Notas iniciais
Última personagem da nossa Finc! Espero que gostem!Boa Leitura!

Autora: Isabelle Soares.

As horas se passavam e a minha paciência ia com elas. Eu estou a mais ou menos há duas horas nesse hospital e nada. Será que é algo grave?

Para começar, o meu nome é Kim e estou em busca de saber que mal me aflige. Minha mãe sempre me falou que eu sou psicótica com esse negócio de doença. Que eu não posso sentir nem uma dor na unha que já corro logo para o hospital. A verdade é que eu gosto de me prevenir.

– Kim é a sua vez. – Detalhe, todos já me conheciam.

Entrei na sala da Dra. Julie e notei-a diferente. Ela estava mais branca que o normal e suas mãos tremiam.

– O que houve Dra. Julie? Você está me assustando!

– sente-se Kim.

Obedeci-a rapidamente. De repente, o medo começou a tomar conta de mim. Deus o que será que eu tinha?

– Kim, eu vou ser bem sincera. Você está com uma doença rara e não há cura.

– Quer quer dizer que eu vou morrer? – gaguejei.

– Infelizmente ainda não encontraram uma cura para este mal. E pelo o que eu estou vendo aqui, você terá apenas dias...

– Não pode ser!

– Sete dias, provavelmente.

– Como pode acontecer? Eu sou tão jovem!

– Eu lamento Kim. Você é uma pessoa muito boa. Tente aproveitar o máximo que puder. Isso é só o que eu posso dizer.

Sai do hospital correndo. Eu não poderia ouvir mais. Que destino cruel aquele. Meu fim chegaria a sete dias e com apenas 23 anos.

Caminhei pelas ruas da cidade, sem rumo. Acabei em uma praia. Tirei os sapatos e fiquei analisando a minha vida.

Eu nunca fui uma pessoa sociável. Sempre tive dificuldade em fazer amizades. Nunca tive um namorado que valesse a pena. Eu não daria mais tempo de sonhar mais com um. Eu gosto da minha vida, mesmo com todos esses detalhes.

Minha paixão é dançar. Sempre me perco quando estou dançando. É como se uma energia boa passasse pelo meu corpo e me libertasse. Eu sempre tive vontade de trabalhar com algo relacionado à dança, mas outros motivos me fizeram escolher outra profissão.

E agora, eu estou aqui, esperando a morte e sem realizar nem a metade dos meus sonhos.

...

Dia seguinte, acordei com o rosto inchado de tanto chorar. Mas a minha cabeça estava diferente hoje. Eu estava decidida a aproveitar de verdade os meus últimos sete dias.

Bem, eu ainda não tinha avisado a ninguém sobre a minha futura morte prematura e então, as coisas poderiam sair do meu jeito. Sem as lágrimas e lamentações de ninguém.

Segundo a Bíblia, Deus criou o mundo em sete dias, então, por que eu não poderia realizar todos os meus desejos em sete dias?

1ª – Dia da Luz e não sombra.

Hoje esquecerei do meu destino desastroso e começarei a sorrir e conversar mais com as pessoas. Perdoarei algumas e só farei coisas alegres.

Peguei o bloquinho de papel e comecei a anotar.

1- Desejarei bom dia a todos. 2- Vestirei algo alegre. 3- Mandarei bilhetes para o meu namorado (quero dizer, ele é secreto, só eu sei que eu namoro ele). 4-Terminarei o meu primeiro dia em uma boate dançando até cair.

Assim eu fiz. Abri o meu guarda roupa e tirei a roupa mais sexy e a mais alegre que tinha. Passei um bom perfume e sai toda animada.

...

Cheguei à empresa e abri a porta do jeito mais sexy possível. As pessoas me olhavam estranho, provavelmente achando que eu estava maluca. Nossa adorei essa situação!

– Boa manhã! Para vocês também.

Andei pelo corredor dando pulinhos, desejando a todos um bom dia.

Tentei passar a minha manhã inteira sorrindo. Afinal eu havia prometido que hoje seria um dia alegre.

Mas tarde, tive que acompanhar o meu chefe na reunião. Afinal ser secretária do dono da empresa exige muitos trabalhos.

Como toda reunião, o clima estava péssimo. As empresas não entravam em acordo.

Aquele contrato para cá, negócios para lá. Mais que saco!

Levantei e bati a mão na mesa.

– Por que vocês tem que discutir tanto? Por que não escolhem logo essa primeira proposta! É mais barata, um ótimo design, todos vão gostar e irão ter muitos lucros.

Espalhei as folhas do projeto esquecido para os poderosos chefões para que eles pudessem analisar. Ignorei os olhares nada indiscretos. Afinal, Eu vou morrer mesmo!

Vi a expressão deles que se modificavam. Meu chefe sorriu e olhou para mim.

– Eu adorei esse projeto. Você tinha razão Kim.

– Nós também gostamos.

– Então está decidido. Escolhemos esse projeto e acredito que nos trará muitos benefícios.

Todos me aplaudiram e eu fiquei honrada. Eu jamais teria coragem de fazer o que eu tinha feito. Acho que esse negócio de morrer me mudou bastante.

...

Olhei para a lixeira mais uma vez e vi que ela já estava cheia. Droga! Nem fazer um bilhete para o pretendente eu consigo! Eu sei que vocês devem estar pensando que a atitude certa seria enfrenta-lo logo de vez, mas simplesmente não consigo, ainda.

Deixei os sentimentos fluírem e comecei a escrever. Tomara que ele não pense que sou uma louca. Ah! Eu vou morrer mesmo!

“Olá Greg. Quem te mandou essa carta é uma pessoa que te ama e te admira muito. Antes que eu continue, digo que você me conhece.

Há anos comecei a gostar de você. Mas sou otária de mais para te dizer. Essa carta é a minha última chance.

Os outros caras tentaram tirar você do meu coração. Jamais tive dúvidas que

É você, cara, não funciono sem ti.

Sinto-me muito melhor quando estou perto de ti. Porque não há outro amor por aí

Que se iguale ao meu. Você tem a manha.

Eles dizem que não vamos durar. Temos que provar que eles estão errados.

Porque, no passado, eu aprendi que o amor não funciona sem você.

Se você quer me conhecer de verdade, essa é a chance. Venha, baby, vamos fugir.

Vamos deixar nossos problemas para outro dia. Venha comigo. Temos tudo sob controle. Deixe-me te levar para uma escapada.

Me encontre hoje no Club Bar as oito. Lá você conhecer a ‘Dama negra’ que tanto te adora!”

Antes que eu me arrependesse, fui até a sala dele e deixei o bilhete em um lugar de fácil visão. Se desse certo ou não, pelo menos eu tentei.

Sai sem ser vista. Precisava estar cedo em casa para me produzir.

...

Espelho, espelho na parede, quem é a mais bela de todas? Acho que sou atrevida. Eu sei que sou.

Mandei um beijinho para a garota da imagem e ajeitei o meu vestido preto. Eu estava pronta para brilhar.

O Club bar é o lugar mais perfeito do planeta. Aqui é onde as luzes brilham, o rádio está explodindo, a sensualidade está no ar e transforma essa garota aqui em uma mulher diferente.

Olhei para os lados e procurei por Greg, ele não havia chegado ainda. Ótimo! Mais tempo para preparar o meu show.

Bebi um copo de Uísque e esperei o gosto quente entrar. Tomei um e mais outro. Pronto, agora eu estava pronta.

Subi ao palco e comecei a dançar. Primeiramente em um ritmo lento que ia aumentando a cada minuto. Aquilo era perfeito. Eu estava me libertando. Sentindo a minha sanidade sair pela porta.

Vi que ele havia chegado. Veio em direção ao palco para se juntar aos curiosos que me observavam.

Peguei o microfone e comecei a cantar. Olhando diretamente para ele. Agora era só eu e Greg.

Hey, boy

I'm the girl for you.

Listen to me now

If you wanna, i can take you

Where you never

Ever been before

And make you

Gonna make you lose

Your mind

I'm the kind of girl

That will always let you tune

Yes, it's true

I'm that kind of girl

Desci do palco e fui diretamente para onde Greg estava. Olhei nos seus olhos e cantei a última parte da música.

I love you, man

This is me

wake up

I'm in front

enjoy it this minute

make me feel alive

Ele me olhou assustado, mas tinha um pequeno sorriso em seus lábios. Isso fez valer a pena.

– É você.

– Sou eu.

Ele me abraçou e me tirou do meio da multidão. Sentamos em uma mesa e começamos a conversar. Esperei ele me chamar de maluca e que jamais ficaria comigo, mas nenhuma palavra desse tipo foi dita.

– Jamais pensei que a autora daquele bilhete fosse você.

– Por quê? Quem pensou que seria?

– Na verdade, você nunca pareceu me dar bola. Sempre tão trancada... Surpreendi-me com o que fez.

– Eu gosto de dançar. Acho que isso é a única coisa que faço de melhor. Você foi a minha inspiração para a de hoje.

– Eu adorei. Realmente não conheço nada sobre você.

– Você tem a noite toda para isso. Então, escute o que eu vou te dizer.

Contei a história toda para ele. Essa é uma sensação maravilhosa. E como se eu tivesse me libertando. Já estou sentindo as minhas asas!

Conversamos mais um pouco até eu cansar de ficar sentada e chama-lo para dançar.

Deixamos o ritmo quente da dança nos dominar. Quente sim! Surpreendi-me ao saber que ele dançava tango. Aquilo era tão sensual. Estava aflorando os meus sentidos.

Terminamos a noite abraçados dançando uma valsa leve. Que bom que tudo estava dando certo.

...

Acordei com um pouco de dor de cabeça por conta das estripulias de ontem, mas hoje é outro dia.

2ª- O dia do céu e da Terra.

Lista para hoje:

1- Mentir para o chefe para faltar o trabalho 2- Pular de paraquedas. (Uau! Estou com um pouco de medo. Mas vamos lá). 3- Enquanto estiver descendo gritar todos os palavrões que eu lembrar. 4- Tomar um banho de mar

Tudo na lista? Ok! Agora eu teria que executar o primeiro item da minha lista. Era a primeira vez que eu mentiria para o meu chefe. Vingança, pois ele nunca me deu um dia se quer de folga.

Peguei o telefone e ensaiei a voz. Ótimo estava muito bom.

– Alo?

– Oooi Sr Wilson. Aqquiii é.... a... Kim.

– Kim? O que está havendo? Você está bem?

– Nãoooo. Desculpe euuu.... Não consigo nem sair da ccccamma.

– Meu Deus! Você está doente? – Nossa como ele é lerdo!

– Sim. Euuu acho que estou muito dddoente.

– Fique em casa hoje, Ok? Isso pode ser contagioso e sei lá...

– Okkk. Obrigada pellla compreensão.

Desliguei o telefone rapidamente. Droga de chefe! Ele nem estava preocupado se eu estava bem e sim se seria contagioso! Enfim, deixa para lá. Tenho que aproveitar o dia.

Vesti uma roupa bem radical e fui até a orla. Nossa! Esse lugar é magnifico! Moro há tantos anos aqui e nunca pude vir mais vezes a esse lugar.

Fui até os instrutores e perguntei como seria o salto. Um deles foi super simpático. Ensinou-me tudo direitinho. Assinei o contrato e me preparei mentalmente para o que iria fazer.

– Pronta?

– Sim.

– Vai dar tudo certo.

– Sim, é claro que vai.

E saltamos no infinito. Nossa nunca vi nada mais lindo em toda a minha vida! Todo aquele céu azul... Vou morrer feliz depois disso!

– PQP! FDP! Cara@#@! Dro@#@! – Foi os que surgiram em minha mente.

O cara olhou para mim com uma cara esquisita. Apenas sorri. Eu estava satisfazendo os meus desejos.

Assim que descemos nas areias da praia, logo pude ver o azul profundo. Sim aquele belíssimo mar na minha frente.

Sem esperar tirei os equipamentos e pulei nas águas marinhas. Sempre quis sentir essa sensação de liberdade, de viver a vida sem se importar com o que os outros dizem.

...

Depois dessa manhã radical, olhei para a minha lista do dia, satisfeita por ter cumprido mais uma vez todos os itens. Mas faltava algo... Sei lá, não sei explicar... Olhei para os lados e decidi.

Chamei um taxi e fiz uma cara de desespero. Dois pararam na minha frente. Entrei em um deles com a mesma expressão de assustada.

– Por favor vá para a esquerda!

– Sim senhora!

Ele seguiu as ordens sem perguntar nada. Ótimo meu plano estava dando certo.

– Direita agora!

– Está tudo bem, Dona?

– Mais ou menos, quero dizer, não!

– Para o sul.

E o taxista seguia as direções. Eu sei que isso pode parecer coisa de criança, mas eu sempre quis fazer uma loucura.

O taxímetro já estava bem alto, então decidi dar o endereço certo. Ao chegarmos, desci do taxi e paguei mais do que merecido.

Olhei para o meu prédio e respirei fundo. Mais um dia se fora com sucesso.

...

No dia seguinte, acordei com um azar terrível! Acordei atrasada e esqueci alguns projetos do chefe. E agora tudo parecia dar errado. Droga! Logo nos meus últimos dias de vida.

– Merda! – bati na impressora que não parecia querer funcionar.

Bati mais uma vez e vi uma fumaça sair da maldita!

– NÃO! NÃO! Não! Estou ferrada! Merda! O chefe vai me matar! Ah! Eu vou morrer mesmo.

– Mentira!

Virei com sobressalto. Brenda estava na minha frente e tinha ouvido parte do meu segredo.

– Que história é essa de morrer garota? Você é muito jovem.

Bom, eu havia prometido não contar o segredo para ninguém, mas... Brenda era a minha única amiga desse departamento. E depois ela já havia escutado mesmo.

– Eu não acredito nisso! Meu Deus o mundo está perdido.

– Esse é o meu triste fim.

– Você não pode ficar assim. Tem que aproveitar os três dias que faltam. Há tantas coisas a se fazer!

– Não acha que eu já não estou fazendo isso?

– Ótimo. Já fez a sua lista para hoje?

– Não.

– Pegue um papel e vamos fazer.

– Mas, eu não posso agora. Tenho que resolver o problema da impressora.

– Isso ai você deixa comigo.

Mais tarde, como esperado, formos chamadas na sala do chefe. Como souberam que fomos nós? Perguntem aos dedos duros dessa empresa.

– MAIS UMA IMPRESSORA QUEBRADA!ISSO É INADIMISCIVEL! QUAL FOI DAS DUAS DESSA VEZ?

Abri a boca para responder, mas recebi um beliscão de Brenda.

– Fui eu. Algum problema? – ela desafiou.

– ALGUM PROBLEMA? COMO VOCÊ AINDA TEM A CORAGEM DE PERGUNTAR ISSO A MIM?

– se quiser me demitir, eu não me importo. Mas antes você coloca também na papelada para onde foi o dinheiro que você desviou. Pois eu trabalho nas finanças a tanto tempo e até hoje não vi a cor desse dinheiro.

– COMO OUSA?

– pode dizer que é mentira se quiser. Aposto que a imprensa está louca por um furo de notícia. E a concorrência também.

Vi o chefe mudar de cor. Passar por vários estágios de nervosismo até se acalmar. Brenda é muito corajosa. Há muito tempo, eu queria ter feito o que ela fez. E ainda vou fazer antes de morrer.

– Eu não vou despedir vocês. Agora saiam da minha sala!

Obedecemos com muito gosto. Brenda olhou para mim com um sorriso maroto.

– Por que assumiu a culpa por mim?

– Eu sempre quis fazer isso. Você me deu a oportunidade de ouro.

– Eu também tenho vontade de dizer poucas e boas para ele.

– Tem que dizer antes de morrer.

– E vou.

– Agora você vai é colocar o primeiro item da sua lista.

– E qual é?

– Fazer compras com Brenda.

– Não podemos, estamos trabalhando.

– Nos demos a tarde toda de folga.

– O chefe vai ficar com mais raiva.

– Não ligue para o que esse ogro pensa. Depois, você vai morrer mesmo.

Rimos e logo depois formos pegar as nossas coisas para irmos ao shopping.

...

– Não teve medo de perder o seu emprego?

– Ele não seria louco em me demitir. Sabe que eu poderia dar a língua nos dentes. E depois, que diferença iria fazer? Eu detesto esse emprego.

– Eu também. Eu sempre quis ser dançarina.

– Eu queria trabalhar com crianças, mas os acasos da vida acabaram me levando a essa empresa.

– Ainda dar tempo de mudar de profissão.

– Deixar um emprego fixo por um sonho? Acho que não.

– Pense no meu caso. Eu vou morrer daqui quatro dias e não realizei nem a metade dos meus sonhos. Sabe se lá se hoje não é o seu último dia de vida? Para morrer basta estar vivo.

– Tem razão. Eu nunca pensei dessa forma...

Olhei para o lado e vi uma pessoa nada agradável. Droga mais que azar!

– O que foi.

– Ali.

– Ali onde?

– Aquele cara.

– O que tem?

–Aquele maldito foi o meu primeiro namorado. Passei séculos para tentar conquistar ele. Assim que consegui, ele me colocou um par de chifres com a garota popular da escola.

– Como sua vida é trágica!

– Não é? Eu o odeio. Se eu pudesse eu o faria sentir a dor que eu senti.

– Por que não faz? Você não pode morrer sem fazer isso. Este será o item dois da sua lista de hoje.

– Mas...

– Vai logo.

É verdade, ela tem toda razão. Eu preciso fazer isso. Descontar nele todo o trauma que eu senti.

– Oi lembra-se de mim?

– Você é a Kim.

– Isso. Agora eu quero que escute o que eu vou te dizer.

– Você foi um péssimo namorado! Você foi só lixo, descartável. Você é uma víbora de coração frio. Não preciso de um jogador, de um destruidor de corações. Cara, você pensa que eu vou ficar desse jeito. Eu te dei todas as chances, mas você é apenas um garotinho com as duas mãos no pote de biscoitos. E é péssimo na cama.

Dei um chute no brinquedinho dele. Espero que tenha doido bastante. Isto foi pelas noites de dor e decepção que eu senti.

Sai de perto dele sorrindo. Fui até Brenda pulando igual à Alice no país das maravilhas. A vingança é uma coisa maravilhosa!

...

Depois de quase estourar o meu cartão com compras, Brenda e eu formos para a minha casa. Eu estava aliviada por ela saber do meu segredo. Ela era a pessoa certa para isso, pois não lamentava o fato. Estava sempre animada e sempre me encorajava para fazer as minhas vontades. Jamais me esqueceria dela.

– Colchoes, lençóis e travesseiros... Um... Tudo aqui. – informou Brenda.

Eu e ela combinamos de dormir na varanda da minha casa. Desde criança que eu tinha esse desejo.

Minha mãe sempre teve frescura em relação a mim. Nunca deixava eu andar de pé descalça, correr no sol quente, tomar banho de chuva... Enfim, acho que é por isso que eu estou morrendo.

– Você é uma garota muito corajosa. – elogiou Brenda.

– Você acha?

– Claro. Se eu soubesse que estava para morrer, eu passaria os meus últimos dias chorando.

– Também pensei fazer isso, mas pensei, se eu estou morrendo eu quero aproveitar bem os meus últimos dias.

– Você tem razão.

– Obrigada por me ajudar a fazer isso. Serei eternamente grata.

– Que você não venha depois puxar o meu pé. Eu aceito os agradecimentos.

– Prometo.

– Agora vamos dormir. Amanhã será outro dia e terá uma lista enorme esperando por você.

– Mal posso esperar...

...

Dia seguinte, como prometido, Brenda veio com um caderninho para fazermos anotações sobre o que eu farei hoje.

– Hoje só temos a hora do almoço. Não podemos abusar tanto assim do chefe.

– É verdade.

– Então que tal um almoço excêntrico?

– Ótimo! Podemos comer comida indiana. Eu sempre quis comer essa comida.

– É bem excêntrico!

– Combinado. Vou convidar o Greg.

– Beleza! Nos encontramos na saída.

Mais tarde formos ao restaurante indiano. Nossa parecia mais um terreiro de macumba! Mas tudo bem.

– Amor, eu não sabia que gostava desse tipo de comida.

– Eu não gosto. Só queria experimentar.

– Legal! E você Brenda? Nunca vi vocês duas tão próximas.

Cutuquei Brenda. Não queria que ela contasse a verdade. Não agora.

– É...

– Temos que aproveitar mais o nosso tempo com as nossas amigas. Não é Brenda?

– É sim.

– Isso é bom.

De repente, ouvimos uma música asiática bem ao fundo e ia aumentando ainda mais. Olhamos para trás e vimos uma dançarina dançando uma música indiana. Mais que legal!

Levantei e levei Greg junto. Comecei a imitar a dançarina. Greg dançava todo desalinhado e isso me fazia rir. No final todos estavam dançando também.

– Só você mesmo para me fazer essas loucuras. Eu te amo!

– Eu também te amo.

...

– Certo, acabou o nosso horário aqui na empresa. O que vamos fazer agora?- Perguntou Brenda.

Era mais ou menos cinco da tarde agora. Tivemos um dia agitado na empresa. Muitas reuniões, acordos e blá, blá, blá. Fiquei com a fama de bisbilhoteira. Por isso me pediram várias opiniões sobre os contratos que eles acertariam.

Brenda estava, mais uma vez, ansiosa para o que iriamos fazer com o resto da noite.

– Acho que primeiro devemos ir à minha casa fazer um lanchinho. O que acha?

– Eu acho ótimo. Estou com fome.

Pegamos as nossas coisas e formos a minha casa. Chegando lá, tratei de fazer algo bem simples. Eu nunca fui boa na cozinha. Não diria isso a minha amiga ou talvez ela fosse querer que eu fizesse um curso de culinária antes de morrer. Seria uma péssima ideia, pois até terminar o curso, eu já estaria morta.

– Sua família? – ela me perguntou.

– Sim. Esta do meu lado esquerdo é a minha mãe e do outro lado é a minha vó. O intruso da foto é o meu irmão.

– E seu pai?

– Meu pai faleceu quando eu tinha 10 anos.

– Eu lamento muito.

– Foi a maior perda da minha vida. Eu sempre idolatrei o meu pai.

– Você nunca fala muito da sua família.

– Não é que eu não goste deles é que... Eu sempre me senti como se não fizesse parte daquele lugar... Minha mãe critica tudo que eu faço. E como se tudo que eu fizesse é errado, mesmo quando eu quero acertar. O meu irmão não liga para nada, é o encostado da família. Minha vó era a melhor, mas perdeu o juízo já faz algum tempo.

– Você tem um ressentimento com a sua mãe. Percebi isso na sua voz. Tem que contar a ela tudo que você pensa antes de morrer.

– acho que não é boa ideia.

– Falta apenas três dias para o seu falecimento. Pensa que você pode ir para o outro lado com essa culpa. “Ah eu devia ter contado a ela!”.

– Tudo bem, mas não vai ser uma tarefa fácil.

– Está passando por coisas piores, não acha?

E assim aconteceu. Ela quase me arrastou para a casa da minha mãe. Na verdade, eu não estava com medo. Sempre tive vontade de dizer tudo a ela. E agora eu teria que despejar tudo de uma vez, só não sabia como.

Chegamos a minha casa e formos recebidos pelo meu irmão.

– Kim! Há quanto tempo!

– Olá Tom. Onde está a mamãe?

– Está lá dentro. Vou chama-la.

Entramos e sentamos. Observei cada canto da sala enquanto esperava. Estava um pouco diferente da última vez que vim aqui. Mas eu ainda podia lembrar de alguns travessuras que fiz nesse cômodo. O lado direito, por exemplo, ainda tinha uma mancha preta de fogo de quando eu tinha oito anos e tentava queimar as formigas que entravam pela janela. Ou do lado perto da estante, quando uma vez eu tropecei no som enquanto dançava e acabou com o reboco da parede.

– Há quanto tempo Kim! Pensei que não lembrava que tinha família.

Corri para abraçá-la sem me importar com o rancor que eu sentia. Logo depois, ela me afastou e me analisou.

– Meu Deus! Olhe essas suas roupas! Com o dinheiro que você ganha, com certeza roupas melhores dá para comprar!

Respira! Eu não explodiria agora.

– Eu estava com saudades.

Sem responder, ela olhou para Brenda, que ainda esperava pela minha ação.

– Essa é a Brenda, minha amiga.

– Graças a Deus arrumou uma amiga. Já estava pensando em te internar.

Ah Não! Assim não dá! Não faz nem cinco minutos que nos encontramos ela já está me ofendendo.

– Chega mamãe! Eu vi aqui para matar um pouco da saudade que eu sentia por vocês e assim que me trata? Cansei de ouvir você me humilhar pela minha vida inteira. Parece que eu nunca faço nada certo! Devia ter orgulho de mim. Nunca pensou que poderia me perder de uma hora para outra?

Esperei ela falar alguma coisa, mas foi em vão. Ela não falaria nem agora e nem nunca.

– Vamos Brenda, não temos nada mais a fazer aqui.

Ela me acompanhou até a porta e saímos da minha casa.

Confesso que eu estava um pouco aliviada. Era como se mais um peso fosse tirado das minhas costas. Pelos menos eu morreria sem esse ressentimento.

– Desculpe por ter quase te obrigado a fazer isso, Kim. Sua mãe não merece o seu amor.

– Não se desculpe por isso. Eu precisava dizer isso a ela.

– Então, já que estamos em uma boate, vamos aproveitar a vida.

– Vamos.

Nós nos jogamos na dança agitada que se espalhava pelo lugar. Dançar sempre será a minha terapia para os problemas.

...

Sexta- feira! Obrigada Senhor por ela chegar! Mesmo que eu estivesse para morrer, não tinha como não odiar a semana e amar o fim dela.

Cheguei à empresa e me assustei. Sim eu disse certo. Quase voltei quando vi os funcionários todos do lado de fora protestando. O que estava acontecendo?

– Que furacão é esse? – perguntei a Greg.

– É o chefe que resolveu não pagar os funcionários para pagar os advogados.

– Advogados?

– Sim. Parece que alguém denunciou os escândalos da empresa.

Pensei imediatamente em Brenda. Será que ela teria coragem de fazer isso?

–Kim venha para cá e conte a todos o que presenciamos. – Brenda chamou do palco.

Bom, eu não tinha mais duvidas. Fui até lá e contei tudo a eles.

Vocês podem estar pensando que eu sou maluca, mas quando se estar para morrer dá vontade de fazer tudo que “dé na tela.”

– Vamos acabar com essa palhaçada! Merecemos coisa melhor! Esperar não é saber! Quem sabe faz a hora não espera acontecer! – Esse que isso é plágio, mas foi o que veio na minha mente.

– É! Viva a Kim!

Todos aplaudiram e eu fiquei toda orgulhosa. Nunca tinha sido aclamada na minha vida.

De repente ouvimos o barulho de uma sirene, eram quatro viaturas da polícia que chegavam. Ótimo! Agora sim o negócio iria para frente.

– Quem é o responsável por essa bagunça? – perguntou o policial.

– É ela. – todos apontaram para mim.

– O que? Você não vai me prender, não é?

– Infelizmente terá que me acompanhar.

– Qual é? Vocês tem que prender o chefe dessa empresa, ele é o culpado! — Brenda tentou me defender.

– a constituição nos permite fazer protestos! – gritei.

Não deu jeito, acabamos sendo levadas ao presidio como duas marginais.

...

Um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais! Eu cantarolava essa música idiota na minha cabeça. Eu nunca pensei que um dia eu seria pressa e agora eu estava tendo essa experiência.

Um policial enorme abriu a nossa cela e deu espaço para Greg passar. Espera! Greg?

– Greg? – perguntei.

– vim soltar vocês duas.

– Graças a Deus! Obrigada Greg. – agradeceu Brenda.

– Está com raiva de mim? – perguntei com medo dele não me querer mais.

– Claro que não. Estou orgulhoso, você é muito corajosa.

– Te amo, mas você já sabe.

– Eu também. Jamais teria coragem de fazer o que fez. Você é incrível!

Beijei-o de leve e saímos daquele inferno para nunca mais voltar.

...

O meu último dia de vida. Nossa! Só de pensar que amanhã não estarei mais viva para contar essa história... Que coisa melancólica!

E agora eu queria aproveitar o melhor possível as minhas horas finais. Greg me ajudaria com isso. Embora, ele não soubesse do meu triste fim.

– Pensei que não gostasse de motos.

– Quero aproveitar a minha vida e motos parecem ser boas para isso.

– Tem razão.

Ele segurou a minha mão e me ajudou a subir na moto.

– Vamos senhorita.

– Vamos cavalheiro.

Ele arrancou e fizemos um passeio pelas ruas da minha cidade. Ai como é bom sentir o vento no rosto! Está abraçada do namorado também é maravilhoso! Decidi que contaria a ele hoje, mesmo que isso fosse doloroso.

Paramos em frente a uma praça que ficava em frente a minha casa. Sentimos os pingos da chuva caírem sobre nós. Como se isso importasse! Beijamo-nos como dois apaixonados. Sentido as roupas colarem no corpo.

Sem esperar, subimos ao meu apartamento e tiramos nossas roupas apressadamente. Sentindo o calor dos nossos corpos. Unimo-nos rapidamente. Eu me sentia completamente feliz.

Depois de fazermos amor, sentei-me na varanda para ver o por do sol. Era o meu dia se acabando. Eu estava ficando muito triste.

– Está estranha Kim.

– Tenho que te contar uma coisa muito importante...

– O que?

– Hoje é o meu último dia de vida.

– como? – ele falou surpreso, sentando-se na cadeira ao lado.

– Há sete dias, descobri que eu estava com uma doença terminal e provavelmente amanha eu não estarei mais aqui.

– Por que não me contou isso antes?

– Eu tinha medo de me deixar. Foi tão difícil de conseguir...

– Claro que não. Eu ficarei ao seu lado até o seu último minuto.

– Obrigada. Quero que saiba que os dias que passei com você foram maravilhosos. Eu te amo tanto!

– Eu também. Só queria ter tido mais tempo com você.

– Podemos aproveitar essas últimas horas que me restam.

– Sim.

Ele levantou e ligou o rádio. Segurou a minha mão e começamos a dançar. Não poderiam ter sido horas melhores. Este seria o meu fim.

...

Pela manhã, acordei como em todas as outras, isso é estranho para quem está prestes a morrer. Eu me sentia muito bem. Será que eu já estava morta? Este é o céu? Bom, o meu quarto não se parece com o paraíso.

Olhei para o lado e Greg dormia tranquilamente. Levantei rapidamente e analisei-me, parecia bastante normal.

Tomei um banho rápido e vesti uma roupa leve. Eu iria ter que voltar aquele hospital. Saber como eu estava por dentro. Sabe se lá se eu não tenha uma bomba escondida dentro de mim?

– O que está acontecendo Kim?

– Tenho que ir ao hospital agora. Preciso saber algo sobre a minha saúde.

– Sim, vamos.

Ele se arrumou rapidamente e formos ao hospital. Confesso que não estava tão nervosa, pois passei sete dias me preparando para isso. Se eu morresse a qualquer minuto não seria novidade.

– Sra. Kim?

– Sou eu.

– Dra. Julie lhe espera.

Eu via isso como um déjà vu. A diferença estava na cara da doutora, ela parecia mais feliz.

– Kim, tenho que lhe informar algo que aconteceu.

– O que?

– Você não tem uma doença terminal. O seu exame foi trocado com uma paciente que fez uma consulta no mesmo dia que você. Ela faleceu hoje pela madrugada. Desculpe por ter lhe feito passar por todo esse transtorno.

Aquelas palavras me trouxeram um alívio. Eu viveria sabe lá quanto tempo e isso seria maravilhoso. Eu poderia aproveitar mais a minha vida agora.

Beijei o rosto da doutora e sai pulando por todo o hospital.

Encontrei Greg, que me olhava assustado, e dei um beijo caloroso.

– O que houve Kim? – perguntou depois nos afastamos.

– Eu não vou morrer agora! O meu exame foi trocado com outra paciente. Isso não é maravilhoso?

– Claro que é! Temos que comemorar!

Ele me abraçou e me beijou com mais vontade.

Eu me sentia como se estivesse nascendo de novo. Esse não é o fim e sim o começo. Um início, mas promissor com certeza.

...

Um ano se passou desde a data da minha falsa morte. Aprendi muita coisa com essa experiência. Aprendi que devemos aproveitar a nossa vida como se estivéssemos no último minuto. Realizar todos os seus desejos e viver sempre com muito otimismo.

Bom, estou trabalhando nisso agora. Depois daquela minha apresentação de dança, acabei ganhando um emprego como dançarina. O salário não era tão grande quanto o antigo, mas eu estava fazendo o que eu gostava. Em breve abrirei o meu Club de dança.

Brenda, seguindo os meus passos, conseguiu entrar na faculdade de medicina e em breve será uma futura pediatra.

Conseguimos pôr o nosso antigo chefe na cadeia e esperamos que ele não saia de lá tão cedo! Pelo menos visitar o xadrez teve suas vantagens.

Greg e eu estamos noivos e nos casaremos mês que vem. Não me arrependo nunca de ter feito aquela loucura por ele. Valeu muito a pena. Com certeza seremos muito felizes e nos amar até que a morte nos separe...

Notas finais
Comentem por favor!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!