Mate Angela
4 Amare
Ato I
“Eu vou te encontrar, Lucius Phelps” a voz de Angela passou semanas ecoando em sua cabeça como um aviso inesperado, ele a sentia e sabia o quanto estava determinada a encontrá-lo. Quase nada restou desde de Gallifrey, há doze séculos, mas o elo psíquico ainda os mantém unidos. As lembranças sempre a destroem de dentro para fora, queimam sua cabeça até a morte. Ela não está no seu corpo verdadeiro, sua natureza não é mais a mesma, foi estilhaçada em vários e vários pedaços humanos frágeis até que não sobrasse mais nada nem sequer suas memórias. Lucius observou Walter carregar a garota para outro cômodo e a pouca comoção de seus pais, o sr. Chipperfield o olhou como se fosse culpado por alguma coisa ou talvez estivesse especulando o que há entre sua noiva e ele, mas não importa, o fim está próximo.
— Sinto muito pelo transtorno, sr. Chipperfield. — Abriu um sorriso gentil. — Sr. e sra. White, devemos marcar uma nova sessão para outro dia. — Ele começa a guardar os pincéis de forma delicada.
— Não terá outro dia. — O velho resmungou, irritado. — Este casamento está sendo adiado por meses, quero o que é meu por direito.
Lucius sente um pequeno incômodo ao ouvir aquilo.
— Sr. Chipperfield, nós temos tradições e… minha filha não é um animal qualquer, receio que… — O sr. White tenta argumentar, no entanto, é interrompido pela fúria do velho.
— Não quero saber! — Ele anda em direção aos dois como um carrasco. — Comprei esta propriedade e tudo o que está nela me pertence, portanto... — Aponta o dedo indicador necrosado para o casal que parece estar submisso a ele. — Vocês e o pequeno cordeirinho são todos meus. O casamento será daqui três dias, se ela estiver doente, o que duvido muito, podem arrastá-la até o altar.
Chipperfield têm a aparência de um sapo e é tão asqueroso quanto um, Lucius cerrou os punhos para lhe dar um soco no estômago e a ideia de matá-lo enforcado nas próprias tripas é cada vez mais plausível.
— Enquanto ao senhor. — Ele caminha em direção ao rapaz como um ganso desajustado. — Não cruze mais o caminho da minha futura esposa.
— Não é nada apropriado o jeito como fala da srta. White. — Lucius ajeita o cavalete embaixo do braço e com outro toca o ombro do homem. — Não pense por um segundo que pode me controlar, não vai me querer como inimigo. — Ele abre um sorriso de canto, resoluto.
— Você é apenas um peão.
— Adeus, sr. Chipperfield. — O rapaz diz enquanto caminha em direção à porta.
“Quem é você?” Lucius entra na carruagem bufando de raiva em outros tempos teria feito Chipperfield engolir a própria língua. Angela reprovaria esse pensamento, quem sabe agora ela entenda que isso faz parte da sua natureza. Desta vez, não demorou tanto tempo para encontrá-la, pensou que seria mais fácil, mas as circunstâncias são cruéis. A garota vive como uma prisioneira, como vai escapar das mãos daquele sapo, pior, como pode correr para morrer nos seus braços? Ela não tem escolha e ele também não.
Após cinco minutos, dá duas batidas no teto da carruagem para que o cocheiro pare, ainda está na “propriedade” dos White, precisa falar com Angela antes do casamento — sem jogos para enlouquecê-la, não há mais tempo para isso. Ele desce, pedindo para que o homem siga em frente. Enquanto caminha de volta para o casarão, tenta se concentrar, fecha os olhos e imagina uma aparência diferente de agora — cabelos escuros, olhos castanhos e pele marrom — errado! Está pensando na própria aparência, a original. Talvez assim, ela o reconhecesse logo de uma vez... Não, errado de novo! Não está pensando direito, se estiver certo, sua próxima regeneração será a original: ele e Angela — sua Doutora, dois corações e mentes brilhantes.
— Doze vidas, doze mortes — fala para si mesmo.
Lucius esvazia a cabeça e dedica seus pensamentos a uma nova aparência, é apenas um filtro de percepção, afinal, a mente patética dos humanos é muito mais fácil de ser enganada. Mentalizou a aparência de Walter e agora precisa se certificar de que funcionou, ao chegar, anda pelo jardim e nas proximidades da casa, alguém tem de vê-lo.
Ele passeia pelo jardim de amores perfeitos, o ar úmido anuncia uma chuva torrencial e grilos cantam animados. Assobia uma antiga canção de Gallifrey, Angela ama aquela música… Lucius observa o céu de verão, entre as nuvens ele pode ver o céu pontilhado de estrelas — um dia, ela soube chamar todas pelo nome e eles viajaram entre elas. Lá no fim do universo, de onde vieram, costumavam intitulá-los de deuses e agora o que lhe restou neste planeta imundo? Além de uma versão deturpada de si mesmo? Uma piada de mal gosto, até seu nome é uma maldição: Lucius ou Lúcifer, o anjo caído.
De repente, alguém o derruba no chão, empenhando-se para desferir socos em seu rosto, é o verdadeiro Walter. Foi pego de surpresa, como pôde ter se perdido em seus devaneios? Depressa se desvia dos golpes do rapaz, virando o jogo. Ele está com as mãos em volta do pescoço dele.
— Quem é você? — Walter fala com dificuldade.
— Um demônio. — Responde, entrando no personagem, a resposta soou tola e genérica, deveria ter elaborado algo melhor.
Walter ainda tenta lutar, mas o homem bate sua cabeça contra uma pedra, fazendo-o perder a consciência. Lucius levantou, sujo de grama e terra, ao menos o filtro de percepção funcionou. Ele retira a gravata dele e amarra seus pés, depois tira a sua e dá um nó firme em volta das mãos, em seguida arrastou o rapaz para trás de um arbusto. Não têm muito tempo, têm de encontrar o quarto de Angela antes que Walter acorde e chame por ajuda.
Lucius entra na residência, passa pela sala de estar e sobe as escadas, no final há dois corredores, para onde deve seguir? Ele observa qualquer movimentação diferente e então percebe uma criada parada em uma das portas, quase no fim do corredor direito. O rapaz anda com despretensão, só pode ser o quarto dela, com certeza lhe colocaram vigias.
— Sr.White. — A mulher o cumprimenta. — A srta. White já está dormindo.
— Só vim verificar se está tudo bem. — Ele responde. — Posso entrar?
— Claro, sr. White.
Lucius gira a maçaneta devagar, o momento está próximo, o que dirá a ela? Ao abrir, é recebido com uma jarra de vidro voando em sua direção, ele abaixa a cabeça e objeto se estilhaça na porta.
— Ei! — ele retruca, confuso, disseram-lhe que estava dormindo, mas parece um touro em fúria.
— Vai embora! — Angela grita. — Eu já disse, não quero mais ver nenhum de vocês! — Avança sobre ele. — Vai embora, Walter!
Lucius segura seus braços, esforçando-se para contê-la.
— Angela! — protestou. — Mantenha a porra da calma.
— Odeio todos vocês. — O rosto dela está vermelho. — Me deixe sozinha, não preciso que fique como meu cão de guarda.
— Você está fora de controle. — Ele contempla seus olhos banhados em fúria, parece haver medo neles e coragem, aquela que só sua Angela original poderia ter. Ela está tramando algo. — Olha, me escuta. — A garota fica em silêncio por um momento. — Eu. Não. Sou. Walter. — Segura seu rosto. — Eu sou Lucius.
— Está zombando de mim? — ela responde entre os dentes. — Ou está tentando me enlouquecer? O sr. Chipperfield não vai querer uma esposa louca. — Ela fala isso com uma faísca de esperança nos olhos, como se tivesse acabado de ter uma ideia brilhante.
— Não, chega de jogos. — Ele quebra o filtro de percepção. — Não há tempo para isso.
Angela se desvencilhou de seus braços, devolvendo um olhar confuso e assustado.
— O que é você? — Seu coração mal cabe no peito, só pode estar dentro de um pesadelo que não tem fim.
O rapaz lhe estende a mão direita.
— Venha comigo.
— Não… — A voz dela sai cortada, um medo surreal a preenche. — O que fez com meu irmão? O que é você? — Mesmo assim ainda há espaço para sentir raiva.
— Não se preocupe, ele está dormindo no jardim.
— É alguma entidade diabólica? — Ela o espreita.
Phelps não contém a gargalhada.
— O que é tão engraçado?
— Sou apenas a voz que habita em sua cabeça, Angela. — Lucius dá um passo para frente e ela, dois para trás. — Achei que perceberia isso, mas você nunca é a mesma. — Ele parece irritado.
A voz , como ele sabe? Um nó se forma em sua cabeça e logo lembra da sensação angustiante na sala de pintura, quando sua mente queimou como o fogo do inferno.
— Eu nunca contei isso a ninguém — ela fala baixo, transparecendo vulnerabilidade. — Eu vou perguntar de novo, Lucius Phelps, quem é você? Acho melhor me dizer a verdade ou vou gritar bem alto, até encontrarem o verdadeiro Walter.
— Quer saber quem eu sou? Venha comigo. Não têm escolha, é isso ou se casar com Chipperfield.
Ela o observa, pensando naquele no museu, quando o viu pela primeira vez — a sensação de já tê-lo visto antes e a voz que sempre soou extremamente familiar, seus olhos transmitem conforto, fazendo-a querer lembrar de algo ou algum lugar… Qual lugar? Está na ponta da sua língua e no fundo dos seus sonhos mais perturbadores. Laranja, vermelha e flamejante. Sobretudo roxo, cabelos pretos e olhos castanhos como uma tempestade de areia. Está na ponta da língua.
— Eu vou gritar. — Angela se aproxima dele e eles ficam olho a olho.
— Não temos tempo.
— Um.
— A coisa mais irritante sobre você, é como sempre tenta me encurralar.
— Dois.
— Angela! — ele grita, perdendo a paciência, contudo, respira fundo e tenta manter o controle. — Seu verdadeiro nome é Theta, nós viemos de um lugar muito distante, fora desse planeta rídiculo. — Ele fechou os olhos, atordoado. — Éramos como deuses lá, mas… — Abre-os novamente, segurando a mão direita dela, guiando-a até seu peito. Ela sente a batida de dois corações e lhe devolve um olhar assustado. — Não quero falar sobre isso. O que estamos vivendo, por séculos, têm um preço e será pago com sangue. Odeio o que fizeram com você, nós estamos fodidos há tanto tempo que eu já como é ter esperança. — Ele pensou em sua Theta, como queria beijá-la agora.
Angela se afasta, sua consciência começa a faiscar, sente lá no fundo que a qualquer momento pode colapsar novamente.
— Um voto de confiança — diz, sem querer dar o braço a torcer, mas um tanto desestabilizada. — Apenas um.
— É tudo o que eu preciso — Lucius fala, sabendo que irá traí-la mais uma vez.
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