Match Point
20 ARCO 2 DOMINE! - Capitulo 19 - Domine a Quadra
Notas iniciais

O ginásio do Aoba Jōsai estava tomado por uma energia quase elétrica. As paredes altas, cobertas por faixas e banners azul-marinho com o emblema do Seijoh, reverberavam o som pulsante das palmas e dos gritos entusiasmados. A iluminação, levemente dourada, fazia a quadra brilhar como um palco, e os holofotes realçavam cada movimento dos jogadores.
A arquibancada estava cheia – alunos, ex-alunos e famílias, todos vestindo as cores azul e branca, formando um mar vibrante de apoio. Alguns agitavam bandeiras do Seijoh com fervor, outros seguravam cartazes escritos à mão com frases como “Vamos, Aoba Jōsai!” ou “Oikawa é o melhor!”. Havia inclusive estudantes com o rosto pintado em azul e branco, olhos arregalados de empolgação, gritando o nome do time a cada jogada bem-sucedida.
O som das solas de borracha raspando no piso encerado se misturava ao barulho seco e ritmado da bola batendo contra a madeira, ecoando em harmonia com o coro da torcida. Era um ambiente onde cada ponto conquistado vibrava nas arquibancadas e reverberava no peito dos jogadores em quadra. O ginásio inteiro parecia pulsar junto com o time, como se o próprio espaço estivesse vivo e respirando com o Aoba Jōsai.
O ginásio fervia em uma batalha de vozes. O canto da torcida do Seijoh ecoava como um trovão, enchendo cada canto das arquibancadas com uma força esmagadora. Os torcedores azul e branco formavam uma parede de som que parecia sacudir as estruturas do lugar.
“VAI LÁ, FORÇA, FORÇA, SEIJOH! VAI LÁ, FORÇA, FORÇA, SEIJOH!”
O grito coletivo reverberava como ondas de choque, subindo das arquibancadas e despencando sobre a quadra com um peso quase físico. A cada ponto marcado pelo Seijoh, o coro crescia em uníssono, acompanhado pelo retumbar dos pés batendo nas arquibancadas e pelas bandeiras azuis tremulando com violência.
No meio daquela tempestade, a torcida do Karasuno resistia. Isolada em um dos cantos do ginásio, o pequeno grupo de apoiadores laranja e preto fazia o possível para abafar, ao menos um pouco, a força do Seijoh. Era uma luta desleal em número, mas não em paixão.
“VOE, VOE, VOE KARASUNO!”
As vozes do Karasuno eram mais cruas, mais rasgadas, mas carregadas de garra. Bandeirinhas pretas e laranjas agitavam-se sem parar, enquanto tambores improvisados marcavam o compasso dos gritos. Isaac e Darcy batiam nos tambores com energia, enquanto Elle e Tara lideravam o coro com as mãos em concha, projetando as vozes com toda a força.
“VAI LÁ, FORÇA, FORÇA, SEIJOH!”
“VOE, VOE, VOE KARASUNO!”
“VAI LÁ, FORÇA, FORÇA, SEIJOH!”
“VOE, VOE, VOE KARASUNO!”
A quadra era o campo de guerra, mas as arquibancadas travavam uma batalha à parte. Cada lance em quadra parecia mais difícil para o Karasuno, não apenas pela habilidade do Seijoh, mas pelo rugido ensurdecedor daquela maré azul e branca que os encurralava em território inimigo. E para cada ponto, cada saque e cada defesa, o Karasuno precisava não só enfrentar o adversário em quadra, mas também o grito esmagador de milhares de vozes dizendo que aquele ginásio não lhes pertencia.
A porta lateral do ginásio se abriu, e o Karasuno entrou primeiro. O uniforme laranja e preto se destacava contra o azul dominante do ginásio, suas cores vibrantes parecendo gritar resistência em meio à torcida adversária. Os jogadores caminhavam com passos firmes, os olhos fixos à frente, ignorando os gritos ensurdecedores ao redor. Daichi liderava o time, o olhar sério, carregado de determinação. Charlie caminhava ao lado de Nick, seus dedos flexionando instintivamente, sentindo a adrenalina começar a correr por suas veias.
O Aoba Jōsai veio logo em seguida. O impacto da entrada do time da casa foi imediato—um rugido tomou conta do ginásio quando os jogadores, alinhados e impecáveis em seus uniformes branco e azul-celeste, cruzaram a quadra. Oikawa estava na frente, andando com uma confiança que parecia natural, quase teatral. Seus movimentos eram calculados, mas sem parecer forçados. O sorriso em seu rosto era leve, mas os olhos afiados vasculhavam cada detalhe do time adversário.
No centro da quadra, os jogadores de ambos os times se preparavam para a apresentação oficial. O Aoba Jōsai, de uniforme branco com detalhes azul-celeste, parecia impecável, alinhado, preparado para o confronto. O Karasuno, com o laranja e preto contrastando fortemente contra o azul dominante, era um grupo menor, mas igualmente determinado.
Quando os times chegaram frente à frente, o silêncio foi absoluto. O peso da expectativa tomou conta de todos no ginásio. A troca de olhares era intensa, como se cada um tentasse ler o outro, antecipando os movimentos, as jogadas. Os olhares eram carregados de significado, e o tempo parecia esticar à medida que as mãos começaram a se estender para o cumprimento ritual.
Charlie caminhou até Oikawa com passos firmes, cada movimento seu carregava a tensão acumulada da semifinal que estava prestes a começar. A distância entre os dois diminuiu até que a rede entre eles se tornou quase irrelevante. Ao estender a mão, não foi apenas um cumprimento – era uma declaração muda de intenções.
Oikawa recebeu o gesto com leveza, mas havia uma tensão sutil em seus ombros. O aperto da mão de Charlie foi firme, mais forte do que o habitual. Era quase uma luta silenciosa de vontades. Charlie manteve o contato um segundo a mais do que o necessário, sem desviar o olhar, os olhos azuis-acinzentados fixos nos castanhos mel de Oikawa.
Oikawa respondeu com um sorriso contido, o tipo de sorriso que escondia mais do que mostrava. Seus olhos, reluzindo com uma mistura de desafio e diversão, encararam Charlie como se estivessem analisando cada centímetro da sua postura. Ele manteve o semblante relaxado, mas o brilho sutil em seu olhar denunciava que ele estava ciente daquela batalha velada.
E então, num gesto rápido e quase imperceptível, Oikawa piscou para Charlie, como se aceitasse silenciosamente o confronto que estava por vir.
O aperto de mãos se desfez, mas o peso daquele instante permaneceu. Um campo de batalha foi traçado entre eles antes mesmo da bola subir.
A tensão se tornou quase palpável quando Nick deu o passo à frente. O burburinho da torcida e o som das palmas pareciam amortecidos, como se o ginásio tivesse mergulhado em silêncio. Só havia Oikawa, parado à sua frente, e o peso da história que os dois carregavam. Nick estendeu a mão devagar, mas seu gesto estava impregnado de um misto de pesar e resignação. Oikawa não hesitou. Apertou a mão de Nick com firmeza, os dedos fortes entrelaçando os dele com intensidade.
Os olhares se encontraram e o ar ao redor deles pareceu mais denso. Oikawa sustentava o contato com um brilho sombrio no olhar – não havia leveza ali, apenas uma provocação silenciosa, um lembrete cruel das cicatrizes que dividiam os dois. O sorriso, desta vez, não apareceu em seus lábios. O que havia era um desafio. Um convite para a guerra.
Já o olhar de Nick era carregado de algo mais profundo – mágoa, arrependimento, e uma tristeza difícil de esconder. Cada segundo naquele aperto de mão revivia as noites de treinos, as conversas interrompidas, as decisões que os colocaram em lados opostos da rede. O passado estava ali, nu, entre as duas mãos apertadas com força.
O aperto demorou um instante a mais do que o necessário. Oikawa não piscou, o olhar cortante. Nick não recuou, mas sentiu o peito pesar. Era mais do que uma rivalidade. Era a confirmação silenciosa de que aquele duelo, finalmente, estava prestes a acontecer. Quando soltaram as mãos, ambos sabiam – não era só uma semifinal. Era um acerto de contas.
DAICHI
Daichi se aproximou da linha central da quadra, erguendo com firmeza a bandeira preta do Karasuno. As letras brancas – VOE – pareciam vibrar em suas mãos, como um lembrete silencioso da responsabilidade que carregava. Oikawa caminhou até ele com passos leves, quase relaxados, a bandeira azul-celeste do Aoba Jōsai tremulando em sua mão. DOMINE A QUADRA. A frase reluzia, imponente, sob a luz dos refletores.
Daichi manteve sua postura rígida, o semblante fechado, pronto para encontrar o Oikawa que imaginava – arrogante, desdenhoso, frio. Mas o que recebeu foi algo completamente diferente. Oikawa estendeu a bandeira com um sorriso carismático, leve e natural, os olhos brilhando como se estivesse aproveitando cada segundo da ocasião.
"Bom jogo para vocês!" disse Daichi, em tom firme, quase automático.
Oikawa sorriu ainda mais, inclinando levemente a cabeça. "Bom jogo pra gente!" respondeu com tanta positividade e entusiasmo que Daichi precisou piscar duas vezes para processar.
Era estranho. Aquela presença calorosa e despreocupada não combinava com a imagem que ele formara de Oikawa – a de um capitão frio e calculista. Daichi sentiu um desconforto súbito, como se estivesse diante de um rival que jogava em mais de uma camada. Ele reconhecia a habilidade de Oikawa em quadra, mas não esperava ser desarmado tão cedo, e de forma tão simples.
A troca foi feita, e Daichi recuou, ainda com aquela sensação estranha no peito. Oikawa apenas voltou ao seu lado da quadra, casual, brincando com o mastro da bandeira como se estivesse passeando em um parque. O sorteio foi breve. E para o Karasuno, caberia o primeiro saque. Mesmo assim, Daichi não conseguiu tirar da cabeça aquele sorriso – e o quanto ele parecia esconder algo mais profundo.
Assim que Daichi pisa na quadra, sente o peso do momento. O barulho das arquibancadas ecoa ao redor, mas ele filtra tudo. O cheiro do piso encerado, o brilho das luzes sobre o ginásio, a tensão no ar. A energia ali dentro é diferente de qualquer outro jogo que já jogaram. Esse não é só mais um confronto – é a chance de chegarem à final. O Karasuno já foi chamado de time caído, de corvos sem asas, mas hoje eles voariam mais alto do que nunca.
Ele ergue os olhos para seu time. Tantas personalidades distintas, estilos de jogo únicos, alturas diferentes – e mesmo assim, quando jogam juntos, são uma única entidade. Ele confia neles. Cada um deles treinou até o limite, e agora era a hora de provar que tudo valeu a pena.
"No centro, Karasuno!" Sua voz ressoa firme, chamando seus companheiros. Assim que todos se aproximam, ele inspira fundo, sentindo a adrenalina pulsar. "Estamos a dois ou três sets da final. Lutamos demais para chegar até aqui e não vamos parar agora. Vamos mostrar pra eles que corvos podem alcançar o topo!"
A energia no grupo muda. Os olhares se tornam mais afiados, os punhos se cerram. Eles entendem. Eles sentem.
"Nós treinamos até o corpo doer, jogamos até não ter mais força e levantamos toda vez que caímos! Esse é o nosso momento! Não vamos voltar pra casa sem lutar até o último ponto!" Ele estende a mão para o centro, esperando que os outros o sigam. Sem hesitação, os companheiros unem suas mãos sobre a dele.
"VOE!" O grito em uníssono faz o ginásio inteiro vibrar.
Daichi encara seus companheiros, um pequeno sorriso no canto dos lábios. "A treinadora me disse que vai ter churrasco depois do jogo... então, se vocês querem comer, é melhor ganharmos isso!"
Risadas leves se espalham pelo grupo, mas a motivação está ali. Eles estão prontos. Daichi sente o coração acelerar. Agora, tudo o que importa é o jogo.
OIKAWA
Oikawa caminhava até o círculo de jogadores com aquele ar leve e descontraído, como se estivesse apenas brincando de estar ali. Seus braços balançavam de forma solta, e o sorriso habitual nos lábios trazia um tom quase irônico de serenidade. “Maravilha! Então vamos nessa!” disse com a voz animada, as palmas das mãos batendo uma contra a outra de maneira casual.
Mas então, ele parou de repente, girando o corpo para encarar o time. O sorriso desapareceu. Seu olhar mel se tornou afiado como uma lâmina. “E como sempre...” sua voz desceu uma oitava, mais baixa e carregada de um peso que arrepiou cada um dos jogadores. “EU CONFIO EM VOCÊS!” Desta vez, não era apenas um grito de incentivo. Era uma ordem. Uma promessa. Uma responsabilidade lançada diretamente para o coração de cada jogador.
A mudança foi imediata.
Kunimi, que costumava manter sua expressão entediada, cerrou os punhos e os olhos adquiriram uma intensidade incomum. Kindaichi, ao lado dele, endireitou as costas e estalou o pescoço, pronto para dar tudo de si. Watari, o líbero, apertou a faixa ao redor da testa com mais força, respirando fundo como quem se preparava para uma guerra.
Iwaizumi foi o único que sustentou o olhar com Oikawa, seus olhos se estreitando com um brilho cúmplice. Ele conhecia Oikawa melhor do que ninguém ali – sabia que aquele tom sério e penetrante significava que o capitão estava se entregando por completo àquela partida. Iwaizumi assentiu levemente, como quem aceitava silenciosamente a liderança do amigo e parceiro.
O Seijoh inteiro mudou. A descontração do aquecimento evaporou no ar. Agora, havia uma tensão controlada, uma determinação silenciosa em cada rosto. Os ombros estavam firmes, os olhares concentrados e a sincronia era palpável. Eles sabiam que Oikawa não era apenas o cérebro do time – ele era a força que os mantinha unidos, que elevava suas habilidades além do que cada um poderia alcançar sozinho.
A confiança não era apenas em suas palavras, mas no histórico. Em todas as vezes que Oikawa, com sua mente afiada, havia conduzido o Seijoh em partidas impossíveis. Ali, mais do que uma tática, mais do que um plano, havia uma certeza silenciosa que unia todos eles: eles confiavam cegamente em Oikawa. E fariam qualquer coisa para não decepcioná-lo.
Oikawa se aproximou da rede com passos calculados, o corpo relaxado, mas o olhar afiado e direto. Cada movimento parecia coreografado, como se quisesse deixar claro que ele estava no controle do momento. Ao chegar na linha de frente, seus olhos imediatamente encontraram os de Nick, e naquele instante o tempo pareceu desacelerar. A rede entre eles parecia mais uma linha tênue dividindo não só duas equipes, mas dois passados que se cruzavam ali.
“Niko...” Oikawa disse, a voz carregada de provocação, um tom leve, mas com uma ponta cortante. “Eu vim todo empolgado hoje para te ver jogar. Dê o seu melhor e segure as pontas! Porque eu darei o meu...”
Nick abriu a boca para responder, mas foi interrompido por passos rápidos se aproximando.
“Nós não vamos perder!” Charlie disse, cortando o espaço entre eles e ficando lado a lado com Nick. Sua voz saiu firme e decidida, e por um breve segundo, o silêncio entre os três ficou pesado.
Oikawa arqueou uma sobrancelha, surpreso pela interrupção inesperada. Mas logo seu sorriso se alargou de forma travessa quando percebeu o que aquele gesto significava. O brilho nos olhos de Charlie, o modo como ele se postava ao lado de Nick, como se dissesse silenciosamente que não deixaria que o provocassem. Aquilo não era só rivalidade em quadra — era cuidado. Era lealdade.
“Vocês são um ótimo casal!” disse Oikawa com um tom brincalhão, mas com uma pontada de verdade, piscando para Charlie.
Charlie, pego de surpresa, ficou boquiaberto, as bochechas ficando levemente coradas. Nick, ao lado dele, estreitou os olhos, mordendo o canto da boca, claramente tentando se manter calmo.
“Se deu bem Tampinha” Oikawa pisca para Charlie e depois encara Nick.
Antes que o clima pudesse ficar mais denso, um cascudo leve pousou sobre a cabeça de Oikawa, bagunçando seu cabelo de forma despreocupada.
“Para de provocar o outro time, bobo-kawa,” resmungou Iwaizumi, chegando como um sopro de realidade e afeto. O tom de sua voz era firme, mas o sorriso de canto denunciava um carinho íntimo e discreto que só quem estava perto percebia.
Oikawa se encolheu sob o toque, massageando a cabeça com uma careta forçada. “Ai, minha cabeça...” murmurou antes de se afastar lentamente.
Quando voltou para seu lugar na quadra, Oikawa ainda trocou um último olhar com Nick por sobre o ombro. Era um olhar afiado e carregado, mas também havia uma ponta de nostalgia ali, uma lembrança silenciosa de tudo o que já haviam vivido. E então, com um sorriso mortal no rosto, Oikawa se virou, deixando o ar entre eles elétrico, como uma promessa de que aquele duelo só estava começando.
NICK
A quadra do Aoba Jōsai estava pulsando com energia. O barulho das arquibancadas, saturado com os gritos da torcida, reverberava pelas paredes, e a atmosfera era carregada de uma tensão quase palpável. Quando os times se alinharam para o saque, os olhos estavam fixos, os corpos tensos, prontos para o confronto.
Tsukishima, com seus 1,90 metros de altura, deu um passo à frente. Ele fez um saque certeiro, embora com pouca força. A bola foi alta, mas a trajetória foi precisa, indo diretamente para o campo adversário. “Tsuk, força no saque!” gritou Harry, cheio de energia.
Nick observava atentamente a movimentação coordenada do Seijoh. Era nítido o quanto Oikawa havia lapidado seu time – cada jogador sabia exatamente onde estar e quando agir. Kunimi, posicionado na linha de trás, já preparava sua postura, com os joelhos flexionados e os olhos fixos na bola, a leitura de jogo dele era impecável. “É minha!” gritou, enquanto amortecia a bola com uma recepção firme e limpa, fazendo com que a bola subisse em um arco perfeito até a linha da frente.
Oikawa deslizou em direção à bola, os pés leves no piso encerado, seu corpo relaxado mas pronto para qualquer movimento explosivo. Os olhos atentos dele varriam a quadra como de costume, e Nick, do outro lado da rede, o acompanhava com a respiração presa, tentando decifrar o que viria a seguir.
"Eu tô doido para ver que tipo de levantador ele se tornou", pensou Nick, observando enquanto Kindaichi e Iwaizumi corriam para suas posições nas extremidades, prontos para saltar para o ataque.
Oikawa ergueu o braço como se fosse armar um levantamento tradicional, o corpo inteiro em sincronia com o movimento. Nick, instintivamente, e também Tsukishima e Charlie no bloqueio, saltaram para conter o que pareciam ser ataques laterais.
Mas era um blefe.
“Minha!” Oikawa gritou, e em vez do levantamento clássico, ele girou o corpo e executou um corte de segunda com uma velocidade brutal. A bola atravessou a rede tão rápida que os olhos de Charlie mal conseguiram acompanhar. Ele estava no ar, bloqueando a lateral, mas a bola passou rente ao seu rosto, a centímetros de sua bochecha, antes de tocar o chão no fundo da quadra do Karasuno.
O impacto ecoou pelo ginásio, e por um segundo o silêncio tomou conta até a explosão da torcida azul-celeste.
“VAI, VAI, VAI OIKAWA! FORÇA, FORÇA, OIKAWA! MAIS UM PONTO!” A torcida do Aoba Jōsai estava em êxtase.
Oikawa, com aquele sorriso travesso, encarou Nick e Charlie com um brilho nos olhos. "Maravilha, vamos lá!" ele provocou, olhando diretamente para todo o Karasuno. "Eu vou fazer o mesmo na próxima. Por isso, não fiquem perdidos e prestem atenção!" Sua voz era um veneno doce, misturando o charme e o desafio.
Nick, com os músculos tensos, falou em voz baixa, mas cheia de determinação: “Fiquem atentos! Isso é só uma distração! Ele quer nos confundir fazendo parecer que vai repetir o lance, mas vamos dar o nosso melhor e não cair nessa.”
“É isso aí,” Daichi disse, com a voz firme. “Não pensem demais, só vejam a postura deles e reajam!”
O saque do Seijoh foi rápido, como um relâmpago cortando a quadra. Matsukawa havia acertado um serviço potente e traiçoeiro, que girava perigosamente no ar, desafiando qualquer recepção. Daichi, no entanto, com sua concentração absoluta e reflexos afiados, se posicionou com maestria, amortecendo o impacto e entregando uma bola impecável diretamente nas mãos de Nick.
Nick respirou fundo enquanto os segundos se desaceleravam em sua mente. Seus olhos, treinados para captar cada mínimo movimento, analisaram rapidamente o cenário diante dele. A formação defensiva do Seijoh era firme, mas ele já havia detectado uma pequena brecha na ponta direita da quadra. Harry estava preparado à esquerda, pronto para disparar como um canhão. Charlie avançava rapidamente pelo centro, os olhos intensos e determinados fixos na rede.
O coração de Nick acelerou por um instante enquanto considerava suas opções. Harry era forte, mas a defesa do Seijoh já havia ajustado a marcação sobre ele. Seu olhar então pousou em Charlie—rápido, ágil, e apesar de menor em estatura, possuía um salto que poderia surpreender os adversários. A decisão tornou-se clara, quase óbvia.
Charlie.
Com um movimento fluido e preciso, Nick ajustou o corpo, lançando a bola em alta velocidade diretamente para a mão dominante de Charlie. A trajetória do levantamento foi perfeita, calculada milimetricamente, dando a Charlie exatamente a altura e o espaço necessários para executar o ataque. A confiança absoluta estava estampada no olhar de Nick—ele acreditava completamente na capacidade de Charlie para converter aquela oportunidade.
Charlie disparou para a rede, seu olhar determinado, músculos tensionados, e no momento preciso saltou como se tivesse molas nos pés. A altura que alcançou impressionou não apenas o público, mas fez até mesmo os jogadores do Seijoh arregalarem os olhos. Oikawa, normalmente confiante, teve um breve momento de surpresa ao vê-lo naquele salto espetacular. Charlie flutuava acima do bloqueio, sua mão erguida, pronta para um golpe fulminante.
Com uma precisão impressionante, ele desceu o braço num corte forte, incisivo, cheio de confiança. A bola foi disparada como uma bala, cruzando a quadra em direção ao fundo do território adversário. O coração de Charlie se encheu de certeza: aquele ponto já era deles. Mas, em um movimento que parecia desafiar a lógica, Watari, o líbero do Seijoh, lançou-se com agilidade sobrenatural. Com uma recepção perfeita e impressionante, ele conseguiu resgatar a bola centímetros antes de tocar o chão, surpreendendo até mesmo Nick, que observava a cena com incredulidade. "Esse líbero vai ser um problema sério," ele pensou, incapaz de tirar os olhos do jogador adversário.
O público rugiu com aquela defesa inesperada, aumentando ainda mais a tensão no ginásio. A bola subiu no ar com suavidade, diretamente para as mãos habilidosas de Oikawa, que rapidamente analisou a situação. Harry e Charlie se prepararam imediatamente para bloquear um possível corte de segunda, saltando com firmeza, prontos para impedir a ação.
“De novo não!” Charlie grita
Mas Oikawa era um jogador imprevisível. Com um sorriso malicioso nos lábios, ele mudou a postura no último segundo, surpreendendo a todos. Em vez do corte esperado, fez um levantamento rápido e magistralmente disfarçado. A bola flutuou suavemente no ar, encontrando Iwaizumi perfeitamente posicionado.
Com força brutal, Iwaizumi saltou, cortando a bola com precisão absoluta. O impacto contra o chão ecoou pelo ginásio, um estrondo ensurdecedor que sacudiu a quadra. 2x0 para o Seijoh. As arquibancadas explodiram em êxtase, vibrando e agitando bandeiras azuis e brancas enquanto a quadra tremia sob o peso daquela jogada magnífica. Charlie e o restante do Karasuno ficaram paralisados por um instante, sentindo na pele a força esmagadora do Aoba Jōsai. O jogo tinha acabado de começar, mas o recado já estava claro: aquele seria um embate implacável.
“Ele usou uma postura de corte para levantar?” Charlie perguntou, confuso. “Quem é esse cara?”
Charlie encarou Oikawa com espanto, tentando entender como ele havia conseguido fazer aquilo. A posição do capitão do Seijoh era claramente de corte — postura agressiva, braço erguido, corpo arqueado para frente. Era uma posição que enganaria qualquer bloqueador experiente. No entanto, em vez de cortar, ele fez um levantamento impecável, como se já tivesse planejado aquilo há muito tempo. Charlie sentiu um arrepio na nuca. Quem é esse cara? pensou, enquanto seu coração ainda acelerava pela surpresa.
Nick ficou imóvel, olhos arregalados de incredulidade, reconhecendo imediatamente o movimento. As lembranças inundaram sua mente num segundo. Oikawa estava usando exatamente o ataque disfarçado que ele mesmo havia lhe ensinado, anos atrás, naquelas tardes solitárias da Quadra do Rio. Era uma estratégia perigosa, sutil, feita especialmente para confundir os adversários em quadra. E Oikawa tinha executado aquilo com maestria absoluta.
Como se pudesse ler os pensamentos de Nick, Oikawa virou-se na sua direção, abrindo um sorriso sarcástico e fazendo uma leve reverência.
“Sensei,” ele disse, com uma ironia cortante, as palavras saindo como uma provocação calculada. O tom de respeito zombeteiro fez Nick fechar as mãos em punhos, seus dentes rangendo em uma mistura de frustração e surpresa. Aquilo não era uma simples coincidência. Oikawa estava jogando diretamente com suas emoções, usando o passado deles como arma psicológica.
Daichi, observando a tensão crescente entre Nick e Oikawa, aproximou-se com uma expressão preocupada.
“Ele é um adversário bem mais problemático do que eu pensava,” Daichi comentou em voz baixa, notando como Nick não conseguia tirar os olhos do capitão adversário.
“Nem me fale,” Nick murmurou, estalando o pescoço lentamente, tentando dissipar a raiva que crescia dentro de si. Seus olhos se estreitaram, e ele respirou fundo, esforçando-se para manter a calma. Sabia que Oikawa havia escolhido propositalmente aquele momento para lembrá-lo de onde ambos tinham vindo — e para deixar claro que havia muito mais em jogo naquela partida do que apenas a vitória.
Harry e Charlie estavam com os ombros caídos, o peso da jogada de Oikawa ainda evidente em suas expressões frustradas. O corte perfeito de Iwaizumi havia arrancado qualquer vestígio de confiança que tinham antes de pisar na quadra. O silêncio entre eles parecia pesado demais, quase sufocante.
Mas Daichi percebeu imediatamente aquela mudança de humor e, com passos firmes e olhar decidido, aproximou-se dos dois. Sua postura transmitia uma força silenciosa que fazia com que todos ao redor sentissem uma espécie de segurança apenas por estar perto dele.
“Ei,” começou Daichi, colocando uma mão firme no ombro de Charlie e olhando profundamente nos olhos de Harry. Sua voz estava carregada de convicção, uma energia que parecia dizer que ele não permitiria que o time desmoronasse tão cedo. “Nós já sabíamos que o Oikawa era um adversário complicado. Mas escutem aqui: nosso levantador e nossos atacantes são tão bons quanto qualquer um deles. Não deixem uma ou duas jogadas impressionantes abalarem nossa confiança. Vamos focar no nosso jogo e mostrar para eles o que realmente conseguimos fazer.”
Charlie ergueu a cabeça lentamente, absorvendo cada palavra de Daichi. Aquela segurança no tom do capitão parecia reacender algo dentro dele, uma chama de esperança que aos poucos substituía a frustração inicial.
“Tá bom,” Charlie respondeu, respirando fundo, já sentindo um pouco da confiança retornar ao seu corpo.
Harry, sempre rápido em se deixar contagiar pela energia do grupo, abriu um largo sorriso, assentindo vigorosamente e dando um tapa no próprio peito com determinação renovada. “Bora acabar com eles!”
A postura dos dois imediatamente mudou, e ao lado de Daichi, voltaram a encarar a quadra como um desafio que poderiam superar, em vez de uma ameaça invencível.
A tensão ainda pairava sobre o ginásio, mas algo havia mudado no Karasuno. Eles tinham muito a provar, e estavam mais preparados do que nunca para enfrentar aquela batalha que estava apenas começando.
OIKAWA
Matsukawa se posicionou para o saque, seus movimentos certeiros, com a bola saltando de sua mão com precisão. O libero do Karasuno recebeu com facilidade, seu braço se movendo como uma extensão do próprio corpo. A bola subiu até Niko, que a observou com atenção, seus olhos rápidos, calculando os movimentos do Seijoh. Oikawa estava analisando tudo ao redor, esperando para identificar a jogada perfeita.
“Eu tô aqui!” o Tampinha grita para Niko disparando pelo centro.
“É só um chamariz,” pensou Oikawa, com os olhos estreitados e afiados, observando atentamente cada movimento na quadra adversária. Seu raciocínio era preciso, analisando rapidamente a postura de cada jogador. Seus olhos passaram por Harry, o "Tagarela Irritante", percebendo imediatamente que ele estava atrasado demais para conseguir realizar um ataque eficaz. Sua corrida para a rede era hesitante, os passos desalinhados. Não, definitivamente não era ele o atacante principal.
Sua mente rapidamente descartou Harry, movendo-se para o próximo alvo com eficiência quase robótica. Foi então que sua visão captou a figura imponente e firme ao fundo da quadra. O Ace, Asahi, estava com os joelhos levemente flexionados, os olhos focados com uma intensidade que só podia indicar um ataque iminente. Sua postura estava perfeita, o corpo inclinado em preparação para o salto. Era ele! Oikawa tinha certeza absoluta.
“Ace!” ele diz suave para Iwaizumi, alertando seu parceiro sem hesitação. Sua liderança era impecável, as palavras saindo com clareza e confiança, garantindo que todos ao redor compreendessem a situação. Ao seu lado, Iwa respondeu de imediato, com movimentos precisos e eficientes, sincronizando-se naturalmente ao chamado de Oikawa. A confiança entre os dois era palpável, fruto de anos de treino e companheirismo dentro da quadra.
Eles se posicionaram, os músculos tensionados, preparados para saltar no momento exato. Oikawa sentia a energia pulsando pelo corpo, um sorriso confiante já se formando no rosto, certo de que aquele ponto era deles. O bloqueio do Seijoh era implacável. Iwaizumi ergueu-se ao seu lado, uma muralha sólida e impenetrável, seu rosto carregado com uma determinação feroz.
Oikawa, com um sorriso afiado e uma expressão quase arrogante de quem já prevê a vitória, saltou. O bloqueio subiu perfeitamente coordenado, as mãos erguidas com precisão milimétrica. Ele podia sentir a vitória iminente, quase palpável no ar, antecipando o terceiro ponto como se já estivesse comemorando. O som da bola, a reação da torcida, tudo já parecia decidido em sua mente. Era impossível falhar agora, mas o que aconteceu em seguida congelou todos os sentidos de Oikawa, derrubando todas as certezas que ele construíra em sua mente.
Ele já estava no ar com Iwaizumi, bloqueando o ataque que tinha absoluta certeza que aconteceria, seu corpo perfeitamente posicionado para conter Ace. Mas seus olhos se arregalaram em choque absoluto ao perceber que a bola jamais chegaria até ele. Em vez disso, Nick agiu com uma ousadia que Oikawa nunca havia antecipado: uma largada de segunda, baixa, rápida e audaciosa, deslizando suavemente por baixo do bloqueio firme do Seijoh.
O som da bola tocando o chão da quadra ecoou pelo ginásio como uma bomba, um estrondo que reverberou diretamente na mente atônita de Oikawa. Ele aterrissou sem equilíbrio, quase tropeçando, os olhos presos àquela bola que ainda quicava lentamente, como se estivesse zombando dele.
A incredulidade tomou conta de seu rosto, os lábios entreabertos, sem conseguir articular qualquer reação. O coração de Oikawa acelerou em frustração e espanto. Como ele não percebera aquilo? Como aquele ataque lhe escapara completamente? Não era possível. Nick havia enganado seu raciocínio afiado, seu instinto tão bem treinado.
A euforia do ginásio explodiu em um rugido ensurdecedor. A torcida do Karasuno gritava com uma alegria que contrastava cruelmente com o silêncio atordoado que Oikawa sentia dentro de si. Os jogadores do Karasuno comemoravam em êxtase, vibrando pelo ponto.
Oikawa apertou os punhos com força, ainda incrédulo. Seus olhos se estreitaram enquanto olhava diretamente para Nick, que, agora, sustentava um olhar cheio de confiança, quase provocativo. O levantador que ele sempre quis superar tinha acabado de mostrar que era mais do que capaz de surpreendê-lo. Nick se manteve de pé, os olhos verdes fixos em Oikawa, um brilho desafiador neles.
“Eu vou fazer o mesmo na próxima. Por isso, não fique perdido e preste atenção!” Nick disse, seu sorriso sendo uma declaração silenciosa de que ele estava pronto para a batalha.
O sangue de Oikawa ferveu. Seu rosto ficou vermelho de raiva, o sorriso travesso dando lugar a uma expressão feroz.
“É pra valer então!” ele gritou, e o clima de tensão no ginásio se intensificou.
NICK
O saque agora era de Nick. O suor escorria lentamente pela lateral do seu rosto, deslizando pela linha do maxilar antes de pingar no chão da quadra. A bola em sua mão parecia ter o dobro do peso normal, como se todo o passado estivesse comprimido ali dentro. Esse jogo contra Oikawa não era uma simples disputa esportiva. Era uma batalha contra seus próprios fantasmas, uma luta contra memórias que ele preferia esquecer, mas que agora voltavam com uma força esmagadora.
Ele respirou fundo, mas sentiu como se o ar se recusasse a entrar completamente em seus pulmões, preso pelo nó apertado em sua garganta. Cada batida do coração parecia amplificada, acompanhada por vozes antigas, ecoando como um martelo constante em sua mente.
“Fique forte.”
A voz do pai era firme, autoritária, uma ordem que não admitia desobediência. Palavras ditas em tom de incentivo, mas que Nick sempre entendeu como uma sentença implacável.
“Fique forte.”
Porque demonstrar fragilidade era intolerável. Porque derramar lágrimas era inaceitável. Porque falhar não era uma possibilidade.
Nick ergueu o olhar lentamente para o outro lado da quadra. Oikawa estava ali, tranquilo e confiante como sempre, exibindo aquele sorriso provocador que era quase sua marca registrada. Mas Nick reconhecia aquela expressão. Conhecia as camadas que existiam por trás daquela fachada. Ele esteve ao lado de Oikawa quando ele foi rejeitado pelo Shiratorizawa, acompanhou cada passo de sua obstinada ascensão, viu claramente como a frustração e a raiva moldaram aquele garoto em um jogador extraordinário.
Sem um treinador específico que o orientasse. Sem um time fixo desde o início. Apenas ele, sua ambição e uma obsessão incontrolável pela vitória. E agora, tudo aquilo estava sendo devolvido a Nick, golpe por golpe, ponto por ponto.
Nick apertou a bola, os dedos firmes contra o couro sintético. Ele não podia mais fugir do passado. Mas talvez, só talvez, ele pudesse finalmente superá-lo.
Nick precisava vencer aquele jogo. Não para se vingar ou para aliviar a própria culpa, e muito menos para provar que era melhor que Oikawa. Precisava vencer pelo Karasuno. Por Charlie, por Daichi, por todos os corvos que voavam ao seu lado.
Com a mandíbula cerrada e os olhos firmes, Nick girou a bola entre os dedos, sentindo o peso daquele momento. Não podia errar agora, simplesmente não podia. Seus olhos encontraram os de Oikawa do outro lado da rede, e naquele instante o adversário abriu um sorriso carregado de confiança. Nick respirou fundo, tentando controlar o tumulto dentro de si.
“Força no saque, Nick!” gritou Cristian, encorajando-o.
Nick bateu a bola três vezes no chão, cada som ecoando em sua mente, levando-o de volta à Quadra do Rio, onde ele ensinara aquele mesmo saque para Oikawa. Com um último suspiro, ele lançou a bola ao ar e saltou, golpeando-a com toda sua força, como um verdadeiro canhão.
Só que havia colocado força demais.
"Merda," murmurou Nick, com os olhos arregalados, vendo a bola voar longe.
"Fora!" avisou Oikawa rapidamente, e Kindaichi, atento, desviou o corpo no último momento, deixando a bola cair fora da quadra. Outro ponto para o Seijoh.
Oikawa abriu um sorriso debochado e gritou do outro lado da quadra: "Estamos jogando vôlei! Isso pareceu baseball. Foi um home run!"
Aquelas palavras familiares atingiram Nick em cheio. Ele se lembrou claramente de dizê-las ao próprio Oikawa na Quadra do Rio, anos atrás. O nervosismo e a frustração começaram a subir, ameaçando seu controle emocional. Mas não podia cair na provocação. Não podia permitir que Oikawa tivesse esse poder sobre ele novamente.
Nick respirou profundamente, virou-se para o time e gritou com sinceridade: "Me desculpem, me afobei!"
Imediatamente recebeu apoio de todos. Vozes se levantaram:
"Relaxa!"
"Tudo bem, Nick!"
"Na próxima eles estão fritos!"
Mas foi somente quando Charlie se aproximou e passou suavemente a mão sobre seus ombros que Nick realmente se sentiu mais calmo. A tensão diminuiu com aquele gesto simples, permitindo que ele recobrasse o foco necessário para voltar ao jogo.
OIKAWA
Oikawa caminhou lentamente até o fundo da quadra, cada passo tranquilo ecoando com uma confiança quase insolente. Girou a bola entre os dedos habilmente, sentindo o couro macio e o peso exato que lhe era familiar. Sua expressão era leve, quase indiferente, mas os olhos afiados eram como lâminas, analisando meticulosamente cada posição do Karasuno, cada jogador, cada ponto fraco que ele poderia explorar.
Um sorriso sutil, mas ameaçador, surgiu lentamente em seus lábios enquanto ele parava exatamente no ponto de saque. Ergueu a bola com uma mão e apontou-a diretamente para Nick, encarando-o com um olhar penetrante e implacável.
“Sendo assim, vou te mostrar como se faz!” declarou, a voz carregada de uma promessa de destruição.
Aquele sorriso, que parecia tão inocente para quem não o conhecia, era, na verdade, um aviso claro. Oikawa sabia exatamente o efeito que causava. Ele não era apenas um bom sacador; era um maestro da pressão psicológica, e cada jogador do Karasuno já sentia isso na pele antes mesmo de ele fazer o saque.
Do outro lado da rede, um frio percorreu a espinha dos jogadores do Karasuno, que imediatamente se reorganizaram numa postura defensiva quase desesperada. Todos conheciam aquele momento, todos temiam aquele saque. A tensão no ar era sufocante, como se uma tempestade estivesse prestes a se abater sobre eles, anunciada apenas pela expressão predatória no rosto do capitão do Seijoh.
Afinal, aquele não era um saque qualquer. Aquele era Oikawa Tooru, o levantador genial cujo saque era tão aterrorizante quanto lendário. E naquele momento, ele não estava ali para brincar.
Oikawa lançou a bola ao ar com a fluidez e a calma de quem domina cada movimento. Sua mecânica era quase artística: os músculos se contraíram com precisão, e o salto que executou parecia desdenhar da gravidade, perfeito em sua forma e força. Por um breve instante, sua silhueta ficou suspensa no ar, o corpo perfeitamente alinhado como se tivesse sido projetado exatamente para aquele momento.
Quando sua mão atingiu a bola, um estalo ressoou pelo ginásio com força e clareza, anunciando algo devastador. A bola disparou, rasgando o espaço da quadra como uma flecha, parecendo seguir uma linha reta e implacável. Cristian, o líbero do Karasuno, conhecido por sua agilidade impressionante, rapidamente se posicionou para interceptar o míssil que vinha na sua direção.
Mas então, como em um truque de mágica que ninguém esperava, a bola subitamente mudou sua trajetória. Aquela linha reta foi subitamente quebrada, desviando-se violentamente, tomando um caminho lateral que desafiaram todas as expectativas. Cristian arregalou os olhos por um segundo, puro instinto reagindo à surpresa, mas ele era um líbero excepcional por uma razão.
No último instante possível, Cristian se lançou ao chão com um movimento preciso e desesperado, um verdadeiro reflexo de gênio defensivo. Seu corpo deslizou sobre a quadra, braços estendidos, e ele aparou a bola com precisão, o impacto produzindo um som forte que ecoou pelo ginásio. A bola subiu em um arco gracioso, perfeitamente controlada, oferecendo uma segunda chance ao Karasuno.
A torcida do Karasuno, que estava prestes a gritar em desespero, ficou presa em silêncio absoluto naquele instante, um fôlego coletivo contido diante da façanha extraordinária do líbero. O ginásio parecia ter parado no tempo, com todos os olhos fixos naquela bola que ainda pairava no ar, trazendo consigo uma esperança renovada.
Oikawa piscou várias vezes, boquiaberto, olhando incrédulo para o outro lado da quadra. Seu saque tinha sido simplesmente perfeito—preciso, letal, e com uma curva digna de estar em um museu. Mas lá estava Cristian, o líbero do Karasuno, com um sorriso confiante estampado no rosto, após a defesa milagrosa.
“Eiii, caramba! Não é que ele é bom mesmo?” exclamou Oikawa, coçando a nuca em uma tentativa divertida de suavizar a surpresa da equipe. Sua expressão de choque logo se transformou em um sorriso descontraído, como se ele próprio estivesse impressionado com seu adversário.
Iwaizumi, já em posição defensiva ao seu lado, lançou-lhe um olhar afiado, balançando a cabeça com um suspiro dramático.
“Ah, é isso que você chama de ‘mostrar como se faz’, Tonto-Kawa?” provocou, com uma sobrancelha arqueada e um sorriso irônico. “Parece que ele pegou de boa.”
“Ei!” Oikawa respondeu, fingindo-se ofendido. “Eu fiz minha parte perfeitamente. Você viu aquele efeito? A culpa não é minha se o Loirinho resolveu contrariar as leis da física!”
Iwaizumi revirou os olhos, mas seu sorriso suavizou enquanto observava Oikawa. “Tá bom, tá bom,” disse com um tom mais leve, tocando brevemente o ombro do capitão. “Você continua sendo um gênio, mesmo quando o mundo inteiro parece determinado a te contrariar.”
Oikawa abriu um sorriso largo, satisfeito, antes de voltar sua atenção completamente à quadra. Sua mente já estava processando a próxima jogada. Naquele instante, ele ouviu um grito vindo do outro lado, percebendo que o Karasuno já iniciava o contra-ataque, seu sorriso se fechou em concentração.
Oikawa sentiu a adrenalina disparar quando o Tampinha do Karasuno gritou:
“Eu tô aqui!”
Ele avançava pela quadra como um foguete, suas pernas parecendo nem sequer tocar o chão, tamanha sua velocidade. Oikawa arregalou os olhos, impressionado com a explosão daquele movimento. Por um instante, o tempo desacelerou para ele.
Nick estava pronto para o levantamento, seu olhar mirava fixamente a direita, indicando um ataque evidente para Tagarela Irritante. O bloqueio do Seijoh imediatamente reagiu, deslocando-se rapidamente naquela direção, confiantes na leitura da jogada. Mas algo fez Oikawa hesitar por um milissegundo. As mãos de Nick não acompanhavam seu olhar. Seus dedos mudaram de ângulo no último instante, desviando a bola para a esquerda, e ali estava o Tampinha, que vinha disparado com toda a força e agilidade que seu pequeno corpo podia proporcionar.
O Tampinha saltou, e nesse momento Oikawa não pôde evitar o espanto ao vê-lo subir tão alto. Era como se o garoto não estivesse sujeito às leis da gravidade, seu corpo parecendo leve como pluma, mas seu ataque, uma avalanche destrutiva. Com um movimento certeiro, o Tampinha ergueu o braço e cravou a bola com uma potência avassaladora, desferindo uma verdadeira bomba no chão do Seijoh.
O impacto foi tão violento que a bola explodiu contra o piso e saltou novamente antes que qualquer um dos defensores pudesse sequer pensar em reagir. A quadra inteira pareceu tremer diante daquela demonstração impressionante de poder e sincronismo perfeito entre levantador e atacante.
2x2.
A torcida do Karasuno explodiu em gritos ensurdecedores, os tambores e as vozes misturando-se numa onda vibrante de energia e emoção. As arquibancadas tremiam sob os pés dos torcedores, e o rugido se propagou pelo ginásio, ressoando como um trovão pelo ar.
Oikawa piscou, absorvendo aquela cena incrível. Seus olhos brilharam, um sorriso empolgado tomando conta de seu rosto enquanto encarava a dupla de rivais. Niko finalmente tinha encontrado alguém que podia acompanhá-lo. Um atacante capaz de responder aos seus levantamentos insanos com uma força e precisão igualmente absurdas. Seu coração batia acelerado de empolgação. Esse era o tipo de vôlei que Oikawa sempre quis jogar, com adversários dignos, que elevavam o nível de cada ponto.
"Isso foi absurdo..." murmurou, a surpresa em sua voz genuína. Niko não apenas havia enganado o bloqueio, mas fizera isso com uma naturalidade que irritava Oikawa. Como se fosse fácil para quem tem o talento natural dele.
Kindaichi se aproximou dele, o rosto contraído de frustração. “Foi mal...” murmurou, sem graça. “Tô errando muito nesse jogo.” Oikawa olhou para ele, avaliando-o por um momento. Ele poderia dizer algo rude, poderia pressioná-lo ainda mais. Mas aquele não era o momento para isso.
“Não esquenta,” disse, sorrindo com um brilho misterioso nos olhos. “Esse é o time que derrubou a Muralha de Ferro.” Ele voltou-se para Kindaichi, seu tom de voz carregado de convicção. “E tudo está correndo conforme o esperado.”
Oikawa viu a hesitação no rosto de Kindaichi e inclinou a cabeça, um sorriso travesso se formando. Ele se aproximou, baixando ligeiramente a voz.
“O Niko te tratou como um lixo no juvenil, né?”
Kindaichi encolheu-se levemente, desviando o olhar. “Er... é.”
“Então eu vou provar que ele estava errado,” Oikawa disse, sua voz firme. “Porque você é incrível. E agora, Kindaichi...” Ele ergueu a mão e deu um leve tapa no ombro do colega. “Pula tranquilo e confia no meu levantamento.”
A expressão de Kindaichi vacilou por um instante antes de se firmar. Ele assentiu, endireitando os ombros. Oikawa sorriu, os olhos brilhando com determinação.
"Vamos arrancar as penas deles."
O Tagarela Irritante do Karasuno se posiciona para o saque. Todos do Aoba Jōsai já sabiam que ele era perigoso nesse fundamento, mas, ainda assim, Oikawa não relaxava. Ele observava tudo com precisão, seus olhos analisando a postura do sacador, a posição da equipe adversária e o espaço livre na quadra.
"Ele saca muito bem." pensou Oikawa, já visualizando o trajeto da bola antes mesmo dela partir.
O saque disparou como um míssil, forçando Watari, o líbero do Seijoh, a se esticar ao máximo para defender. Ele conseguiu um toque firme, mas a bola subiu descontrolada. Não importava. Oikawa já estava posicionado, os pés leves e o olhar clínico captando cada movimento ao seu redor.
Sem hesitação, ele saltou para o levantamento. Seus dedos encontraram a bola com precisão cirúrgica, amortecendo-a no ar e direcionando-a para Kindaichi. O toque foi impecável, suave e ao mesmo tempo carregado de força, colocando a bola exatamente onde Kindaichi precisava. O bloqueio do Karasuno veio rápido, o Tampinha subindo para fechar a jogada. Mas Oikawa já sabia o que aconteceria antes mesmo de Kindaichi tocar na bola.
O atacante não cortou. Ele fintou. A bola passou limpa sobre o bloqueio, caindo suavemente no espaço livre da quadra do Karasuno.
“Não te falei?” Oikawa sorriu, estendendo a mão para um high five com Kindaichi.
“Valeu, capitão,” respondeu Kindaichi, ainda um pouco hesitante, mas o brilho em seus olhos revelava a confiança crescente.
Oikawa apontou para a torcida, o sorriso se alargando. “Curte o momento.” E o momento era deles.
“VAI, VAI, VAI KINDAICHI! FORÇA, FORÇA, KINDAICHI! MAIS UM PONTO!”A torcida do Aoba Jōsai rugia nas arquibancadas, a energia do ginásio se tornando um combustível para o time.
Iwaizumi caminhou até o fundo da quadra, pegando a bola para sacar. No caminho, cruzou com Oikawa. Os olhares se encontraram, um entendimento silencioso passando entre eles antes que ambos sorrissem.
“Força no saque, Iwa,” disse Oikawa, levantando um dedo sutilmente, indicando o local exato para onde o saque deveria ir.
Iwaizumi respirou fundo e lançou a bomba para o lado direito do Karasuno, mirando o capitão Daichi. A recepção saiu torta, obrigando Nick a correr para corrigir a jogada.
“Passa pra cá!” O Tampinha gritou.
Oikawa, atento a cada detalhe, percebeu o movimento das mãos de Nick e dos bloqueadores do Seijoh. Ele sentiu a jogada se desdobrar antes mesmo dela acontecer. O levantamento veio limpo para o atacante, que subiu como um raio e cortou com um golpe feroz.
A bola atingiu o chão do Aoba Jōsai com um estrondo. 4x3 para o Seijoh.
Oikawa arregalou os olhos por um instante, então seu sorriso se abriu ainda mais.
"É isso aí..." ele sussurrou, absorvendo cada detalhe da jogada do Karasuno. Ele não via aquilo como um problema. Pelo contrário. O jogo estava se desenhando exatamente como ele esperava. Ele levantou a mão para o treinador e pediu tempo.
Ao som dos gritos ensurdecedores da torcida – “VAI, VAI, VAI SEIJOH! VAI LÁ, FORÇA, FORÇA, SEIJOH!” – o time se reuniu em círculo no banco. O treinador do Aoba Jōsai fez um gesto para Oikawa. Eles sabiam quem deveria liderar naquele momento.
Oikawa respirou fundo, olhando para seus companheiros. Seu tom era sério, mas carregado de certeza absoluta. “Eu tenho praticamente certeza,” começou ele, varrendo o olhar pelo time inteiro.
Ele pausou, deixando que o peso da frase se assentasse antes de continuar.
“É ‘Eu tô aqui’ e ‘Passa pra cá’.”
O time franziu as sobrancelhas, tentando absorver o que ele queria dizer. Oikawa deu um tempo para que o raciocínio deles pegasse no tranco.
“Eu assisti aos jogos anteriores deles,” continuou gesticulando levemente. “E percebi um padrão. O Tampinha deles sempre grita alguma coisa antes dos ataques. Mas quando eles vão usar aquele ataque rápido absurdo, ele diz ‘Estou aqui’ ou ‘Vem aqui’. Ou seja...”
“...‘Aqui’,” completou Iwaizumi, a compreensão se acendendo em seus olhos. Oikawa sentiu o coração acelerar um pouco. Iwaizumi entendeu imediatamente.
“Exatamente, Iwa!” Oikawa exclamou, animado. “Mas o papel do Tampinha é ser um chamariz,” ele continuou. “Eles querem que prestemos atenção demais nele.”
Os jogadores assentiram, assimilando a estratégia.
“Por isso, vamos usar uma regra simples.” Oikawa levantou dois dedos. “Quando ouvirmos ‘AQUI’, apenas um de nós marca o Tampinha. Quando for ‘PASSA’, esperamos para ver aonde a bola realmente vai antes de pular no bloqueio. Entendido?”
“Beleza!” gritaram todos em uníssono. Os olhos do time brilharam com a clareza da estratégia.
Oikawa ergueu a mão para o centro. “Domine a Quadra!” disse com convicção.
Um a um, os jogadores colocaram as mãos sobre a dele, motivados pela confiança inquebrável de seu capitão. Oikawa não apenas liderava. Ele os fazia acreditar. Ele lia o jogo, antecipava movimentos, inspirava seus companheiros a darem tudo de si. E, naquele momento, com o time vibrando com sua energia, ele sabia que estavam prontos.
“Kawa vem aqui” diz Iwaizumi “Por termos pedido o tempo tão cedo, não acha que ele perceberam que nos já descobrimos o sinais deles.”
“Não tem problema Iwa” o sorriso de Oikawa fica mais doce “Na verdade é melhor que eles saibam. Se por acaso eles descobrirem que nós sabemos os sinais deles, pode ser um pouco, mas o Niko vai se atrapalhar.”
Seijoh não iria apenas jogar. Eles iriam dominar a quadra.
NICK
“Sua cara tá péssima.” Cristian se jogou no banco ao lado de Nick, ofegante, mas ainda com aquele meio sorriso no rosto.
“Valeu pelo carinho.” Nick passou a mão pelo rosto, exausto. Cristian riu, mas logo ficou sério. “Aquela tua recepção foi insana.” Nick olhou para ele, reconhecendo o mérito. “Você segurou a bola na unha. Passa muita segurança ter você e Daichi protegendo a retaguarda.”
“Foi por pouco.” Cristian exalou, balançando a cabeça. “No último segundo eu percebi que a bola fez uma curva absurda. Oikawa colocou um efeito bizarro nela.” Ele fez uma pausa, encarando Nick. “Os saques dele são de outro nível.”
Nick assentiu, o olhar distante. “Eu sei... Ele treinou muito. Muito mesmo.”
Antes que Cristian pudesse responder, a treinadora Singh reuniu o Karasuno. O time se aproximou rapidamente, formando um círculo ao redor dela.
“Escutem bem.” O tom dela era firme, mas sem pressa. “Seijoh não vai errar. Eles são metódicos, e se permitirmos que abram uma vantagem de quatro pontos, será um inferno recuperar.”
Todos ficaram em silêncio, absorvendo as palavras.
“Não podemos deixar isso acontecer,” continuou. “Fiquem atentos à recepção. Oikawa vai voltar para o saque logo, e vocês sabem que ele é um monstro nesse fundamento.” Ela varreu os jogadores com o olhar antes de pousar os olhos em Tsukishima. “Agora que você estará na rede, observe bem antes de pular. Oikawa é traiçoeiro nos levantamentos.”
Tsuk ajustou os óculos e soltou um sorrisinho irônico. “Entendido.”
Singh cruzou os braços, a expressão se tornando ainda mais séria. “E prestem atenção. Esse tempo técnico não foi só pra quebrar nosso ritmo.” Nick e os outros se entreolharam. “Eles descobriram algo sobre a gente.” Ela olhou diretamente para Daichi. “Isso significa que eles vão voltar diferentes. Devemos estar prontos para nos adaptar antes que eles assumam o controle do jogo.”
A tensão se espalhou entre os jogadores, mas era um tipo de tensão que inflamava o espírito competitivo, que fazia o sangue correr mais rápido.
“Vocês querem ganhar ou querem assistir Oikawa dominar essa quadra?”
“Nem morto” Cristian ergueu os punhos, os olhos brilhando de excitação.
“VAMOS GANHAR!” gritou Harry. O time respondeu em uníssono, batendo os punhos no centro antes de voltarem para suas posições.
Nick respirou fundo. Ele começaria mais atrás por causa do rodízio. Precisava manter a calma. O saque era do Seijoh.
Kindaichi caminhou para a linha de fundo, segurando a bola com as duas mãos. Nick conhecia aquele cara. No passado, ele teria revirado os olhos ao vê-lo sacar. Kindaichi era um dos que protestaram contra ele no colégio anterior. Chamavam-no de "Rei da Quadra." Sempre criticado por ser lento, por errar o tempo dos bloqueios, por ser alguém que não sabia lidar com pressão.
Mas agora...
Nick o observou com atenção. Algo estava diferente. A postura dele era mais sólida. O olhar, mais seguro. Ele não era mais o mesmo jogador. Nick desviou o olhar para Oikawa.
"Os levantadores são como maestros de uma orquestra."
Lembrou-se das palavras de Oikawa na quadra do Rio. O vento quente soprava ao redor deles naquele dia, e Oikawa falava como se estivesse explicando o segredo do universo.
"Mesmo que a orquestra toque a mesma música, um maestro diferente muda tudo. A melodia, o ritmo, a emoção... Você sente a diferença."
Nick apertou os punhos. Oikawa era o maestro dessa orquestra. E Kindaichi, agora, estava tocando sua melhor sinfonia.
CHARLIE
Charlie estava posicionado no fundo da quadra, bem distante da rede. O lugar onde ele menos desejava estar. Nunca tinha gostado da recepção, jamais havia dominado a defesa com a mesma facilidade com que voava para os ataques. O verdadeiro brilho de Charlie surgia quando ele saltava, desafiava a gravidade e golpeava a bola com determinação feroz. Ali ele era invencível. Mas longe dali... ele se sentia vulnerável. Inadequado.
No vôlei, ser apenas um bom atacante não bastava. Para se tornar indispensável, era preciso mais. Era preciso ser completo, e isso significava enfrentar exatamente aquilo que ele mais odiava. A pressão de precisar corresponder a algo que ele ainda não era, pesava em cada fibra do seu corpo.
O peso do olhar de todos — da torcida, dos adversários, dos companheiros de equipe — era sufocante. Ele sabia exatamente o que esperavam dele: falhar. Charlie sentia o medo subir pela garganta, uma sensação amarga que lhe roubava o ar. Era como se, antes mesmo da jogada acontecer, seu destino já estivesse traçado. Não importava o quanto treinasse, não importava o quanto se esforçasse; no fim, a imagem que tinham dele ainda era a mesma.
A bola subiu, perfeita e ameaçadora. O saque do Seijoh cortava o ar, caindo veloz e implacável em sua direção. O coração de Charlie disparou como um tambor descontrolado. Ele se posicionou, os músculos tensos, braços estendidos para a manchete, cada movimento calculado com precisão quase obsessiva.
Mas no exato instante do impacto, seus braços vacilaram. O toque não saiu como treinado tantas vezes antes; saiu alto demais, impreciso demais. A bola atingiu a parte errada de seus antebraços e desviou, subindo num ângulo desajeitado e indo direto para fora da quadra.
Ponto do Seijoh.
Charlie ficou ali, paralisado por um instante que pareceu eterno, ouvindo os gritos da torcida adversária explodirem ao redor. A vergonha queimava em suas bochechas enquanto ele olhava para o chão da quadra, tentando esconder o rosto em uma expressão de indiferença que não conseguia sustentar. Aquilo não era apenas um erro, era uma confirmação silenciosa de suas inseguranças. E isso doía mais do que qualquer derrota.
Cada respiração parecia difícil demais, pesada demais. Charlie engoliu em seco, lutando contra a vontade desesperada de simplesmente desaparecer. Ele podia sentir os olhos de todos sobre ele, julgando-o silenciosamente. No fundo, ele já não sabia se era realmente o olhar dos outros que o feriam ou seu próprio julgamento impiedoso.
Charlie ergueu os olhos brevemente, encarando Nick do outro lado da quadra. A expressão dele era uma mistura de preocupação e incentivo. Era reconfortante e ao mesmo tempo esmagadora. Charlie desviou o olhar, sentindo o peso daquela expectativa cair sobre ele com ainda mais força.
Ele respirou fundo, tentando recompor-se, mesmo que, por dentro, estivesse despedaçado. Sabia que precisava continuar, precisava mostrar que podia fazer melhor, mas naquele instante, enquanto a bola rolava lentamente no chão fora da quadra, Charlie não pôde evitar se perguntar se algum dia conseguiria provar que não era apenas um bom atacante. Se algum dia conseguiria provar que era suficiente, ele abaixou a cabeça, envergonhado, foi quando ouviu passos firmes se aproximando.
“Ei.” A voz de Harry cortou o ar, firme e intensa. Antes que Charlie pudesse reagir ou mesmo pensar no que dizer, Harry já estava parado bem diante dele, bloqueando sua visão de todo o resto. Seus olhos azuis estavam cravados nos de Charlie, um brilho determinado que ele jamais havia visto antes.
“Levanta a cabeça, Charlie,” ordenou, sem um pingo da zombaria ou do escárnio que normalmente carregava em suas palavras.
Charlie piscou, surpreso, sentindo o estômago revirar. Harry o chamara pelo nome de verdade. Não Charlene, não frutinha, não boiola ou qualquer outra palavra amarga e cruel que ele usava para rebaixá-lo. Pela primeira vez, era apenas "Charlie", limpo e simples. Isso o atingiu com força, deixando-o momentaneamente sem reação.
Harry permaneceu encarando-o, a mandíbula travada, uma linha rígida desenhando-se em seus lábios, como se estivesse usando toda sua força de vontade para se manter firme diante dele. O silêncio breve pareceu mais intenso do que qualquer coisa que Harry já tivesse dito ou feito antes.
“Mesmo que você erre, não abaixe a cabeça.” Desta vez, sua voz saiu mais baixa, quase um murmúrio, mas ainda carregando uma autoridade inesperada. “Entendeu? Ou esses caras vão te devorar vivo.”
Charlie hesitou por um momento, incapaz de reagir de imediato. Era difícil acreditar que aquelas palavras estavam vindo de Harry, alguém que até então parecia se divertir com suas falhas. Mas então ele viu algo diferente nos olhos dele. Algo que o desconcertou ainda mais. Não era raiva, nem desprezo, nem mesmo impaciência.
Era medo.
Não medo de Charlie, não medo do jogo. Era medo pelo que aqueles jogadores do Seijoh fariam se percebessem que havia uma rachadura na armadura de Charlie. Era medo de que, se demonstrassem fragilidade, o Seijoh não hesitaria em destruí-los completamente.
Charlie respirou fundo, o impacto daquelas palavras finalmente se assentando dentro dele. Lentamente, ele assentiu, sentindo uma energia renovada tomando conta de seus músculos e afastando, ainda que parcialmente, a sensação sufocante de insegurança. Harry podia não ser seu maior fã, mas naquele instante, era um companheiro de equipe. E aquilo bastava.
Ele ergueu a cabeça novamente, decidido a não mais se deixar abalar por aquela pressão sufocante. Ao seu lado, Harry recuou, voltando à sua posição, satisfeito ao perceber que sua mensagem havia sido recebida.
O jogo continuaria, e dessa vez Charlie estava determinado a enfrentar a batalha sem baixar a cabeça.
O próximo saque veio como um tiro certeiro. Mais uma vez, era diretamente em direção a Charlie, como se o Seijoh tivesse marcado seu ponto fraco e não fosse desistir até destruí-lo completamente. Charlie prendeu a respiração, ajustou rapidamente a postura e tentou reagir com mais precisão. Mas, ainda assim, seus braços não foram rápidos o suficiente. A bola tocou seus antebraços em um ângulo errado, desviando para fora mais uma vez.
Um murmúrio desconfortável se espalhou pelas arquibancadas, vozes abafadas cochichando dúvidas e críticas. O peso do erro caiu sobre Charlie como um manto, mas desta vez ele não abaixou a cabeça. Respirou fundo e bateu as palmas duas vezes, um som curto e determinado, exigindo de si mesmo mais força e concentração. Seus olhos cravaram-se em Kindaichi, que esperava do outro lado da rede com um sorriso confiante, como um predador à espreita.
"Pode vir," Charlie sussurrou baixinho para si mesmo, numa tentativa desesperada de autoafirmação.
O terceiro saque veio ainda mais violento. A bola girava furiosamente no ar, rasgando a quadra, pronta para despedaçar qualquer resquício de confiança que ele tivesse. Charlie avançou instintivamente, os músculos tensionados, e num movimento desesperado torceu o corpo no último segundo, corrigindo seu posicionamento anterior. O impacto em seus braços foi forte, um choque intenso que vibrou até seus ossos. A bola subiu, tremendo, insegura e desajeitada — mas subiu.
Harry reagiu instantaneamente, deslocando-se com velocidade surpreendente, ajustando o rumo da bola em um movimento rápido e ágil. Com um toque preciso, ele a levantou diretamente para Nick, que já estava saltando com uma concentração feroz estampada no rosto.
Nick ganhou altura, seus olhos fixos na quadra adversária. Charlie prendeu o fôlego enquanto o levantador do Karasuno desferia um golpe seco e potente. A bola atravessou o bloqueio do Seijoh como um raio, chocando-se contra o piso com força devastadora. O som do impacto ecoou pelo ginásio, seguido por um rugido triunfante da torcida do Karasuno.
Ponto do Karasuno.
O placar se atualizou no telão, marcando 10x6 para o Seijoh. Charlie ergueu os olhos, encarando os números com um misto de frustração e determinação. A pressão sobre seus ombros era quase insuportável. Quatro pontos atrás — era uma diferença dolorosa, mas possível de recuperar. Porém, agora, com a rotação, Oikawa avançava lentamente para a rede. E, ao seu encontro, Nick também caminhava com passos firmes, determinado.
Charlie sentiu o coração acelerar enquanto observava aqueles dois rivais se encarando novamente, frente a frente na rede, prontos para um novo confronto. Aquela partida estava longe de terminar, e ele sabia que cada ponto conquistado seria uma batalha intensa e brutal.
NICK
Oikawa estava ali, parado a poucos centímetros da rede, próximo o suficiente para que Nick pudesse sentir a intensidade da sua presença, como uma aura magnética e esmagadora. Cada vez que seus olhos se encontravam, era como se um choque percorresse o corpo de Nick, fazendo seu estômago se contorcer em um nó sufocante. Ele não precisava falar uma palavra sequer para exercer controle; bastava aquele sorriso irônico, aquele brilho cruel no olhar, como se estivesse desvendando cada insegurança escondida sob a pele de Nick.
Nick tentava desesperadamente se concentrar no jogo, mas seus pensamentos eram arrastados continuamente para o passado. A quadra ao redor parecia se dissolver, dando lugar às lembranças das tardes tranquilas na Quadra do Rio, onde ele e Oikawa treinavam lado a lado, rindo entre erros e acertos. Recordava das vezes em que Oikawa o fazia esquecer os gritos furiosos do pai, os golpes invisíveis que marcavam sua alma. Naqueles dias, Oikawa fora seu refúgio, o amigo com quem ele compartilhava tudo.
Mas agora, olhando para ele do outro lado da rede, tudo aquilo parecia uma ilusão distante, uma memória borrada que ele mal podia acreditar que havia existido um dia. A culpa pesava sobre ele como uma rocha, apertando seu peito. Nick sabia que tinha machucado Oikawa. Aquela amizade, aquela cumplicidade, tudo havia sido destruído pela sua própria insegurança, pela sua obsessão em provar ser o melhor, em não decepcionar ninguém. Será que ainda havia algo ali para ser reconstruído? Ou será que a fenda entre eles já havia se tornado intransponível?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ele balançou rapidamente a cabeça, num gesto brusco, tentando expulsar aqueles pensamentos perturbadores. Precisava se concentrar. A partida não esperaria por suas divagações. Nick analisou a quadra rapidamente, sua mente calculando possibilidades. Tsukishima e Asahi estavam próximos à rede com ele, mas ainda não eram opções confiáveis naquele momento. Tsukishima hesitava demais nos ataques decisivos, e Asahi estava numa posição menos favorável, afastado demais para um levantamento rápido. Charlie estava no fundo, em uma posição de defesa, fora da equação de um ataque imediato. Talvez pudesse utilizar Daichi vindo da retaguarda, mas a formação defensiva do Seijoh estava preparada demais para jogadas previsíveis.
Ele precisava agir rápido. Precisava improvisar. E precisava desesperadamente tirar Oikawa de sua cabeça antes que fosse tarde demais.
O saque veio forte e veloz, cruzando a quadra com precisão. Daichi, com sua habitual habilidade, reagiu rápido e recebeu perfeitamente, enviando a bola para o alto com suavidade. Tudo parecia pronto para uma jogada perfeita, mas o coração de Nick acelerava descontrolado enquanto sua mente procurava desesperadamente uma solução.
Seus olhos foram imediatamente para Tsukishima, mas ele percebeu, com uma pontada de desespero, que seu companheiro estava completamente distraído, com um atraso claro para iniciar a corrida para o ataque. Virou rapidamente o rosto para Asahi, que estava longe demais—não haveria tempo suficiente para uma jogada segura.
Uma sensação de urgência tomou conta dele, turvando seu raciocínio. Seu olhar caiu em um pequeno espaço vazio na quadra do Seijoh, um ponto vulnerável na defesa adversária. Num impulso, sem uma análise adequada, ele tentou uma largada rápida.
Erro.
No instante exato em que tocou a bola, Nick soube que havia falhado. Oikawa percebeu a jogada imediatamente. Ele saltou com uma precisão quase cruel, erguendo um bloqueio sólido e impenetrável. A bola bateu nas mãos firmes de Oikawa, ricocheteou violentamente contra a rede e caiu com um estrondo seco aos pés de Nick.
Ponto do Seijoh.
Nick permaneceu imóvel, olhos fixos na bola parada a poucos centímetros dele. Sentiu o rosto queimar, a vergonha e raiva se misturando, fazendo seu peito apertar dolorosamente. Idiota, óbvio demais. Por que ele tinha tentado aquilo? Por que havia pensado demais, duvidado de sua capacidade, justo diante de Oikawa?
Do outro lado da rede, Oikawa ainda estava lá, observando-o com um sorriso sutil, quase indiferente, mas carregado de domínio. Ele se inclinou levemente para frente, e com uma voz calma e baixa o suficiente para só Nick ouvir, disse:
“Nada mais fácil do que bloquear uma largada quando o adversário está se atrapalhando.”
Aquelas palavras doeram mais do que qualquer bloqueio. A calma irritante, a confiança absoluta de Oikawa o sufocavam, aumentavam a raiva e frustração que já ferviam em seu interior. Nick cerrou os punhos com força, suas unhas pressionando a pele até machucar. Queria responder, queria apagar aquele sorriso do rosto do rival, queria mostrar que não era fraco.
Mas naquele instante, não conseguia. Não diante daquele olhar. Não diante da certeza devastadora estampada no rosto de Oikawa.
Não ainda.
O jogo continuava com uma intensidade avassaladora, e a cada segundo, a pressão sobre Nick aumentava. Os olhos do ginásio pareciam fixos nele, esperando, julgando. Cada jogada era um teste, cada movimento uma chance de falha. Seu corpo tremia com um nervosismo que ele tentava desesperadamente esconder.
Em meio ao barulho ensurdecedor da torcida, a bola chegou até Nick. Em um instante de hesitação, ele buscou segurança onde não havia. Seus olhos encontraram Harry, e no reflexo automático, levantou a bola para ele—uma decisão apressada e desajeitada.
Erro.
O bloqueio triplo do Seijoh subiu como uma muralha impenetrável, esmagando a bola de volta à quadra do Karasuno com um impacto seco e humilhante. O ginásio explodiu em euforia enquanto Nick sentia o chão sumir sob seus pés, sua respiração acelerando enquanto percebia o tamanho de sua falha.
O Karasuno conseguiu recuperar o saque adversário, dando-lhe mais uma oportunidade. A bola subiu novamente e a voz de Charlie ecoou clara e forte pela quadra:
“Passa pra mim!”
Desta vez, Nick tentou reagir rápido, tentando apagar a imagem do erro anterior. Mas era tarde demais. Ao lançar a bola para Charlie, percebeu com horror que o Seijoh não tinha saltado imediatamente. Eles haviam esperado pacientemente, friamente analisando seu movimento. Quando Nick fez o levantamento, eles estavam prontos. O bloqueio duplo se ergueu com precisão cirúrgica, cortando qualquer esperança de sucesso para Charlie.
Nick sentiu um frio descer pela sua espinha, e seu estômago embrulhou com força. Eles haviam descoberto seus sinais. Eles haviam decifrado suas jogadas com uma facilidade humilhante. Com passos pesados, aproximou-se de Daichi, o rosto pálido e o olhar cheio de culpa. Sua voz saiu baixa e carregada de vergonha:
“Eles perceberam os sinais.”
E naquele momento, Nick sentiu como se tivesse entregue o jogo nas mãos do Seijoh. Sua confiança estava ruindo diante da realidade esmagadora de seus erros, e cada vez mais, sentia o peso esmagador da derrota se aproximando.
Agora era a vez de Nick sacar. Ele caminhou lentamente até a linha de fundo, sentindo cada passo pesar como se estivesse caminhando para uma execução. Seu corpo inteiro tremia levemente, o suor escorrendo frio por suas têmporas, caindo sobre o piso polido como gotas de fracasso. O som da torcida parecia distante, abafado pelo ruído interno que martelava sua mente com uma violência impiedosa.
Fraco. A voz do seu pai era nítida, como se estivesse ali, ao seu lado, cuspindo as palavras diretamente em seu ouvido. "Você errou da última vez. Fraco." Nick apertou os olhos com força, tentando afastar aquela presença esmagadora. Seu coração batia forte no peito, como se quisesse fugir de dentro dele.
Com mãos trêmulas, ele ergueu a bola acima da cabeça, seus dedos apertando-a com força, buscando algo sólido em que pudesse se apoiar. Respirou fundo, uma tentativa desesperada de se recompor.
"Eu não vou errar dessa vez," murmurou para si mesmo, a voz baixa e sufocada. Então, iniciou a corrida para o saque.
Mas algo estava errado.
Sua passada estava desalinhada. Ele avançou demais, percebeu tarde demais. Droga. Sentiu o desespero subir à garganta, apertando-o em um nó. Num impulso de última hora, girou as mãos, tentando suavizar o erro iminente. A bola saiu curta, flutuando fraca e baixa demais. Seu coração afundou junto com ela.
Kunimi reagiu rápido, se jogando ao chão em um movimento desajeitado, mas eficaz. A bola subiu, instável, dando ao Seijoh uma chance inesperada. Nick prendeu a respiração ao ver Oikawa distante da bola, por um instante sentindo um pequeno alívio.
Mas então Iwaizumi apareceu, ajeitando a bola com uma frieza implacável.
Os olhos de Nick se arregalaram em puro pavor. Não, não, não…
Oikawa já avançava para o levantamento, sua postura impecável, seus olhos brilhando com a certeza absoluta de seu próximo movimento. Como um maestro diante de sua orquestra, ele lançou a bola diretamente para Nick.
Nick não estava pronto. A bola veio em sua direção com uma velocidade implacável, e seu corpo reagiu no desespero, em puro reflexo. Seus braços subiram para a recepção, mas a bola o atingiu desajeitadamente, fazendo um som seco e humilhante. Ela subiu em uma trajetória errada, frágil demais, curta demais.
Ele não podia levantar.
O Seijoh pressionou mais uma vez, a bola acelerando na quadra como se buscasse seu ponto mais vulnerável. Daichi avançou rapidamente, lançando o levantamento para Harry em um ato desesperado. Mas já era tarde demais. O bloqueio do Seijoh ergueu-se implacável, como uma onda gigante prestes a engolir tudo em seu caminho, e então—
BANG!
O som do impacto ecoou como um tiro no peito de Nick. A bola atingiu a quadra do Karasuno com uma violência brutal, deixando todos ao redor em silêncio absoluto. Por um instante, Nick ficou completamente imóvel, o olhar fixo naquele ponto onde a bola ainda quicava, quase como se zombasse de sua impotência.
Oikawa não apenas havia identificado a fraqueza. Ele a dissecou friamente, explorando-a até o limite, até deixar exposto cada centímetro de insegurança que Nick tentava esconder. Aquela não era apenas uma derrota momentânea. Era a confirmação amarga de sua insuficiência diante do jogador que um dia ele mesmo ensinou.
Tsukishima se aproximou, seu olhar frio e analítico dirigido ao placar. Os números brilhavam como uma sentença cruel e implacável: 15x8 para o Seijoh.
Com um tom desprovido de emoção, quase como se falasse para si mesmo, ele murmurou para Nick:
"Oikawa transforma uma situação difícil em oportunidade. Conseguir fazer isso numa partida oficial é algo realmente impressionante. O domínio dele sobre o jogo é assustador."
Nick sentiu cada palavra perfurar seu peito como lâminas afiadas. Tsuk tinha razão, e aquilo o consumia por dentro.
E agora… agora era saque de Oikawa.
Nick ergueu lentamente os olhos para encarar o adversário. Oikawa estava no fundo da quadra, um sorriso sutil curvando seus lábios. Em seus olhos havia algo mais profundo que confiança—era certeza absoluta. Uma certeza que esmagava qualquer esperança de que Nick ainda pudesse ter.
O ginásio ficou em silêncio, o ar pesado com antecipação. Nick sabia exatamente o que viria a seguir. E naquele momento, não restava mais nada além da certeza esmagadora de que ele estava prestes a enfrentar o pior.
OIKAWA
Oikawa caminhou lentamente até a linha de saque, girando a bola entre os dedos como se estivesse se preparando para um ritual. Seu olhar percorreu a quadra adversária, analisando cada detalhe, cada movimento sutil dos jogadores do Karasuno. Ele não precisava olhar para seus companheiros – sabia que estavam prontos. Eles sempre estavam. Ele treinou cada um deles, moldou aquele time com suas próprias mãos. Mas ali, do outro lado da rede, estava Nick Nelson. Seu antigo amigo Niko e agora, seu adversário.
Os olhos de Oikawa pararam em Harry, o jogador mais barulhento do Karasuno. Um sorriso torto se formou em seu rosto. “Hora de calar o Tagarela”, pensou, antes de lançar a bola para o alto e avançar com precisão cirúrgica. Seu corpo se moveu com uma fluidez quase sobrenatural, e quando o braço desceu, o impacto foi feroz. A bola cruzou a quadra como um tiro e atingiu Harry com força, ricocheteando para fora.
Ace.
Oikawa manteve a expressão indiferente, mas sentiu a energia da torcida explodindo ao seu redor. Ele olhou de relance para Iwaizumi, que apenas ergueu uma sobrancelha.
“Arranca as penas dele” perguntou, a voz carregada de confiança.
“Nada melhor que ver a sensação do Tagarela do time calar a boca” Oikawa responde com um sorriso
Oikawa girou a bola novamente em suas mãos, mantendo o mesmo ritmo calculado. Ele percebeu como os ombros do Karasuno estavam rígidos, como Cristian hesitou por um milissegundo antes de assumir a posição.
“Rola uma pressão enorme quando acontecem vários erros de recepção de saque.” Oikawa murmurou, observando os mínimos detalhes da movimentação do adversário. “Primeiro temos que partir para cima do Tagarela Irritante e depois acabar com o Ace. Se acabarmos com os dois da esquerda, que são o coração do ataque, o chamariz do Tampinha não vai adiantar.”
Iwaizumi cruzou os braços e riu baixinho. “Você fica tão lindo quando está planejando destruir o outro time.”
Oikawa corou levemente, mas não desviou o olhar da quadra. “Você não pode dizer essas coisas antes do jogo acabar, Iwa.”
“Apenas me certificando de que você mantenha o foco”, respondeu Iwaizumi, dando um leve soco no ombro dele antes de voltar para sua posição.
Oikawa suspirou. “Foco nunca foi o problema.” Ele lançou a bola para cima novamente, pronto para continuar sua sinfonia de destruição.
Oikawa já se preparava para o próximo saque, mas foi interrompido pelo pedido de tempo da treinadora do Karasuno.
NICK
Os gritos de " VAI LÁ, FORÇA, FORÇA, SEIJOH! VAI LÁ, FORÇA, FORÇA, SEIJOH!" estavam incomodando Nick mais do que ele admitia. A pressão estava enorme, estamos em desvantagem. O saque ainda é de Oikawa e Nick tinha certeza de que ele queria fechar o set estando ainda no saque. O Karasuno se reúne no banco. Harry está devastado, Nick nunca o tinha visto assim. Tão calado.
“Deixe que suba!” disse a treinadora para Harry “Mesmo que a bola não vá para Nick, deixe que a bola fique no ar, nós vamos dar um jeito de nos recuperar.” Ela encara o time e logo coloca seus olhos mortais em Nick.
“O que foi aquela largada?” Seus olhos estavam sérios
“Por favor me desculpa!” Nick diz abaixando a cabeça “Eu me afobei um pouco”
“Ainda bem que sabe.” Ela o encara novamente “Não é errado fazer uma largada. No entanto a bola de segunda é de alto risco caso eles percebam.” A treinadora respira fundo “Pense bem quando e como usar!”
“Ta bom!” Nick diz mais confiante e treinadora o leva a parte dos outros
“Não se esqueça contra quem estamos jogando.” Ela olha em seus olhos como se estivesse vendo sua alma “Não é contra Oikawa é contra o Aoba Jōsai e você não está jogando sozinho, está com Karasuno. Não deixe que aquele espertinho acabe com sua confiança.”
Nick respira fundo, ele tinha que ficar calmo. Ele poderia vencer o Oikawa, mas ele não pode cair na pilha dele. Nick olha para o banco do Seijoh e repara que enquanto todo o time está reunido Oikawa está sentando distante deles com os olhos fechados concentrado. Ele não quer perder o ritmo do saque.
O apito soa e cada uma vai para sua posição.
“Mais uma!” grita Iwaizumi para Oikawa e outra bomba vem para Harry que consegue pegar por pouco mais ela sobe em direção a rede muito rápida. Não vai dar pra levantar. Iwaizumi sobe para cortar de primeira, mas Charlie percebe e tenta fazer o bloqueio. A bola vem com uma bomba perto de Nick e explode no chão.
O ginásio frita de euforia, era mais um ponto do Seijoh. Oikawa se prepara para o saque, Nick perdeu as contas de quantos pontos ele já tinha feito no saque. O saque vem de novo em Harry forte e mortal. Ele consegue pegar com mais precisão e a bola sobe, mas não veio em direção a Nick.
“Charlie!” grita Daichi e Charlie com uma boa técnica levanta a bola para Harry que vinha como um torpedo do fundo para o corte. Harry salta e o corte sai perfeito. Mas um bloqueio triplo do Seijoh se levanta contra ele e a bola vai pro chão.
O rosto de Harry nunca esteve tão pra baixo, sua energia nunca esteve tão baixa.
15x10 para o Seijoh e treinadora pede o último tempo disponível do Karasuno.
Todos vão em direção ao banco, Nick ve Harry devastado, ele pensa em dizer algo. O vôlei é um esporte onde se deve passar a bola, mas quando se erra tantas vezes a recepção, dá uma sensação de culpa e solidão e aquele último bloqueio que veio foi brutal. Como ele deve reagir?
“Harry!” dice Nick
Harry bate suas duas mãos em seu rosto. Todos se assustam. Quando ele abaixa as mãos seu rosto esta vermelho pelo tapa. Harry encara o time e os olhos marejados. Esse era o poder de Oikawa? Pensou Nick. Ele poderia desestabilizar até mesmo o mais durão do time.
“Desculpa aí” Harry diz
“Não foi sua culpa, foi um bloqueio triplo e eu deveria ter dado cobertura” diz Cristian
“Mas o problema é que eu tava me cagando de medo, porra!” Harry desabafa
Escutar aquilo de Harry que sempre foi o mais animado e zoeiro do time, atingiu o Karasuno forte.
“Mas eu não foi me render agora, eu não vou deixar que ele ganhar esse set em cima de mim!” o olhar de Harry mudou estava mais confiante “Na próxima eu finalizo.”
“VOE!” grita Daichi e todos fazem o mesmo.
Nick repara que Oikawa novamente está afastado do time com os olhos fechados, concentrado. O foco dele é inabalável. Ele é muito obstinado.
Oikawa pula e outra bomba rápida e mortal vem direção ao Harry que não consegue receber a bola bate em seu peito e ele fica quase sem ar. A bola ia em direção ao chão.
“Minha” grita Charlie mergulhando e bola sobe. Nick o ve com orgulho e arma uma estratégia, ele não poderia cortar, mas devolve a bola para Oikawa e ele tambem não poderia fazer o levantamento. O sorriso de Oikawa desaparece e a recebe de manchete.
“Watari!” Oikawa grita e o libero do Seijoh levanta para Iwaizumi. A posição do libero ao fazer o levantamento foi perfeito demais. Ele já foi levantador! Pensou Nick, Iwaizumi corta a bola fumegante, mas Cristian recebe com perfeição e a bola sobe em direção a Nick. Ele tinha tres opções Charlie a direita, Tsuk no centro e Asahi da esquerda. Ele calcula bem e escuta a voz de Harry.
“Aqui!” ele diz disparando do fundo pela esquerda.
“É agora” Nick sussurra e a bola vai com perfeição para Harry, tres bloqueadores se levantam para parar Harry, mas ele manda uma diagonal e bola explode no chão. Ponto para o Karasuno.
“AHHHHHHHHHH” extravasa Harry
Aquele grito e aquele ponto deram ao Karasuno uma sobrevida. O set ainda estava vivo. Mas pelo menos conseguimos parar a sequência do Oikawa.
O set segue e Nick sabia que eles tinham percebido os sinais dele e de Charlie. Mas Nick não ia se render tão rápido, ele continuou os cortes rápidos com Charlie que se percepcionavam cada vez mais. Sua conexão estava mais forte, eles se completavam, como se compartilhassem a mesma mente. Charlie encarou o bloqueio forte, mas sua velocidade era maior e bola cravou várias vezes no chão. Mas o placar ainda mostrava 18x15 para o Seijoh.
Nick percebeu que eles acompanhavam todos suas jogadas. Eles não podem chegar nos 20 pontos pensava Nick. Será praticamente impossível recuperar o set que se eles chegaram os 20 pontos. Nick começa sentir a pressão do jogo aumentar.
Os levantamentos de Nick continuavam precisos, mas o Seijoh era como uma parede que se recusava a ruir. Cada jogada cuidadosamente planejada por Nick era desvendada com crueldade, cada movimento antecipado e repelido com brutalidade. Charlie disparava em velocidade máxima, mas o bloqueio impenetrável surgia diante dele, frustrando cada tentativa. Uma bola rápida demais fez Asahi vacilar no ar, seu ataque perdendo potência e morrendo inofensivo nas mãos da defesa adversária. Outra bola escapou torta das mãos de Nick, levando Tsuk a bater na rede de forma constrangedora.
Erro atrás de erro. A palavra ecoava como um grito incessante, uma sentença que martelava o crânio de Nick, destruindo pouco a pouco sua confiança. Cada jogada mal sucedida o empurrava mais fundo na areia movediça de sua insegurança. A mente de Nick se tornava nebulosa, suas mãos tremiam imperceptivelmente.
Foi então que um saque devastador do Seijoh disparou como uma bala, vindo rápido demais para ser corretamente recebido. A defesa do Karasuno rebateu de forma desajeitada, e a bola subiu, perdida no ar, em direção ao outro lado da quadra. Nick percebeu imediatamente—Oikawa já estava posicionado, os olhos fixos naquela oportunidade. Sem hesitar, Nick avançou desesperado, pulando com tudo o que restava de suas forças para impedir o desastre iminente.
Ambos colidiram no ar, as mãos se encontrando ao redor da bola num embate brutal. Os dedos lutavam ferozmente pela posse, músculos tensionados, olhares que duelavam tanto quanto as mãos. Oikawa estava firme, sua postura implacável, um sorriso predatório esboçado no canto dos lábios. Nick sentia os músculos queimarem, suas forças se esgotarem rapidamente. Ele não conseguiria.
A bola escapou das mãos de Nick, caindo de forma humilhante do lado do Karasuno. Ao aterrissar, Nick sentiu suas pernas fraquejarem e, impotente, caiu sentado no chão, o impacto da queda reverberando por todo seu corpo. Os olhos verdes de Nick estavam arregalados, uma sensação esmagadora de derrota se espalhando pelo peito.
Ele ergueu o olhar lentamente, sentindo a respiração ofegante. Do outro lado da rede, Oikawa estava de pé, olhando-o de cima, seus olhos mel brilhando com uma intensidade feroz, como se estivessem devorando-o vivo. Nick sentiu um arrepio percorrer sua coluna—aquele olhar, aquela superioridade silenciosa. Era demais.
Ali, sentado no chão, enquanto Oikawa o observava com um prazer sombrio, Nick sentiu algo quebrar dentro dele. Era mais do que uma derrota momentânea. Era a constatação cruel e definitiva de que, talvez, ele jamais conseguisse se libertar da sombra esmagadora que Oikawa projetava sobre ele.
Nick volta a Quadra do Rio com mente e as palavras de Oikawa ecoam. "EU VOU TE MOSTRAR!" Oikawa gritou, sua voz rasgando o silêncio da quadra. "QUE O EMPENHO E O TRABALHO DURO VENCEM O TALENTO NATURAL!"
De volta ao presente o ginásio eufórico gritava o nome de Oikawa. O apito do árbitro cortou o ar como uma sentença final, fazendo Nick estremecer. Seu coração parou quando se virou lentamente em direção à lateral da quadra, apenas para encontrar Suga de pé, com uma placa erguida acima da cabeça. O número 10 estampado ali era como um tapa violento na cara.
Ele estava sendo substituído.
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