Match Point

32 ARCO 3 CONCRETO! - Capítulo 29 - O Torneio de Primavera


Notas iniciais
Oi, corvinhos lindos! Quero desejar uma boa leitura nesse capítulo especialíssimo que tá simplesmente lotado de participações de peso! Sério, hoje vocês vão ver a Pousada do Gaio virar o verdadeiro encontro de titãs do vôlei, é gato, é águia, é muralha, é rei, é loucura, é laranja sendo usada em treino (não me perguntem como). Tá todo mundo aqui. E o Karasuno? Pronto pra voar mais alto do que nunca. Boa leitura! E me contem depois: qual foi seu momento favorito? Com carinho (e café pra aguentar a tensão), Bia 🧡

CHARLIE

O ônibus do Karasuno estacionou diante da Pousada do Gaio, uma construção de madeira clara e janelas grandes que refletiam o céu cinzento da capital. O prédio era cercado por uma cerca baixa de madeira escura e algumas cerejeiras já sem flor. Apesar da aparência simples, havia um ar de seriedade no ambiente, como se todos ali soubessem que estavam prestes a viver algo importante. O letreiro da pousada balançava suavemente com a brisa da primavera, enquanto os galhos fortes arranhavam as paredes com sons tímidos.

Ao descerem do ônibus, os jogadores do Karasuno se espreguiçaram e esticaram os braços, sacudindo o cansaço da viagem longa. Mas não demorou até que percebessem que estavam sendo observados.

Vários times estavam hospedados na mesma pousada. Rostos conhecidos cruzavam o pátio com uniformes esportivos pendurados nos ombros. O Fukurodani conversava perto do jardim lateral. Do outro lado, jogadores do Aoba Jōsai organizavam suas malas com semblantes sérios. E ali, na entrada da pousada, parados como se os estivessem esperando... o Nekoma.

Harry foi o primeiro a notar.

"Não acredito... os gatos chegaram antes."

Um garoto do Nekoma, Yamamoto deu um passo à frente, cruzando os braços, com um sorriso afiado.

"Olha só, os corvos resolveram descer do galho."

Harry arqueou uma sobrancelha, já se adiantando.

"E os gatos ainda miam por aqui?"

Daichi colocou uma mão firme no ombro de Harry antes que qualquer provocação virasse algo mais.

"Chega. Não vamos começar antes da hora."

Nick desceu do ônibus com os fones de ouvido ainda pendurados no pescoço, caminhando com aquele jeito tranquilo e atento que Charlie conhecia tão bem. Charlie observou de longe enquanto Nick seguia em direção à entrada do ginásio. Foi exatamente naquele momento que o olhar dele encontrou o de Oikawa, parado do outro lado da calçada.

Charlie percebeu imediatamente a tensão silenciosa entre eles. Era quase possível tocá-la no ar. Oikawa estava ali, mãos nos bolsos, com aquele mesmo sorriso provocador no rosto, calculado e perfeitamente ensaiado. Seus olhos cor de mel, que normalmente demonstravam um certo deboche, estavam agora mais sérios, como se ele dissesse diretamente a Nick: "Vou te desafiar até o último segundo". Charlie sentiu seu coração acelerar um pouco. Conhecia Nick bem o suficiente para saber que ele não recuaria daquele olhar, daquela provocação muda. Algo havia se acendido ali, algo forte e silencioso, que prometia tornar aquele jogo ainda mais intenso.

Kuroo estava ali perto, junto ao time do Nekoma, conversando de maneira descontraída, enquanto Kenma permanecia ao seu lado, absorto no celular, completamente alheio ao movimento em volta. Charlie percebeu que os olhos dele mal se moviam da tela, os polegares tocando rapidamente, como se estivesse perdido num mundo só dele, um mundo onde talvez aquele torneio, com toda sua pressão e ansiedade, simplesmente não existisse.

Charlie ajeitou a mochila sobre os ombros, observando Kenma discretamente por alguns segundos. Havia algo nele que sempre o intrigava: aquela calma absoluta, aquela capacidade de parecer imune ao nervosismo que pairava em torno de todos os outros jogadores. Era curioso e até um pouco fascinante como ele conseguia manter tanta concentração e tranquilidade num ambiente tão carregado.

Charlie se perguntou brevemente o que se passava pela mente do garoto naquele instante, quais eram seus pensamentos, ou se aquela era apenas sua maneira particular de lidar com a pressão. De qualquer forma, aquele jeito silencioso e introspectivo de Kenma despertava nele um interesse genuíno e silencioso. Charlie respirou fundo, tomou coragem e deu dois passos na direção de Kenma, estendendo a mão de maneira amistosa e tentando não parecer nervoso.

"Kenma, não é?" perguntou, esforçando-se para soar natural, embora sentisse o coração bater um pouco mais forte.

Kenma levantou os olhos lentamente, os cabelos loiros tingidos caindo sobre o rosto enquanto ele desviava a atenção do celular para Charlie. Seu olhar era tranquilo, quase desinteressado.

"Charlie Spring" respondeu Kenma em voz baixa, num tom tão calmo que parecia até indiferente.

Charlie piscou, claramente surpreso, franzindo o cenho.

"Você lembra do meu nome?" perguntou, com genuína curiosidade.

Kenma deu de ombros sutilmente, desviando os olhos de volta para a tela antes de responder, ainda com aquela voz baixa e sem pressa:

"Lembro sim."

Charlie abriu um leve sorriso, tentando sustentar a conversa e quebrar o gelo daquela interação inesperadamente difícil.

"Então... acho que logo-logo vamos nos enfrentar, não é?"

Kenma assentiu devagar, finalmente desligando a tela do celular e erguendo o olhar com um pouco mais de atenção. Sua expressão continuava tranquila, mas havia uma centelha quase imperceptível de curiosidade em seus olhos.

"Pois é..." respondeu Kenma simplesmente.

Charlie tentou soar confiante, embora não conseguisse conter um leve sorriso ansioso.

"Se prepara então. O Karasuno vai vir com tudo dessa vez."

Kenma observou Charlie por mais um instante antes de responder, sem nenhuma alteração perceptível na voz:

"A gente vai tentar… eu acho."

Charlie não resistiu a soltar um risinho baixo, percebendo que aquela era exatamente a reação que poderia esperar de Kenma, calma, honesta e absolutamente despretensiosa.

Antes que Charlie pudesse dizer mais alguma coisa, uma sombra inesperada cobriu seu rosto, bloqueando a luz ao redor. Charlie ergueu os olhos com surpresa. Um garoto incrivelmente alto vinha na direção deles com passos largos e animados. Era como se ele tivesse saído diretamente de um daqueles animes com jogadores gigantescos, pernas finas e intermináveis, braços que pareciam nunca acabar, e um sorriso tão amplo quanto sua altura absurda. Seus olhos claros brilhavam de um entusiasmo quase infantil, impossível de não notar.

"Kenma! Precisa de ajuda com a mochila?" perguntou, sua voz vibrante e cheia de energia.

Charlie olhou para cima. E precisou olhar ainda mais alto, sentindo o pescoço inclinar mais do que imaginava possível. Seu queixo caiu discretamente. Lev era, sem dúvida, o jogador mais alto que ele já tinha visto pessoalmente. Charlie mal alcançava a altura do cotovelo do garoto. Até mesmo Aone, do Date Tech, parecia menor perto dele.

"Sim, Lev. Por favor" respondeu Kenma, entregando a mochila ao companheiro com a mesma indiferença de sempre, como se aquilo acontecesse o tempo todo.

"UAU!" escapou Charlie, piscando algumas vezes, ainda impressionado com a altura imponente daquele jogador.

Lev finalmente percebeu Charlie, abrindo um sorriso contagiante, iluminando todo o rosto com uma empolgação genuína.

"Olá!" cumprimentou Lev animadamente, inclinando-se um pouco para ficar mais próximo do nível de Charlie. "Eu sou o Lev! Central do Nekoma!"

Charlie congelou por um breve instante, absorvendo aquelas palavras. A mesma posição. A mesma função. O mesmo olhar determinado acima da rede. Sentiu seu coração acelerar, um misto de ansiedade e empolgação.

"Eu... eu sou Charlie Spring. Central do Karasuno!" respondeu, recuperando rapidamente a confiança e sustentando um olhar firme.

Lev franziu a testa, genuinamente surpreso, analisando Charlie rapidamente de cima a baixo:

"Sério? Eu pensei que você fosse o líbero!"

Charlie arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços num gesto de leve desafio.

" Só porque eu sou pequeno?"

Lev imediatamente arregalou os olhos, levantando as mãos em defesa, claramente nervoso:

"Ei, calma! Não me leve a mal… Eu só não esperava..."

"Relaxa" interrompeu Charlie, abrindo um sorriso divertido e seguro de si. "Eu sou pequeno, mas eu sei pular."

Lev sorriu novamente, seu rosto recuperando a empolgação característica. Ele se endireitou todo, estufando o peito como quem se prepara para um duelo épico.

"Então é melhor se preparar, porque eu serei o primeiro a te bloquear!" disse Lev com entusiasmo evidente, batendo no próprio peito em desafio.

Charlie sentiu uma chama arder em seu peito, algo familiar que surgia sempre diante de um desafio.

"Veremos..." respondeu ele, sustentando aquele olhar competitivo, mas amigável. A empolgação de Lev era contagiante, e Charlie já mal podia esperar para enfrentá-lo na quadra.

Kenma suspirou levemente, guardando o celular no bolso e interrompendo o momento:

"Até mais, Charlie" murmurou com sua voz baixa, já caminhando em direção ao saguão.

Lev acenou animadamente enquanto acompanhava Kenma, praticamente saltitando de empolgação.

Charlie ficou ali parado por um instante, sorrindo sozinho enquanto os observava ir embora, sentindo uma adrenalina correr pelas veias. O jogo contra o Nekoma havia acabado de ficar muito mais interessante.

"Esse cara é enorme. Acho que ele é maior que o Aone." comentou Tao se aproximando.

Charlie assentiu, os olhos ainda atentos ao grupo do Nekoma.

"É... mas ele ainda vai ter que voar mais alto pra me alcançar."

Os quartos da Pousada do Gaio eram aconchegantes, com paredes de madeira clara, cortinas bege que deixavam passar a luz suave do entardecer e tatames bem conservados que exalavam um aroma leve de chá e lavanda. Havia futons dobrados com precisão sobre cada colchão, travesseiros de algodão macio e pequenos abajures de papel com desenhos florais nas laterais. Em uma parede havia um quadro simples com uma pintura de montanhas envoltas em neblina. Era um ambiente que parecia pedir descanso, mas todos ali sabiam que o verdadeiro repouso só viria depois do torneio.

No quarto do Karasuno, Charlie organizava suas coisas silenciosamente. A noite já caía lá fora e a lua aparecia atrás de uma nuvem tímida. Tao e Cristian discutiam em voz baixa qual restaurante da região oferecia o melhor ramen, enquanto Harry implicava com Tsukishima por causa do lugar onde havia deixado os tênis.

Charlie levantou-se devagar e anunciou:

"Vou ao banheiro."

Pegou a toalha e saiu, cruzando o corredor de tatame com as sandálias de palha fazendo um som suave contra o chão. A iluminação do corredor era amarelada, baixa, criando sombras que dançavam pelas paredes. O banheiro coletivo masculino ficava no fim do corredor, com uma pequena placa de madeira pendurada na porta. Ele empurrou a porta com leveza, e quando entrou, o som de água correndo e o vapor morno o envolveram imediatamente. Estava quase indo em direção à pia quando a figura à sua frente o fez parar.

Oikawa estava de costas para Charlie, inclinado sobre a pia, as mãos apoiadas nas laterais enquanto a água fria escorria de seu rosto. Ele vestia apenas uma calça de moletom azul-marinho, e seus cabelos castanhos estavam úmidos, caindo desordenados sobre a testa, brilhando suavemente sob a luz fraca do banheiro. Charlie notou os músculos definidos que surgiam discretamente em seus braços e abdômen, fruto de anos de treino intenso, visíveis na pele clara e ainda molhada.

Quando Oikawa se virou lentamente, enxugando o rosto com uma toalha branca felpuda, seus olhos encontraram imediatamente os de Charlie, fazendo-o congelar. Por um instante, o silêncio pairou entre eles, denso e carregado, ecoando as memórias do último confronto. Charlie sentiu o coração acelerar e a garganta secar, pois aquela era a primeira vez que o via pessoalmente desde a amarga derrota para o Seijoh.

Ali, parado diante dele, estava o melhor levantador do Intercolegial, o líder absoluto de um dos times mais perigosos. O capitão que quase havia destruído os sonhos do Karasuno e abalado a confiança de Charlie profundamente. Mas agora, naquela proximidade desconfortável, Oikawa parecia diferente. Ele não era mais o jogador implacável que dominava a quadra com sorrisos provocativos e jogadas geniais. Não parecia mais aquela figura quase inalcançável. Diante de Charlie, naquele momento vulnerável, ele era apenas... um garoto.

Oikawa virou-se lentamente na direção de Charlie, secando o pescoço com movimentos calmos, despreocupados. Seus olhos, que antes pareciam cansados, agora recuperavam lentamente aquele brilho provocador e confiante.

"Ah... Oi, e aí, Tampinha" cumprimentou ele, com uma voz neutra, mas claramente intrigado pela presença inesperada de Charlie ali.

Charlie ajeitou a toalha sobre os próprios ombros, sustentando o olhar firme apesar da tensão crescente no ambiente. Abriu um sorriso discreto e disse, com sinceridade evidente:

"Oi. É... só queria dizer que... parabéns pelo prêmio de melhor levantador no último torneio. Você realmente mereceu. Foi impressionante."

Oikawa ergueu uma sobrancelha lentamente, surpreso pela atitude inesperadamente honesta e direta de Charlie. Um sorriso quase imperceptível surgiu no canto de seus lábios.

"Obrigado" respondeu, num tom contido, analisando cuidadosamente o rosto do garoto à sua frente, como se tentasse decifrar suas reais intenções.

Charlie respirou fundo, sentindo o coração acelerar pela tensão daquele momento. Sem pensar muito, acabou deixando escapar com confiança repentina:

"Mas aproveita bem, porque no Torneio da Primavera esse título vai ser do Nick."

O banheiro ficou completamente em silêncio por alguns segundos, o vapor das duchas ainda pairando no ar, criando uma atmosfera quase sufocante. Oikawa parou imediatamente os movimentos, a toalha agora pendurada frouxamente em sua mão, os olhos estreitando-se de maneira sutil sob a luz fraca das lâmpadas acima deles.

"Ah, é mesmo?" retrucou Oikawa calmamente, dando dois passos lentos em direção a Charlie. Não havia agressividade, mas a aproximação tinha um peso calculado, quase intimidante. "Nick é bom mesmo, isso eu admito. Muito bom. Mas talento sozinho não sustenta um título, especialmente em torneios grandes como esse."

Charlie manteve o olhar fixo, esforçando-se para não demonstrar o leve nervosismo que sentia crescendo no peito. Não respondeu, deixando apenas o silêncio pairar entre eles, como se dissesse que suas convicções eram mais fortes do que qualquer provocação. Percebendo a firmeza de Charlie, Oikawa inclinou ligeiramente a cabeça, mantendo seus olhos cor de mel presos aos do garoto à sua frente. Sua expressão suavizou um pouco, mas havia uma seriedade muito maior nas palavras seguintes:

"O Nick ainda está descobrindo que tipo de Rei ele quer ser, e isso pode atrapalhar muito o jogo dele" disse Oikawa, com uma suavidade carregada de significados. "Mas quem sabe... quando ele decidir qual deles pretende ser, talvez ele realmente consiga tirar esse título de mim."

Charlie sentiu um nó se formar na garganta, mas não recuou. Com determinação, ergueu um pouco mais o queixo, desafiando:

"Pode apostar que sim."

Antes que Oikawa pudesse responder, a porta do banheiro se abriu lentamente com um rangido que interrompeu aquele silêncio carregado de tensão.

Nick entrou, os passos firmes ecoando discretamente pelo piso úmido, e no mesmo instante o ar pareceu ficar mais pesado, como se a presença dele por si só mudasse toda a atmosfera. Ele congelou por um instante ao perceber os dois ali, seu olhar se fixando imediatamente em Oikawa com uma intensidade quase palpável. Oikawa, por sua vez, não recuou; sustentou aquele olhar por um segundo longo demais, um sorriso discreto e provocador surgindo lentamente em seus lábios.

"Ah… Oi Niko" Oikawa finalmente disse com aquele tom que beirava a provocação educada, mas sempre cortante. "Estávamos apenas conversando. Seu namorado é bem... protetor, não é mesmo?"

Nick manteve-se imóvel, os músculos dos braços tensionando-se visivelmente. Seus olhos não desviaram nem por um segundo, como se decidisse silenciosamente entre avançar em direção a Oikawa ou simplesmente se manter firme no lugar.

"Espero que esteja aproveitando bem a sua estadia" respondeu Nick, a voz baixa e controlada, mas carregada de um significado profundo por trás da polidez superficial.

Oikawa sustentou aquele olhar intenso por mais um segundo antes de abrir um sorriso curto e elegante, quase desafiador:

"Cada segundo..." respondeu com suavidade calculada, dando um passo adiante. "Até amanhã, então."

Ele passou por Nick com elegância provocadora, esbarrando deliberadamente de leve em seu ombro, e então desapareceu pelo corredor, deixando atrás de si um silêncio quase ensurdecedor.

Nick fechou a porta atrás dele com mais força do que pretendia, o ruído ecoando no banheiro vazio. Ao se virar para Charlie, percebeu o garoto imóvel, ainda absorvendo aquele encontro inesperado. Seu rosto estava pálido e os olhos ligeiramente arregalados, demonstrando o quanto aquilo o havia abalado.

"Tá tudo bem?" perguntou Nick suavemente, dando alguns passos na direção de Charlie, seu olhar firme, mas agora repleto de preocupação.

Charlie soltou o ar devagar, sentindo seu coração ainda acelerado no peito, mas conseguindo recuperar um pouco da compostura. Sorriu fraco antes de responder, tentando disfarçar o nervosismo com uma leve brincadeira:

"Ele é mais intimidador sem camisa."

Nick deixou escapar uma risada curta, aliviado, e imediatamente passou o braço pelos ombros de Charlie num gesto protetor e reconfortante.

"Não se preocupa com ele" disse Nick, com uma confiança calma, a voz próxima ao ouvido de Charlie. "Quando ele nos ver na quadra amanhã, ele vai entender quem manda agora."

Charlie ergueu o olhar e assentiu lentamente, sentindo-se mais seguro com aquele braço firme ao redor dele. Ambos se dirigiram para fora do banheiro, caminhando lado a lado, enquanto a lua, silenciosa e observadora, surgia lentamente no céu da capital, pronta para testemunhar o que aconteceria no dia seguinte.


NICK

O clima na pousada mudou de repente. Até então, havia risos abafados, conversas soltas e provocações amistosas pelos corredores, mas bastou a treinadora Singh aparecer na porta do quarto do Karasuno para tudo ficar mais sério. Ela bateu duas vezes, com o pranchetão embaixo do braço.

"Karasuno, abertura do Torneio de Primavera em menos de uma hora. Quero todos prontos e uniformizados em dez minutos. A cerimônia será no Ginásio de Sendai e não esqueçam: postura, concentração... e orgulho."

Seu tom era firme, mas os olhos deixavam escapar um brilho de confiança.

"Sim, senhora!" responderam quase todos em uníssono, com diferentes níveis de empolgação.

Dentro do quarto, a movimentação começou. Zíperes se abrindo, mochilas sendo reviradas, cotoveleiras caindo no chão. Tao correu até a janela para tentar ajeitar o cabelo com o reflexo do vidro. Cristian organizava suas joelheiras por cor, como fazia antes de todo jogo. Daichi distribuía ordens com tranquilidade, ajudando Harry a procurar sua faixa de pulso preferida que, segundo ele, era “da sorte”.

"Você tem quatro faixas idênticas, Harry" comentou Tsukishima, sem levantar os olhos do próprio uniforme.

"Mas só uma delas viu a gente vencer o Dateko" Harry respondeu com convicção.

Nick se sentou no canto do quarto, tirando o moletom devagar. Ao seu lado, Charlie ainda estava com a camiseta cinza de treino. A expressão era neutra, mas havia algo inquieto em seus olhos. Ele esperava todos se dispersarem antes de se mover. Quando percebeu que o quarto estava ocupado demais, se levantou com a camiseta e o short do Karasuno nas mãos e caminhou discretamente até um canto, perto do armário de limpeza.

Nick o observou em silêncio. Viu Charlie checar o espaço antes de se encolher, virando o corpo de lado para que ninguém pudesse vê-lo se trocando. Ele se movia com cuidado, como quem se escondia de mais do que apenas olhares. E por um segundo, Nick sentiu aquela pontada de dor silenciosa a mesma que sentia toda vez que Charlie recuava de si mesmo. Charlie vestiu o uniforme rapidamente, mantendo os olhos no chão, e saiu do canto ajeitando a gola da camisa. Forçou um sorriso quando passou por Nick, mas seus olhos ainda guardavam sombras.

Nick segurou o braço dele de leve, quando estavam a poucos passos da porta.

"Char... tá tudo bem?"

Charlie hesitou, depois sorriu de um jeito ensaiado.

"Tudo certo. Tô pronto."

Nick não insistiu. Apenas olhou para ele por mais um segundo, com a sensação de que por trás do uniforme impecável, Charlie ainda travava uma batalha particular. Ele passou os dedos pelas costas do namorado com leveza e sussurrou:

"Você vai voar lá dentro. Como sempre."

Charlie assentiu. Quase não falou nada, mas aquilo bastava. Do lado de fora do quarto, a voz de Daichi ecoava pelo corredor:

"Vamos, time! Uniformizados e na recepção em cinco minutos. Vamos mostrar quem é o Karasuno."

O som de passos apressados preencheu a pousada, e um a um, os jogadores do Karasuno começaram a sair. Mas dentro de Charlie, algo se firmava também. A tensão no peito era real. Mas ele ainda tinha força para seguir. Por Nick. Pelo time. E por si mesmo. Eles atravessaram o último cruzamento antes de virar à esquerda, onde uma placa indicava em letras discretas: Ginásio Sendai. Nick arregalou os olhos ao ver a estrutura monumental diante de si.

O Sendai City Gymnasium se erguia imponente como um colosso urbano. Por fora, o prédio era envolto por largas paredes curvas de concreto cinza claro, com faixas verticais de vidro que refletiam o céu nublado daquela manhã de torneio. A fachada lembrava a concha de um animal antigo e resistente, sustentada por colunas metálicas distribuídas de forma estratégica. O letreiro no topo, em branco e azul, anunciava a Etapa Eliminatórias do Torneio de Primavera.

À sua frente, uma escadaria ampla conduzia até a entrada principal. Equipes de transmissão ajustavam cabos. Staffs circulavam com pranchetas. Havia bandeiras das escolas participantes presas em mastros altos, tremulando ao vento. Tudo ali parecia gritar: Aqui é o topo.

Ao entrar, o cheiro de madeira encerada e suor ressecado preencheu o ar de forma instantânea. O piso de entrada era liso e claro, com painéis de LED anunciando os horários e quadras de cada jogo. Nick caminhou em silêncio junto ao time, seus olhos absorvendo tudo.

O coração batia mais forte.

O ginásio principal, estava ali, logo após os corredores e as portas duplas de segurança, abrigava uma quadra profissional com iluminação frontal perfeita, redes de nível nacional, placares digitais em tempo real e arquibancadas em semicírculo que podiam comportar milhares de pessoas. Antes de qualquer saque, porém, todos os times haviam sido encaminhados aos vestiários da área inferior. Era lá que o verdadeiro espetáculo se preparava.

As paredes dos corredores eram brancas e largas, mas já marcadas por pegadas e adesivos de escolas. O som de tênis sendo amarrados, vozes abafadas e risos nervosos preenchia o ambiente. Nick andava pelo corredor com a jaqueta do Karasuno fechada até o peito e uma garrafinha de água na mão.

Ao virar a esquina do corredor, Nick sentiu seu coração acelerar quando percebeu a primeira porta aberta à direita. Ele parou brevemente, reconhecendo o uniforme azul claro0 imediatamente.

Aoba Jōsai.

Nick avançou lentamente, sem intenção de chamar atenção, mas sua curiosidade foi mais forte. Olhando discretamente para dentro, viu todo o time reunido, concentrado, com uma aura quase tangível de confiança pairando sobre eles.

Oikawa estava sentado num canto do banco, as pernas esticadas enquanto se alongava cuidadosamente. Seu rosto estava sério, o olhar baixo, tão diferente daquele sorriso provocador de sempre. Mesmo naquele silêncio, havia algo intimidador em sua concentração, como se cada movimento fosse calculado para garantir a vitória.

Logo à sua frente, Iwaizumi estava em pé, conversando com Watari, o líbero do Seijoh. Ele gesticulava com intensidade, enfatizando alguma instrução com gestos rápidos e incisivos. Iwaizumi era o coração pulsante daquele time, sempre sério, sempre implacável.

Um pouco mais afastados, Kindaichi e Kunimi estavam sentados próximos à parede, sorrindo com malícia e cochichando alguma piada interna. Eles pareciam alheios ao clima mais pesado da sala, quase relaxados demais, como se estivessem acostumados demais a jogos tensos para sentirem pressão.

Mas algo chamou a atenção de Nick mais do que tudo aquilo. Um pouco afastado, encostado contra a parede oposta ao resto do time, estava um garoto que ele nunca tinha visto antes. Seu cabelo era loiro tingido e uma faixa preta na altura da orelha, curto e desalinhado, e seus olhos tinham uma expressão feroz, quase selvagem, como um animal pronto para atacar. Ele tinha os braços cruzados sobre o peito e uma postura inquieta, batendo o pé no chão de forma impaciente.

Nick franziu a testa discretamente, sentindo um aperto no peito. Quem era aquele jogador? Era impossível ignorar a energia agressiva que ele transmitia, ele parecia imprevisível, quase perigoso. Uma arma secreta do Seijoh, talvez?

Aquele era exatamente o tipo de jogador que poderia desequilibrar um jogo. Nick respirou fundo, tentando acalmar os batimentos cardíacos acelerados, lembrando-se do quanto havia custado a última derrota para o Seijoh. Eles haviam sangrado naquela quadra, cada ponto uma ferida aberta. E agora, diante daquele grupo familiar e de um jogador desconhecido que parecia ameaçar tudo que o Karasuno havia conquistado, Nick sentiu o peso do desafio que estava prestes a enfrentar.

Na sala seguinte outro grande time:

Shiratorizawa.

Nick se obrigou a manter o passo firme. Ushijima estava de pé no centro da sala, braços cruzados, escutando as instruções calmas de Washijō. Mesmo parado, ele parecia se mover com o peso de uma presença impossível de ignorar. Goshiki mexia na munhequeira, ansioso. O restante do time ajustava a postura, como soldados prontos para o campo.

À esquerda, outro grupo chamou sua atenção.

Nekoma.

Kuroo falava algo baixo para Yamamoto, que parecia já se aquecer mentalmente para a batalha. Lev esticava os braços em um canto, com o uniforme já parcialmente suado. Kenma estava sentado no banco com o celular nas mãos, o rosto iluminado pela tela. O técnico Nekomata observava todos com olhos atentos, quieto. O time dos gatos já parecia alerta. Nick sabia que esse jogo seria guerra pura.

Na porta seguinte, o símbolo bordado do Fukurodani. Bokuto gritava animado, fazendo flexões enquanto Akaashi o observava com a expressão paciente e calma de sempre. O time em torno deles sorria, mas havia concentração em cada movimento. Nick admirava aquele equilíbrio entre loucura e precisão.

Mais à frente:

Dateko, o Muro de Ferro. Aone, silencioso, alongava os braços na frente do espelho, enquanto Futakuchi conversava com dois colegas sobre bloqueios. Nick engoliu seco. Ninguém ali queria encarar Aone numa partida.

Tokonami, mais relaxados, mas ainda focados. Nick os viu conversando e aquecendo os ombros. Haviam enfrentado aquele time no passado.

Johzenji também estava ali, com uniformes amarelos e brancos, sorrisos confiantes. Um time leve, de reflexos rápidos. Nick lembrava de vídeos com jogadas velozes demais para olhos destreinados.

E havia outros ainda, escolas que ele só conhecia de nome ou por alguma partida gravada. Todos ali com o mesmo objetivo. Todos ali acreditando que podiam vencer.

Nick voltou os olhos para o chão enquanto caminhava.

Mas só um time poderia subir ao topo. E eles, o Karasuno, não iriam sair dali sem lutar por cada centímetro de céu.

CHARLIE

O Ginásio de Sendai estava vazio. A luz dos postes la fora filtrava pelas aberturas superiores e refletia no piso encerado da quadra principal, que brilhava como um espelho dourado. O barulho da rua havia sido contido por alguns minutos agora, só se ouvia o zumbido leve das câmeras de transmissão sendo ajustadas, os passos controlados dos juízes e o ranger dos tênis sobre o chão.

Todas as equipes estavam enfileiradas no centro da quadra, organizadas com precisão. Cada time mantinha uma linha reta impecável, os uniformes alinhados, os ombros eretos. Os jogadores seguravam seus agasalhos ou mantinham as mãos cruzadas atrás do corpo. O clima era solene. A abertura oficial do Torneio de Primavera não era apenas uma cerimônia era um rito de passagem.

À frente de cada time, os capitães estavam posicionados. Eles não apenas representavam seus colegas, mas também carregavam o peso da história e das expectativas de cada escola. O silêncio era cortado pelo estalo de uma prancheta e o leve ruído das fichas que seriam sorteadas.

Daichi Sawamura, capitão do Karasuno, mantinha-se ereto, com o uniforme preto e laranja perfeitamente ajustado. Seu olhar era firme, determinado, mas comedidamente respeitoso. Os ombros largos e a postura rígida transmitiam confiança. Ele parecia um pilar, alguém que não vacila mesmo quando tudo desmorona ao redor.

Ao seu lado, Oikawa Tooru, representando o Aoba Jōsai, estava relaxado, mas sua elegância era precisa. O uniforme branco e azul claro destacava sua presença. O sorriso nos lábios era afiado, quase desafiador, e mesmo que parecesse calmo, os olhos âmbar não paravam de se mover como se analisassem tudo. Cada capitão, cada detalhe. Uma postura de quem vê mais do que deixa transparecer.

Kuroo Tetsurō, capitão do Nekoma, trajava o uniforme vermelho sangue com confiança felina. Seu cabelo bagunçado como garras levantadas e seu olhar cortante deixavam claro: ali estava um estrategista. Os braços cruzados no peito forte e o sorriso de canto faziam parecer que ele já conhecia o desfecho daquele torneio e que, de alguma forma, sairia vitorioso.

Aone Takanobu, do Dateko, era uma presença silenciosa, mas imponente. Vestido com branco e verde musgo da escola, não dizia nada, não fazia gestos desnecessários. Apenas observava com olhos frios e fixos, como uma muralha viva. Sua expressão era indecifrável, mas ninguém ali duvidava da força contida naquele corpo estático.

Ushijima Wakatoshi, capitão do Shiratorizawa, destacava-se mesmo entre gigantes. O uniforme branco com detalhes em roxo parecia ter sido feito para ele. Estava com os braços relaxados ao lado do corpo, mas a tensão de seus músculos era visível. Seu olhar era direto, como quem não tem dúvidas, não hesita, não falha. Não havia expressão de orgulho nem arrogância, apenas convicção absoluta.

Bokuto Koutarou, vestindo o preto e dourado da Fukurodani, balançava os ombros discretamente para aliviar a ansiedade. Ele sorria, piscava para os colegas de outros times, fazia caretas discretas quando ninguém olhava. Mas seu olhar, mesmo brilhante, estava mais afiado do que de costume. Ao lado dele, Akaashi observava tudo com uma tranquilidade quase acadêmica.

Komaki, do Tokonami, tinha o semblante de quem já sabia o que significava perder e ainda assim voltar para tentar mais uma vez. Seu uniforme branco com detalhes em azul-marinho era simples, sem destaque, mas sua postura era honrada, firme. Ele segurava as mãos à frente, como quem ora em silêncio antes da guerra.

Terushima Yūji, capitão do Johzenji, não parava de sorrir. Sua bandana amarela se destacava, assim como o uniforme vibrante, com detalhes em verde-limão. Ele parecia não levar nada tão a sério quanto deveria, mas havia algo em seus olhos um brilho imprevisível. Como quem poderia entregar o ponto mais caótico e brilhante do torneio... ou destruir tudo com um impulso errático.

A juíza responsável pela abertura chamou cada capitão para se aproximar da mesa central, onde um pequeno globo de vidro girava com as fichas dos jogos. A arquibancada prendia a respiração. Era o momento que definiria o destino dos confrontos.

Daichi caminhou com firmeza, seguido pelos outros capitães. Charlie, observando tudo da linha de trás, sentia o coração apertado era como se todo o passado, presente e futuro do Karasuno estivesse sendo selado ali. E do lado de fora daquela bolha de silêncio, as torcidas já se preparavam. Os gritos ainda estavam por vir. O estrondo dos saques, os bloqueios, os cortes... Tudo estava para começar.

JOGOS DAS QUARTAS DE FINAL

Jogo 1: Karasuno VS Nekoma

Jogo 2: Aoba Jōsai VS Dateko

Jogo 3: Shiratorizawa VS Johzenji

Jogo 4: Fukurodani VS Tokonami

Nick sentiu o estômago afundar no instante em que o nome Nekoma apareceu ao lado de Karasuno. Charlie, parado ao seu lado, segurou o ar por um segundo. O som do nome "Nekoma" ecoava como um desafio ancestral. Não era apenas um jogo. Era a Batalha do Lixão.

Kuroo cruzou os braços, sorrindo. Kenma nem levantou os olhos do celular. Lev soltou um "yes!" audível demais. Charlie apenas assentiu, silencioso, absorvendo a tensão.

Mas não havia tempo para reações longas. A cerimônia continuou, os jogos seguintes foram definidos, e o sorteio finalmente chegou ao fim. Os capitães voltaram para seus times, os técnicos se cumprimentaram brevemente, e a organização anunciou pelo sistema de som:

"Todos os jogadores devem se dirigir ao refeitório principal para o jantar. A entrada está liberada."

As portas se abriram para o enorme espaço contíguo ao ginásio. Era mais do que um simples refeitório, era um verdadeiro salão, iluminado por janelas altíssimas e longas fileiras de mesas cobertas com toalhas brancas. Um aroma quente e convidativo preenchia o ambiente, misturando temperos suaves, ervas frescas e o cheiro reconfortante de arroz recém-feito.

Sobre as mesas, o banquete era generoso e pensado para atletas de alto rendimento:

Arroz branco e integral em grandes tigelas fumegantes, Frango grelhado, cortado em tiras e servido com molho de limão e gergelim, Almôndegas de carne magra em molho suave, Pratos vegetarianos coloridos com abóbora assada, brócolis no vapor e tofu, Macarrão leve com legumes salteados, Sopa de missô, caldos de frango e copos de chá verde, Porções de frutas frescas, bananas, maçãs e laranjas já cortadas, dispostas em cestos grandes, Pães variados e iogurtes naturais em porções individuais. Em uma das pontas, uma mesa com bebidas: água gelada, isotônicos e sucos naturais

Os jogadores entravam em grupos, ainda uniformizados, e se espalhavam pelas mesas. Era curioso observar os pequenos rituais de cada time:

O Fukurodani, sempre animado, se sentavam juntos, com Bokuto falando alto sobre quantas almôndegas ia comer.

O Nekoma, mais contido, se distribuía com calma, Kenma sentando no canto mais próximo da parede, já com o celular de lado para focar na comida.

O Shiratorizawa comia em silêncio disciplinado, cada um medindo a porção e o tempo como se tudo fizesse parte de um protocolo. Ushijima mastigava com a mesma precisão que atacava.

O Aoba Jōsai misturava risos com foco. Oikawa pegava duas bananas e dizia que era “pra manter o glamour”. Iwaizumi não achava graça.

O Karasuno se sentou em um canto mais próximo à janela, aproveitando a luz suave que entrava pela manhã cinzenta. Tao serviu arroz até a tigela quase transbordar. Cristian equilibrava um copo de chá entre os dedos enquanto ria com Harry. Daichi orientava que todos bebessem bastante água.

Charlie olhava para o prato diante de si como se fosse um campo minado. O vapor quente que subia do arroz parecia envolver seu rosto com uma névoa sufocante. Os aromas, antes familiares e até reconfortantes, agora o deixavam nauseado. Frango grelhado com molho suave de limão, legumes coloridos no vapor, uma colher de arroz branco... Tudo aquilo que ele sempre soube que era bom para ele. Mas hoje, tudo parecia denso demais. Imenso demais. A simples ideia de engolir uma garfada já fazia seu estômago se contrair.

Ele fechou os olhos por um momento. Inspirou lentamente, como se o ar fresco do salão pudesse dissolver aquele aperto no peito. Quando os abriu novamente, uma mão se fechou sobre a sua, com suavidade e firmeza.

Era Nick.

Ele não disse nada no primeiro instante. Apenas o olhou, com os olhos verdes transmitindo uma preocupação silenciosa, mas constante. A palma de sua mão era quente e segura.

"Está tudo bem?" ele perguntou baixinho, como se não quisesse pressionar.

Charlie hesitou, tentando encontrar uma resposta que não doesse.

"Mais ou menos." Sua voz saiu baixa. "Estou um pouco enjoado."

Nick apertou mais um pouco sua mão. Com a outra, apontou sutilmente para o prato.

"Come só um pouquinho... você precisa de energia para amanhã."

Charlie assentiu. Seus movimentos eram contidos, quase calculados. Pegou uma colher pequena de arroz branco, cuidadosamente medida. Uma única tira de frango grelhado. Dois pedaços de brócolis. Nada mais. Depositou os itens no prato como se cada um deles fosse um teste.

Ao voltar para a mesa, sentou-se ao lado de Nick, mantendo a postura o mais natural que conseguia. Fingindo. Com o garfo, partiu o frango em pedaços mínimos, como se mastigar mais lentamente fosse torná-lo mais fácil de engolir. O primeiro pedaço chegou à boca com esforço. O sabor era suave, mas para Charlie parecia metálico. A carne repuxava contra a língua. O estômago rejeitava antes mesmo de aceitar. Ele engoliu com dificuldade. A garganta apertou. O ar ficou preso por um segundo.

Mas então, ao lado, Nick fingia não estar reparando demais. Falava sobre o treino da manhã, sobre como a postura de Lev parecia mais uma torre de Wi-Fi do que um bloqueador. Ria baixinho. E aquele som fazia com que o peso da comida parecesse um pouco menor.

Charlie respirou fundo e tentou mais um pedaço. Um grão de arroz. Um brócolis que mal sentiu o gosto. O corpo resistia, mas a presença de Nick funcionava como um alívio temporário para a guerra interna.

Na outra ponta da mesa, Tao levantou os olhos do prato e olhou direto para Charlie. Observou por um momento o conteúdo tímido no prato do amigo, e depois desviou o olhar rapidamente para Nick ao lado dele.

Ele não disse nada. Mas a expressão dele se fechou. Um franzir de sobrancelhas. Um pensamento preso entre preocupação e desconfiança.

Charlie sentiu o olhar. Fingiu não notar. Fingiu que tudo estava normal.

Mas por dentro, sabia que não conseguiria manter isso por muito tempo.

Mesmo assim, comeu. Não por fome. Não por vontade. Mas porque Nick estava ali. Porque sua mão seguia sobre a dele, firme, presente. E naquele momento, só isso já fazia toda a diferença.


NICK

Os treinadores reunidos se levantaram ao mesmo tempo, como uma onda de autoridade que varreu o refeitório. Caminharam até o centro com postura firme, e a treinadora Singh foi a primeira a falar. Sua voz atravessou o som das conversas como um saque perfeito.

"Atenção! Todos os times, em pé. A partir de agora, é hora de interação. Misturem-se. Quero ver corvos sentando com gatos, águias trocando palavras com muralhas. Vocês são rivais, mas hoje, são atletas."

Um segundo de silêncio. Depois, o caos.

Cadeiras arrastadas. Bandejas batendo nas mesas. Vozes se levantando, cruzando o salão em tons graves, médios e agudos. Pratos sendo recolhidos, risadas escapando dos cantos, trocas de lugar apressadas. Era como se o refeitório tivesse se transformado em um tabuleiro de peças vivas, confusas, competitivas e empolgadas.

No centro do tumulto, Kuroo e Bokuto se encontraram com um olhar e nem precisaram combinar.

"Braço de ferro." disse Bokuto, já puxando a manga.

"Você vai perder. De novo." respondeu Kuroo, jogando o cotovelo sobre a mesa mais próxima com um sorriso felino.

A roda se formou em segundos. Yamamoto gritava "Vamos, Kuroo!" enquanto Akaashi fechava os olhos por um momento, como se já tivesse aceitado a vergonha alheia.

No canto oposto do salão, Lev, Aone e Ushijima estavam parados como se tivessem congelado o tempo. Três torres de músculos e silêncio. Nenhum gesto, nenhuma fala. Apenas olhos fixos uns nos outros. Um duelo de gigantes onde a única regra parecia ser: não pisque.

Charlie e Tao, curiosos, haviam se aproximado de Kenma, que já estava sentado com o prato simples diante de si.

"Você tá jogando ainda?" perguntou Tao, olhando para o celular virado para baixo.

"Não agora." respondeu Kenma, sem mudar a expressão.

Charlie se inclinou para ver melhor. "Você joga Mario Kart?"

"Zerei ontem. Com 100% de conclusão."

"Ok, isso foi impressionante." Charlie riu, cruzando os braços. "Você deve ser o único jogador do torneio que consegue driblar dentro e fora da quadra."

"Não é difícil. É só evitar as partes barulhentas." Kenma respondeu, sem emoção, mas não sem verdade.

Enquanto isso, Cristian, Watari e Yaku estavam reunidos em volta de uma laranja. Isso mesmo, uma laranja.

"Ela é redonda, quica e escorrega. Serve pra treinar recepção." disse Cristian, com seriedade.

"Desde que não seja uma laranja pêra. Essas voam torto." retrucou Watari.

"A questão é o centro de gravidade. Braços baixos e controle do impacto." Yaku explicou, com a calma de quem vive para aquilo.

Do outro lado do salão, Harry já havia tirado a camiseta. Sim, novamente. Yamamoto e Kanji o acompanharam sem hesitar.

"Meu tanquinho tem nome. E sobrenome." disse Harry, girando para mostrar o abdômen.

"O meu tem função. Serve pra lavar as camisetas do time." rebateu Yamamoto, flexionando.

"O meu tem harmonia estética." completou Kanji, passando a mão pelos próprios gominhos como quem admira uma escultura.

Enquanto isso, na mesa mais calma e madura do refeitório, Daichi, Asahi, Suga e Iwaizumi tomavam suco de maçã como generais assistindo ao treino de cadetes.

"Esse refeitório parece uma colônia de férias do caos." comentou Asahi, ajeitando os óculos.

"É bom. Dá pra ver quem ainda se leva a sério demais." disse Iwaizumi, lançando um olhar para Ushijima, ainda parado como uma estátua ao lado de Lev e Aone.

"E quem tá só esperando o apito final pra cair no chão." Suga acrescentou, tomando um gole do SUCO.

Nick estava sentado ao lado de Charlie, distraído, a mão ainda pousada suavemente sobre a dele. Os dois trocavam poucas palavras, deixando o calor do contato falar por si. O som do refeitório era alto, misturado ao tilintar dos talheres e vozes empolgadas dos outros jogadores. Tudo parecia distante até uma voz familiar rasgar o ambiente como uma corrente fria.

"Niko."

O som veio calmo, mas tinha o peso de uma memória antiga. Nick virou devagar, como se o nome dito o tivesse puxado para um passado que ele nunca soube muito bem como lidar. Lá estava Oikawa. Parado logo atrás. O uniforme impecável do Aoba Jōsai o deixava ainda mais imponente, como se o tempo não tivesse passado desde aquele último encontro na quadra. Os cabelos estavam arrumados com perfeição quase irritante, e os olhos mel brilhavam com algo difícil de decifrar. Saudade, talvez. Veneno, talvez.

"Posso falar com você?" perguntou, com uma suavidade que parecia esconder algo mais fundo.

Charlie olhou na mesma hora, os olhos atentos, como se sentisse o perigo disfarçado naquela abordagem. Tao, sentado ao lado, interrompeu o movimento da colher no meio do caminho até a boca, sentindo a tensão se espalhar pelo ar.

O barulho do refeitório não cessou, mas para Nick, tudo pareceu silenciar. Seu mundo afunilava para aquele momento. Ele respirou fundo e afastou a cadeira devagar. Charlie o encarou, preocupado, e mesmo sem dizer nada, seus olhos diziam tudo. Havia um aviso ali. Um pedido mudo para que ele tomasse cuidado.

"Já volto." disse Nick, tentando manter o tom leve. Deu um toque no ombro de Charlie, como um lembrete silencioso de que tudo estava bem.

Seguiu Oikawa pelo salão, os dois contornando as mesas até um canto mais reservado, perto das janelas altas do refeitório. Do lado de fora, flores se abriam na primavera, seu aroma no pátio do ginásio como se também soubessem que algo importante estava prestes a acontecer. A luz dourada da tarde entrava pelas frestas, tingindo o chão com tons quentes, contrastando com o frio que crescia por dentro de Nick.

"O que quer?" disse Nick, tentando manter a calma na voz.

"Conversar..." respondeu Oikawa, virando-se devagar. Seus olhos já não tinham o brilho provocador de sempre. Havia algo mais calmo, mais real. "Não pra provocar. Nem pra falar do torneio. Eu só... queria conversar. Como pessoas."

Nick, cético, mas curioso, assentiu.

"Tá bem. Então fala."

Oikawa cruzou os braços, como se precisasse de um momento para organizar o que diria. Desviou o olhar para a janela antes de voltar aos olhos de Nick, agora mais suave.

"Eu queria te desejar sorte."

Nick piscou, surpreso.

"Obrigado." disse, desconfiado.

"Senta aí, Niko. Não tenho uma faca escondida pra te matar."

Nick se sentou ao lado dele, com a guarda meio levantada, mas disposto a ouvir.

"Tem algum conselho pra derrubar a Muralha de Ferro?" Oikawa soltou a pergunta quase como uma brincadeira.

"Você tá me pedindo conselhos?"

"Sim, Niko, estou." respondeu Oikawa, fazendo uma reverência exagerada de súdito.

"Tá, para com isso." Nick riu e o empurrou de leve. "Enfrentar a Muralha de Ferro foi uma das coisas mais difíceis pro nosso time... mas a gente tinha nossa arma suprema."

"O Tampinha?" Oikawa sorriu.

"O Charlie!" Nick corrigiu, com um brilho no olhar.

Oikawa se encostou na cadeira com um meio sorriso.

"Fico feliz que vocês tenham se encontrado. Ele aflora o melhor em você."

"Sério?"

"Sério, seu bobão." Oikawa deu uma leve batida com o joelho na perna de Nick. "Acho que sem ele, você ainda seria o Rei da..." ele fez uma pausa dramática e colocou o dedo sobre os lábios. "Ops, palavra proibida." Riu.

Nick não segurou a risada e acompanhou, relaxando aos poucos.

"O que aconteceu com a gente?" perguntou Nick, a voz um pouco mais baixa agora, com certo peso.

"Acho que éramos duas crianças muito machucadas... em um mundo que ainda ia nos machucar mais." Oikawa olhou para o nada, pensativo. "Mas acho que nos demos bem indo por caminhos diferentes."

"Você se tornou um jogador incrível." Nick diz com sinceridade

"E você se tornou um ser humano incrível, Niko."

Os olhos de Nick se encheram de lágrimas. Ele piscou rápido, tentando disfarçar, mas as palavras o atingiram com mais força do que esperava.

"Oikawa... você me perdoa?" Nick o encarou. "Por tudo o que eu te disse na Quadra do Rio?"

"Sim, Niko, eu te perdoo." Oikawa sorriu. "Te ver com o Tampinha foi a maior prova de que você mudou."

"Obrigado." Nick sentiu um peso imenso sair dos ombros.

"E mostrou também que você não é mais um homofóbico de merda." Oikawa empurrou Nick com o ombro.

"Eu tinha uns 12 anos." Nick revidou, empurrando de volta.

Oikawa riu, mas depois ficou pensativo.

"Eu tinha o maior crush em você." Disse Oikawa, com um sorrisinho malicioso.

"Eu não entendia isso na época... Mas fui muito sem noção com você."

"Eu já superei." Oikawa deu de ombros. "Sem contar que você perdeu tudo isso." Ele flexionou o braço, mostrando os músculos tonificados com uma pose ridícula.

Nick cobriu o rosto com as mãos, rindo envergonhado.

"Tô brincando, Niko!" Oikawa gargalhou. "Tô muito feliz com o Iwa."

"Vocês são um ótimo casal."

"E você e o Tampin... quero dizer, Charlie. Como estão?"

"Estamos namorando."

"Isso todo mundo já sabe." Oikawa revirou os olhos. "Vocês são péssimos em guardar segredo."

"É, né." Nick riu. "Charlie foi a melhor coisa que me aconteceu."

Oikawa pousou a mão no ombro de Nick.

"Você amadureceu tanto."

"Eu senti falta de conversar com você." Nick diz sincero

"Eu também."

"Como foi a final contra o Shiratorizawa?"

O sorriso de Oikawa desapareceu. Uma sombra passou por seu rosto.

"Foi muito difícil." ele disse, a voz mais contida. "Ushijima é uma força da natureza."

"Foi o que vi quando bisbilhotei o treino deles."

"Não sei se tem alguém nessa quadra capaz de vencê-lo..." Oikawa murmurou, pensativo.

Nick voltou o olhar para o refeitório e encontrou Charlie sentado à mesa, sorrindo para Tao e Kenma, o rosto cansado, mas forte. E ali, lembrou-se da promessa.

"Eu sou Charlie Spring, e eu brotei do concreto. E nós vamos te vencer no Torneio de Primavera!"

Um orgulho acendeu no peito de Nick.

"Só tem uma pessoa nesse ginásio que pode vencê-lo."

"Quem?" perguntou Oikawa, curioso.

"Meu namorado." Nick respondeu com firmeza e um sorriso confiante.

Oikawa abriu um largo sorriso, provocador.

"Credo, que gay!" Ele esfregou a mão nos cabelos de Nick, rindo.

"E por falar em namorado..." Oikawa se ajeitou. "Eu vou ficar com o meu antes que alguém dê em cima dele. Boa sorte com o Nekoma."

"Boa sorte com o Dateko."

Nick se afastou e voltou para a mesa, sentando-se ao lado de Charlie novamente. Charlie o observou, curioso.

"Tudo bem?"

"Tudo sim." Nick sorriu. "Amanhã vamos fazer um churrasco de gato."

Charlie fez uma careta dramática, mas abraçou Nick com força, e aquele toque, mesmo breve, bastou para selar tudo o que eles ainda não tinham dito.

Notas finais
Obrigada por terem lido até aqui, corvinhos! Esse capítulo foi uma delícia de escrever e, ao mesmo tempo, um caos emocional total, do jeitinho que a gente ama, né? Queria aproveitar pra dizer o quanto eu sou apaixonada por escrever o Oikawa e o Nick. Esses dois têm uma dinâmica tão intensa, tão cheia de camadas, mágoas, ironias, saudade e afeto mal resolvido... que cada cena entre eles vira um campo minado emocional. E eu simplesmente amo explorar cada uma dessas entrelinhas, esses olhares não ditos e essas provocações que escondem muito mais do que parecem. Obrigada por acompanharem essa história com tanto carinho. Vocês tornam tudo isso ainda mais especial. Mal posso esperar pra mostrar o que vem por aí. Com amor (e várias lágrimas contidas por causa desses dois), Bia 🧡