Match Point
10 ARCO 1 VOE! - - Capítulo 10 - A Visão do Topo
Notas iniciais
O ginásio parecia vivo, como um organismo pulsante, alimentado pelos gritos, aplausos e batidas de tambores das torcidas. Cada som ecoava nas paredes, criando um frenesi que envolvia todos os presentes. A disputa entre o coro uníssono de “VOE! VOE! VOE! KARASUNO!” e os tambores rítmicos do Date Tech fazia a quadra vibrar, como se ela também sentisse a intensidade da batalha prestes a acontecer.
Charlie estava parado próximo à rede, mas, dentro de sua mente, parecia estar em um vazio isolado, onde o tempo era mais lento e os sons do ginásio se misturavam em um zumbido surdo. A pressão era quase física, comprimindo seu peito e transformando cada respiração em um esforço consciente. Se perdermos este set, tudo acaba aqui. O pensamento era uma verdade cruel que reverberava em seu cérebro, esmagando-o com o peso da responsabilidade.
Suas pernas pareciam feitas de chumbo, os músculos tensos, tremendo em uma luta para sustentá-lo. As palmas de suas mãos estavam molhadas de suor, e ele podia sentir a textura áspera da fita em seus dedos, algo tão pequeno, mas impossível de ignorar naquele momento de hipersensibilidade. Seu coração batia tão rápido que parecia ecoar por todo o corpo, um tambor que ditava o ritmo do caos em sua mente.
As vozes ao redor, os gritos de incentivo da torcida, tudo se transformava em um ruído indistinto enquanto seus próprios pensamentos gritavam mais alto. Eu não quero perder. Essa frase ecoava como um sussurro teimoso, frágil, quase um pedido de ajuda. Mas, antes que ela pudesse se enraizar, algo mais forte, mais visceral, emergiu. Eu não vou perder!
Essa nova certeza era como um raio cortando o céu de sua mente. Era Sobre provar que ele podia superar a muralha à sua frente. Era sobre todos os momentos que duvidou de si mesmo, todas as vezes que acreditou não ser suficiente. Agora, ali, com o olhar fixo na quadra adversária, Charlie sentiu algo dentro dele mudar. A tensão não desapareceu, mas foi transformada. Não era mais um fardo; era combustível.
Charlie fechou os olhos, tentando silenciar o caos em sua mente. Cada batida de seu coração parecia um eco, cada respiração, um esforço. Ele buscava algo, qualquer coisa que pudesse trazê-lo de volta ao momento. No meio dessa turbulência interna, sentiu um toque. Uma mão firme e ao mesmo tempo gentil pousou em seu ombro, trazendo uma calma inesperada, como se puxasse Charlie de um mar revolto para a superfície.
Ele não precisou abrir os olhos para saber quem era. Aquela energia, a força tranquila que parecia atravessar o toque, era inconfundível. Nick estava ali.
A firmeza no toque de Nick era como uma âncora, algo que o conectava de volta à realidade, mas não era apenas isso. Era como se o simples gesto dissesse tudo o que Charlie precisava ouvir: Eu estou aqui. Você não está sozinho. Era um conforto sutil, mas tão poderoso que fez o peito de Charlie aquecer, como se o peso que ele carregava começasse a se dissipar.
Charlie abriu os olhos lentamente e encontrou os de Nick. Aqueles olhos verdes, sempre cheios de determinação e serenidade, agora pareciam ainda mais intensos. Não havia julgamento ali, apenas uma confiança inabalável. Nick não disse muito, mas também não precisava. Com um leve movimento da cabeça, apontou para o fundo da quadra, e sua voz soou com uma calma que parecia cortar toda a tensão ao redor. “O saque é seu.”
Uma descarga elétrica atravessou Charlie, começando no estômago e espalhando-se até os pés, como se cada fibra de seu corpo estivesse se preparando para um momento decisivo. O vôlei é um esporte coletivo, onde cada toque dependia do anterior, um esforço compartilhado que conectava todos os jogadores em harmonia.
Mas o saque era diferente.
Era a única jogada em que você estava completamente sozinho. Não havia passes para confiar, nem estratégias para esconder suas fraquezas. Era apenas você, a bola e o olhar de todos no ginásio.
Seja você um prodígio ou um Zé Ninguém, naquele momento, todos os olhos estavam fixos em você. O saque era um instante de vulnerabilidade crua, mas também de poder absoluto. Charlie sabia disso. Ele podia sentir o peso de cada olhar, o silêncio tenso antes do barulho explosivo.
Ele encarou Nick, o rosto calmo do capitão parecia desarmar a tensão, transformando-a em algo mais profundo – uma certeza.
Charlie respirou fundo, absorvendo a responsabilidade. “Eu tô pronto!” diz Charlie com uma confiança renovada. Nick sorriu de volta, um sorriso leve, mas cheio de significado. Era como se ele dissesse: eu confio em você.
Charlie virou-se e começou a caminhar em direção ao fundo da quadra. O primeiro passo pesava como se carregasse o mundo nos ombros, um movimento lento e arrastado, cheio de dúvidas. O segundo, porém, trouxe uma leveza inesperada, e o terceiro foi tomado por um impulso que parecia surgir do coração. Cada passo era como subir os degraus de uma escadaria infinita, onde cada avanço o aproximava do topo – algo que estava além do medo, além do cansaço.
Quando chegou à linha de fundo, ele parou. Por um instante, o tempo pareceu congelar, e a visão que se abriu diante dele era quase divina. Dali, ele enxergava tudo: o Date Tech, com sua formação impenetrável, uma muralha que parecia intransponível. Aone e Kanji estavam posicionados como gigantes, cada movimento milimetricamente calculado, suas presenças uma ameaça silenciosa. Mas, ao mesmo tempo, ele viu o Karasuno – seus companheiros, seus amigos. Eles estavam lá, cada olhar carregado de confiança, cada gesto um lembrete de que ele não estava sozinho.
O som do ginásio parecia se dissipar por um momento, deixando apenas a batida ritmada de seu coração. Aquele não era apenas um jogo, era um campo de batalha onde tudo estava em jogo.
O Karasuno virou-se para ele, e em uníssono gritaram: “Bom saque!”
Charlie sentiu o apoio de sua equipe como um vento a favor, empurrando-o para frente. O saque nunca havia sido sua especialidade, mas ele sabia o que precisava fazer. Simples. Faça o básico. A bola só precisa passar pela rede, ele pensou, tentando silenciar a voz da dúvida.
Ele segurou a bola com firmeza, bateu no chão três vezes, e a elevou até a altura do peito. Seus dedos sentiram o peso familiar, mas naquela noite parecia que a bola carregava mais do que ar. Carregava sonhos, expectativas e, acima de tudo, a vontade de lutar.
Charlie deu alguns passos para trás, ajustando a postura. Ele lançou a bola ao ar, e por um momento, o mundo inteiro parou. Tudo o que existia era o movimento da bola subindo, girando suavemente contra o fundo claro do ginásio. Então, ele saltou.
No ar, parecia que o tempo desacelerava. A gravidade perdeu força, e Charlie sentiu cada fibra do seu corpo se alinhar. Seu braço se ergueu, e o impacto foi preciso, como uma flecha disparada de um arco tensionado ao máximo.
A bola viajou em uma trajetória limpa, mas um pouco torta. Charlie prendeu a respiração enquanto a bola passava pela rede, indo na direção do libero adversário. Não foi um saque brilhante, mas era eficaz.
Ele soltou o ar, sentindo o alívio de ter superado o momento inicial. Mas não houve tempo para relaxar. O Date Tech recuperou a bola com uma recepção impecável, armando uma jogada rápida.
No entanto, o Karasuno estava pronto. Quando o atacante do Date Tech subiu para cortar, Tsuk e Nick saltaram em sincronia, seus braços erguendo-se como uma barreira impenetrável. O bloqueio foi perfeito. A bola voltou direto para o chão do Date Tech, marcando o primeiro ponto do set para o Karasuno.
As arquibancadas explodiram em gritos de alegria. O Karasuno havia começado com o pé direito, mas todos sabiam que aquela era apenas a primeira batalha dentro de uma guerra muito maior.
Charlie respirou fundo, olhando para seus companheiros. O sorriso de Nick e o olhar confiante de Tsukishima diziam tudo. Eles não estavam sozinhos. E naquele instante, Charlie sentiu algo diferente. Não era apenas confiança. Era algo maior, algo que ele ainda não sabia nomear, mas que o fazia acreditar que, juntos, eles podiam vencer qualquer muralha.
Charlie faz o segundo saque e ele sai melhor, com mais confiança. O Date Tech recebe e arma novamente a jogada desta com Aone no centro. O bloqueio se atrapalha e a bola passa. Mas Cristian se posicionou para receber, mas a potência inesperada o desequilibrou. Ele conseguiu tocar na bola, mas de maneira desajeitada, e ela foi desviada para o fundo da quadra.
Harry, rápido como sempre, mergulhou em um peixinho impressionante, salvando a bola no último instante. Ben correu logo em seguida e, com a ponta dos dedos, conseguiu passar a bola por cima da rede, mas o movimento saiu com dificuldade, deixando-a mais lenta e previsível.
Kanji, o levantador do Date Tech, percebeu a oportunidade. Ele avançou com passos firmes, posicionando-se na rede. Com um salto impressionante, ele atacou com força, cravando a bola no chão do Karasuno com um cheque preciso. A quadra ficou em silêncio por um instante, antes que a torcida do Date Tech explodisse em comemoração, ecoando por todo o ginásio.
Kanji sorriu de maneira provocativa, seus olhos fixos em Nick, como se desafiasse o capitão a reagir.
Nick reuniu rapidamente o time no centro da quadra, ignorando o placar e a provocação. Ele levantou a mão e gritou com força: “VOE!”
“VOE!” responderam os jogadores, suas vozes unidas e cheias de energia. A moral do time parecia se reacender, como se o ponto perdido não tivesse sido nada além de um tropeço momentâneo.
“Cuidado com a recepção!” gritou a treinadora Singh, com a prancheta em mãos e a expressão séria. “Eles vão forçar ainda mais no próximo saque!”
O Date Tech sacou, a bola vindo como um projétil, cortando o ar com velocidade e força devastadoras. Mas Daichi estava pronto. Seus olhos fixaram-se na trajetória, e ele ajustou o corpo com precisão milimétrica. No instante do impacto, o som da bola em seus braços ecoou pelo ginásio, e a recepção foi perfeita. A bola subiu, girando suavemente no ar, dirigindo-se para Nick como se obedecesse a uma coreografia ensaiada.
Nick ergueu os olhos, sua mente operando como uma máquina de cálculos em alta velocidade. Ele analisou a formação do Date Tech em milésimos de segundo – Aone posicionava-se no centro, vigilante como sempre, enquanto Kanji, ao lado, mantinha os olhos fixos na rede. O bloqueio parecia impenetrável, mas para Nick, cada movimento adversário era uma peça no tabuleiro que ele controlava.
Com um gesto quase imperceptível, ele lançou um olhar para Charlie, sugerindo o levantamento. O movimento era tão sutil que apenas os mais atentos poderiam perceber. Aone mordeu a isca sem hesitar, avançando com a força de um colosso para bloquear o suposto ataque. O Date Tech estava preparado para o golpe.
Mas Nick não era apenas um levantador; ele era um estrategista brilhante. No último instante, ele quebrou o ritmo, girando o corpo com uma rapidez impressionante. Seus dedos tocaram a bola em um movimento que era ao mesmo tempo preciso e ousado, cortando de segunda. A bola disparou em direção ao chão do Date Tech, como uma lâmina que perfura uma armadura, atravessando o vazio deixado pelo deslocamento do bloqueio.
Por um segundo, o tempo pareceu parar. O som da bola batendo na quadra ecoou como um trovão, seguido por um silêncio tão denso que parecia esmagar o ar. E então, a explosão – o ginásio inteiro rugiu em comemoração. A torcida do Karasuno levantou-se em uníssono, os gritos reverberando pelas paredes como ondas de pura energia.
Nick, impassível, voltou-se para a rede. Seus olhos encontraram os de Kanji, que ainda estava processando o que havia acontecido. Um sorriso confiante surgiu em seu rosto, não de provocação gratuita, mas de uma certeza inabalável. Ele não precisou dizer nada. Seu olhar era suficiente para transmitir a mensagem: "Esse set será diferente. E você sabe disso."
O segundo set avançava como um campo de batalha implacável. Cada ponto era uma conquista arrancada a ferro e penas, mas o "Muro de Ferro" do Date Tech mostrava-se quase intransponível. Aone e seus companheiros pareciam antecipar cada jogada, seus bloqueios ressoando como trovões no chão da quadra do Karasuno. Apesar do ímpeto e da criatividade nas jogadas, o time de laranja e preto estava começando a sentir o peso da muralha viva que se erguia diante deles.
Charlie era quem mais sentia a pressão. Seus cortes, mesmo os mais precisos e rápidos, eram barrados por Aone com a frieza e eficiência de uma máquina. A frustração crescia como uma maré alta, ameaçando engoli-lo. Então veio o momento crítico. Nick, com um levantamento perfeito, colocou a bola no ponto exato para que Charlie cortasse com toda a sua força. Ele saltou, despejando toda sua determinação naquele golpe, mas o som seco da bola batendo nas mãos de Aone e voltando para o chão da quadra do Karasuno foi como um tiro no coração.
Charlie pousou no chão e, pela primeira vez, não conseguiu segurar a frustração. "PORRAAAA!" gritou, a voz ecoando pelo ginásio. Aquele grito não era apenas raiva – era o desabafo de alguém que sentia o peso de suas falhas. Ele passou as mãos pelos cabelos, os punhos cerrados enquanto tentava conter as lágrimas que ameaçavam cair. Será que não sou capaz de furar essa muralha? perguntava a si mesmo, sentindo o nó na garganta apertar.
Cristian, sempre o primeiro a levantar a moral do time, aproximou-se com um sorriso encorajador. "Na próxima, você consegue!" disse, tentando soar confiante. Mas Charlie balançou a cabeça, os olhos fixos no chão.
"Não dá..." murmurou ele, quase inaudível, antes de levantar a voz. "Eu tentei de todas as maneiras!"
O silêncio caiu entre os jogadores, quebrado apenas pelos gritos da torcida adversária. Foi então que uma voz firme cortou o ar, como o estalo de um trovão. "Levanta a cabeça," disse Daichi, o tom carregado de autoridade. Ele deu um passo à frente, os olhos fixos em Charlie com a intensidade de um verdadeiro líder.
Charlie olhou para ele, os ombros ainda pesados pela frustração, mas Daichi não lhe deu tempo para afundar mais. "E daí que eles te bloquearam?" disparou, sua voz forte o suficiente para calar qualquer pensamento de desistência. Nick deu um passo, como se fosse confortar Charlie, mas Daichi virou-se para ele com uma encarada firme, como quem dizia que aquele não era o momento para consolo – era o momento de força.
Daichi apontou para Charlie, a voz ecoando com convicção. "Se a bola cair no chão, você vai pegá-la de novo e jogá-la com ainda mais força." Suas palavras eram simples, mas carregadas de uma confiança inabalável que parecia infiltrar-se em todos ao redor.
Charlie levantou os olhos, encarando Daichi, e por um momento hesitou. "E se eu não conseguir?" perguntou, a voz carregada de dúvida.
Daichi inclinou-se levemente para frente, olhando diretamente nos olhos de Charlie, como se estivesse depositando toda a sua fé nele. "Então eu estarei aqui. Sempre. Para defender ela e devolver para você."
Houve um momento de silêncio, mas o impacto daquelas palavras foi quase físico. Os outros jogadores, que observavam a cena, pareciam se endireitar, como se a determinação de Daichi fosse contagiante. Ele tinha essa presença – um capitão sem a braçadeira, mas carregava o time em suas costas quando necessário. Nick olha para Daichi como se ele ainda tivesse muito que aprender.
Por fim, Daichi abriu um sorriso raro, mas genuíno, que parecia iluminar o peso do momento. "A vida seria um tédio se você não se desafiar a si mesmo," ele disse dando um soquinho no ombro de Charlie, com uma calma que contrastava com a intensidade do jogo.
Charlie respirou fundo, sentindo o peito se encher de uma nova energia. Ele olhou para os companheiros de time, todos com expressões de apoio e determinação, e percebeu que não estava sozinho naquela luta. O Karasuno era mais do que um time – era uma unidade, um bando que voava junto, não importava o tamanho da muralha à frente.
E, naquele momento, Charlie tomou uma decisão silenciosa: não importava quantos bloqueios ele enfrentasse, não importava quantas vezes fosse derrubado, ele se levantaria e tentaria de novo. Porque, enquanto estivesse em quadra, Daichi estaria ali cuidando de todos eles.
O placar marcava 24x23 para o Date Tech. Era um Match Point para eles, mais um ponto e o Karasuno estaria eliminado. O Karasuno precisava de um milagre para se manter no jogo e no campeonato.
Nick caminhou até a linha de saque, seus passos firmes ressoando no piso da quadra. A tensão no ginásio era quase palpável; a torcida do Karasuno segurava a respiração, enquanto o Date Tech se preparava para o possível golpe. A postura de Nick era um misto de calma e determinação – ele sabia que aquele saque não era apenas mais um ponto; era a chance de virar a maré do jogo.
Ele segurou a bola com firmeza, girando-a com os dedos em um gesto quase ritualístico. Bateu três vezes no chão, o som ecoando suavemente na quadra, como um prelúdio para o que estava por vir. Seus olhos verdes estavam fixos na rede, calculando cada detalhe, ajustando sua respiração para o momento exato.
Com um movimento fluido, Nick lançou a bola ao alto, o silêncio no ginásio tornando cada segundo ainda mais carregado de expectativa. Ele saltou, o corpo estendido no ar como um arco tensionado, e golpeou a bola com precisão cirúrgica.
A trajetória foi baixa, quase arriscada, e a bola tocou a fita da rede com um som seco. Por um breve momento, parecia que ela iria parar ali, mas, num desvio inesperado, ela ultrapassou para o lado do Date Tech, caindo suavemente na área livre da quadra adversária.
Os jogadores do Date Tech congelaram por um segundo, pegos de surpresa pelo desvio. A torcida do Karasuno gritava eufórica, o som crescendo em ondas que ecoavam por todo o ginásio. O ponto foi para o Karasuno.
24x24.
A torcida explodiu em gritos de comemoração, enquanto Nick soltava um suspiro aliviado, consciente de que o saque anterior havia sido mais sorte do que precisão. Determinado a compensar, ele ajustou sua postura para o próximo saque, ciente de que essa era a chance de virar o jogo.
Nick voltou à linha de saque, mas desta vez seus olhos estavam ainda mais focados. Ele lançou a bola ao alto novamente, e o golpe foi preciso e mortal. A bola cruzou a quadra com força, e Sakunami o líbero do Date Tech tentou recebê-la, mas ela desviou, saindo de controle.
Ace!
24x25 para o Karasuno.
A quadra parecia vibrar sob os gritos da torcida do Karasuno, que explodia em euforia com cada ponto disputado como uma guerra. Cristian, Harry, Daichi e até mesmo Tsuk correram para Nick, a energia de todos transbordando enquanto batiam em suas costas. Nick, no entanto, permanecia calmo, quase sereno, com um sorriso discreto e enigmático que parecia dizer que aquilo era apenas o começo.
“Vamos finalizar isso,” disse ele, com uma tranquilidade que escondia a intensidade que pulsava em seu interior. Ele caminhou até a linha de saque com passos firmes, os olhos verdes brilhando com a determinação de quem já visualizava o ponto final.
Nick lançou a bola ao ar, o movimento meticuloso como o de um maestro comandando uma orquestra. O som do impacto entre sua mão e a bola reverberou pelo ginásio como um trovão. A bola rasgou o ar em um saque poderoso, forçando o Date Tech a ajustar sua recepção. A bola subiu limpa, perfeita para um contra-ataque.
Kanji, o levantador adversário, se posicionou rapidamente, os olhos brilhando com antecipação. Com um movimento fluido, ele armou a jogada perfeita, enviando a bola diretamente para Aone. O gigante do Date Tech correu e saltou com uma precisão quase assustadora, o movimento repleto de força e propósito.
Tsuk e Charlie, como um reflexo sincronizado, saltaram para o bloqueio, suas mãos formando uma barreira desesperada contra o ataque. O impacto foi brutal, a bola desviando na mão de Tsuk e subindo alto no ar.
“Tocou!” gritou Tsuk, já girando no ar para se reposicionar. Ele não perdeu tempo lamentando o desvio. No chão, o Karasuno se movia como uma unidade viva, cada jogador se ajustando instintivamente.
Nick disparou em direção à bola, a leitura de jogo impecável em sua mente como um mapa detalhado. Em um movimento rápido e preciso, ele ajustou o levantamento, mas, desta vez, com um toque de genialidade tática. A bola parecia destinada a Charlie, que já corria para se posicionar. Aone, com seus olhos fixos em Charlie, avançou para o bloqueio, como um predador que não deixaria sua presa escapar.
Mas Nick tinha outros planos.
No último instante, ele mudou a direção do levantamento com uma precisão cirúrgica, desviando a bola para Ben, posicionado na extremidade direita. Foi um movimento tão sutil e inesperado que até mesmo a torcida parecia prender a respiração.
Aone percebeu o engano tarde demais. Seus olhos se arregalaram por um breve segundo, um instante que carregava toda a sua surpresa e frustração. Ben, com o corpo perfeitamente alinhado e os olhos ardendo em concentração, saltou com toda a força que tinha. Seu braço desceu como uma lâmina, e o corte foi fulminante, a bola traçando uma linha reta e mortal na paralela direita.
O som do impacto da bola no chão do Date Tech explodiu como um trovão no ginásio. A quadra inteira parecia estremecer. Por um segundo, o tempo congelou. A torcida, os jogadores, até mesmo o ar pareciam suspensos, como se o mundo estivesse processando o que acabara de acontecer.
E então veio a explosão. O Karasuno gritou, a arquibancada vibrava, e os jogadores se lançaram uns sobre os outros em pura euforia. Cristian ergueu os braços como se tivesse conquistado o mundo, enquanto Harry corria pelo ginásio com um sorriso de triunfo. Tsuk ajustou os óculos com sua habitual arrogância, mas até ele não conseguiu conter um sorriso.
O placar piscava em vermelho: 24x26.
O Karasuno venceu o segundo set.
O ginásio era um turbilhão de energia, a torcida do Karasuno gritando com toda a força que tinham: “VOE! VOE! KARASUNO!” Do outro lado, o Date Tech estava em silêncio, seus jogadores trocando olhares que oscilavam entre a incredulidade e a determinação renovada.
O Karasuno sabia que a batalha estava longe de acabar. Mas, naquele momento, eles haviam mostrado ao Date Tech – e a si mesmos – que não importa quão imponente seja uma muralha, os corvos sempre encontram uma forma de alcançar o céu.
“Bom jogo, rapazes,” disse a treinadora Singh com o time reunido no banco, com a voz firme e carregada de aprovação. Havia um brilho em seus olhos que raramente se via, uma combinação de orgulho e determinação. “Vocês mostraram do que são feitos, mas agora vamos nos preparar para o terceiro set. Nada está ganho ainda, e o próximo ponto é sempre o mais importante.”
Os jogadores assentiram, suas respirações ainda pesadas do esforço. Mas havia algo diferente no ar — um fio de confiança que parecia conectar cada um deles. A vitória no segundo set não era apenas um ponto no placar; era uma fagulha, uma lembrança de que eles podiam enfrentar até mesmo o “Muro de Ferro”.
Singh caminhou lentamente até o centro do grupo, os olhos varrendo cada jogador como se quisesse esculpir a imagem de cada um deles em sua memória. Então, com um gesto firme e cheio de propósito, ela parou diante de Charlie. Ele ainda carregava a tensão do set anterior, o peso de suas próprias expectativas visível em cada linha de seu corpo.
Sem hesitar, Singh ergueu a mão e bateu na camiseta preta com detalhes em laranja que ele usava, o som ecoando no vestiário como um tambor que marcava o início de algo grandioso. O gesto não era apenas um toque — era uma declaração. Seus olhos encontraram os de Charlie, intensos como fogo.
“Quando as cores se misturam, elas se tornam lamacentas e confusas,” começou ela, a voz baixa, mas impregnada de uma força inabalável. Cada palavra parecia destinada a penetrar profundamente em suas mentes. “Azul, vermelho, verde... sozinhas, elas se destacam, mas juntas perdem o brilho. Tornam-se um borrão, indefinidas.”
Então, Singh pausou, seu olhar nunca se afastando de Charlie. Com uma força renovada na voz, ela bateu na camiseta novamente, mas desta vez com mais intensidade, como se quisesse cravar sua mensagem. “Mas há uma cor que sempre prevalece. Uma cor que não absorve, que não se dilui. Que resiste, que domina. É o preto. Preto como um corvo.”
A palavra ecoou como um trovão no silêncio carregado. “Preto como o uniforme que vocês vestem. Preto como as sombras daquele maldito muro. Preto como um corvo, que não teme o céu, que voa mais alto mesmo quando as tempestades tentam derrubá-lo.”
Charlie sentiu o impacto daquelas palavras como uma corrente elétrica. Não era apenas um discurso — era uma promessa, um lembrete de que ele fazia parte de algo maior. Singh deu um passo atrás, olhando para todo o grupo com uma intensidade quase sobrenatural.
“Vocês não estão aqui para se misturar ou se esconder. Vocês estão aqui para se destacar. Para provar que nada, nem mesmo o ‘Muro de Ferro’, pode apagar a força do preto. Porque vocês são Karasuno. E o preto... é a cor que sempre predomina!”
Os olhos de Charlie se arregalaram, e Singh continuou, agora com a voz ganhando força. “O preto não se intimida. Ele não tenta ser algo que não é. Ele é sólido, determinado, constante. Assim como vocês. Cada um de vocês carrega algo único. Nick, sua visão de jogo é o que nos mantém vivos. Cristian, sua energia nos sustenta. Charlie, sua coragem de enfrentar adversidades nos inspira. Tsuk, sua inteligência nos desafia. Harry, sua confiança nos motiva. Ben, sua seriedade nos impulsiona. E quando todos vocês se unem, tornam-se algo que ninguém pode quebrar.”
Ela olhou para cada jogador novamente, o silêncio preenchido apenas pelas batidas ainda aceleradas de seus corações. “Vocês são Karasuno. Vocês são o time que voa, não importa o quão alto seja aquele muro. Hoje o céu pertence aos corvos!”
O silêncio que se seguiu foi avassalador, mas não de hesitação. Era de foco, de unidade. Quando Nick estendeu a mão para o centro, todos souberam que estavam prontos. Um por um, os jogadores se uniram, formando um círculo que parecia inquebrável.
Nick ergueu a voz, cheia de convicção: “VOE!”
“VOE!” responderam os outros em uníssono, a palavra vibrando no ar como um grito de guerra.
Enquanto entravam na quadra, havia uma nova energia no ar. Não era apenas confiança — era convicção.
O terceiro set era pura eletricidade. O ginásio vibrava com o som ensurdecedor das torcidas, cada lado competindo não apenas em habilidade, mas em paixão. Gritos de “VOE, KARASUNO!” ecoavam de um lado, enquanto o Date Tech respondia com o ritmo pesado de tambores e cânticos, fortalecendo o "Muro de Ferro". Cada movimento na quadra era carregado de tensão, como se o ar estivesse mais denso, dificultando até a respiração.
Charlie avançou pela lateral, os olhos fixos em Nick, que fazia o levantamento. O movimento era perfeito, a bola subia como se estivesse suspensa no tempo, exatamente onde ele precisava. Charlie saltou, o coração pulsando em seus ouvidos, e desferiu um corte com toda a força.
Mas o bloqueio estava lá.
Aone e Obara formaram uma muralha intransponível, e a bola ricocheteou de volta com uma força brutal. O ginásio prendeu a respiração, mas Daichi, com reflexos afiados, cumpriu sua promessa a Charlie e mergulhou e salvou a bola no último instante. Ela subiu alta, flutuando acima da quadra. “Vamos, Karasuno!” gritou Daichi, como um general chamando suas tropas para a batalha.
Nick correu, os olhos analisando a quadra com a precisão de um estrategista. Ele fez o levantamento novamente, desta vez para Charlie. “Vai, Charlie!” gritou Nick, a confiança em sua voz cortando o barulho do ginásio. Charlie saltou mais uma vez, o corpo inteiro gritando com o esforço. Ele cortou com precisão, mas novamente foi bloqueado. A bola voltou como um tiro.
Cristian, posicionado no fundo, lançou-se ao chão como uma bala, os braços estendidos no limite. Ele conseguiu levantar a bola de maneira milagrosa, que subiu em um arco alto. “Tá viva!” gritou Cristian, a voz cheia de adrenalina.
Nick, já posicionado, levantou novamente, desta vez para Ben, que vinha correndo pela direita. “É sua, Ben!” gritou Nick, sua voz carregada de urgência. Ben saltou, o olhar determinado, e lançou um corte poderoso na diagonal. A bola voou como um míssil, mas o Date Tech estava preparado. Aone, sempre vigilante, ergueu os braços e bloqueou com firmeza. A bola voltou em direção ao chão do Karasuno.
Harry, vendo o perigo iminente, se jogou em um movimento desesperado, quase colidindo com Cristian. Ele conseguiu levantar a bola, que mal passou centímetros do chão, arrancando um grito de alívio da torcida do Karasuno. “Peguei!” gritou Harry, o rosto vermelho de esforço.
A bola subiu mais uma vez, e Nick, já sem fôlego, correu para alcançá-la. Seus olhos verdes brilharam com determinação enquanto fazia o levantamento perfeito, rápido e inesperado. Dessa vez, a bola não foi para a frente. Foi para Daichi, posicionado no fundo da quadra. “Vai, Daichi!” gritou Nick, sua voz cortando o caos.
Daichi correu para a bola, ajustando o corpo no último segundo. O silêncio tomou conta do ginásio quando ele saltou, o corte vindo do fundo da quadra, ultrapassando a defesa do Date Tech. A bola atingiu o chão do adversário com um impacto ensurdecedor.
“Ponto para o Karasuno!” anunciou o narrador, sua voz sendo abafada pelos gritos ensurdecedores da torcida laranja e preta.
Daichi pousou com firmeza, os olhos fixos na quadra adversária por um momento antes de se virar para o time. Charlie correu até ele, os braços erguidos em celebração, enquanto Nick, Cristian e Harry se juntaram, cercando o capitão com sorrisos e tapinhas nas costas.
“Que jogada, Daichi!” gritou Charlie, o rosto iluminado pela euforia.
Daichi abriu um sorriso confiante e assentiu. “Só cumpri minha promessa,” disse, olhando diretamente para Charlie. “Na próxima, você pega eles.”
As palavras de Daichi fizeram algo despertar dentro de Charlie. Ele sentiu a força e a liderança dele, como se aquelas palavras carregassem um peso maior. Ele respirou fundo, determinado.
Daichi ao olhar para Nick, viu o capitão erguendo o punho fechado, com um sorriso encorajador. “Voe!” disse Nick, a voz firme e carregada de significado.
Daichi chocou o punho contra o de Nick, sentindo uma corrente de energia invisível o atravessar, enchendo-o de uma confiança renovada. “Voe!” respondeu ele, com uma convicção que agora parecia inabalável.
O Karasuno voltou para suas posições, cada jogador alimentado pela energia daquele ponto. A torcida rugia, e a tensão crescia ainda mais. O placar mostrava 23x24 para o Karasuno. Um único ponto separava o time da vitória. Mas também, um único erro poderia custar o set.
O Date Tech, com sua precisão característica, preparou-se para o saque. A bola foi lançada com força impressionante, parecendo um míssil cruzando o ar. Cristian, posicionado no fundo da quadra, observou com olhos atentos. Ele se jogou em um movimento rápido e recepcionou a bola, que subiu girando, pronta para o próximo movimento.
Nick correu para a rede, movendo-se com a precisão calculada de um maestro conduzindo sua orquestra. O tempo parecia se estender quando ele fez um movimento sutil, simulando um levantamento para Ben. Os olhos de Aone, sempre atentos, captaram a isca, e, por um instante, o "Muro de Ferro" deslocou-se para a direita. Mas foi um instante apenas – o suficiente para o bloqueador central perceber o verdadeiro alvo: Charlie.
Aone girou seu corpo com agilidade impressionante, recalculando o movimento como se fosse uma máquina. Ele estava lá, na posição exata, os braços erguidos como uma barreira colossal entre Charlie e o ponto que o Karasuno tanto precisava. O ginásio pulsava com a energia de centenas de vozes, mas naquele momento, para Charlie, tudo ficou em silêncio. O mundo ao redor dele desapareceu, e restaram apenas a bola, a rede e Aone.
A bola subiu, girando levemente no ar, como se o universo a tivesse colocado em câmera lenta, cada rotação carregando o peso de um momento que parecia eterno. Charlie viu a muralha à sua frente – braços longos, estendidos, ameaçadores, como sentinelas de todas as dúvidas e provocações que ele já enfrentara. Por um instante, ele sentiu a pressão esmagá-lo, o ar em seus pulmões parecer insuficiente.
"Diante dos meus olhos, algo bloqueia meu caminho. Um muro alto, muito, muito alto." A voz dentro dele ecoava. “Que tipo de cena está do outro lado? O que eu poderei ver lá? A vista do topo. Um cenário que nunca poderei ver por conta própria.” Ele respira fundo "Mas se eu não estiver sozinho, então... talvez eu consiga vê-lo."
Seus olhos se abriram, e o mundo ao redor parecia se alinhar com sua determinação. Na parede do ginásio, a bandeira negra do Karasuno tremulava levemente sob o sopro dos ventiladores, como se estivesse viva. O corvo de asas abertas parecia prestes a alçar voo, um símbolo de liberdade e resiliência. As palavras bordadas, "VOE!", brilhavam intensamente, como um farol em meio à tempestade. Não era apenas uma ordem. Era um chamado. Uma promessa de que, juntos, eles romperiam qualquer barreira.
Charlie respirou fundo, os olhos fixos naquele símbolo. O peso em seus ombros já não era tão esmagador. Ele não estava sozinho. E com isso, o muro à sua frente começou a parecer menos intransponível.
Seus pés pressionaram o chão como se estivessem cravando raízes, e então ele flexionou as pernas, sentindo cada músculo responder. O chão parecia ceder sob seus pés, mas ele não caiu. Ele se impulsionou, e seu corpo ascendeu, cortando o ar como se estivesse rompendo as correntes da gravidade.
Memórias fluíram em sua mente enquanto ele subia: o som de Nick dizendo “Você pode fazer isso”, o toque de Tao no ombro após um treino duro, o riso de Cristian que sempre parecia dissipar qualquer tensão. Cada movimento dele agora era moldado por aqueles momentos, por aquelas pessoas. Ele não era apenas Charlie – ele era parte do Karasuno, um corvo voando.
Ele alcançou o ápice do salto, mais alto do que jamais subira. Aone estava lá, a muralha viva que parecia impossível de superar. Os olhos do bloqueador fixaram-se nos dele, mas Charlie não desviou o olhar. Ele viu, em um relance, a surpresa naquele rosto – um reconhecimento de que o impossível estava acontecendo. E naquele instante, Charlie cortou a bola com uma força que parecia desafiar todas as expectativas.
O movimento de seu braço foi firme, quase instintivo, como se todo o seu ser tivesse sido desenhado para aquele momento. Quando cortou a bola, parecia que o mundo parou. A energia em seu golpe transcendeu a força física. Era a soma de cada lágrima, cada queda, cada momento em que duvidaram dele – e, mais ainda, cada vez que ele acreditou. Era o grito silencioso de alguém que havia decidido não apenas sobreviver, mas vencer. A bola rasgou o ar como um raio, carregada de uma determinação quase palpável.
O impacto foi como um trovão, reverberando por todo o ginásio. A bola encontrou as mãos de Aone, a muralha que parecia intransponível. Mas naquele instante, algo mudou. O muro cedeu. As mãos de Aone, que haviam parado tantos ataques, inclinaram-se para trás com o peso daquele golpe, como se reconhecessem a força que carregava. A bola desviou, mudando sua trajetória, mergulhando em direção ao chão com uma precisão que parecia desafiar a lógica.
Kanji e Obara se lançaram desesperados, seus corpos em pleno esforço, esticando-se ao máximo. Mas o destino já havia sido selado. A bola tocou o chão, poucos centímetros além do alcance de seus dedos.
O muro de ferro estava no chão!
O silêncio foi imediato, carregado de tensão, como se o ginásio inteiro prendesse a respiração. Então, o som do apito quebrou o encanto. Ponto para o Karasuno.
O ginásio explodiu em gritos e aplausos, uma onda de som que sacudiu as arquibancadas e fez vibrar o chão. Mas, para Charlie, tudo aquilo parecia distante, como se estivesse submerso em um mar profundo onde o caos da superfície não pudesse alcançá-lo. Ele não ouvia os sons ensurdecedores da torcida, não via os companheiros correndo em sua direção com sorrisos eufóricos.
Seus olhos estavam fixos em algo muito além da quadra – na bandeira preta do Karasuno. O corvo de asas abertas parecia ganhar vida sob a luz tremulante do ginásio, seus olhos pintados brilhavam como uma promessa cumprida. E, naquele instante, Charlie sentiu algo que não era apenas vitória. Era o reconhecimento silencioso de algo maior, como se o corvo o encarasse e murmurasse: Eu sabia. Eu sempre soube que você podia voar.
Nick foi o primeiro a alcançá-lo, o sorriso radiante e as mãos estendidas para um toque que virou um abraço apertado. “Você foi incrível” murmurou ele, a voz cheia de orgulho e emoção.
Charlie, com a respiração ainda acelerada, finalmente sorriu. Não era só sobre vencer o ponto ou o jogo. Era sobre o muro que ele havia derrubado dentro de si. Pela primeira vez, ele acreditava. Ele estava voando. A arquibancada explodiu em gritos, o som de "VOE!" preenchendo cada canto do ginásio. Tao e Cristian correram para Charlie, gritando de alegria enquanto o agarrava pelos ombros. Daichi chegou logo depois e o levantou em seus ombros, um sorriso radiante iluminando seu rosto enquanto batia na mão de Charlie.
"Isso, Charlie! Que voo!" gritou Tao, seus olhos brilhando com orgulho.
Charlie pousou de volta no chão, o coração batendo forte, mas não de nervosismo. Era algo diferente – era poder, era realização, era liberdade.
Charlie olhou para Aone do outro lado da rede, e pela primeira vez, o gigante parecia abalado. Seus olhos estavam fixos nas palmas avermelhadas, como se ainda processasse o impossível: o muro havia sido rompido. A expressão de espanto no rosto de Aone falava mais do que qualquer grito ou aplauso ao redor – sua muralha, antes intransponível, havia sido vencida. E não por um jogador de sua altura ou força, mas por alguém que ele jamais considerou uma ameaça – Charlie, o magrelo e baixinho.
Mas o impacto daquele momento não estava apenas na derrota do bloqueio. Aone levantou o olhar, fixando-o em Charlie. Não havia arrogância ou raiva em seus olhos, apenas algo muito mais profundo: respeito. Ele inclinou a cabeça levemente em um gesto que dizia tudo sem necessidade de palavras. Não era um reconhecimento forçado, mas genuíno. O respeito de um gigante que havia subestimado um corvo.
O placar final piscava: 25x23 para o Karasuno.
O ginásio estava em êxtase, o nome de Charlie sendo gritado pela torcida liderados por Darcy e Elle. “Charlie! Charlie! Charlie!”
Charlie permaneceu imóvel, como se o tempo tivesse parado apenas para ele. O ginásio ao seu redor explodia em gritos e aplausos, mas tudo parecia distante, abafado, como um eco vindo de outro mundo. Ele estava ali, mas sua mente estava em outro lugar, atravessando camadas de memória e emoção que se sobrepunham ao presente.
Seus olhos vagaram pelo ginásio, mas o que ele via não era apenas o agora. Ele enxergava os fragmentos de quem já foi – o garoto que se encolhia em um canto, tentando ignorar as risadas zombeteiras e os olhares de desdém; aquele que ouvia, sem querer, os cochichos que o diminuíam, que o faziam acreditar que ele nunca seria suficiente. Essas vozes, tão vivas em sua mente, pareciam colidir com as vozes que agora gritavam seu nome, formando um contraste que era quase insuportável.
Ele olhou para as próprias mãos, apertando os dedos com força, como se precisasse sentir algo tangível para lembrar-se de que aquilo era real. A textura do chão sob seus pés, o peso do suor em sua pele, a vibração do ginásio – tudo gritava que aquilo não era um sonho. E, no entanto, parecia surreal. As mesmas pessoas que um dia o ignoraram, que o reduziram a um ninguém, agora o celebravam como um herói. O peso dessa transformação o atingiu como uma onda, esmagadora e libertadora ao mesmo tempo.
As lágrimas vieram sem aviso, quentes e incontroláveis, escorrendo por seu rosto em um fluxo que ele não tentou conter. Mas não eram lágrimas de tristeza ou mágoa. Não havia espaço para rancor ali. Eram lágrimas de algo muito maior, mais profundo – a pura e crua alegria de finalmente pertencer. De ser visto. Não como alguém pequeno, mas como alguém que fez a diferença.
E, mais do que isso, eram lágrimas de autoaceitação. Pela primeira vez, ele não estava apenas sendo reconhecido pelos outros – ele estava se reconhecendo. Ele estava vendo a si mesmo, talvez pela primeira vez, como realmente era: não pequeno, não insignificante, mas alguém que podia voar.
Enquanto enxugava o rosto com a manga do uniforme, olhou para seus companheiros de time, que o cercavam com sorrisos e abraços. Cristian, sempre o mais animado, puxou Charlie para o centro da quadra. “CHARLIE! ESSE É O CARA QUE VENCEU O MURO DE FERRO!” gritou ele, com uma energia que parecia interminável. O nome de Charlie ecoou pelo ginásio, seguido por aplausos ensurdecedores e assobios. “CHARLIE! CHARLIE! CHARLIE!”
Nick, com um sorriso sereno e os olhos brilhando com uma mistura de orgulho e ternura, pegou a mão de Charlie, entrelaçando os dedos de forma natural, como se aquilo fosse a coisa mais certa a se fazer. Ele o guiou suavemente até a rede, o toque firme e ao mesmo tempo reconfortante, transmitindo uma segurança que Charlie nem sabia que precisava.
"Como foi a sensação?" perguntou Nick, a voz baixa, quase como um segredo entre eles.
Charlie piscou, ainda tentando processar o turbilhão de emoções que o consumia. “De quê?” respondeu, a voz carregada de uma confusão honesta, quase infantil.
Nick não respondeu de imediato. Ele ergueu o queixo e apontou para o topo da rede, para o lugar onde Aone havia erguido suas mãos, onde o bloqueio parecia intransponível, mas onde Charlie encontrou uma maneira de superar. “De voar,” respondeu finalmente, o tom cheio de significado, como se aquelas palavras fossem a chave para algo maior.
Charlie parou, seus olhos seguindo o gesto de Nick até a rede, e, naquele momento, sentiu seu coração bater mais forte. A lembrança voltou como uma onda: o salto, o instante em que o ar parecia abraçá-lo, o olhar de Aone fixo nele, o impacto da bola rompendo o muro, e, por um momento, a sensação de liberdade absoluta. Ele respirou fundo, tentando colocar em palavras algo que parecia maior do que ele.
“Foi...” Charlie começou, sua voz hesitante, mas carregada de emoção. Ele sorriu timidamente antes de encontrar as palavras certas. “Foi a melhor sensação da minha vida,” admitiu, a voz quase falhando no final. “Por um momento... parecia que eu podia fazer qualquer coisa. Que nada podia me parar.”
Nick inclinou a cabeça levemente, o sorriso em seu rosto se alargando, mas não de forma grandiosa – era algo pequeno, quase íntimo, mas carregado de significado. “Era disso que eu estava falando,” disse ele, e a doçura em sua voz parecia preencher o espaço entre eles.
Charlie sentiu o rosto esquentar, não de vergonha, mas de algo mais profundo – uma mistura de gratidão e admiração que ele não sabia como expressar. Antes que pudesse desviar o olhar, Nick apertou sua mão com mais firmeza, como se quisesse ancorá-lo naquele momento.
“Estou tão orgulhoso de você, Charlie,” disse Nick, a voz firme, mas carregada de emoção genuína.
Sem aviso, Nick o envolveu em um abraço. Não era um abraço superficial, mas sim algo firme, reconfortante. Charlie sentiu seu corpo relaxar contra Nick, e por um instante, ele se esqueceu de tudo ao seu redor – da quadra, dos gritos de Cristian, até do cansaço da partida. Era como se aquele momento fosse só deles. O perfume de Nick, misturado ao cheiro sutil de suor da partida, era suave e envolvente. Charlie fechou os olhos, e a sensação do abraço parecia levá-lo novamente para os ares. Ele se sentiu protegido, como se nada pudesse atingi-lo. A alegria dentro dele era tão intensa que ele mal podia contê-la.
Nick se afastou levemente, mas suas mãos permaneceram nos ombros de Charlie, firmes e reconfortantes. Seus olhos se encontraram novamente, como se palavras não fossem necessárias para traduzir o que sentiam naquele momento. O olhar de Nick carregava orgulho e admiração, e Charlie sentia como se pudesse se perder naquela imensidão verde.
Charlie o admirava profundamente. Ele via em Nick não apenas o capitão que liderava com maestria, mas uma pessoa que o enxergava, que acreditava nele de uma forma que ninguém mais fazia. Ele respeitava Nick por sua força e sua bondade, mas, acima de tudo, Charlie o desejava. A intensidade do momento era tão palpável que ele sentiu seu coração bater descompassado.
Por um breve instante, Charlie sentiu um impulso quase irresistível de fazer algo que nunca imaginou: beijá-lo. Ele queria dizer que Nick havia sido a luz que o tirou do abismo em que estava, que o ajudou a acreditar novamente em si mesmo. Ele queria confessar que queria estar ao lado de Nick para sempre, em todos os momentos, bons e ruins.
Nick se aproximou de Charlie, o ginásio ao redor deles se dissolvendo em um borrão de vozes e luzes que já não importavam. Tudo o que restava era o momento, tão cheio de intensidade e significado que parecia que o tempo havia parado. O olhar de Nick encontrou o de Charlie, uma troca silenciosa que dizia tudo sem necessidade de palavras. Havia ali uma vulnerabilidade desarmante, um misto de nervosismo e coragem que transbordava em seus olhos verdes.
Com delicadeza, quase como se tivesse medo de quebrar algo precioso, Nick ergueu as mãos e as colocou suavemente no rosto de Charlie. Seus polegares roçaram a pele quente, limpando traços de suor que ainda marcavam a intensidade da partida. O gesto era íntimo, cheio de ternura, mas também de certeza. Charlie, com o coração disparado, sentiu seu corpo paralisar e derreter ao mesmo tempo. Suas mãos, antes tensas, subiram quase instintivamente para segurar os pulsos de Nick, como se quisesse prolongar aquele toque para sempre.
Charlie prendeu a respiração, seus olhos arregalados e cheios de expectativa. Ele viu o rosto de Nick se inclinar lentamente, e naquele instante, toda a confusão, o cansaço, o medo e a dúvida desapareceram. Restou apenas a sensação de estar exatamente onde deveria estar, com a única pessoa que parecia entender tudo o que ele carregava. Quando seus lábios finalmente se tocaram, foi como se o mundo explodisse em silêncio.
O toque era leve, hesitante no início, mas cheio de significado. Não havia pressa, apenas um carinho profundo que falava de todas as coisas que haviam ficado não ditas entre eles. Para Charlie, foi como atravessar uma porta que ele nem sabia que estava fechada. Ele sentiu o coração martelar no peito, não de nervosismo, mas de uma felicidade crua e avassaladora que fazia suas mãos tremerem ao segurar os pulsos de Nick com mais firmeza.
Nick, por sua vez, sentiu como se estivesse voando, mas não sozinho. Ele estava voando com Charlie, e isso fazia tudo valer a pena. O calor que emanava daquele beijo era diferente de qualquer outra coisa que ele já havia experimentado. Era um momento de aceitação mútua, de confiança absoluta, como se ambos estivessem se entregando sem medo de cair.
Quando os lábios se separaram, foi como se o ar ao redor deles tivesse mudado. Charlie abriu os olhos lentamente, e encontrou os de Nick tão próximos, tão cheios de emoção, que ele sentiu as lágrimas voltarem, agora de pura felicidade. Ele queria dizer algo, qualquer coisa, mas não encontrou palavras. Não precisava. Nick sorriu, aquele sorriso pequeno e genuíno que parecia carregar o universo inteiro, e encostou sua testa na de Charlie.
“Então essa é a visão do topo?” Charlie pensou, deixando as palavras reverberarem em sua mente, profundas como um eco em um vale. Não era apenas o ápice de uma partida, mas de algo infinitamente mais significativo. Era como alcançar uma clareira após uma longa e árdua escalada por uma montanha coberta de nevoeiro. O topo não era apenas um lugar físico – era um estado de ser, um espaço onde ele finalmente se via, onde ele era visto. Reconhecido, valorizado, aceito.
Ali, ele sentiu o peso das dúvidas, das inseguranças e dos medos que o tinham acompanhado por tanto tempo dissolverem-se como gelo ao sol. No topo, ele não era apenas um jogador que havia marcado um ponto. Ele era alguém que havia enfrentado seus próprios muros, alguém que aprendeu a confiar nos outros, a voar, mesmo quando o chão parecia ceder.
Ele olhou para a arquibancada e viu Elle, Darcy, Tara e Isaac, pulando e gritando como se fossem parte do time. Eles faziam gestos exagerados com as mãos, formando corações no ar. Charlie, ainda emocionado, retribuiu com um coração formado por suas próprias mãos, e a resposta deles foi ainda mais alta.
O time se dirigiu ao vestiário. O cheiro de suor e adrenalina preenchia o ar, mas ninguém parecia se importar. Os jogadores do Karasuno estavam exaustos, mas havia um brilho nos olhos de cada um – a chama de quem tinha alcançado algo grande.
A treinadora Singh entrou, sua postura ereta e a prancheta firme nas mãos. Ela parou no centro da sala, olhando para cada jogador. O silêncio foi instantâneo, como se todos soubessem que algo importante seria dito.
“Vocês voaram hoje,” começou ela, a voz firme, mas com um tom de orgulho que raramente deixava transparecer. “Vocês não só enfrentaram o ‘Muro de Ferro’, mas o derrubaram com inteligência, trabalho em equipe e coragem. Vocês provaram que os corvos podem voar alto – muito alto.”
Os jogadores se entreolharam, alguns sorrindo de forma tímida, outros balançando a cabeça em concordância.
“Mas eu quero que vocês lembrem de uma coisa,” continuou Singh, seu olhar mais sério agora. “Isso foi apenas o começo. Vocês estão no caminho certo, mas o campeonato ainda está longe de terminar. Se continuarem jogando como jogaram hoje, com o mesmo coração e a mesma determinação, sei que podemos enfrentar qualquer um.”
Ela fez uma pausa, dando ênfase às palavras seguintes. “Até mesmo o Aoba Jōsai e o Shiratorizawa.”
O nome dos dois times favoritos causou um leve tremor entre os jogadores. Principalmente em Nick. Ele sabia que enfrentar o Aoba Jōsai significava lidar com Oikawa, e o Shiratorizawa tinha o temível Ushijima, uma força imbatível no vôlei.
“Eu acredito em vocês,” disse Singh, a voz mais alta, como se quisesse gravar aquelas palavras na mente de cada um. “Vocês têm o que é preciso. Trabalhem juntos, mantenham o foco e continuem evoluindo. Cada treino, cada jogo é uma chance de crescer. Se fizerem isso, não há muralha, jogador ou time que possa nos parar.”
Os olhos de Nick brilhavam enquanto ele ouvia as palavras da treinadora. Ele se levantou, colocando a mão no ombro de Cristian. “Ela está certa. Hoje foi só o começo. Nós somos o Karasuno. E estamos aqui pra mostrar a todos que podemos chegar ao topo.”
“VOE!” gritou Cristian, levantando a mão no ar.
“VOE!” o restante do time respondeu em coro, suas vozes ecoando pelas paredes do vestiário.
A treinadora Singh permitiu-se um pequeno sorriso antes de continuar. “Agora, aproveitem o momento. Vocês merecem. Mas na segunda, voltamos ao trabalho. Porque o topo é só para aqueles que continuam voando.”
Os jogadores assentiram, ainda energizados pela vitória e motivados pelas palavras dela. Eles sabiam que o caminho seria difícil, mas, com o espírito de equipe que haviam encontrado, nada parecia impossível.
Charlie assentiu lentamente, enquanto seus pensamentos se perdiam na intensidade do momento. Seus olhos desviaram para a janela aberta, onde o céu se tingia com os tons suaves do entardecer. Lá fora, um bando de corvos cortava o horizonte, suas asas abertas em perfeita harmonia, deslizando contra o vento. Eles não voavam sozinhos – cada movimento parecia sincronizado, uma dança coletiva rumo a algo maior.
Charlie não conseguiu evitar o sorriso que se formava em seus lábios. Ele não via apenas pássaros. Ele via a essência do Karasuno. Juntos, eles haviam aprendido a voar, cada um sustentando o outro nos momentos mais difíceis. E agora, como aqueles corvos, eles estavam subindo, ganhando altura e encarando o céu como um destino – não como um limite.
“É isso,” pensou Charlie. “Somos corvos, e nada pode nos parar agora.”
Quando o grito de guerra começou a se dissipar no vestiário, Charlie ergueu o olhar, os olhos firmes e cheios de convicção. Ele sabia que, dali em diante, o céu não seria o limite. Ele já estava lá, e não tinha intenção de descer.
Fale com o autor