Mata Virgem

9 PROIBIÇÃO // CANÇÃO VIRGEM


Notas iniciais
Existem dois poemas neste capítulo, PROIBIÇÃO e CANÇÃO VIRGEM.

PROIBIÇÃO

O certo está sendo o errado.

O errado, o certo.

Não posso falar.

A natureza é bela,

Não pode ser destruída;

É a paz que se quer alcançar...

Não posso falar.

A fome reina no mundo.

O desespero castiga a humanidade...

Não posso falar.

O homem perdeu a fé.

Vive só... pra si...

Nega o próximo...

Não posso falar.

Pro homem a terra,

Não é mais terra,

Não é livre,

Não mais é parte da natureza.

Pro homem, o céu,

Não é mais céu,

Não é espaço...

É fonte de riquezas...

Um mistério a desvendar,

Penetrar, explorar....

Mais um campo de batalhas.

De tudo o homem quer o poder;

Do céu, da terra,

Do mar, dos homens...

E eu não posso falar!...

Meu pensamento é livre... por enquanto!...

Posso pensar.

Posso tentar piar.

CANÇÃO VIRGEM

Quando criança corria pelos campos

Sem medo do desconhecido.

Queria conhecer, alcançar o inatingível.

Tocava o céu.

Imensidão, perfeição... Surpresa.

Como podia chorar?

Ele chorava...

Uma dor que me compungia,

E me consolava...

Ah!, mas como eu gostava das suas lágrimas caindo sobre

/meu corpo!

Lavavam minha alma;

E eu podia sorrir.

Ainda me diziam que Deus estava zangado!

Verdade?... Não.

Era tudo tão lindo!

Até a lua andava faceira,

Cheia de feitiço...

O feitiço dos sonhos das estrelas.

E os campos ganhavam mais brilho.

Tristeza fosse, as plantas morreriam.

Tudo sonho, fantasia,

Canção não cantada, canção virgem,

Sem música, sem letra, sem harmonia.

Canção fraterna.

De todos.

De uma única mão;

Um só coração.

Cantavam: moneras, moluscos, crustáceos, peixes,

Algas, samambaias, orquídeas, cobras, sapos, porcos,

Vacas, cães, chimpanzés, homens, ...

Cada qual, sua própria canção,

Numa evolução entrelaçada, contínua,

Driblando e vencendo etapas de eras mudas,

Mas de solidários e misericordiosos furacões.