Matadouro
1 Um lindo humano em minha parede
Para mim não há nada mais prazeroso e habitual que o cheiro de carne. Aquelas peças fresquinhas penduradas em ganchos sempre foi para mim uma dádiva dos deuses. Sentir ao toque a textura macia da pele, o aroma de ferro e ver a cor vermelha do sangue que escorre das fendas que antes haviam sido produzidas por meus instrumentos cortantes, me fascina.
Pensar que antes esse pedaço de carne diante de mim foi uma vida, que teve seus momentos e suas histórias. Nasceu como um ser indefeso e cresceu com suas próprias escolhas, mesmo que as vezes erradas. Porém no final todo ser vivo tem algo para contar e transmitir. Gosto de apreciar o que esse simples pedaço de carne tem para me dizer. O que o levou até ali... O porquê dele merecer isso... Mas como toda carne que merece, é chegado o dia em que, como todas as demais carnes, conhecer o meu abatedouro.
Está ali, pendurado no gancho, um pedaço de carne.
Um pedaço de carne que antes era chamado de Bob Jordan.
Na verdade já sei o que o levou até esse gancho e qual foi seu mérito para participar disso. Só queria entender mais sobre os motivos de suas ações, entender o que se passa em sua mente, mas sei que essa carne nada mais é do que um assassino. Um caçador de vidas inocentes e indefesas. Mas posso dizer que nós temos a mesma fascinação por tirar vidas. Ambos gostamos de carne.
Sigo na cola de Bob a um bom tempo. Tudo começou quando eu estava comprando alguns materiais na loja de ferramentas no centro de cidade. Já havia pego todos os meus materiais necessários quando reparo em um homem, super alto, beirando uns dois metros, barbudo, forte e todo desleixado com um cesto cheio de ferramentas que me deixa intrigado.
Tento me aproximar mais para tentar identificar alguns dos objetos em seu cesto. Haviam cordas, fitas crepe, sacos plásticos, dardos tranquilizantes, entre outros itens que não reconheço de imediato. Ele está com um desinfetante na mão lendo seu rótulo, quando eu o abordo.
— Acho que você deveria comprar este... — me aproximo da estante e pego um desinfetante de marca diferente e entrego para ele. — Esse aqui limpa tudo que estiver na frente! — dou uma risada amigável.
— Sério? Er... Eu estava aqui meio perdido mesmo. Muito obrigado! — diz ele pegando o produto de minha mão. — Nunca te vi nessa cidade, e olha que moro aqui desde sempre...
— Então, moro a pouco tempo em Woodstown. Meio que estou de passagem por aqui. — minto. Moro nessa cidade a minha vida inteira, mas não convivo muito com o pessoal da cidade, prefiro ficar sozinho em minha cabana lugar em que posso confiar apenas em meu cachorro.
— Ah sim, entendi. Mas caso precisar de alguma ajuda pode contar comigo, assim consigo retribuir o favor por ter me ajudado com isto aqui. — diz ele sorrindo e balançando o desinfetante na mão. Ele parece ser um cara bacana.
Dei um aceno de cabeça e vou para outro pratilheira. Finjo estar escolhendo parafusos e porcas em um cesto com várias delas, mas continuo perto do homem misterioso e analiso todos os seus passos. Por fim ele pega um canivete, passando o dedo por entre a navalha, testando-a sobre os dedos. Depois se dirige ao caixa. Vou logo atrás.
— ...está uma correria. Essa mudança de casa está me desgastando demais. Tenho sempre que correr atrás das coisas, nunca me sobra tempo para nada.
Consigo pegar metade da conversa do homem misterioso com o atendente do caixa que parece conhecê-lo por julgar a intimidade na conversa dos dois. O diálogo foi breve e logo o homem deixou a loja com várias sacolas em suas mãos.
Meu pressentimento não estava nada bom. Aquele homem não parecia estar comprando coisas para se mudar de casa. Não mesmo. Eu vi seu olhar empolgado ao ter que escolher um canivete. Analisando bem cada centímetro da lâmina. Aquele olhar não parecia de alguém cansado pela mudança, como dissera. Aquele olhar era de um predador.
Pago minhas coisas rapidamente e vou para meu carro. No estacionamento, paro na traseira do mesmo e abro o porta-malas colocando minhas sacolas dentro. Reparo que o suposto caçador está fazendo o mesmo, ajeitando suas sacolas no porta-malas do carro. E posso jurar que acabo vendo uma espingarda de relance enquanto ele arruma as sacolas.
Uma arma? Não é uma coisa comum de se ver, não há necessidade para se ter uma arma por aqui. A cidade não é perigosa e ele não tem cara que trabalha na polícia. Eu estou sentindo que ele irá à caça. E eu vou também.
Em Woodstown, a caça é terminantemente proibida, por se tratar da cidade com mais índices de mortes de animais em todo o mundo. Antigamente, havia a caça esportiva em que os caçadores matavam animais por treino e esporte, simplesmente para satisfação própria. Hoje em dia, esse ato é infracional e pode até ser plausível de morte, ou pelo menos por mim.
A partir do dia que Bob fez suas compras na loja, eu começo a segui-lo por onde ele percorre. Da casa ao trabalho, durante a semana inteira. Sem suspeita de alguma atividade estranha. E também não parece que ele e sua família estão de mudanças como ele havia dito na loja para o atendente. Durante a semana tudo se mantinha tão pacato.
Porém na sexta-feira algo me deixou curioso, após Bob sair de sua casa para o trabalho, seu filho que ainda era uma criança, diria que tem por volta de dez anos de idade, sai para o quintal e senta no balanço arramado em um galho na árvore em frente a casa deles. Ele mantinha uma expressão cabisbaixa, e aquela distante deduzo que estivesse chorando por ter levado suas mãos aos olhos e limpá-los. Dessa vez não acompanho Bob ao trabalho logo após a sua saída, em vez disso fico olhando aquela cena de cortar o coração. Aquela criança parece ser tão indefesa, tão frágil. Foi só quando ela entra para dentro de casa novamente que parto para o serviço de Bob. Chegando lá, vejo que seu carro está estacionado na mesma vaga de sempre, nada novo.
No dia seguinte, quando finalmente chega sábado, dia em que Bob não trabalha. Fico de tocaia esperando alguma ação acontecer, mas é só quando o sol está quase se pondo, que ele sai de casa e enche o porta-malas do carro de sacos plásticos, estendendo-os para cobrir o carpete e põe uma mochila por cima. Volta para dentro da casa e minutos depois sai acompanhado do seu filho, aquela criança ainda parece estar triste e incomodada com alguma coisa. Ambos entram no carro e partem pela rua.
Sigo eles até a estrada que sai para fora da cidade, ao longo com altos pinheiros. Meus sentidos estão cada vez mais aguçados, com certeza eu e ele teríamos uma caça hoje. Até que ele para em um bar, de nome Canalhas, que tem na beira da estrada. Um bar atípico, frequentado por homens motoqueiros, punks e grandões que vão lá para se empanturrar de bebida. Ele estaciona o carro numa vaga a frente do bar e entra no estabelecimento sozinho, deixando a criança esperando no carro. Paro o meu carro em uma vaga mais para frente, longe da dele.
O bar, com aparência toda velha e suja, parece estar vazio ao julgar as poucas motos e carros estacionados na frente. Saio apressadamente do carro e entro no bar. E como previsto havia poucas pessoas, algumas sentadas nas mesas vendo um jogo de futebol, outras sentadas no balcão virando seus shots de cachaça. Vejo o Bob, em uma mesa no fundo do bar com outros quatro homens que não consigo descrevê-los por não poder manter os olhos fixamente para eles. Então sento no balcão, o mais perto possível daquela mesa e peço uma dose de tequila.
— ...Você tem esse compromisso, terá que cumprir o que foi combinado. — diz um dos homens sentado a mesa. Consigo ouvir a conversa pela metade.
— Eu tenho umas coisas para resolver com meu filho hoje. Mas pode ficar tranquilo pois cumpro com as promessas que eu faço. — retruca Bob, virando um shot da sua bebida.
— Seu tempo está se esgotando, Bob... — diz o mesmo homem em desafio.
— Eu sei disso. — diz Bob firme, se levantando e saindo do bar sem dizer mais nada. Pela cara dele, o assunto que estava sendo trato era sério.
Dou o dinheiro do shot que consumi para o bartender e saio logo atrás de Bob. Lá fora vejo que ele está mexendo no porta-malas, com seu filho do lado. Dou as costas para os dois e me escondo do lado do bar, atrás de uma lixeira, sem ser visto.
Bob retira a mochila, que ali está, e põe nas costas. Fala algo para o filho, e se direciona para uma trilha entre as árvores ao lado do bar, os dois somem de vista logo em seguida.
Saio do esconderijo e corro para tentar acompanhá-los. Bob anda lentamente por entre as árvores, apurando cada vez mais os ouvidos, atento por qualquer barulho, e seu filho sem dizer uma palavra o segue. Eu os sigo se escondendo ao máximo que consigo atrás de uma árvore e outra, mantendo uma boa distância. Estou cada vez mais apreensivo com tudo aquilo. Sei que o motivo dessa expedição era aquilo que eu estou imaginando. Bob realmente está caçando. E eu estou caçando ele. Então parece que hoje ambos teremos carne para o jantar...
Ele para bruscamente e se agacha lentamente sem fazer sequer barulho. Depois de uns quinze minutos de caminhada, finalmente encontra sua presa. Ao longe, em uma campina, agora quase breu devido ao sol que se punha, está um bando de veados. Pelo o que eu pude perceber, há uns sete deles. Todos envolta de uma lagoa que havia no meio da campina.
Pude ver que Bob, retira um objeto prata de dentro da mochila. Não poderia ser uma faca, naquela distância ele nunca conseguiria correr para matar sem espantá-los. Muito menos conseguiria derruba-los com um lance. O que ele está querendo fazer?
De repente um filhote veado cai no chão. O rebanho sai correndo e deixa o corpo do animal, sozinho. Não houve barulho, não ouve agitação. Bob apenas colocou o objeto prata na boca.
Por que diabos o Bob está usando uma zarabatana para adormecer um filhote? Isso quer dizer que ele ainda quer o animal vivo. O filho dele apenas coloca as mãos na boca e abafa um grito de surpresa.
— Está vendo filho como é simples? Você só precisa pegar a prática da coisa... — diz Bob se levantando e se aproximando o veado na beira do lago. O menino se mantém parado e incrédulo. — Vem filho, agora. — diz o homem ríspido.
Já matei muitos caçadores, muitos deles fazem coisas piores com os pobres animais. Torturam, esquartejam, dilaceram para tentar capturá-los. Não fazem isso com um dardo tranquilizante, isso não é comum. Bob tem um jeito delicado e ordenado para caçar, algo me diz que está em seu sangue e que ele deve apreciar isso, levar a sério. Essa caçada está ficando cada vez mais interessante.
A pobre criança anda lentamente adjunto de seu pai, o mesmo retira uma corda da mochila e amarra os pés do veado, com um nó certeiro.
— Você deve amarrá-los desse jeito está vendo, Jimmy? — diz Bob terminando o nó e olhando para o menino, que se mantinha cabisbaixo. — Olha aqui porra, você tem que aprender, caralho. Estou te ensinando!
— Não quero aprender a fazer isso. — diz Jimmy levantando a cabeça. — Mamãe, disse que isso é errado...
— Sua mãe não tem que saber. Isso é nossa família Jimmy. Lembro da minha primeira vez que meu pai me levou para caçar... Foi um dia tão especial, foi a primeira vez que meu pai passou mais tempo comigo, ele estava tão empolgado para me ensinar e eu para aprender. Ao longo do tempo ele conseguiu me ensinar tudo que sabia. Assim como ele havia sido ensinado pelo pai dele, e assim como eu vou te ensinar tudo que sei agora. Está no nosso sangue. Sua avó era maravilhosa cuidava da pós caça, ajudava seu avô no que fosse preciso. Sua mãe nunca entenderia isso, é outra realidade para ela, a mesma foi criada em outras tradições, ela nunca teve contato com a caça, não posso culpá-la. Porque essa cidade transformou a toda atividade de caça em algo criminoso. Por isso que ninguém entenderia, por isso sua mãe não entende. São influenciados pelo controle das leis dessa maldita cidade. Só que com isso, meus pais perderam tudo, foi tirado o poder deles de caçar, a essência deles. Seus avôs morreram de desgosto por toda essa reviravolta. Todo mundo que sabiam o que eles faziam se viraram contra eles. Ficaram totalmente sozinhos com aquilo que eles faziam para viver. Tivemos que aprender a conviver sozinhos e escondidos. Logo após eles morrerem, tive que assumir uma nova identidade, para recomeçar, sem ter o nome manchado. Porém somos isso, Jimmy, caçadores reprimidos e criminados. Tentam nos tirar aquilo que somos, nos mudar. Porém somos homens o bastante para não nós deixar calar. Seu avô nunca deixou um dia sequer de me ensinar, mesmo depois disso acontecer, ele não mudou e fazia suas caças escondidas e mantinha sua tradição. — explica Bob com calma e atenção para o filho.
— Mas isso é cruel, matar um animal sem necessidade alguma. — diz Jimmy, tentando digerir tudo aquilo. — Vocês eram loucos então. Mereciam ficar sozinhos...
— Olha aqui moleque. — vocifera Bob se levantando e pegando no pescoço de Jimmy. Não consigo ver a reação do menino pelo mesmo estar de costas, mas consigo ver a cara do pai com a fúria em seu olhar enquanto dizia as palavras. — Você vai aprender a ser homem igual meu pai me ensinou a ser. Não vai ser essa putinha que a sociedade quer que você seja. Você disse que queria começar aula de canto e de pintura, mas para que porra é essa? O que essa sociedade quer que nossos filhos sejam? Maricas? Ontem conversamos sobre isso, e você vai ser homem. Filho meu vai ser macho de pegar na porra de uma arma e meter uma bala no meio da cabeça de um animal sem ter frescura. Quero que você sinta o poder e o prazer, do mesmo jeito que meu pai me proporcionou na primeira fez que me fez matar uma carne. Isso é só o começo. Isso é o que eu quero que você se torne, está me ouvindo bem?
Então devia ser isso que Jimmy estava chorando no balanço ontem. Talvez eles tiveram uma conversa sobre isso pela manhã. O filho querendo aulas de canto, pintura e o animal do pai (animal não, coitados dos animais) querendo que o mesmo siga na área da caça.
O pai solta o filho, que da uns passos para trás com as mãos no pescoço e tosse devido ao ar que entra novamente por sua traqueia. Bob tira um revólver de dentro da mochila e entrega para Jimmy que sem jeito aceita, depois de se recompor.
— Pai? Por favor, não! — suplica o menino arrasado. Consigo sentir que ele está chorando e tremendo todo. — Deixa quieto, eu não faço mais as aulas de canto e pintura...
— Anda. Você vai atirar agora! — grita Bob.
— Não pai...
O filhote de veado desperta de seu sonífero. Se debate descontroladamente com suas patas amarradas e sua boca amordaçada, em total agonia e desespero.
— Não consigo!
— VAI, PORRA! ESTOU MANDANDO, MOLEQUE!
Jimmy começa a chorar desesperadamente, sem fazer barulho, mas lágrimas correm sem cessar em seu rosto. Apenas chacoalha a cabeça em negativa e mantém a arma abaixada.
Com um puxão, Bob retira a arma de Jimmy e aponta para o veado. Choro do menino, bufar do pai, agitação do filhote. Mas apenas um som se sobrepôs e ecoou no silencioso começo de noite sobre a campina e entre as árvores. A bala disparada enche em cheio na cabeça do filhote, que na hora para de se contorcer e agonizar. O sangue espirra para todo lado e forma uma grande mancha vermelha no lago. Pedaços de carne e tripas é o que restou do lugar que antes era a cabeça do filhote.
De um segundo para o outro, tudo se aquetou.
— Que decepção. — diz Bob, olhando para o filho e balançando a cabeça em negativo.
Não vejo mais da cena. Enquanto Bob embrulha o filhote morto em plásticos eu saio pelo caminho que fizera para voltar ao estacionamento do Canalhas, antes deles voltarem também. No carro, reflito tudo que acabara de acontecer. Eram comuns famílias antigamente viverem para a caça, Bob não era um dos únicos. Essas famílias se acabaram com o tempo, e as poucas que devem haver hoje em dia devem estar muito bem escondidas, dificultando meu trabalho. Escondidas e camufladas assim como o Bob, que durante a semana é um trabalhador qualquer, patriarca da família e que nos finais de semanas mata filhotes indefesos. Tudo por debaixo dos panos, sem vestígios.
Vejo finalmente Bob e Jimmy chegarem no carro e colocarem o embrulho, que não era tão grande assim, no porta-malas. Depois disso saem despercebidos de volta para a estrada de onde vieram. Sigo na cola, percorrendo todo aquele caminho novamente. Mas percebo que Bob faz um desvio e vai para o píer do lago principal da cidade, estaciona perto das docas e ali mesmo sem mais e sem menos, ele retira o embrulho do porta-malas e arremessa lago a dentro, fazendo os resquícios do filhote afundar e sumir de vista. Olho tudo isso em uma distância segura, perto das árvores da estrada. Bob simplesmente desovou o resto do animal no lago sem um pingo de humanidade, como se não fosse nada demais.
Uma vida inocente foi tirada. Agora papéis invertidos. É chegada a minha vez de caçar.
Me aproximo da carne pendurada no gancho. Não emitia um único som, devido a mordaça que prende sua boca. Ele está em transe, não mexe nem um centímetro. Seu corpo está apenas sendo sustentado por um gancho fincado em suas costas. Mãos amarradas. Mas nenhum sinal de luta para se soltar, ele devia estar fraco demais para isso.
Para sequestrar Bob não foi nada difícil, deixei um bilhete debaixo da porta de sua casa endereçado a ele, dizendo: "Eu sei o que você é, e o que você faz. Me encontre no píer às dez horas da noite. Não conte a ninguém". Fiz tocaia a noite toda na frente da casa dele, esperando a hora chegar para realmente ver se ele iria ao píer sozinho como o combinado. Já no píer, Bob parou o carro e saiu gritando a procura de seu intimidador. Fiquei escondido esperando a hora certa, até que Bob para de gritar e acende um cigarro virando as costas para mim. Momento esse que aproveitei para aplicar um "boa noite Cinderela" no indivíduo. Pronto, simples assim.
— Olhando assim para você, nem parece aquele macho todo que você tinha orgulho de dizer ser hoje mais cedo na campina. Sim, eu vi tudo. Talvez seu filho ficaria contente em ver você agora desse jeito. Agora ele não vai ter mais um babaca controlador em sua vida... — digo sarcasticamente.
Bob começa a se debater, mas para no instante seguinte quando percebe a dor do gancho o perfurando. Uma nova linha de sangue escorre pelas suas costas e desce por todo seu corpo nu. Lágrimas escorrem pelo seu rosto sem parar. O medo é perceptível ali.
Arranco sua mordaça e me sento em uma cadeira defronte a carne e admiro aquela situação. Como nós não somos nada mesmo nessa vida...
— O que você fez com a minha perna? — pergunta Bob, percebendo algo de errado em sua perna. — Me mate logo, por favor. Se é isso que você quer!
— Oh, será que foi isso que aquele filhote também estava pensando prestes a morrer? Me mate logo, por favor? — ironizo.
— Era só a merda de um animal inútil, porra!
— E você também não passa de uma merda. Com convicções totalmente erradas. E ainda por cima, fazer tudo aquilo na frente de seu filho. O que vocês espera que ele seja, um babaca como você? — digo, franzindo as sobrancelhas.
— Ele tem que virar homem porra! Infelizmente o que o mundo ensina hoje é como ser uma mulherzinha fraca. Submissa a tudo. Ele tinha que sentir como era ter o gosto de caçar, tirar uma vida, assim como meu pai me ensinou. Ele tem que ser forte, se empoderar, para não ser um chupador de rola depois! — diz Bob cuspindo as palavras de nervoso.
— E ele precisa matar um ser indefeso para provar tudo isso? Onde há nexo nisso? Ele é livre para seguir seu próprio caminho, assim como você foi livre para seguir o seu. A diferença que o seu destino o levou para o meu abatedouro. Parece que agora quem é o ser indefeso é você.
Bob tosse e cospe sangue.
— Você precisava ver o quanto está parecendo patético! — digo e dou risadas de deboche.
— Ah, vá para o inferno! — diz ele olhando no fundo dos meus olhos.
— Vou e levo você e mais quem merecer junto comigo. — digo me levantando da cadeira e retribuindo o olhar penetrante. — Chega de brincar com a comida.
Pego minha serra na mesa de instrumentos. Não é uma das serras mais afiadas, ela está bem cega para falar a verdade. Mas também não tenho pressa para matá-lo. Sinto a lâmina em minhas mãos. Sinto o cheiro de ferrugem e o quão difícil ela está para cortar. Me aproximo da carne. Esta já entregara os pontos e já espera a morte como uma amiga.
Com movimentos repetitivos de vai e vem, começo a cerrar a jugular de Bob. A pele pálida se enche de sangue em contato com a lâmina enquanto ela adentra. Ele grita agonizadamente, mas para quando não mais consegue e se engasga em seu próprio sangue. Os olhos antes vidrados, agora parecem sem foco. E assim, a alma de Bob ia deixando seu corpo.
Não paro de cerrar até sua cabeça sair em minhas mãos. O osso, a carne e os tendões haviam sido cortados. Apenas sobrou o sangue. Sangue este que não para de escorrer onde antes havia uma cabeça e goteja no chão do abatedouro. Havia também espirrado em todo o meu avental e nas paredes. Adoro ver esse sangue todo, me excita, sinto até meu pênis ereto em minhas calças.
Passo o dedo em uma gota de sangue que escorre em minha bochecha. O líquido pigmenta a ponta do meu dedo. Era de uma cor tão viva. Lambo vagarosamente sentindo o prazer que o gosto de ferro me proporciona.
Com a cabeça de Bob ainda nas mãos, escorrendo sangue por todo o piso de madeira da casa, vou para a sala. Minha sala era um tanto quanto diferente. Não sou exatamente um típico cara da família tradicional. No recinto, há um monte de cabeças humanas molduradas e empalhadas nas paredes. Cobrem todas as quatro paredes do cômodo da cabana.
Em cima da lareira, de frente ao sofá, há uma moldura em especial onde eu sempre coloco a última cabeça que acabo de arrancar, para contemplar meu trabalho realizado. E lá está vazio, pronto para conceber a cabeça de Bob.
Sento na poltrona defronte a lareira e admiro meu trabalho por alguns segundos, vendo o sangue da cabeça, recém posta na moldura, ainda gotejar por todo o chão. Abro o papel que eu achei no bolso da calça de Bob mais cedo, tinha guardado porque fiquei curioso e confuso ao encontrá-lo. Sinto que aquilo significa algo importante. É apenas um papel totalmente preto com um logo em vermelho escrito: Matadouro. O que poderia ser aquilo?
Um "trim" vem direto da cozinha. Era o barulho do forno que acabara de assar o meu jantar.
— Uhum, que delicia. Teremos perna pro jantar! — penso alto.
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