Masquerade - Little Lost Soul
9 Forgotten Days
Notas iniciais
"No que errei!..."
Com os dedos trêmulos, soltei a roupa da horrenda senhora. Esta pegou o véu que lhe havia caído por sobre os ombros, e o guardou na bolsa que carregava. Arqueei a sobrancelha, desconfiada. Aquilo, era muito estranho.
– Como me conhece? Como... sabe meu nome? — Perguntei, não desviei o olhar dela nem por um instante.
– Ah, minha querida. Simples. Eu a vi crescer. — Ela levou sua mão encurvada e ossuda como garras até meus cabelos. — Você mudou tanto, mocinha. Está mais alta, e sem dúvida, mais bela.
– Sei... e quem é você? — Olhei em volta.
– Ah, esqueci de apresentar-me. — Ela fez uma reverência. Cabelos esbranquiçados caindo sobre o rosto. — Me chamo Arabella Menegardo.
Aquela mulher, tinha um forte sotaque italiano. Percebi, ao ouvir seu sobrenome.
– Então, Arabella. É italiana?
– Sim, bela ragazza. Vim de lá a anos com meus filhos. Seus pais foram grandes amigos nossos. — Ela sorriu horrivelmente.
Senti como se uma luz, acendesse de repente.
– Conhecia meus pais? — Algo despertando em mim.
– Creio que sim. — Ela me olhou confusa. — É Elsa Arendelle, certo?
– Sou. — Agarrei seus pulso. Podia sentir os ossos por baixo da pele fina. — Vamos conversar em outro lugar.
– Ah, tudo bem. — Ela deixou-se ser guiada.
"...Errei quando
escolhi alguém que não conhecia
quando passei a conhecer
vi que não merecia."
Chegamos no dormitório. Ela se acomodou na cama de Emilia. Sentei ao seu lado, mas a uma distância segura. Ela olhava em volta. Pigarreei, chamando sua atenção.
– Então, conte-me. — Falei mais como uma ordem.
– Ah, querida. — Ela fez voz manhosa. — Essa viagem fez um pouco de mal a meus velhos ossos. Se importa de trazer-me um chá? Conto tudo em seguida.
Reviro os olhos, mas levanto. Ela fica no cômodo. Rumo a cozinha, preparo a bebida. Estava ansiosa por saber mais deles. Passei tão pouco tempo com os dois... voltei, com o chá. Ela ergueu as mãos, pronta para pegar a xícara. Afastei de seu alcance, arrancando toda sua atenção.
– Prometa que me contará tudo. — Falei.
Ela sorriu.
– Claro que sim, meu bem.
Entreguei o chá a ela. Depois do primeiro gole fumegante, ela fechou os olhos, em êxtase. Pigarreei outra vez.
– Então, o que quer saber? — Perguntou.
– Tudo — Dei de ombros. — A vida deles, como tudo era antes de eu nascer e como foi depois. Eu nunca soube muito sobre... meus pais.
Fiz uma careta. Era mais aceitável chamar a Alicie de mãe, e Anna de irmã que chamá-los de pais. Não que guardasse mágoa, rancor deles. É que... elas sempre se fizeram mais presentes em minha vida. Eu havia vivido até os oito anos com eles. Mas era como se... como se não tivesse passado dos dois anos com os dois. Eu não lembrava os nomes deles. Seus rostos... nada. Era como um bloqueio em minha mente.
– Ah, seus pais eram maravilhosos. Eles a amavam muito. Viveram com você durante um tempo na Alemanha, certo? — Fiz que sim. — Eles eram um casal apaixonante. Se amavam muito, mesmo. E quando a pequena Elsa nasceu... tudo ficou perfeito. Enfrentaram dificuldades, sim. Mas sempre de cabeça erguida e de bom humor. O mundo perdeu maravilhosas pessoas.
– Ah... Arabella? — Fiquei um pouco constrangida.
– Sim? Meu bem?
– Ah, qual é o nome deles? — Corei.
Ela franziu a testa. Tomou um gole do chá e então começou a tossir. Levantei, e comecei a dar tapas em suas costas. Ela limpou a boca. E sorriu. Céus, preferia que não fizesse isso.
– Ah, meu bem. — Ela negou com a cabeça. — Certas coisas, precisam vir à tona na hora certa.
– Como o nome de meus pais? — Ajoelhei-me à sua frente. — Arabella, eu não consigo lembrar nem isso. Eu vivi com eles até os oito anos. Oito. Só que as lembranças, são tão poucas, quanto de uma criança. Eu preciso saber. Por favor. — Implorei.
"...Errei quando
achei que tudo era fantasia
quando dei por mim
vi que não era o que eu queria."
– Ah, pequena. — Ela passou as mãos por meus cabelos. — Ainda não é hora.
Senti que poderia chorar. Não adiantaria. Ela não contaria?
– Me fale deles, pelo amor de Deus.
– Você é curiosa demais, menina. O que aconteceu com você?
"...Errei quando
provei da derrota
e mesmo derrotada,
insisti em conserta-la."
Refleti. O que aconteceu comigo? Eu era capaz de sorrir. Eu podia festejar. Mas seria isto alegria verdadeira? A vida não fora justa comigo. Em minha alma, havia um pequeno lugar. Um cantinho escuro, que eu insistia em escondê-lo. Mas este estava machucado, pelas dores desferidas pela vida.
"...Errei quando
me calei
quando poderia ter dito tudo."
– Eu só queria... ah, como eu queria lembrar.
Ela me olhou, compadecida.
– Eu imploro, me fale sobre eles. Porque não quero que eles sejam mera sombra. Quero lembranças reais. Porque eles... estão em meus dias esquecidos. — Lágrimas, de anos guardadas, brotaram, e molharam minha face.
– O mundo já pisou em você. Reconstrua seus pedaços, menina. — Aconselhou, erguendo meu queixo. Pela primeira vez, gostei daquela senhora. Senti simpatia. — É a resposta.
"...Errei quando
não soube esperar
na primeira oportunidade
mergulhei de cabeça
e comecei a afundar."
–Eles... — Sequei as lágrimas. — Eles sempre viveram na Alemanha? Nunca soube nada de meus antepassados.
Ela deus de ombros.
– Também algo que só poderá vir à tona no momento certo?
– Na verdade, não. É que acho que você já tem as respostas.
– Como assim? — Encarei-a, confusa.
– Me diga uma coisa, Elsa. — Ela não respondeu minha dúvida. — Você os amava? Ou tudo o que sente, é curiosidade sobre seu passado? — Me encarou.
Fechei a cara. Agora, estava achando que ela era louca, de fato. É que eles são meus pais, certo? Filhos amam seus pais. Mas... como poderia amar quem não conheço?
"...Errei quando
achei que amava
depois vi que era tudo ilusão
e minha vida caiu em depressão."
Balancei a cabeça.
–Sim, é óbvio que amo. Como não poderia?
Ela assentiu.
– Então, quando menos esperar, todas suas perguntas, são respondidas. — Ela disse, cheia de mistérios. — Não estou aqui para te fazer remoer o passado. Mas para trazer à tona, o que foi encoberto. É um selo. E do jeito certo, você saberá abri-lo. — Uniu suas mãos nas minhas. — O mundo foi injusto com você? Ele a machucou? A vingança se instalou também? Se alojou em seu coração machucado? Ela pode te destruir. Mas você, não vai largá-lo, pois é o sentimento mais perto que tem do seu passado. Exceto a saudade, mas ela te assusta, não é? — Fiz que sim. — É um sentimento que você não quer mexer. Porque no fim, a saudade, pode ser o que mais machuca, que mais destrói. Que mais dói.
"A magoa brota na mente, desse para o peito
e se instala no coração... Deixa você derrotado
sem forças para sair dessa situação.”
– Arabella, eu... — Solucei — Eu nem sei minha própria origem. Sou um enigma. Nada mais que um mistério.
Ela levantou meu queixo, fazendo-me olhar em seus olhos.
– Toda a beleza do mito é justamente seu mistério inacessível, seu enigma não decifrado. Não fique triste de ser um enigma. Eles são capazes de atrair. A beleza do mistério, sua sedução.
Assenti.
– Deixe esse bloqueio te libertar. Você saberá removê-lo.
"...Errei
por saber que errei
e continuo insistindo no erro."
E n'outro momento, já sabia como removê-lo. Raízes, eu queria raízes. Não há prazer maior que decifrar um enigma. Deixe, apenas deixe que os laços te levem até sua origem. E cravado na terra, está a raiz. O começo de tudo. O lugar que você procura. Tudo o que você procura.
– Salem.
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