreguiçada, quando a maioria dos ossos da sua carcaça estalou, resolveu encarar o dia. Levantou-se, apesar disso não aumentar quase nada sua estatura. Pronos era pequenino de nascença, tão atarracado em pé quanto deitado. Lembrava melhor uma bolota com braços e pernas, encimado por uma bolinha menor no topo, que era sua cabeça, nem tão pequena assim.

Para se aquecer, fez alguns agachamentos acanhados, enquanto erguia os braços com vontade, até demais. Por um triz não caiu de costas, estatelado em dores. Mas se segurou e, ainda aos tropeços, conseguiu a proeza de deixar o leito para trás. Tirando algumas remelas, caminhou vagarosamente, quase se arrastando em direção à lareira.

Seus pés eram grandes e lerdos, além de bastante desproporcionais. E, uma vez em movimento, embora lentíssimo, levantaram uma baita poeirada pelos ares. Em grande parte proveniente da pele do Mamute Tapetão que decorava o piso do ambiente com seu cabeção de enfeite. Com a tromba esticada, conseguia fazer a do duende parecer normal, mesmo sem contar as orelhas e as presas gigantescas. Aparentava inclusive um troféu para Pronos, desde que se tornara vegetariano radical, talvez por comodidade, comendo apenas umas frutinhas que cultivava nos fundos de seu lar encafuado. Dali por diante, raríssimas vezes colocou o adunco nariz para fora outra vez.

Um troféu como tapete, agora tão encardido de sujeira, que acabava servindo como simples recordação de uma época em que o duende tinha vitalidade para sair. Andava léguas e léguas sem destino, num mundo ainda desabitado, caçando seu próprio alimento. E este elefante peludo, grandioso em particular, lhe dera um imenso trabalho; nem tanto para encontrar embora demais para carregar. O mamute havia sido um magnífico exemplar animal, tendo perecido da superfície do planeta apenas alguns anos atrás – levando em consideração a peculiar perspectiva temporal de Pronos, que contava anos de vida como se fossem estrelas no céu.

Bons tempos... rememorou, viajando na vastidão de seu passado.

Um passado tão amplo que ele ficou perdido, as pestanas piscantes enquanto ainda caminhava. Desligado, deu uma topada na tromba atravessada e por pouco não caiu em cima do bicho. Justamente no cabeção, desgastado pelos esbarrões que sofrera e sofria no longo período em que ali jazia. Estático e inerte, lembrando uma testemunha que nunca falaria nada a ninguém. Uma tortura sem igual, somente os olhinhos a se mexer, acompanhando a rotina diária de Pronos. Aliás, diante daquele tédio total, não teria quase nada para dizer mesmo. Seria uma testemunha ocular de coisa nenhuma.

_ Não me atrapalhe! – ainda protestou o duende, sem qualquer razão, e ergueu um punho. – Estão querendo me derrubar. Você também, não é?

E, depois de descontar em quem não tinha nada com o problema, Pronos enfim alcançou a lareira. Lá dentro, jogou algumas achas de lenha, de modo preguiçoso apesar do coração ainda acelerado. Em seguida, ordenou ao seu Vaga-lume Ancião para acendê-la com suas baforadas de calor e algumas cusparadas de fogo:

_ Quero uma lareira bastante aquecida hoje – determinou o duende, imitando uma voz de trovão. – Estou cheio de calafrios.

Com o nariz torcido, obviamente desconfiava que o pedido não seria atendido de pronto. O vaga-lume não era velho como Pronos embora chegasse a vencê-lo em matéria de lerdeza na maioria das vezes. Demorou-se uma infinidade apenas para levantar a tampa de sua minúscula toca de pedra, as antenas inquietas a sondar o clima.

Seu cubículo fora construído para abrir e fechar, fazendo com que passasse a maior parte do tempo isolado. Sem se importar, o vaga-lume adorava, aproveitando para ficar em paz, num ronco sonoro. E também entendia o claro intuito de poupar os demais contra sua intensa luminosidade, equivalente a um sol no lugar. Era suficiente a luz saída dos orifícios feitos no redondo refúgio pedregoso para a iluminação ficar agradável. Um feixe para cada lado, num confuso arranjo decorativo que o duende adorava, considerando uma arte.

Mas o vaga-lume não poderia ter a mesma desculpa de Pronos para tanto atraso. Não saía de sua toca para nada e nem precisava pensar nos problemas dos mundos. Portanto, dormia o quanto quisesse, acirrando com o duende aquela vagarosa disputa sem vencedor.

Com a mão cortando o ar, Pronos girou nos calcanhares. _ Vou fazer um chá reforçado hoje... – lançou um último olhar penetrante para a toca. – Preciso de paz! Muita paz!

Animadinho de repente, agora pensava em voz alta, o nariz enfiado num rudimentar armário de pedra. Ficou na ponta dos pés, e passou a falar devagar, embora escolhesse cheio de trejeitos ansiosos os ingredientes. Seus dedos compridos não conseguiam parar um minuto, burilando algumas raízes secas para preparar o seu chá matinal. Após aquela última percepção, tentaria a todo custo recobrar sua lógica mental, o que estava cada dia mais difícil. E mal sabia que o fogo nem sonhava em ficar aceso, não tendo sido sequer tocado pelo acendedor oficial.

Na realidade, Pronos tinha certa razão para estar ainda mais perturbado que de costume ultimamente, e irritadiço demais. Poderia ser desse período que as vibrações negativas estivessem a minar sua combalida energia vital, sem que ele nem sequer percebesse. E seria, desde então, que as coisas começaram a ficar estranhas, muito estranhas.

Aliás, para Pronos, quase tudo acabava sendo um pouco excêntrico. Ele fez um bico horrendo ao se dar conta disso. É mesmo..., concluiu coçando a testa, e olhou para trás. Tudo podia ser diferente, menos o fato do seu peixe de estimação estar, de quando em quando, nadando de cabeça para baixo recentemente. Logo o Peixe Borbulha que sempre julgou sensato, dando opiniões através de meros comentários monossilábicos em forma de bolhas. Poucos entendiam e, lá no fundo, somente o duende os considerava esclarecedores.

_ Para ser sincero, não preciso de muito palavrório por aqui, não é mesmo? – entoou no vazio, sabendo com quem falava, e não era com o peixe. – Você anda tão quieta! Chega a estar meio caída, meio murcha. – Riu para dentro. – Uma plantinha sem viço que nem lembra aquela rabugenta que vivia reclamando.

Nada de respostas, ainda, e Pronos não se dava por satisfeito.

_ É verdade!.. – prosseguiu enfático, com as mãos na cintura redonda. – Nem adianta te dar a água cristalina sulfurosa. Aquela lá do poço profundo que mesmo assim você perdeu aquele vigor tão chato. – Colocou a língua entre os dentes. – Realmente, as coisas andam estranhas...

Completou pensativo, sem nem achar muita graça do próprio gracejo. Ficou quieto, calado, parado, com o olhar úmido perdido no nada, sem piscar nenhuma vez. Permaneceu inerte um período quase indefinido. Terminou sua meditação fora de hora com um longo suspiro e, retornando à triste realidade, virou-se.

Por pouco não mordeu a língua que ainda estava de fora. Sem acreditar, observou o Vaga-lume Ancião dando breves bafejadas flamejantes na lenha da lareira, indolente como sempre. Tão fracas que só agora um leve fogo bruxuleante ameaçava engrenar.

Pronos colocou as mãos na cabeça. _ Não posso acreditar! Não posso! – trêmulo, gritou a ponto de se esgoelar. – Quem vive sob meu teto tem que ajudar, tem que me obedecer... Como pode? Uma falta de respeito.

Presenciar aquela cena prosaica o deixou furioso demais, o nariz trepidante. Seu berro de desabafo foi tão assustador que o vaga-lume nem quis saber de nada. Largou a tarefa pela metade, e voou para se fechar de novo em sua toca, os óculos escuros tortos. Com medo, soltou inclusive uns gemidos contidos enquanto voltava zunindo.

Diante daquele descontrole, estava prevendo severas retaliações, de repente fatais, e por quase nada. O duende também se surpreendeu com a reação, tanto do vaga-lume quanto dele próprio. Por um momento, percebeu estar sendo intolerante em excesso. É verdade..., passou a coçar a enorme orelha de abano.Um incidente banal ganhando grandes proporções não era rotineiro para ele, um ser tido como altamente elevado. Sem falar da decantada experiência nas adversidades, tendo poder de contato até com o Supremo Neshoa, estava agora se achando histérico, talvez fora de si. Pronos precisava se acalmar e controlar os nervos.

Balançou a cabeça com vontade, e tornou a preparar o chá de raízes para esquecer. Todos os ingredientes já estavam em mãos, prontos para a infusão. E o duende aguardava ansioso como nunca pela bebida que lhe fazia bem ao sangue.

_ Aliás, eu tenho sangue azul! Azul mesmo... sabem? É um sangue de nobre! – bradou de punho cerrado. – Um nobre sem súditos, ou poucos... e desobedientes. Era o que me faltava. – Sua voz foi sumindo.

Esse sangue azul do qual tanto se orgulhava lhe conferia a mesma cor desbotada na pele. Pronos mirou-se num pedaço de espelho pendurado por perto, os olhinhos arregalados diante do que viu. Ele próprio, numa pele colorida que não servia para absolutamente nada, apenas o deixando ainda mais velho. Lembrava na verdade uma grotesca uva-passa azul, com braços e pernas que se mexiam.

Então, ainda transtornado, começou o preparo do chá, decidindo concentrar-se no que interessava. Para desabafar, passou a falar consigo mesmo, enquanto gesticulava sem parar. No entanto, logo foi interrompido por uma fala insolente que penetrou seus ouvidos sem pedir licença. E apesar da grosseria, Pronos nem se incomodou, acostumado com aquelas intervenções intempestivas.

_ Olha quem está resmungando! – A voz era irritante. – Não consegue nem tirar uma boa soneca direito, o coitado. Acaba desse jeito, tendo que ficar a base de chá de raiz forte para agüentar o tranco.

Sem pudores, atacou a Planta Carnívora, ainda se espreguiçando, com suas folhinhas esticadas para os lados. Pronos a mantinha sobre a mesa para se livrar dos insetos indesejados que circulavam por ali. Acho que os insetos eram melhores... Ele nunca se convencera acerca da escolha, tanto que a planta praguejava. Parecia desconhecer a hora de parar com as provocações, uma língua espinhosa.

_ Que coisa – prosseguiu com sua mandíbula verde insaciável. – Está bem diferente de quando vivia de lá para cá, tomando conta de seus deveres. – Sorriu, vergando de um lado a outro. – Hoje em dia, deixa muitíssimo a desejar. Sorte sua não ter aparecido outro para sua vaga... Ah, pensando bem: Quem gostaria de um emprego desses? Só mesmo um looouco.

Apesar das risadas, a Planta Carnívora também estava mudada. Num lance rápido, Pronos enfim a encarou, uma das mãos a alisar as bochechas molengas. Desconfiado, apenas agora realizava que seu comportamento estava mais ácido que o natural. Hum..., refletiu por um instante, achando que fosse tristeza. Tudo por conta da saudade de um antigo sonho de consumo: A Minhoca Gorda, uma tremenda fofoqueira que vivia a gazetear pelos cantos, andava sumida. Não fazia uma visita há tempos. Hum..., refletiu o duende, uma sobrancelha arqueada. Logo a minhoca, que sempre chegava pressurosa, a boca nervosa para contar estórias sem parar, além de comer. E que nunca perdia uma oportunidade de provocar a planta. Alegava de nariz arrebitado que era uma especiaria demasiada fina para o paladar da verdurinha.

Mas a Planta Carnívora se achava uma feroz espécie vegetal, e ficava possessa com esses comentários. Pronos lembrou disso e aproveitou para alfinetar, seus olhos se estreitaram maliciosamente. De longa data, desenvolvera um modo eficiente para lidar com a planta, também através de fortes provocações. Jogava uma isca para o alto, conforme fizera pouco antes, e aguardava, com ar dissimulado. Sempre surgia uma rusga que acabava por alterar os ânimos, esquentando o clima de quase invariável monotonia.

_ Já sei, poderosa! – anunciou com dedo em riste. – Você fala isso porque a Gordinha não aparece por aqui há tempos – brincou virando o rosto. – Está sentindo falta dela, que pode sair à vontade, mesmo rastejando... Pode conhecer tudo por aí, enquanto você tem que ficar presa nesse vaso. – Agora não se agüentou e começou a gargalhar, apenas apontando para a planta. – Você, uma estátua falante!

_ Imagina se eu vou sentir falta daquela descarada – devolveu a planta, as folhas eriçadas. – Só vive a fofocar, falando dos outros. Eu queria mesmo era dar uma baita mordida nela, e acabar de vez com as gracinhas. Mas tudo bem... quando aquela minhoca balofa finalmente reaparecer, se é que vai reaparecer, não é, então eu vou, eu vou...

E a planta continuou a reclamar, mesmo sem ter a atenção de quase ninguém. Pronos, o único que ainda lhe dava ouvidos, sentiu um gosto amargo na boca. Balbuciando sem som, encontrava-se outra vez perdido em considerações.

_ É verdade – disse para si mesmo. – Eu nem tinha me dado conta disso plenamente. A minhoca vivia trazendo uma novidade a cada instante. Não tardava... Fosse o que fosse, aparecia fogosa, colocando a cabecinha para fora da rachadura no teto, e desatava a tagarelar sobre a vida.

Era bom ouvir notícias do Mundo Conhecido e a minhoca trazia muitas e muitas, alegrando o modorrento cotidiano. Aparecia com artigos raros que seriam muito bem-vindos agora. O clima não estava nem um pouco ameno... e ela sumira sem motivo. Que coisa estranha, concluiu Pronos, analisando as mudanças inexplicáveis.

Notas finais
Creio que colocarei um capítulo por semana. De preferência antes de feriados e sextas-feiras... é claro que fica mais legal para todos, não