Match Point

33 ARCO 3 CONCRETO!- Capítulo 30 - A Batalha do Lixão: O Glitch


Notas iniciais
Antes de tudo: SEJAM MUITO BEM-VINDOS à Batalha do Lixão! Esse capítulo foi escrito com o coração na ponta dos dedos, juro que suei mais que o próprio Charlie em quadra! Vocês vão encontrar aqui participações especiais, jogadas técnicas, provocações épicas (alô, Nick e Kuroo!) e momentos que eu esperei muito tempo pra escrever. Preparem o emocional, porque essa batalha entre Karasuno e Nekoma não é só sobre vôlei, é sobre memória, trauma, superação e conexão. Leiam com calma, sintam cada ponto e, se puderem, me contem depois qual foi o seu momento favorito! Boa leitura e… que o jogo comece!

CHARLIE

“Meus pés estão firmes no chão. Mas tudo dentro de mim parece leve, como se estivesse prestes a sair voando. Talvez porque eu esteja diferente hoje. Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo... eu não quero fugir.”

O corredor que conectava o vestiário à quadra principal era estreito, iluminado por uma fileira de lâmpadas frias que lançavam uma luz branca e pálida sobre as paredes gastas. Um cheiro característico de madeira recém encerada se misturava sutilmente ao aroma persistente de suor antigo, impregnando cada centímetro daquele espaço. As vozes da arquibancada chegavam abafadas, quase distantes, como se o corredor fosse um lugar à parte do restante do mundo, um espaço suspenso entre a expectativa e a realidade.

O Karasuno estava reunido em um círculo compacto, ajustando os últimos detalhes táticos com a treinadora Singh e os auxiliares. Tao, com o rosto relaxado e sorridente, trocava pequenas brincadeiras com Cristian, que ria discretamente, tentando aliviar a tensão do momento. Daichi mantinha uma postura firme e inabalável, típico de um verdadeiro capitão que sabe o peso daquela responsabilidade. Ao seu lado, Nick estava quieto, com a expressão séria e concentrada, mas sua presença silenciosa transmitia uma segurança que Charlie já conhecia muito bem.

Porém, naquele instante, Charlie não conseguia enxergar nada daquilo com nitidez. As vozes pareciam vir de longe, quase abafadas pelos próprios batimentos de seu coração, que pulsava ritmado em seu peito, acompanhando a crescente empolgação das torcidas atrás das portas fechadas.

Algo queimava silenciosamente dentro dele. Não era medo, nem ansiedade comum antes de um grande jogo; era algo diferente, mais raro e mais profundo: serenidade. Aquela tranquilidade peculiar que surge antes de uma tempestade, quando o céu se aquieta e o vento fica imóvel, esperando o momento exato de liberar toda sua força acumulada.

Charlie havia se quebrado inúmeras vezes, enfrentado tempestades internas e descoberto que era possível se reconstruir a partir dos pedaços espalhados pelo chão. Durante muito tempo, acreditara que precisava desaparecer para conseguir voar, ser mais leve, invisível. Mas ali, naquele corredor estreito e frio, diante do maior desafio até então, compreendeu finalmente que só poderia alcançar o céu se estivesse inteiro. Completo.

Ele respirou fundo, sentindo o ar preencher seus pulmões lentamente, enquanto o tecido do uniforme colava à pele úmida de suor. Sentia as mãos levemente trêmulas, um suor gelado acumulando-se nas palmas, mas não havia nervosismo negativo ali, apenas consciência do que estava por vir.

Do outro lado da parede, as torcidas explodiram, misturando vozes, aplausos e gritos numa intensidade vibrante que fez cada célula de seu corpo reagir. O coração de Charlie bateu mais forte, sincronizando-se naturalmente à energia que emanava da arquibancada, do time, daquele lugar sagrado.

Karasuno contra Nekoma. Corvos contra Gatos. A lendária Batalha do Lixão estava prestes a começar.

Charlie fechou os olhos por um breve segundo. Não era apenas um jogo. Era o palco onde tudo recomeçaria, era o primeiro jogo oficial depois da derrota contra o Seijoh. Nick o observou e, sem dizer nada, estendeu a mão. Charlie segurou firme. A conexão entre eles era silenciosa, mas poderosa.

Quando o juiz chamou os times para a entrada, as portas da quadra se abriram como cortinas de um teatro. A luz da arena os envolveu, e o som das arquibancadas explodiu num rugido. Charlie avançou com seus companheiros e a cada passo, o concreto sob seus pés parecia rachar.

“VOE, VOE, KARASUNO!”

O ginásio de Sendai tremia com os gritos vindos das arquibancadas preto e alaranjadas. A torcida do Karasuno estava em êxtase. Bandeiras agitavam no ar como asas em revoada, cartazes com os nomes dos jogadores brilhavam sob a luz dos refletores e os gritos cadenciados ecoavam pelo espaço como batidas de um coração gigante. Os tambores pulsavam com força, em um ritmo que lembrava asas prestes a alçar voo.

“VAMOS, VAMOS, NEKOMA!”

Do outro lado, uma onda vermelha se ergueu. A torcida do Nekoma respondeu à altura. Faixas vermelhas na testa, olhos afiados como garras e vozes afiadas como uivos no escuro. Eles gritavam como um só corpo, firmes, constantes, determinados. Como um exército de gatos prontos para cercar e caçar.

As luzes do ginásio se apagaram por um instante. Um único foco se acendeu no centro da quadra. A voz do narrador ecoou pelos alto-falantes, clara, firme, elétrica:

“Senhoras e senhores! Bem-vindos ao primeiro jogo das quartas de final do Torneio de Primavera!”

O rugido da torcida subiu como um trovão.

“Hoje, a história vai ganhar mais um capítulo em um dos confrontos mais lendários do vôlei colegial!”

O narrador fez uma pausa dramática, enquanto o foco agora se voltava para o lado vermelho da quadra.

“Com vocês... os GATOS VERMELHOS DO NEKOMA!”

A arquibancada do Nekoma explodiu.

“Kuroo Tetsurou! Lev Haiba! Kenma Kozume! Yaku Morisuke! Yamamoto Taketora! Inuoka Sou! Kai Nobuyuki!”

Os jogadores entraram um a um, com passos confiantes. Kuroo levantou o queixo e lançou um olhar de caçador em direção ao outro lado da rede. Lev acenou animado, com seu jeito desengonçado e empolgado. Kenma apenas ergueu o olhar por um breve instante, o suficiente para registrar a tensão.

O narrador fez uma pausa.

“E do outro lado... os CORVOS NEGROS DO KARASUNO”

A multidão preto e laranja parecia inflamar. O ginásio inteiro vibrou com as batidas dos pés no chão, como se corvos estivessem preparando as asas.

“Daichi Sawamura! Asahi Azumane! Cristian McBride! Nick Nelson! Charlie Spring! Harry Greene! Tao Chu! Tsukishima Kei! Sugawara Kōshi!”

Cada nome era recebido com aplausos e gritos. Charlie sentiu um arrepio subir pela espinha quando ouviu o seu. O som parecia atravessar o peito e se espalhar pelo corpo inteiro. Nick olhou para ele e sorriu com os olhos. Tao ergueu os punhos. Cristian bateu no próprio peito. Tsukishima ajeitou os óculos, calado, mas atento. Suga sorriu como quem vê o início de algo inesquecível. Era o começo da Batalha do Lixão. Corvos e Gatos estavam em quadra.

Charlie se posicionou na quadra, e por um breve instante, tudo ao redor pareceu desacelerar. O ruído intenso da torcida, os passos apressados dos jogadores, até mesmo o zumbido distante das lâmpadas fluorescentes no teto do ginásio, tudo se dissolveu em um silêncio quase absoluto. Seus olhos estavam fixos na rede, como se ela fosse o limite exato entre o que ele era e o que poderia ser. E então, do outro lado, Charlie o viu.

Lev Haiba. O gigante do Nekoma, imponente como uma torre, mantinha aquele olhar curioso e um sorriso largo, quase inocente, mas havia algo mais nele naquele instante. Uma promessa silenciosa, quase uma ameaça: a sombra de um bloqueio implacável, uma muralha que parecia se erguer para lembrar Charlie de algo que ele desejava desesperadamente esquecer.

E naquele exato segundo, como um soco inesperado, a lembrança do jogo contra o Seijoh voltou com uma nitidez devastadora. Charlie sentiu a dor daquela última jogada percorrer novamente cada centímetro de sua pele. O levantamento perfeito. O salto confiante. O cruzado aberto executado com toda a sua força e técnica e, então, o bloqueio triplo surgindo diante dele, crescendo como uma onda inevitável. O som seco da bola voltando direto para o chão, ecoando dentro de seu peito como uma batida dolorosa. Os gritos da torcida transformando-se em murmúrios distantes e decepcionados, enquanto tudo dentro dele mergulhava em silêncio absoluto.

Um frio intenso desceu por sua espinha naquele momento, fazendo as pernas enfraquecerem ligeiramente. O medo se infiltrava lentamente por cada músculo, cada nervo, percorrendo suas mãos, seu peito, apertando-lhe o coração com uma força quase insuportável. Aquela sensação amarga da derrota, de ser visto, analisado e então parado sem piedade.

Por um segundo breve, quase impossível, Charlie cogitou recuar. Sentiu o peso daquela dúvida pressionar-lhe os ombros, a tentação de voltar atrás, de fugir da dor, da exposição e da possível falha.

Mas então ele fechou os olhos, respirou fundo e deixou que algo poderoso dentro dele reagisse, acendendo como uma faísca em meio à escuridão. Naquele silêncio, ele viu as memórias que o construíram de volta. A areia quente sob seus pés enquanto treinava com Nick na praia. O sol implacável sobre eles, queimando pele e medo igualmente. O tapa forte nas costas dado por Tao após um bom ponto. O olhar orgulhoso da treinadora Singh quando ele acertou aquela finta contra o TAB. As mãos firmes de Nick segurando as suas, silenciosamente prometendo apoio. As palavras tranquilas e seguras de Yusuke, ecoando em sua mente. O espelho. A dor. E finalmente, a superação.

Quando abriu os olhos novamente, o medo ainda estava ali, presente, mas menor, controlado, quase sob seus pés. Porque acima daquele medo havia algo infinitamente maior, mais poderoso e mais forte.

Fé.

Charlie firmou os pés sobre a quadra, sentindo o contato firme com o chão, e sussurrou baixinho para si mesmo, uma promessa profunda e inabalável:

"Eu sou Charlie Spring…"

Levantou o olhar com determinação absoluta, atravessando a rede, encarando Lev diretamente, sem hesitar, como quem encara uma tempestade.

"...e eu brotei do concreto."

Dessa vez, não havia nenhum medo ou insegurança que pudesse fazê-lo recuar. Dessa vez, ele iria voar.


KENMA

Kenma ajustou lentamente o cabelo loiro tingido atrás das orelhas e ajeitou o uniforme vermelho e preto do Nekoma com gestos metódicos e discretos. Sentia a ponta dos dedos gelada, não por nervosismo, mas pelo desconforto habitual que aquele ambiente lhe causava. Ginásios lotados eram incômodos, caóticos, imprevisíveis. Ele detestava multidões, as vozes altas demais, a agitação incontrolável. Gostava mesmo era do silêncio. Do som seco da bola tocando a madeira polida da quadra. Do eco suave de passos calculados e previsíveis. Cada jogo era, para ele, um sistema lógico a ser decifrado: movimentos repetitivos, algoritmos claros, padrões fáceis de prever.

Mas o Ginásio Sendai, naquele instante, era tudo menos previsível.

As luzes eram intensas, quase cegantes, piscando como pixels desordenados numa tela muito brilhante. A torcida gritava e vibrava alto demais, o som reverberando pelas paredes num eco irritante. Telões brilhavam incessantemente, celulares disparavam flashes sem pausa, e tudo aquilo era um estímulo sensorial excessivo, quase uma interferência no fluxo lógico de seu pensamento.

Kenma respirou fundo, tentando recalibrar sua mente como se reiniciasse um sistema operacional interno. O mundo ao redor se tornou apenas um ruído de fundo, e seu foco retornou automaticamente para o único elemento na quadra que parecia não seguir a lógica previsível daquele jogo.

Charlie Spring.

Do outro lado da rede, o garoto baixo de expressão séria mantinha um olhar determinado, como se toda sua existência dependesse daquela partida. Kenma já havia estudado os vídeos; suas análises sempre eram minuciosas, como alguém decodificando linhas complexas de um código. O corte daquele garoto era irregular demais, rápido demais. O padrão de movimentos era imprevisível, quase caótico. Não pela técnica perfeita ou pelo poder físico extraordinário, mas porque cada ação parecia carregada de uma urgência visceral, emocional, impossível de prever.

Kenma não o observava como um simples adversário. Charlie era um enigma vivo, um bug no sistema, um jogador cujas ações não poderiam ser decodificadas facilmente.

"Ele não parece um central" Kenma pensou com uma lógica clara e direta, avaliando cada detalhe com precisão matemática. "Mas eu também não pareço um levantador."

Com movimentos discretos, Kenma tocou de leve o bolso do short onde normalmente carregava o celular. Era uma extensão de si, um objeto que dava sentido ao seu mundo lógico e controlado. Sem o aparelho, ele se sentia vulnerável, incompleto. A vida, naquele momento, parecia um jogo com variáveis demais, dados insuficientes, comandos ainda desconhecidos. Mas era assim que Kenma jogava: primeiro observava de fora, entendia cada mecânica e, então, entrava na partida. Tudo precisava ser simulado e compreendido antes de agir.

À sua volta, Kuroo discursava animado sobre estratégia, mencionando metáforas de gatos cercando corvos com paciência e inteligência. Lev batia os punhos com entusiasmo quase infantil, Yamamoto já escorria suor pelo rosto e exibia uma energia explosiva. Mas Kenma não ouvia realmente aquelas vozes; eram apenas elementos distantes num cenário que ele precisava decodificar primeiro.

Seus olhos se fixaram novamente em Charlie. Algo na maneira como aquele garoto encarava a quadra era diferente. Ele não estava jogando por passatempo ou mera diversão. Cada movimento dele carregava um peso, uma urgência emocional que Kenma quase nunca via. Charlie jogava como se cada ponto fosse uma batalha pela própria vida. Como se respirar, naquele momento, só fosse possível enquanto estivesse no ar, acima da rede.

"Ele joga como alguém que precisa disso" concluiu Kenma mentalmente, com uma clareza absoluta. "Como se isso fosse tudo que ele tem."

Por um instante, Kenma sentiu algo estranho se mover dentro dele. Talvez um leve receio, um frio incomum que nada tinha a ver com lógica ou análise. Era um sentimento raro, um medo quase silencioso diante daquilo que ele não podia prever ou controlar completamente. Charlie Spring, o baixinho do Karasuno era uma variável imprevisível, um desafio incomum ao seu sistema lógico e controlado. E pela primeira vez, Kenma sentiu-se realmente incerto sobre o resultado final daquele jogo.

O barulho ao redor era alto demais para o gosto de Kenma. Gritos cruzavam o ar. Os tambores das torcidas soavam como batimentos acelerados. O narrador anunciava os nomes com euforia, e a quadra inteira vibrava com expectativa. Mas para ele, era como estar no meio de um jogo em tela cheia com o som no mudo.

Tudo se reduzia a dados.

O padrão de movimentação do Karasuno. A frequência dos cortes de Asahi. O tempo de salto de Charlie. O olhar de Nick antes de fazer o levantamento.

Kenma ficava parado na posição de defesa, os olhos fixos na rede à frente, mas sua mente navegava. Calculava. Antecipava.

"Se o Nick levantar de segunda depois da recepção curta... provavelmente ele tá tentando desequilibrar nossa linha... mas se o corte for do Charlie no cruzado aberto, a intenção é encurtar o rally... hmm..."

Sentiu uma presença ao lado.

Era ele.

Kuroo se posicionava no centro da quadra, com as mãos na cintura e o sorriso de sempre. Não disse nada de imediato. Apenas olhou para frente, para os jogadores do Karasuno atravessando a quadra.

"Tá pronto, Kenma?"

A voz veio baixa. Íntima. Como se ignorasse todo o barulho ao redor.

Kenma respondeu sem virar o rosto.

"Mais ou menos. O jogo ainda não começou."

Kuroo sorriu de lado.

"Você já analisou tudo, né?"

"Quase tudo." Kenma girou os ombros, ajustando a postura. "Mas tem uma coisa que eu ainda não entendi."

"Charlie?" Kuroo adivinhou

Kenma assentiu.

"Ele não é o mais alto, nem o mais forte, nem o mais técnico... mas tem alguma coisa nele que não segue lógica. Ele marca ponto onde não deveria. Muda o ritmo. Confunde o tempo."

"Ele joga com o coração" Kuroo comentou naturalmente cruzando os braços.

"É por isso que ele me intriga tanto" Kenma disse sem emoção. "Ele quebra os padrões. Parece um glitch no sistema."

Kuroo riu baixo cutucando o peito de Kenma.

"Você sempre odiou bugs nos seus jogos."

Kenma soltou um suspiro leve.

"Mas eu também sempre aprendi a lidar com eles."

Kuroo olhou para ele, dessa vez com mais atenção.

"Então vamos fazer isso juntos. Como sempre fizemos."

Kenma finalmente virou o rosto e encarou seu melhor amigo. Seu único amigo.

"Eu sei. Você é o único motivo de eu estar aqui."

Kuroo sorriu com os olhos.

"E você é o motivo de o Nekoma funcionar."

O apito soou.

Kenma não mudou a expressão. Só firmou os pés. E ativou o modo de jogo.


CHARLIE

O apito soou como o tiro que anuncia o início de uma batalha, rompendo o silêncio momentâneo que antecedia a partida. Naquele instante, Charlie sentiu o coração acelerar em resposta imediata. Cada músculo de seu corpo parecia pronto para reagir, cada nervo desperto e atento ao que estava prestes a acontecer.

Nick deu alguns passos lentos para trás, segurando a bola com firmeza, seu olhar fixo e concentrado. Ele inspirou profundamente, como se pudesse reunir toda a força possível naquele único saque, e então lançou a bola para cima, com precisão quase cirúrgica. Seus olhos estavam intensos, seu corpo girou com harmonia, e quando sua mão encontrou a bola no ar, houve um impacto sonoro, seco, quase feroz. Uma bomba carregada de potência, girando velozmente, atravessou a quadra como uma flecha em diagonal, deixando um rastro de expectativa no ar.

Por um instante, parecia que aquele saque implacável encontraria o chão do Nekoma logo no primeiro toque. Porém, no último momento possível, Yaku surgiu como uma sombra ágil na linha defensiva do Nekoma. As pernas ligeiramente flexionadas, a postura impecável, como se desafiasse a gravidade. Com uma precisão sobrenatural, Yaku estendeu os braços e fez uma manchete perfeita, seus punhos firmes absorvendo toda a força do saque com uma leveza impressionante. A bola, que antes parecia mortalmente destinada ao chão, subiu suavemente, controlada, pairando no ar.

"Ele é mesmo bom..." pensou Charlie, impressionado com aquela defesa improvável. Havia algo mágico e inacreditável no jeito como o líbero do Nekoma transformara um ataque quase letal em uma jogada defensiva quase artística.

A bola flutuou lentamente em direção à rede, dando tempo suficiente para Charlie observar o próximo movimento. Kenma já estava posicionado ali, perto demais, perfeitamente parado, como se tivesse previsto tudo aquilo desde o início. Suas mãos estavam firmes e seguras, mas seus olhos pareciam distantes, analisando a quadra como se assistisse a tudo aquilo através de uma tela, calculando mentalmente cada opção disponível.

Kuroo avançou rapidamente pela esquerda, com passos largos e confiantes, enquanto Lev surgia à direita, uma presença gigantesca e ameaçadora, os olhos brilhando com um entusiasmo quase selvagem. Charlie sentiu a tensão apertar ainda mais seu peito, analisando as possibilidades em sua mente.

"Para quem vai ser?" ele pensou, atento ao mínimo detalhe.

O toque de Kenma veio seco, curto e decidido. Direita. Era Lev.

O gigante saltou com uma brutalidade impressionante, erguendo-se no ar com uma potência quase assustadora, os braços estendidos no ponto mais alto, preparados para um golpe fatal. Charlie e Harry reagiram instantaneamente, impulsionando-se com todas as forças num bloqueio duplo desesperado. Mas tentar bloquear Lev era como enfrentar uma avalanche, impossível deter a força bruta daquela parede humana com os dedos estendidos. A bola passou ferozmente por cima do bloqueio, cortando o ar como um golpe desferido com raiva, descendo violentamente em direção ao chão do Karasuno. Parecia o fim inevitável daquele ponto.

Mas o Karasuno tambem tinha um guardião.

Cristian se lançou com uma coragem quase insana, o corpo se estendendo numa defesa heroica, como se todo o futuro daquela partida estivesse naquele instante em suas mãos. As pontas dos seus dedos tocaram a bola com precisão cirúrgica e, num milagre puro de reflexo e determinação, ela subiu girando no ar, em uma espiral dramática. O impacto abafado do corpo de Cristian contra o chão reverberou pela quadra, uma prova clara de sua dedicação absoluta.

Naquele instante, algo se acendeu em Charlie. A adrenalina explodiu em suas veias, incendiando seus músculos com a energia pura e eletrizante do vôlei. Não havia mais hesitação, nem dúvida.

"Vamos!" ele gritou, com a voz carregada de paixão e desafio, pronto para voar mais alto do que nunca.

O coração de Charlie acelerou enquanto Nick corria em direção à bola, os passos precisos, decididos. Charlie avançou imediatamente pela direita, atraindo os olhares atentos do bloqueio adversário como uma presa que se oferece à armadilha, levando consigo toda a atenção de Lev e Kuroo. Harry, com seus olhos brilhando como brasas, corria pelo lado esquerdo, pronto para atacar a qualquer instante.

Mas o passe, surpreendendo a todos, foi lançado diretamente para o fundo. Asahi surgia com a força absoluta de um trovão prestes a romper a tempestade. Com um salto poderoso, o Ace ergueu-se no ar, o corpo curvado em perfeita harmonia, e desferiu um golpe brutal contra a bola, que rasgou o ar como uma flecha ardente, direcionada diretamente ao chão da quadra adversária.

No último segundo, Yaku, o líbero incansável do Nekoma, apareceu novamente como um escudo humano. Seus braços absorveram o impacto colossal do ataque, o corpo projetado para trás pela força avassaladora. Mesmo caído, Yaku ergueu a bola em uma defesa impressionante, embora sacudisse as mãos doloridas, visivelmente sentindo a potência daquele golpe esmagador. O Nekoma permanecia sólido, resistente como a própria muralha.

A bola retornou flutuando perigosamente para a quadra do Karasuno. Cristian estava atento, recebendo com calma e firmeza, um toque limpo e quase carinhoso que colocou a bola perfeitamente nas mãos de Nick. O levantador analisou rapidamente a quadra adversária, seus olhos varrendo cada espaço com precisão absoluta, enquanto a tensão fervia em cada músculo ao seu redor.

"Esquerda!" gritou Harry, sua voz ecoando forte e cheia de energia, acima do ruído incessante da torcida.

Charlie se lançou novamente com velocidade impressionante, rasgando o centro da quadra como um raio incandescente. O bloqueio do Nekoma reagiu imediatamente à sua corrida, com Kuroo e Lev saltando simultaneamente, as mãos erguidas como uma barreira formidável. Charlie sentiu a adrenalina explodir em suas veias; ele era a isca perfeita.

Porém, o passe de Nick deslizou, com maestria, diretamente para Harry. O ponta disparou com tudo que tinha, lançando um ataque feroz e impetuoso na diagonal, carregado de fúria e determinação. A bola cortou o ar com agressividade quase selvagem.

Do outro lado, Yamamoto, com seu moicano tingido de loiro e olhos flamejantes, reagiu com uma rapidez inacreditável. Ele se lançou ao chão com ousadia, recebendo a bola num reflexo extraordinário. Seu corpo estendido e o sorriso provocador que imediatamente estampou no rosto foram suficientes para incendiar a rivalidade com Harry, desafiando-o diretamente com um gesto de deboche.

Harry, ao ver aquilo, sentiu uma raiva quase palpável explodir dentro de si, os punhos cerrados e os dentes trincados em frustração. Charlie pôde perceber a energia quase elétrica entre os dois, como faíscas se chocando violentamente através da rede.

Mas naquele instante, o gesto debochado de Yamamoto teve um preço. A bola, erguida com muita dificuldade e já sem controle, subiu torta, trêmula no ar, até começar a cair perigosamente perto da rede, um erro crítico, uma brecha se abrindo diante dos olhos de Charlie.

Uma chance. Uma oportunidade rara e preciosa de finalmente penetrar a defesa sólida do Nekoma. Charlie sentiu o coração disparar ainda mais rápido, sabendo que, agora sim, era a hora de voar.

Charlie sentiu a energia explodir em cada fibra do seu corpo, reagindo instintivamente à chance que surgira diante dele. Seus pés abandonaram o chão da quadra com uma potência absoluta, impulsionando ao ar como se o próprio vento o erguesse, o sangue correndo furiosamente em suas veias.

Mas Lev também estava ali. O gigante russo saltou com uma força colossal, seus braços longos e musculosos estendidos ao máximo, projetando uma sombra ameaçadora sobre a rede. Os dois centrais se encontraram no topo, em um confronto aéreo monumental, uma batalha silenciosa e feroz. Mão contra mão, força contra força. Era a altura esmagadora de Lev contra a determinação absoluta de Charlie. Lev era mais alto. Mais forte. E naquele momento inicial, sua brutalidade prevaleceu. Com um movimento poderoso, ele empurrou a bola com violência para o chão do Karasuno.

Mas Daichi, sempre sólido, sempre atento, não hesitou. Como um verdadeiro líder, ele mergulhou numa defesa heroica, o corpo se estendendo ao máximo, os dedos firmes e decisivos, interceptando aquela bola quase mortal com precisão. Seu gesto trouxe esperança de volta ao coração do time, devolvendo a jogada à vida com uma manchete perfeita que ecoou como um chamado à resistência.

Nick já estava preparado, como se tivesse antecipado aquele milagre. Ele se posicionou imediatamente, o olhar determinado, pronto para conduzir o ataque decisivo. Charlie reagiu no mesmo instante, disparando pela quadra como um raio em movimento. Primeiro ele correu pela direita, uma faísca luminosa atraindo toda a atenção. Os olhos do Nekoma o acompanharam, atentos, tentando prever seu próximo passo.

E foi exatamente então, no último instante possível, que Charlie alterou bruscamente sua rota, cruzando a quadra em um arco rápido e inesperado rumo à esquerda. A defesa adversária vacilou por um momento crucial, os corpos hesitantes tentando acompanhar aquele movimento súbito.

Nick saltou naquele mesmo instante, elegantemente de costas para a rede, seus braços erguidos em um levantamento que parecia desafiar as leis da física. Uma parábola perfeita. Exata. Quase poética em sua trajetória precisa e elegante. O levantamento mais belo e decisivo daquela partida até ali.

Charlie já estava no ar antes mesmo que a bola começasse a subir. O tempo congelou. A quadra inteira pareceu mergulhar num silêncio absoluto. Tudo se reduziu a ele, à bola, e ao ar entre os dois.

Seu braço girou com fúria, o corpo se arqueou num movimento explosivo e o corte veio carregado com toda a intensidade acumulada desde a derrota anterior, um golpe feroz e imparável na diagonal, como se toda a sua vida dependesse daquela jogada. A bola atravessou o ar como um relâmpago cortando o céu, rasgando as defesas do Nekoma com uma velocidade assustadora.

Kenma ainda estava lá. Seus olhos calculistas acompanharam cada instante, cada centímetro daquela jogada insana, e ele reagiu por instinto. Com uma manchete rápida e desesperada, conseguiu tocar a bola, mas não com firmeza suficiente. A bola tremeu, desviou de forma errática e em uma trajetória inevitável, caiu fora da linha lateral.

O apito do juiz soou forte e claro.

Ponto para o Karasuno.

A torcida explodiu numa comemoração ensurdecedora, vibrante e apaixonada. Tao saltou da cadeira com um grito de euforia. Cristian ergueu os punhos para o céu em comemoração. Nick levantou os braços, os olhos brilhando de orgulho. E Charlie… Charlie simplesmente respirou. O ar voltou lentamente aos pulmões, o coração acelerado pulsando no mesmo ritmo da multidão enlouquecida ao redor.

Ele ergueu os olhos, encarou a rede, o chão da quadra, e então finalmente encontrou o olhar orgulhoso de Nick. Com todo o fogo que sentia arder dentro do peito, Charlie ergueu o punho no ar e gritou com uma força vinda das profundezas da alma:

"VOE!"

E numa única voz poderosa e triunfante, todo o Karasuno o acompanhou, ecoando pelo ginásio como uma tempestade implacável.


KENMA

Kenma observava o Karasuno celebrar o ponto com uma curiosidade rara. Aquela explosão de euforia, os gritos vibrantes, os punhos erguidos, ele compreendia que aquele era um sentimento que jamais conseguiria expressar tão intensamente. Sua própria energia era silenciosa, uma corrente profunda que fluía abaixo da superfície.

Suas mãos ainda formigavam levemente, reflexo do impacto brutal do corte de Charlie. Um corte tão afiado, tão veloz, que o forçou a uma defesa desesperada, instintiva. Kenma olhou para seus dedos por um instante, ainda sentindo a reverberação da força que havia enfrentado. O garoto chamado Charlie Spring não era só um adversário comum. Ele era mais. Era um desafio intrigante, o tipo de jogador que exigia mais do que simples lógica.

Kenma ergueu lentamente o olhar, encarando Charlie do outro lado da rede. Ele era diferente agora. Algo havia mudado desde o início do Torneio de Primavera. Charlie não pulava mais por impulso, não reagia mais ao instinto puro. Não, ele havia evoluído. Cada salto era cuidadosamente calculado, cada corte possuía um propósito claro e afiado. Sua impulsividade se transformara em precisão; sua velocidade agora tinha estratégia. Kenma sentia como se estivesse assistindo a um personagem de um jogo evoluir diante de seus olhos, desbloqueando novas habilidades, descobrindo novos caminhos.

"Você é divertido, Charlie Spring..." Kenma pensou, com os olhos estreitando levemente em interesse. "Parece que esse jogo será diferente dos outros. Não será apenas uma fase que posso passar jogando casualmente. Quem perder aqui, enfrentará um grande GAME OVER."

Aquele pensamento trouxe um leve sorriso aos seus lábios. Um sorriso quase imperceptível, sutil como ele próprio. Mas Kuroo viu. O capitão do Nekoma observava Kenma como um irmão mais velho, atento a cada nuance, cada sinal. E, ao perceber aquele raro vislumbre de animação no rosto do seu levantador, Kuroo abriu um largo sorriso, orgulhoso, radiante. Era exatamente aquilo que ele sempre buscara em Kenma: diversão genuína, um brilho autêntico nos olhos.

Kenma sentiu um arrepio de leve entusiasmo percorrer o corpo. Aquela sensação era estranha, quase desconfortável, mas, surpreendentemente, agradável. A pressão do ginásio cheio, o calor sufocante da quadra, o aroma penetrante da madeira encerada e do suor mesclado dos jogadores; tudo aquilo parecia secundário diante do desafio que Charlie representava.

“Nick e Charlie não são mais uma dupla comum. Antes, Nick brilhava sozinho. Agora, Charlie lidera os ataques com igual intensidade. É como enfrentar uma dupla de chefes em um estágio difícil. Não posso mais prever seus movimentos tão facilmente” Kenma refletia, analisando cada detalhe como um jogador habilidoso lendo uma tela cheia de dados, calculando probabilidades, estratégias, riscos.

Então Kuroo ergueu a mão, um gesto discreto, quase imperceptível, mas absolutamente claro para o Nekoma. Os jogadores se posicionaram imediatamente, prontos para responder. Kenma respirou fundo, os dedos já formigando não mais pelo impacto passado, mas pela empolgação do que estava prestes a acontecer.

"Nós também temos um ataque especial" pensou Kenma, sentindo um fogo raro de desafio e expectativa arder no peito. Era como chegar na fase final de um jogo difícil, em que cada movimento, cada decisão importava mais que nunca. Pela primeira vez, o jogo o puxava para dentro, o chamava a participar.

Kuroo, com a voz potente ecoando pelo ginásio, deu o comando final com intensidade feroz:

"O território é do gato agora!"

Kenma puxou lentamente o ar para dentro dos pulmões, os olhos dourados fixos no outro lado da quadra, especialmente atentos ao levantador do Karasuno. Pela primeira vez em muito tempo, sentia algo raro, uma sensação quase elétrica correndo pelas pontas dos dedos. Aquele não era só mais um jogo; era um desafio que o despertava profundamente.

Do outro lado da quadra, Nick se preparava para o saque. Seus olhos estavam focados, calculistas, como quem traça uma rota milimetricamente planejada. Kenma acompanhou cada mínimo movimento, como quem analisa um inimigo em um jogo complicado. A bola subiu alta das mãos de Nick, girando no ar com uma trajetória diagonal rápida e perigosa. Mas Yaku estava exatamente onde deveria estar, como uma peça estrategicamente posicionada num tabuleiro. Seus pés se deslocaram com fluidez e precisão, braços firmes recebendo a bola com uma manchete tão limpa que parecia ensaiada centenas de vezes.

A bola subiu suavemente, girando, perfeita. Kenma já estava lá, esperando pacientemente, como quem já havia previsto aquele instante muito antes dele ocorrer. Era como jogar uma fase repetida vezes demais—ele sabia cada passo que precisava dar. Porém, ainda havia um brilho novo em seus olhos, uma emoção que não estava acostumado a sentir.

"Ataque sincronizado!" O grito dos quatro atacantes do Nekoma ecoou ao mesmo tempo, reverberando pela quadra como um aviso implacável do que estava por vir.

E, naquele instante, aconteceu algo que mais parecia magia. Lev, Yamamoto, Kuroo e Kai se moveram simultaneamente, com uma perfeição absurda, quase impossível. Era como um ataque especial de um jogo, uma combinação devastadora que exigia timing absoluto e sincronia total. Kenma, no centro daquela tempestade controlada, estava calmo, tranquilo, mas a mente processava freneticamente todas as informações.

Do outro lado, Tsukishima parecia paralisado pela escolha múltipla. Seus olhos saltavam entre os atacantes, indecisos, tentando desesperadamente prever quem receberia o levantamento. A hesitação do bloqueio foi exatamente o que Kenma precisava. Ele percebeu a brecha, a mínima abertura na muralha de defesa do Karasuno.

"É você, Kai" pensou Kenma, decidido.

Seus dedos tocaram a bola com uma delicadeza precisa, enviando-a rápida e traiçoeira para trás, exatamente onde Kai já estava posicionado, escondido atrás da gigantesca silhueta de Lev, quase invisível até aquele momento.

Kai disparou com uma energia avassaladora, seu salto poderoso elevando alto acima da rede. O corte foi rápido, brutal, preciso como uma flecha disparada com força máxima. Tsukishima ainda tentou corrigir sua posição, as mãos se erguendo com velocidade, tocando de leve na bola.

"Bateu!" o bloqueador do Karasuno gritou num alerta desesperado, enquanto a bola desviava de seus dedos.

Charlie se lançou no chão num mergulho desesperado, um último recurso, um peixinho que beirava o impossível. A bola subiu fraca, descontrolada, num esforço de pura sobrevivência.

Daichi correu na direção da bola, devolvendo com um corte de emergência, uma defesa áspera e sem mira. Kenma observou tudo calmamente. Kuroo já estava lá, como um predador espreitando pacientemente o momento exato de atacar. Seus olhos estreitaram-se em confiança, as mãos subindo em um bloqueio que parecia capaz de parar qualquer coisa.

E pararam.

A bola explodiu contra o chão da quadra do Karasuno com uma violência quase ensurdecedora, como o desfecho inevitável de uma jogada perfeitamente planejada.

Ponto para o Nekoma. 1x1.

Kenma finalmente soltou o ar dos pulmões lentamente, um sorriso discreto brincando nos cantos de sua boca. Aquele, ele pensou, seria um jogo realmente divertido.

O ginásio explodiu em gritos. Torcedores do Nekoma se levantaram, bandeiras foram agitadas, tambores batidos com força. Kuroo comemorava como uma fera: os braços flexionados, o queixo erguido, os músculos marcados pelo suor. Um líder.

Ele caminhou até Tsukishima, parando bem à frente, com o mesmo sorriso afiado de sempre.

"Levanta mais os braços." disse Kuroo provocativo. "Eu tô amando ver a bola passar direto por você!"

Tsuki não respondeu, mas os olhos dele brilharam em resposta.

Kuroo voltou ao centro da quadra. Olhou para Kenma. O levantador estava calmo, como sempre, mas dentro dele... uma pequena faísca queimava.

“CONECTADOS!” gritaram todos juntos, o lema do Nekoma ecoando forte.

Kenma não sorriu, mas por dentro... estava jogando.

E quase se divertindo. Porque, para ele, aquele jogo era como um videogame perfeito. E Charlie Spring era o tipo raro de oponente que valia a pena vencer.


CRISTIAN

Cristian sentiu um arrepio percorrer sua espinha enquanto ajustava mais uma vez a faixa em torno do pulso suado. O ginásio pulsava ao ritmo dos gritos da torcida, mas ali, no centro de tudo, o mundo parecia desacelerar. Ele estava exatamente onde precisava estar, naquela posição importante e gloriosa de líbero.

Olhou para o próprio uniforme, um laranja vibrante que destoava radicalmente do preto tradicional do Karasuno. Aquela cor não era apenas estética; era uma mensagem. Uma promessa silenciosa de que ele não era como os outros. Não atacava, não bloqueava. Era o guerreiro das sombras, aquele cuja missão era impedir a queda, segurar firme a última linha antes que tudo se despedaçasse.

"O líbero não é só mais um jogador" pensou Cristian, enquanto ajustava o peso do corpo nos pés, sentindo o piso da quadra, a tensão vibrante dos músculos. "Ele é o guardião invisível, a âncora, a última defesa contra o caos. Quando todos os outros erram, eu preciso acertar. Quando todos hesitam, eu preciso agir."

O coração acelerou enquanto ele observava o outro lado da quadra. Ali estava ele: Yaku Morisuke, o lendário líbero do Nekoma. O uniforme branco se destacava fortemente em meio ao vermelho profundo da sua equipe. Cristian não conseguia desviar os olhos. Yaku era pequeno, mas era gigantesco em sua precisão. Cada defesa parecia um movimento cirúrgico, rápido, elegante, quase absurdo de tão exato. A bola nunca parecia perto o suficiente do chão para ameaçar aquele garoto implacável. Cristian admirava aquilo. Na verdade, admirava profundamente. Era como assistir a uma aula ao vivo sobre como ser o melhor líbero possível. Mas Cristian não estava ali apenas para admirar.

"Ele é incrível" admitiu baixinho, os olhos firmes na figura compacta do rival. "Mas hoje... hoje não é sobre ele. Hoje é sobre mim."

Cristian sabia que precisava ser mais do que nunca foi. Mais rápido, mais forte, mais decisivo. Cada movimento precisava ser perfeito. O peso de proteger o Karasuno estava sobre seus ombros, e ele o aceitava com orgulho. Não havia outra posição que preferisse ocupar. Não havia outro papel que o satisfizesse tanto.

Enquanto o saque do Nekoma se aproximava, Cristian sentiu um silêncio interno tomar conta do seu corpo. Flexionou ainda mais os joelhos, deixando o corpo mais baixo, pronto para reagir. O mundo parecia reduzido àquela bola girando velozmente, vindo implacável na direção do chão da sua quadra.

Naquele instante, Cristian sorriu sutilmente, os olhos brilhando com um fogo renovado.

"Eu sou o deus guardião do Karasuno!" murmurou, com determinação silenciosa. "E nenhuma bola passa por mim!"

O gigante Lev se posiciona atrás da linha de saque. Com seus quase dois metros de altura, sua presença já causava impacto só de estar ali parado. Mas, para surpresa de todos, o saque foi... vergonhoso. A bola mal passou da rede, com um efeito desajeitado e pouca força.

Cristian viu tudo acontecendo como se estivesse em câmera lenta. Charlie havia tentado salvar aquela bola difícil com um levantamento torto, o toque desesperado desviando-a de sua trajetória perfeita. Mas Nick, com um reflexo quase sobrenatural, ajustou seu corpo e correu rápido o bastante para garantir um levantamento limpo, alto o suficiente para dar uma chance real ao Karasuno.

Daichi avançou com determinação absoluta, saltando com a força e a convicção digna do capitão. O corte foi feroz, direcionado para a quadra adversária como um projétil. Mas o Nekoma era especialista nisso. Kuroo e Kai, sincronizados como máquinas precisas, saltaram juntos. O bloqueio duplo parecia uma parede sólida, impenetrável. A bola explodiu nas mãos deles, ricocheteando de volta com violência redobrada.

Nesse exato instante, o mundo parou para Cristian.

Um flash, uma memória brutal, atravessou sua mente. A semifinal contra o Seijoh, aquele bloqueio triplo monstruoso. Ele se lembrou da bola cortada com força, explodindo contra o chão exatamente à sua frente, centímetros longe de seus dedos. Cristian não alcançou aquela bola. Ele viu, impotente, o ponto final acontecer, a derrota amarga do Karasuno tomando forma diante de seus olhos.

Ele falhou naquele dia.

Mas hoje seria diferente. Hoje, Cristian não permitiria que o Karasuno voltasse a sentir aquele gosto amargo de derrota, não se ele pudesse evitar. Hoje, ele não seria apenas um líbero. Ele seria o escudo, a última muralha, o guardião que prometera ser.

"Não outra vez!" Cristian murmurou, quase em desafio ao próprio destino.

Seus olhos se fixaram na bola, seguindo-a com uma precisão absoluta. Não havia tempo para pensar. Seus músculos reagiram por puro instinto, resultado de horas, dias, meses, anos de treino incansável. Ele lançou seu corpo inteiro num salto horizontal, voando em direção ao chão da quadra com a ousadia de quem apostava tudo naquele único momento.

O impacto contra o chão foi brutal. Seu peito atingiu a superfície encerada com força suficiente para arrancar o ar dos pulmões, o som seco ecoando no ginásio. Mas a dor não importava agora. Com uma precisão que apenas a prática incansável pode garantir, Cristian deslizou pelo chão, estendendo a mão direita como um raio. Seus dedos encontraram a bola, sentindo seu peso, seu giro, sua força. E com um leve e decisivo movimento do pulso, ele empurrou a bola para cima, alta, viva, perfeita para outro ataque.

A torcida do Karasuno explodiu. Daichi soltou um grito vibrante, Charlie e Nick se prepararam para o próximo movimento. Cristian sentiu um sorriso de puro orgulho surgir em seu rosto, enquanto se levantava do chão. Seus músculos queimavam, sua respiração vinha pesada, mas ele nunca tinha se sentido tão vivo. Hoje, ele não deixaria seu time cair.

Nick foi rápido, ele chegou sob a bola e a levantou com perfeição para Asahi. O Ace saltou com ferocidade e lançou uma bomba para o outro lado. A bola veio pesada, rápida, carregada de fúria e redenção.

Lev recebeu... mal. O toque foi desajeitado, quase amador e a bola ricocheteou alta demais. Mas Kenma, com sua calma habitual, correu e ajeitou a bola com uma manchete impecável para Kuroo.

Cristian viu tudo com uma clareza quase sobrenatural.

Charlie havia saltado, o corpo disparado em direção ao alto como uma flecha determinada. À frente dele, o bloqueio formidável do Nekoma, Kuroo, imponente como um muro, saltando para interceptar o ataque com precisão mortal. O choque entre eles parecia inevitável, um confronto épico prestes a explodir no ar.

Mas, no último instante, Kuroo revelou sua jogada traiçoeira. Girou o pulso com uma elegância enganadora, desviando o ataque para fora do bloqueio, a bola deslizando pelo ar numa trajetória inesperada e perigosa, diretamente em direção a Nick.

Nick reagiu por puro reflexo. Recebeu a bola, porém, pelo toque recente, estava impedido de levantar novamente. Aquele instante, o breve intervalo entre o erro e a recuperação, era o espaço onde Cristian vivia. Seu coração explodiu em batidas aceleradas como se um tambor ecoasse dentro de seu peito.

Era sua vez.

Cristian sentiu o corpo reagir imediatamente. O líbero acelerou como um raio rumo à zona defensiva, aquele lugar atrás da linha dos três metros, onde levantadores se posicionavam para acalmar o jogo, para restabelecer o ritmo. Mas hoje, aquele espaço era seu palco, sua área de domínio absoluto. O uniforme laranja vibrante brilhava sob as luzes intensas do ginásio, como se gritasse para o mundo sua importância.

Ele não era levantador. Não carregava a calma técnica de Nick, nem a altura intimidante de Tsuki. Mas Cristian lembrava claramente de Watari, o líbero do Seijoh, realizando levantamentos tão precisos que ficaram gravados em sua mente como inspiração eterna.

Era sua vez de fazer história.

Cristian avançou rápido, com os pés quase voando sobre a quadra encerada. Em um movimento fluido, saltou para frente, desafiando a gravidade, e seus braços estendidos se fecharam na manchete perfeita. A bola tocou suas mãos com leveza surpreendente, girando no ar com suavidade quase irreal, como se estivesse dançando sobre uma corrente invisível.

O ginásio inteiro prendeu a respiração.

A bola subiu com uma curva sublime, atingindo o ápice exato. Uma parábola perfeita, desenhada no ar como obra de arte, caindo com suavidade exatamente no ponto ideal. Cristian sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo. Aquele levantamento não era apenas técnica. Era coração, instinto e dedicação.

Asahi já estava lá, emergindo do fundo da quadra com força devastadora. Seu grito ecoou pelo ginásio inteiro, marcando o início de uma nova ofensiva. Girou o corpo em pleno ar e golpeou a bola no auge de seu salto com uma intensidade brutal. A explosão atingiu o bloqueio formado por Kuroo e Lev, desviando-se das mãos adversárias e escapando para fora das linhas da quadra.

Ponto para o Karasuno.

A torcida explodiu em um grito coletivo, ensurdecedor. Cristian caiu de joelhos, ofegante, as mãos trêmulas apoiadas no chão, o peito subindo e descendo rápido, sentindo a exaustão do esforço misturada à pura satisfação da vitória. Naquele instante, Cristian sentiu algo maior dentro de si. Não havia sido apenas uma defesa ou um levantamento. Havia sido a jogada de sua vida. Naquele ponto decisivo, ele não foi apenas mais um jogador em quadra. Foi o pilar que manteve vivo o sonho do Karasuno. A última muralha. A engrenagem silenciosa que girava e sustentava o coração do time.

Erguendo lentamente o rosto, seus olhos se desviaram para o outro lado da rede, quase por instinto. Foi então que viu Yaku, o lendário líbero do Nekoma. Seu rival, mas também seu ídolo. Aquele que ele admirava em silêncio desde sempre. Yaku, sem alterar a expressão séria, ergueu calmamente um polegar, firme e decidido. Não houve palavras nem sorrisos exagerados. Apenas aquele gesto simples, um reconhecimento discreto e profundo.

O coração de Cristian parou por um instante.

Era como se o mundo tivesse silenciado por completo. Ele não conseguia respirar. Aquele polegar erguido, aquela simples aprovação de seu adversário mais admirado, era como receber uma medalha invisível, um troféu mais valioso que qualquer outro.

"Isso foi incrível, Cris!" exclamou Nick, correndo até ele, com os olhos brilhando de orgulho genuíno.

Cristian apenas assentiu, incapaz de articular palavras naquele momento. Sua respiração ainda vinha descontrolada, os músculos exaustos tremiam, mas nada disso importava. Porque, naquele instante, ele havia sido reconhecido pelo melhor líbero do colegial.

Para Cristian, aquele polegar erguido de Yaku valia mais que qualquer aplauso, qualquer medalha. Era a prova de que ele havia finalmente se tornado o líbero que sempre quis ser. O guardião silencioso, o coração pulsante da defesa, digno de respeito até mesmo dos seus maiores rivais.


NICK

O jogo avançava com a força de um trem em alta velocidade, impossível de parar, impossível de ignorar. Cada ponto era conquistado à unha, como se o mundo dependesse de cada rali, de cada saque, de cada bloqueio. Corvos e gatos se enfrentavam como forças ancestrais presas em um ciclo eterno de rivalidade.

10x12 para o Karasuno.

15x16, ainda com os corvos à frente.

19x18, Nekoma virava.

20x20. Tudo igual.

O set seguia como uma respiração ofegante, cheia de tensão e entrega. Nenhum time cedia. Nenhum jogador titubeava. Era o tipo de jogo que virava história.

Nick enxugou o suor da testa com o dorso da mão, os pulmões trabalhando como se queimassem por dentro. A quadra parecia menor a cada jogada, como se os limites estivessem se fechando, apertando, testando a resistência de todos.

Ele se posicionou para a próxima jogada, os olhos varrendo o ambiente por reflexo, até que... pararam.

Na arquibancada.

Entre os gritos da torcida e os banners agitados, uma figura solitária o observava com olhos firmes. Oikawa Tooru. Sem sorrisos debochados. Sem o brilho teatral que costumava usar para esconder o que sentia. Ali, naquele instante, ele só observava. Não como rival. Não como fantasma do passado. Mas como alguém que compreendia o peso de carregar um time, a responsabilidade de erguer uma equipe com as próprias mãos.

Os olhos mel encontraram os olhos azuis e por um segundo, tudo desacelerou. Oikawa acenou levemente com a cabeça. Um gesto quase imperceptível, mas Nick entendeu. Não era uma provocação. Era respeito. Era um velho amigo dizendo a um jovem levantador: você está indo bem. Continue.

O coração de Nick bateu mais forte, mas não de nervosismo. De reconhecimento. De pertencimento. Ele não estava mais sob a sombra de ninguém. Era ele quem estava em quadra agora. Era ele quem conduzia. De volta ao presente, Nick retornou ao seu lugar na formação. Kuroo o encarava do outro lado da rede, com aquele sorriso torto, arrogante, afiado como uma navalha.

"Tá com medo, Nickzinho?" provocou, num tom baixo, arrastado. "Sabe que gatos comem corvos, né?"

Nick segurou o olhar. Nem piscou. Um sorriso igualmente venenoso se desenhou em seu rosto, mas havia algo mais por trás dele: tranquilidade. Confiança.

"Tô morrendo de medo de vocês, Kuroo. Vocês não têm ideia..." Ele inclinou o queixo em direção à linha de fundo. "Mas se fosse você... eu trocava logo de fralda. Porque aquele carinha ali vai fazer vocês se cagarem todinhos."

Kuroo franziu o cenho, confuso. Seguiu o olhar de Nick.

Era Tao.

O camisa 12 do Karasuno já estava na linha de saque. Nick o observava com atenção absoluta. Aquilo não era apenas um jogador prestes a sacar, era como assistir uma flecha sendo tensionada ao limite em um arco invisível. Os joelhos flexionados, a coluna ereta, os olhos estreitos como lâminas. Tao era magro e alto e estava um pouco nervoso, mas havia nele uma energia condensada, uma tensão silenciosa que fazia o ar ao redor vibrar.

Ele bateu a bola contra o chão. Uma, duas, três vezes. Depois, a girou nas pontas dos dedos com uma leveza quase ritualística, como se estivesse encantando o próprio ar. Não havia hesitação. Só precisão. Nick sabia o que estava prestes a acontecer. Já havia sentido isso antes. Era como acender um fósforo dentro de um galpão cheio de pólvora. Tao não apenas sacava, ele invocava.

O garoto respirou fundo. O mundo pareceu prender o ar junto com ele. E então arremessou a bola. O saque flutuante saiu limpo, perfeito. Sem rotação. Sem lógica. A bola desafiava a física, dançando no ar com zigue-zagues imprevisíveis, como uma folha rebelde em queda livre. Era impossível prever sua rota. Ela não vinha reta, vinha viva.

Do outro lado, Yamamoto avançou. Seus olhos acompanhavam a trajetória, mas seus pés não conseguiram acompanhar o tempo da leitura. O moicano se lançou à frente com o corpo inteiro, mas a hesitação de um segundo foi suficiente. Os braços erraram o tempo. A bola passou entre eles. E caiu direto no fundo da quadra.

Silêncio.

Por um instante, ninguém se moveu.

Então o apito soou. O juiz ergueu o braço. Ace.

A torcida do Karasuno explodiu em gritos. Tao apenas baixou os braços, ofegante, os olhos ainda brilhando. Nick sorriu de orgulho.

20x21 para o Karasuno.

Kuroo cerrou os olhos, ergueu o rosto em frustração como se dissesse: "Eu não acredito nisso!"

"Yaku!" ele gritou. "Próxima é contigo, beleza?"

O líbero assentiu, atento, os olhos fixos em Tao.

Todos os jogadores do Karasuno correram para abraçar Tao, que revirou os olhos fingindo irritação.

"Vocês são muito dramáticos!" Tao murmurou, mas um sorriso escapava nos cantos da boca.

Tao voltou para o segundo saque. Ele arremessou a bola novamente, com um movimento idêntico, a mesma trajetória instável. Dessa vez, ele evitou Yaku e mirou Kai. A recepção veio torta. Yaku ainda se lançou no chão com velocidade para salvar, mas a bola escapou por centímetros de seus dedos.

20x22 para o Karasuno.

"Acho que os gatinhos estão com o rabo entre as pernas..." Nick provocou, sorrindo abertamente para Kuroo.

Kuroo não respondeu de imediato. Só respirou fundo e manteve a postura de capitão. Mas por dentro, sabia que precisavam de uma virada.

No terceiro saque, Tao arremessou a bola com a mesma confiança. Mas desta vez, Yaku estava pronto. Ele se posicionou perfeitamente, como se antecipasse cada movimento da bola e a recebeu com precisão impecável. A bola flutuou até Kenma, que nem precisou pensar muito. O levantamento saiu rápido para Kai, que cravou a bola com brutalidade no chão da quadra do Karasuno.

21x22. Nekoma resistia.

As arquibancadas vibravam, o Ginásio Sendai pulsava em tensão viva. E entre provocações e saques afiados, a batalha do lixão ganhava contornos de épico.

A bola veio forte no saque de Yamamoto, mas Cristian estava pronto. Ele se abaixou rapidamente, o corpo baixo e firme, os olhos fixos na trajetória. O contato com os antebraços foi limpo, preciso, e a bola subiu com suavidade, girando no ar em direção ao levantador.

Nick já estava em movimento. Seus pés se alinharam, o corpo girou, e o levantamento saiu com maestria. A bola descreveu uma curva perfeita no alto da quadra, caindo na direção do fundo.

Asahi, o Ace do Karasuno, vinha correndo com o corpo inclinado para frente, como uma flecha prestes a ser lançada. Quando saltou, o mundo pareceu parar. A bola veio ao encontro de sua mão com exatidão cirúrgica. E então, ele desferiu o golpe. Um corte explosivo. A bola estourou no ar como um trovão. Yaku, mesmo sendo um líbero extraordinário, conseguiu apenas amortecer a bola com os braços. O impacto foi tão grande que a recepção perdeu a direção e a bola saiu pela lateral, sem chance de recuperação.

21x23 para o Karasuno.

Marcar um ponto em cima de Yaku não era apenas estatística. Era moral. Era respiração ofegante virando rugido. Era o olhar de Asahi mais afiado, mais seguro. Era o Karasuno ganhando altura, impulso, confiança.

Agora era a vez de Nick no saque.

Ele caminhou até a linha de fundo com passos calculados. Respirou fundo. Pegou a bola com ambas as mãos e a segurou por alguns segundos, sentindo o peso exato, o centro de gravidade, a superfície ligeiramente áspera.

“Só faltam dois pontos.” pensou

Antes de se posicionar, Nick olhou rapidamente para a arquibancada. E lá estava ele. Oikawa. Impecável, sentado entre os outros espectadores, mas com o olhar focado apenas nele. O capitão da Seijoh ergueu uma das mãos sutilmente, fazendo um gesto simples, uma subida com os dedos, seguida por uma queda delicada da palma.

“Saque viagem.” Nick entendeu na hora.

Era quase como se Oikawa dissesse: “Confie no seu braço”.

Ele ajeitou a bola mais uma vez, tomou distância atrás da linha de fundo e iniciou sua corrida. Dois passos rápidos. Um impulso vigoroso.

No ar, seu corpo se projetou como o de um atacante. O braço direito se preparou, elevado para trás, cotovelo alto. Ele mirou o ponto mais alto da bola e desferiu o golpe. O som seco da palma batendo com força na bola ecoou pelo ginásio. O saque viagem de Nick foi perfeito. A bola viajou como um míssil, rápida, pesada, com um efeito curvo e descendente que desestabilizou por completo a recepção do Nekoma. Kai ainda tentou se mover, mas a bola já estava no chão.

21x24. Set Point para o Karasuno.

O ginásio explodiu em gritos. Tao pulava de um lado, Charlie fechava os punhos em frente ao peito e Daichi ergueu os braços. Nick não comemorou, apenas sorriu e com os olhos, procurou novamente Oikawa na arquibancada.

Desta vez, Oikawa sorriu de volta. Pequeno. Orgulhoso. Nick conseguiu ler os lábios dele: “Belo saque, Niko.”

O ginásio de Sendai fervilhava. As arquibancadas tremiam com os gritos, bandeiras sacudiam no alto, vozes se sobrepunham num coro ensurdecedor. O Karasuno estava a um ponto de fechar o primeiro set. Mas do outro lado da rede, o Nekoma se armava como uma muralha paciente, esperando a chance de virar o jogo.

Nick voltou para a linha de saque. O suor descia pelas têmporas, mas seus olhos estavam firmes. Seu corpo inteiro parecia sintonizado com algo maior. Com a bola em mãos, ele estudou com atenção a formação do Nekoma. Eles estavam prontos para mais um saque viagem. Kuroo já recuava para o fundo, Yaku estava em posição defensiva perfeita e até Kenma, que raramente se movia com urgência, ajeitava os pés com foco incomum.

Eles esperavam o trovão.

Mas Nick decidiu mandar o relâmpago.

Com precisão calculada, Nick lançou a bola um pouco mais baixa que o normal, executando um saque flutuante leve e direto. A bola cortou o ar como uma lâmina silenciosa, veloz e traiçoeira, caindo inesperadamente no colo de Kenma.

O líbero do Nekoma tentou reagir e até conseguiu. Os braços de Kenma se firmaram, e a bola subiu… mas alta demais. Descontrolada. O efeito surpreendente do saque a fez perder direção e ela cruzou o topo da rede, voltando diretamente para o lado do Karasuno.

“Minha!” gritou Cristian, correndo com o corpo esticado e os olhos colados na bola. Ele fez a recepção perfeita, levantando com firmeza para Nick.

O ginásio inteiro prendeu a respiração. Nick avançou dois passos. Charlie estava pronto. Não foi preciso um sinal, um grito ou um gesto. Bastou um olhar. Nick sabia. Charlie sabia.

O levantador fez o levantamento mais rápido do set. Um toque rápido, rente à rede, preciso como um compasso. E Charlie disparou. Seus pés deixaram o chão com uma leveza absurda, o corpo se elevou como se desafiando a gravidade. Kuroo tentou acompanhá-lo no bloqueio, mas chegou um segundo atrasado.

O golpe de Charlie foi violento e limpo. A bola explodiu contra o chão da quadra do Nekoma antes que Yaku pudesse sequer se mover. Um silêncio tomou o ginásio por um segundo.

E então...

O som seco do impacto ecoou. Ponto para o Karasuno.

21x25. O primeiro set era dos corvos.

Charlie caiu de pé, o punho ainda aberto. Por um instante, seus olhos se fecharam e ele sorriu, sentindo a vibração da quadra sob os pés. Ele havia cravado mais do que uma bola, havia fincado o Karasuno no topo daquele primeiro embate. Nick correu até ele e o envolveu em um abraço apertado. Tao saltava ao redor como um raio, Harry e Daichi batiam as mãos com força, e até Tsukishima permitiu um pequeno sorriso.

Nas arquibancadas, o Karasuno parecia ter ganhado não apenas o set, mas também o coração do ginásio. A torcida explodia em euforia. Isaac agitava uma faixa onde se lia “VOEM, CORVOS!”, enquanto Tara e Darcy erguiam cartazes cintilantes de glitter preto e laranja com o nome de cada titular. Elle, com os olhos marejados de emoção, pulava de mãos dadas com Tara, gritando o nome de Tao e Charlie com toda força.

Mais ao fundo, entre os degraus altos da arquibancada, Oikawa observava tudo de braços cruzados. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios. Seus olhos mel acompanhavam Nick e Charlie com uma mistura de orgulho e desafio.

Na quadra, os jogadores começavam a trocar de lado, mas a tensão não se dissipava. Pelo contrário, ela parecia mais densa, mais elétrica, como se cada passo deixasse rastros de faísca no chão polido do Ginásio Sendai. O Karasuno havia vencido o primeiro set. Mas ninguém ali comemorava com euforia. Sabiam que a guerra estava longe do fim.

Kuroo foi o primeiro a atravessar a lateral da quadra. Os olhos fixos em Nick e Tsukishima, firmes e desafiadores. Havia provocação no olhar, mas também respeito. Ele entendia o que estava diante dele. Aquele não era mais o Karasuno que conhecia. Havia algo novo ali. Algo mais afiado. Mais perigoso. Um time renascido das próprias falhas.

Yamamoto, fervendo por dentro como uma panela prestes a explodir, passou por Harry e esbarrou de propósito no ombro dele. Mas o loiro apenas sorriu com desdém, jogando o cabelo para trás, como quem diz: “é só isso?”

Cristian e Yaku se cruzaram no centro da quadra. Não trocaram palavras, só um breve aceno de cabeça. Mas naquele gesto silencioso havia algo imenso. Uma linguagem própria entre líberos. Respeito entre guardiões. Reconhecimento entre aqueles que defendem com o corpo e com a alma.

E então veio Lev.

Como uma torre ambulante, com os músculos tensionados e a energia vibrando sob a pele, ele parou em frente a Charlie. Os dois centrais se encararam por um segundo longo. Um duelo silencioso. Lev ergueu o punho, firme.

Charlie hesitou por meio segundo... e então respondeu com um toque seco de punhos.

Respeito. Mas também um aviso.

Os corvos voltavam para o seu lado. Asas erguidas. Corações em chamas. O set estava vencido, sim, mas era apenas o início. O Karasuno havia mostrado que podia lutar. Agora, teria que provar que podia resistir.

O segundo set não prometia apenas continuidade.

Prometia fogo.

Notas finais
Se você chegou até aqui, meu coração te abraça! Obrigada por acompanhar esse capítulo tão importante pra mim. Escrever essa batalha foi como reviver o melhor de Haikyuu!!, mas com a emoção crua e íntima dos meus próprios personagens. Cristian se superando, Charlie encarando seus medos, Nick amadurecendo diante dos olhos de Oikawa… foi tudo tão intenso! E ver o Nekoma brilhar também é sempre um presente, porque eu amo esses gatos felinos metódicos (Kenma, você é um gênio silencioso). Esse capítulo é um marco, o início da retomada, da resposta que o Karasuno precisava dar ao mundo e a si mesmo. Obrigada, de verdade, por ler. Nos vemos no próximo ponto. Com carinho, Bia.