Master of Tides
8 Encontro com o destino
Notas iniciais
Mar, próximo à Península de Margaret, 23:56
A maioria dos tripulantes do Red Lizard já dormia naquela hora, restando acordados apenas os marujos que se encontravam na cabine do capitão. O Navegador e seu capitão discutiam alguns detalhes da viagem enquanto analisavam o extenso mapa sobre a mesa.
— Se o vento continuar favorável, devemos aportar amanhã de manhã. Tem certeza de que ele está em Margaret?
— Bom, se não estiver, Gajeel estará bem encrencado...
— Já faz um bom tempo, acha que ele nos receberá numa boa?
O navegador se recostou na janela, seus ombros visivelmente tensos. Houve um silêncio pesado por um momento.
— Sinceramente, espero que sim, é a única pessoa que conheço que pode decifrar esses códigos... – Natsu olhou de relance para o diário velho no canto da mesa. – Além do que, somos uma família, não?
Aí que morava o medo de ambos. Quem procuravam poderia ser considerado família, mas até onde se lembravam, ele tinha seus valores morais bem definidos, além de ser bem cético. O que pensaria deles terem aderido à pirataria? Um homem tão respeitável quanto ele ajudaria criminosos como eles? Ainda mais quando soubesse de seus objetivos?
Ambos ficaram em silêncio por um tempo, mergulhados em seus próprios pensamentos.
— Ah, capitão! – Gray chamou sua atenção. – O que faremos sobre a garota?
— O que tem a Lucky?
— Sabe que ela está desesperada pra fugir, não? Uma tentativa de fuga não é arriscado demais? Pode por tudo a perder.
— Tranque-a no porão enquanto estivermos em terra.
A frieza das palavras chocou o navegador.
— É sério, capitão? Não acha que está indo longe demais? Ela também tem necessidade de ir a terra.
— Uma necessidade, você diz? – lá estava aquele tom vigarista, ao ver que o rosto do Fullbuster começava a se tingir de vermelho.
— Você sabe! Ela não pode ficar com aquelas roupas rasgadas pra sempre...
Surge um sorriso maléfico que arrepiou Gray até a espinha.
— Oh! O Grayzinho não sabe até onde consegue se segurar com uma jovem tão bela e com tanta pele exposta por perto?
— Pro inferno com seus pensamentos, Dragneel!
— Capitão Dragneel!
— Foda-se!
— Eu sempre soube que você era um tarado, Fullbuster. Sempre soube.
[...]
Tudo parecia tranquilo no porto de Margaret. A bandeira e documentos falsos convenceram o supervisor de que eles eram apenas mercadores em busca de reabastecer para seguir viagem. O Imediato passava tarefas aos tripulantes antes de desembarcarem, conferindo a listagem que Lucy e Loki haviam feito.
— Sting, Rogue, estão responsáveis pela comida. Mais cuidado ao escolher as carnes, não queremos que aquele incidente se repita, não é mesmo Sting? – Jellal entregou o saco com dinheiro aos dois, que sorriram sem graça, e seguiu com as ordens.
— Loki, capriche na bebida, se tudo der certo, teremos um convidado muito especial a bordo em breve.
— Sim senhor.
— Gajeel, pólvora e medicamentos ficam por sua conta desta vez.
Conforme Jellal distribuía tarefas, Lucy começava a ficar ansiosa. Era a oportunidade perfeita para escapar, precisava apenas de sua tarefa e fugiria assim que não estivesse mais a vista da tripulação. Droga, suas mãos estavam começando a suar.
Logo Jellal terminou a distribuição e Lucy se inquietou. E a sua tarefa?
— Jellal?
— Algum problema, Lucky?
— Você ainda não me deu minha tarefa. O que devo buscar em Margaret?
— Ah, quanto a isso... – sua expressão se fechou um pouco. – venha comigo.
Jellal começou a descer em direção ao porão, seguido pela loira que estranhava a situação, e quando ela deu por si, já estava algemada no fundo do porão, desacordada.
— Me desculpe Lucky, são ordens do capitão. – Jellal olhou uma última vez para ela antes de fechar o compartimento.
[...]
Em meio à multidão no centro da cidade, duas figuras encapuzadas se moviam cautelosamente. Apesar de não haver necessidade de Gray esconder sua identidade, os cabelos rosados de Natsu poderiam delatá-los, ainda mais com uma quantidade tão grande de cartazes de “procurado” espalhados pelas paredes, apesar de que Gray não identificou Natsu em nenhum deles olhando por cima, apenas um bando de garotas. De acordo com as informações que conseguiram numa taverna próxima, estavam perto de onde queriam.
— Certo, de acordo com aquele homem, deve ser aquele prédio no fim da rua.
— Caramba! – Natsu se impressionou com a edificação gigantesca no topo da colina. Fazendo uso do antigo Templo de Belserion, as colunas altas deviam ter em torno de vinte metros de altura e três de largura apenas no térreo, fora os outros três andares e prédios adjacentes, torres abobadadas e cúpulas, a Universidade Mildian era quase tão grandiosa quanto o Castelo de Mercurius em Crocus. – Ele com certeza está aqui, esse lugar é um prato cheio para amantes de história!
— Agora que vem o problema. Esta é a maior universidade de Fiore, como faremos para entrar sem sermos pegos?
Natsu olhou de soslaio para uma pequena loja e deu um sorriso travesso. Ao captar a ideia do rosado, Gray fez a maior cara de desgosto que conseguiu.
— É sério?! O Grande Natsu Dragneel, ex-corsário e capitão do Red Lizard não consegue pensar em nada melhor do que disfarces?!
— Qual é, essas capas chamam atenção, e a cor do meu cabelo não me permite ser discreto.
— Ninguém manda ter uma cor de cabelo ridícula como essa.
— Quer brigar, capitão cueca?!
— Cai dentro, cabeça de fósforo!
Para a sorte dos dois idiotas, ninguém deu muita atenção para aquela briga sem sentido. As pessoas até paravam e pensavam em apartar a luta, mas quando ouviam as provocações infantis que um fazia contra o outro e que a briga não era séria, concluíam que era uma perda de tempo.
Não demorou muito para que Natsu e Gray saíssem da loja mencionada antes, Natsu com um sobretudo preto e uma peruca da mesma cor, enquanto Gray usava uma peruca loira com um lenço branco e uma jaqueta que o faziam parecer um estudante universitário que não está muito preocupado com suas notas baixas. Os disfarces eram horríveis, mas dava pro gasto.
[...]
Nada se ouvia naquela sala além dos estalos da madeira queimando na lareira e o som das páginas de um livro velho sendo viradas. Era assim que Zeref gostava de trabalhar, apenas ele, em sua própria sala no departamento de História, e sua enorme coleção de mapas antigos e livros raros de História e Linguagens. Numa parede se encontrava emoldurado um enorme mapa antigo de Earthland, enquanto as outras estavam tomadas por estantes e prateleiras com alguns objetos que Zeref via como pequenos tesouros. O lugar mais se assemelhava a uma biblioteca particular a uma sala de professor.
Desde criança, Zeref se destacava entre os demais pelo seu intelecto. Tinha uma facilidade incrível de aprendizado e memorização, além da paciência e da gentileza como virtudes. Enquanto Natsu e Gray ajudavam nas despesas trabalhando em tavernas, Zeref contribuía com aulas particulares.
Graduou-se em História pela Universidade Mildian e especializou-se em linguagens e códigos na Academia de Crocus, alguns anos atrás, desde então, vinha se especializando em áreas afins, não apenas pela sua carreira como professor, mas pela curiosidade incessante nascida ainda em sua infância quando ouviu a história de um aventureiro e de um tesouro de um viajante, junto a Natsu e Gray. Crianças precisam de histórias, e sua paixão por história surgiu aí. O passado era fascinante para Zeref, civilizações antigas, culturas, linguagens, conhecimento, isso era um verdadeiro tesouro para ele e ninguém o convenceria do contrário.
A sensação era boa, apenas ele, seus livros, e um bom vinho. Como professor de grande prestígio, tinha suas regalias.
Toc toc
— Quem é?
— Natsu Dragion e Gray Surge.
Não.
Zeref congelou.
Estava ouvindo coisas? Qual a probabilidade daqueles dois simplesmente baterem a sua porta do nada?
A bebida ficou esquecida na mesa enquanto o moreno encarava a porta incrédulo.
— Entrem.
Uma figura morena e uma loira adentraram no ambiente e Zeref quase riu.
— Depois de todos esses anos, vocês me aparecem aqui com nomes falsos e esses disfarces ridículos? – ele deu um gole do vinho. – Como entraram aqui?
Natsu trancou a porta atrás de si e os dois trataram logo de se livrar daquelas perucas desconfortáveis. Como aquele troço podia coçar tanto?! Aposto que tem pulgas.
— Fico feliz de te ver também, irmão. – Natsu brincou.
— Mas olha, foi difícil de te encontrar, hein? – foi a vez de Gray. – Para um professor universitário renomado, você é bem desconhecido, Zeref.
— Bom, pelo menos levo uma vida honesta. – Ele levantou da mesa e cruzou os braços. – Talvez queira explicar o que faz nos cartazes de procurado, Natsu Dragneel, e você Gray? Por que está disfarçado? Se juntou a ele e ainda não foi flagrado para ter um cartaz? Coloquem os disfarces de volta, não quero ter minha carreira prejudicada por me virem falando com vocês.
— Que frieza! – Natsu fingiu uma estaca no coração, antes de recolocar a peruca. – Depois de todo esse tempo, é assim que nos recebe? Não sentiu nem um pouquinho de saudades?
Em resposta, Zeref apenas arqueia uma sobrancelha.
— Está bem. – Natsu suspirou e assumiu uma postura séria, cruzou a sala com pulsos firmes e parou em frente ao moreno, com apenas a mesa de carvalho separando os dois. Ele agora detinha toda a atenção de Zeref, o vira poucas vezes assim. – Não posso dizer que tenho uma vida exemplar, mas garanto a você, irmão, eu não matei Mary e Jerome. Posso ser muitas coisas, mas não sou um assassino.
Havia muita seriedade no olhar de Natsu e Zeref podia ler através disso. Aquela intensidade, aquela chama controlada, mas que sempre fazia questão de se mostrar presente, não havia dúvida naquele olhar, Natsu dizia a verdade. Ao constatar isso, Zeref finalmente relaxou os ombros, estava na companhia de seus irmãos, afinal.
— Acredito em você.
Aquelas palavras aqueceram o coração do rosado. Não havia percebido o quanto desejava ouvi-las, até então. Mas não havia tempo para momentos familiares, a situação ainda era delicada. Ia começar a falar, mas Zeref foi mais rápido.
— Sei que esta não é uma visita familiar, ou não teriam que se disfarçar de estudantes para me encontrar no meu local de trabalho e num prédio cheio de seguranças, então digam logo, do que se trata?
— Vou direto ao assunto. – Natsu então tirou do bolso do casaco o diário que carregava consigo desde o naufrágio do Zirconis Fiore. – Se lembra da história que Makarov nos contou quando éramos crianças?
Zeref arfou ao ligar os pontos.
— Isso seria...?!
— O Diário de Igneel, isso mesmo.
— Mas como-
— Encontrei em um caixote apodrecido em uma fortaleza abandonada em Bosco. Você se lembra de que, na história que Makarov nos contou, o diário havia sido roubado em Bosco, não lembra?
Zeref ainda encarava descrente o livro a sua frente. Queria acreditar que aquele diário era real e que a fonte de sua inspiração que o tornou a ser quem era hoje estava bem a sua frente, céus, como queria, mas Zeref não era uma pessoa que se iludia facilmente. Ao folear brevemente, constatou várias orientações de corso, diretrizes, dados geográficos, alguns mapas feitos à mão e muitos borrões pela umidade, mas nenhuma identificação de proprietário e nada realmente relevante para o que Natsu dissera. Suspirou.
— Natsu, há muitos diários de bordo como este, perdidos por aí. Pelas ranhuras no couro da capa e pelo amarelado das folhas, ele realmente deve datar de 200 anos atrás, que por acaso coincide mais ou menos com o período da história contada por Makarov. Mas não se esqueçam, Natsu e Gray, ensinei isso a vocês! O período de X490 a X570 foi de grande instabilidade política, viveu-se uma grande corrida por direitos comerciais e expansão de territórios, Fiore, Bosco, Caellum e as antigas Dragen e Dragnov tiveram grandes combates por terra e mar, resultando em diversos naufrágios e roubos de carga. Muitos diários como este – apontou para o livro – foram apreendidos. Além de que muito conteúdo dele foi perdido pela umidade, muitas partes não estão legíveis, o que te faz acreditar que este é o diário de Igneel?
— Isso estava junto a ele.
Gray retira do pescoço uma corrente com um pequeno objeto pendurado. Estava enferrujado em algumas partes, mas aparentemente não estava quebrado. Em uma de suas extremidades, a forma arredondada possuía seis saliências, com algum espaçamento entre elas, lembrando bastante uma engrenagem, enquanto que o resto do corpo, apesar se compor por linhas tortas, algumas saliências e de tornar-se bastante fina antes da outra extremidade, seguia uma mesma direção, assemelhando-se muito a uma chave. Uma chave de um formato bastante peculiar, por sinal, porém, a semelhança com o desenho da página solta que viram quando eram crianças era absurda. Zeref encarava o objeto completamente sem palavras.
— Isso é real, Zeref. Quer mais uma prova de que esse diário é real? Você ficou com a página solta que Makarov nos deu, não foi? Ainda está com ela?
Zeref ainda aéreo abre a última gaveta da mesa, exibindo uma única folha de papel, a página amarelada que ganhara de Makarov. O tamanho era compatível com o livro.
— Se isso for verdade...
Zeref abre com cuidado o diário e vai até as últimas páginas, onde percebe pequenos vestígios de papel, que indicavam que uma página faltava. A folha encaixa. Aquele é o diário de Igneel Dragneel.
[...]
A cigana sorriu largamente ao abrir os olhos. Lá estava ela novamente, mais nítida que da última vez, e da anterior a ela. A premonição do encontro com o destino se tornou realidade. Via claramente os três rapazes com um diário em mãos e uma encruzilhada. O futuro que lhes aguardava era incerto, mas não havia dúvida de que aqueles rapazes mudariam o mundo.
— Só mais um pouco...
A história já começou a ser escrita.
[...]
Natsu sorria vitorioso ao ver a empolgação do mais velho. Zeref sorria para o velho diário como uma criança que acabara de ganhar um presente há muito desejado.
— Isso é incrível, Natsu! Gray! Esse diário pode revelar segredos profundos da história! – enquanto foleava o livro.
Então Zeref estacou. Os disfarces, o local, o horário, a cautela... Natsu e Gray não se arriscariam tanto apenas para mostrar a descoberta. Ainda havia algo a ser dito.
— O que é que vocês não estão me contando?
— Leia com mais atenção.
Os olhos de Zeref se arregalaram ao prestar mais atenção ao conteúdo. Em meio ao texto legível para todos, havia símbolos quase imperceptíveis. Quando visualizados isoladamente, não pareciam ser relevantes, mas então ao juntá-los, era possível ver um padrão, ainda incompreensível, mas Zeref entendeu o dilema dos irmãos de criação. Não eram símbolos aleatórios, eram um anagrama. E não bastava ser uma mensagem escondida em códigos, os símbolos pertenciam ao alfabeto Tenrou, uma civilização que pouco se sabe sobre ela e extinta a mais de mil anos.
— Primeiro pensei que eram desenhos de algo que Igneel viu, mas eles seguem um padrão, então pensei que poderiam ser um tipo de glifo, ou signo, depois, pensei que poderia ser um idioma, mas nunca vi esse alfabeto antes, por isso precisamos de você, tem que ter um motivo para esses símbolos estarem aí, desta forma, e só você pode nos ajudar com isso, não é?
— Não existem muitas informações sobre o alfabeto Tenrou, Natsu...
— Mas você consegue traduzir, certo?
Zeref mordeu o lábio em dúvida.
— Não tenho certeza... Preciso pesquisar e de tempo para-
— Não temos tempo, Zeref. – Gray interrompeu.
— E por que não? Qual a pressa em procurar um tesouro que ninguém sabe da existência?
— Apesar da maior parte do texto estar no nosso idioma, foi escrito em um tempo diferente, é uma escrita arcaica, então estamos com um pouco de dificuldades para entender o texto, e a umidade não ajuda. – Gray explicou. – Porém, consegui ler as palavras “Pupura Luna”, se refere à Lua Púrpura, certo? Esse é um fenômeno raro, Zeref, só acontece a cada duzentos anos, e a próxima acontecerá daqui a dois meses.
— Acreditamos que a Purpura Luna esteja ligada a isso – Natsu aponta no diário as palavras “Moon Drip”. Não sabemos o que é isso, e nem o lugar, por isso estamos correndo contra o tempo, pode nos ajudar?
Silêncio.
— O que exatamente estão me pedindo?
— Queremos que venha conosco.
— Querem que eu largue tudo o que conquistei por uma caça ao tesouro incerta, junto a piratas?!
— Zeref! Esse tesouro é o nosso sonho, desde crianças! E agora você tem uma prova de que ele é real! Eu também estava relutante com isso no começo, mas acreditei com menos! – Gray insistiu. – Por que está hesitando?
— Há uma maneira certa de se fazer as coisas, Gray! Pirataria é o seu recurso?! Um recurso que se baseia em roubo do esforço e trabalho honesto dos outros?! Uma viagem com riscos fiscais e sabe-se lá o que mais vão enfrentar, onde o menor de seus problemas será a forca, caso sejam pegos?!
— Nem sempre o que é certo está necessariamente dentro da lei. – Natsu interviu. – Um mistério nos foi dado quando éramos crianças. Um segredo de mil anos, que pode mudar a história do mundo, está em nossas mãos. Temos a chave e o cadeado, e uma oportunidade única, você não se sente na obrigação de ir em frente?
—... Eu preciso pensar.
— Não temos tempo pra isso!
Natsu o cortou antes que falasse algo que os levasse a uma briga séria.
— Partiremos em dois dias. Esperamos sua resposta até lá.
[...]
Os dois caminhavam em silêncio em direção ao porto, aproveitando as últimas horas de luz do dia. Gray já estava mais calmo e agradecido por Natsu tê-lo parado, era a decisão mais sensata mesmo. Sabiam desde o começo do senso de moralidade e ética de Zeref e que este seria um grande obstáculo para os dois, mas força-lo a tomar uma decisão naquela hora não traria bons frutos. Também sabiam que Zeref tinha muito mais a perder do que qualquer um da tripulação caso algo desse errado, então teriam que ter paciência e simplesmente aguardar a resposta.
— Pode ir na frente, preciso comprar algumas coisas antes.
— Está bem. Tome cuidado, tem mais guardas na rua do que mais cedo.
— Não se preocupe, não pretendo demorar.
Depois que Gray se misturou na multidão, Natsu se dirigiu a uma tenda de roupas femininas, precisava comprar algumas peças para Lucky antes de voltar ao navio. Passeava o olhar entre saias longas e blusas decotadas, mas não prestava atenção em nenhuma delas, estava com a estranha sensação de que deveria estar em outro lugar. Por fim, comprou um vestido qualquer, uma saia curta e uma blusa decotada, isso iria irritá-la, mas seria divertido de ver e era mais do que o suficiente para ela poder vir a terra (escoltada) e comprar alguma peça que lhe agradasse.
Antes de tomar rumo novamente ao navio, Natsu notou uma pequena tenda roxa em meio à multidão, ela não estava ali antes, estava? Por algum motivo, se sentiu atraído por ela e quando deu por si, já estava adentrando na mesma.
O local cheirava a incenso, se viu entrando em um ambiente pouco iluminado, com alguns objetos de metal espalhados, um violino encostado em um canto, uma pequena mesa no centro com um baralho e um pequeno pedestal de madeira, num formato de uma árvore que apoiava uma bola de cristal que caberia na palma de sua mão.
— É um homem curioso, Natsu Dragneel.
O rosado se assustou com a cigana que saiu de trás de um tecido, vindo em sua direção com tanta confiança. Suas roupas eram bastante chamativas, tanto a saia longa quanto a blusa que lhe deixava a barriga amostra combinavam o preto e o vermelho, e um cinto de tecido coberto por medalhas douradas vinha por cima da saia. Exibia com orgulho as diversas pulseiras douradas, anéis, brincos e colares.
— Como sabe meu nome? – Era uma pergunta boba, afinal, estava falando com uma cigana, e não era uma cigana qualquer, era Cana Alberona.
— Sei muitas coisas sobre você, meu caro Dragneel. – ela falou circundando o mesmo, com uma voz suave, mas astuta, como um felino. Olhava para o rosado como se estivesse lendo sua alma, quem sabe realmente estivesse fazendo isso, mas Dragneel não a questionou. – Um homem de muitas habilidades e ambições, é corajoso, sem dúvidas, e não está aqui por acaso, previ sua chegada há dois dias. Teve um dia difícil, não? Vamos, sente-se! E antes que pergunte, me chamo Cana.
O rosado seguiu a ordem em silêncio, um tanto estático por ser um livro aberto diante de uma mulher que nunca viu enquanto a cigana acendia algumas velas e sentava-se de frente à bola de cristal.
“A curiosidade é o que nos move, ela gera interesse e este, por si, a motivação, e o mundo não seria o que é hoje se não fosse pela curiosidade. Você é um homem curioso, Dragneel, e você quer respostas, mas eu não tenho respostas, apenas visões.”
— O que você vê?
A cigana sorriu e olhou por cima da pequena bola de cristal, cantarolando uma canção. Dararararara, Da-darara.
— Eu vejo o mar. Dois navios. Três bandeiras. Eu vejo risos, dúvidas, alianças e traição. Uma mulher a eterna espera de seu amado. Vejo lados iguais, porém opostos, e sangue a ser derramado. Tudo isso será deleitado por escamas negras e um céu em chamas. Tome cuidado, Dragneel, a curiosidade nos move, mas seus rumos nem sempre são gloriosos, este é um caminho sem volta, tem certeza de que deseja continuar?
Natsu refletia em silêncio nas palavras da cigana. Era informação demais para ser processada em instantes. Quanto mais pensava, mais perguntas surgiam e não sabia por onde começar, mas a julgar pelo olhar da cigana, ela já sabia o que se passava em sua mente, então verbalizou em voz alta:
— Existe uma chance de sucesso?
A cigana começou então a embaralhar as cartas e foi virando uma a uma conforme as escolhas do consulente, até que, por fim, virou a carta que deu a Natsu a coragem necessária para continuar: o Sol.
— Parece que os ventos estão a seu favor, Dragneel.
[...]
Após mais algumas perguntas e breves explicações, Natsu se sentia completamente renovado e pronto para voltar ao navio. Podia transbordar confiança em suas atitudes, mas no fundo, era um homem que questionava com frequências os rumos de suas decisões, as palavras de Cana eram tudo o que ele precisava ouvir naquele dia, mas como a mesma mencionou, seus caminhos nem sempre seriam gloriosos, e mais cedo do que esperava, teria de enfrentar um grande obstáculo, e não, não é de Zeref que estou falando. Antes de sair da tenda, Cana o deteve.
— Mais uma coisa, Dragneel! Um tesouro está para ser tirado de você, se apresse e proteja-a antes que seja tarde demais!
Um tesouro? Mas não estava de posse de tesouro nenhum, o diário ficara com Gray e a chave estava bem segura com ele, o que poderia ser? “Proteja-a”?
Então Natsu olhou em volta e uma realidade o atingiu em cheio quando enfim prestou atenção nos cartazes espalhados pelos postes e muros da cidade: não eram cartazes de procurados e sim de desaparecidos. Todas as imagens retratavam moças jovens, loiras e de olhos castanhas, todas muito belas e muito parecidas com...
— LUCKY!!
Sem se despedir nem nada, Natsu disparou em direção ao navio, uma sensação de pânico tomou-lhe por inteiro quando se viu diante da possibilidade de ela não estar segura onde ele ordenou que a deixassem. Correu o mais rápido que pode, não se importando se poderia ser reconhecido por alguém ou não, já que a peruca ficara pra trás em algum lugar em meio a correria. Ela tinha que estar bem, tinha que estar! Ela poderia ser nova na tripulação, poderia reclamar demais, e podia não conhece-la muito bem, sejamos francos, nem seu nome verdadeiro ela lhe deu, mas isso não importava para ele, ele gostava de sua companhia, e todos de sua tripulação eram importantes para ele, Lucky não era menos. Precisava acha-la, precisava que estivesse segura.
Ao chegar ao navio, saiu atropelando qualquer um que estivesse em seu caminho e correu o mais rápido possível até o porão, tudo para constatar o que mais temia: Lucky não estava lá.
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