Mascarade

4 Capítulo 4 - Os Chagny


Notas iniciais
Oi pessoal! Voltei!

Blanche esteve desmaiada por horas no camarim até finalmente acordar. Ela se sentia zonza e desorientada, demorando a se lembrar do que havia acontecido. Tudo parecia um sonho, irreal e distante, mas bastou olhar para o espelho que a realidade voltou a assustá-la. Precisava sair daquele lugar. Precisava sair do alcance do Fantasma. A porta abriu abruptamente e Blanche se assustou com a entrada de Christine. Aparentemente o lado de fora do camarim estava tomado por jornalistas e fãs e Mme Giry havia ficado na porta para dispersar a multidão e impedir que entrassem. Christine entrou pensativa, deu um forte suspiro e se assustou quando viu Blanche.

— Nossa, Blanche! Onde você esteve? — ela correu em direção à bailarina e segurou seus braços — Céus, procuramos você por todos os lados! Mme Giry está uma fera! Você está bem? — ela colocou a mão no rosto da amiga, para medir sua temperatura — Parece um pouco pálida!

— Está tudo bem — a bailarina deu um sorriso sem graça que pouco convenceu sobre suas palavras.

— Oh, Blanche! Venha, sente-se um pouco. Quer água? — Christine guiou a amiga para sentar em um divã.

— Não obrigada. Eu estou melhor — Blanche estava calada e com medo. Jamais se atreveria a falar do Fantasma para Christine ou para qualquer um.

Alguém bateu na porta e os donos da ópera apareceram. Eles fizeram uma reverência e se aproximaram de Christine, ignorando a presença de Blanche. Eles a entregaram flores e a bajularam com uma conversa enrolada qualquer. Foi então que Blanche percebeu que havia perdido a estréia e que, aparentemente, Christine havia sido o destaque da noite. Ela se sentiu um pouco triste, mas tentou não transparecer. Aproveitou a oportunidade para abandonar o camarim e se afastar das lembranças do Fantasma. Devagar e sem fazer barulho, se aproximou da porta e girou a maçaneta, para dar de cara com uma multidão ansiosa, chamando por Christine Daée. Blanche foi bombardeada de perguntas que sua cabeça zonza não pôde suportar e se esgueirou no meio da multidão para sair daquela aglomeração.

Um rapaz puxou delicadamente seu braço. Era alto e loiro, olhos azuis preocupados. Um homem muito bonito, com certeza. Parecia um jovem rapaz, cujo rosto liso e delicado o faria passar por um adolescente de 15 anos. Porém, sua altura e porte não deixavam dúvidas de que ele já era um adulto. Ao menos vinte anos ele deveria ter.

— Eu preciso muito ver a Srta Daée. Acha que poderia entrar? — ele perguntou, aflito.

— Eu não tenho certeza, Monsier – Blanche notou certa familiaridade com o roso do jovem. Era o dono de bela voz melodiosa e tinha uma certa delicadeza cavalheiresca ao tocar-la. Para aumentar sua beleza ele mantinha um olhar aflito que fazia sentir pena. Era o Visconde de Chagny, o novo patrocinador da ópera — Volte mais tarde, quando todos se forem e talvez ela esteja disposta a vê-lo – a moça sussurrou para o homem que, apesar de decepcionado, ainda mantinha um fio de esperança em seu coração.

Afastando-se da multidão, Blanche voltou ao camarim das bailarinas. Precisava se livrar das roupas molhadas e curar seus machucados. Quando abriu a porta encontrou Soliére junto ao irmão do Visconde. Com um robe amarelo de cetim sobre a fantasia incompleta e os cabelos ruivos soltos nas costas, ela se sentava no colo do homem, que como o jovem que a abordara antes, era loiro e belo, porém mais velho, com certeza. A posição em que a ruiva se encontrava e o riso frouxo acusavam a tentativa de sedução que parecia muito bem-sucedida. Porém, ao perceber que mais alguém estava no camarim, Soliére não ficou feliz, seu olhar para Blanche foi fulminante. Ela não havia esquecido da história do perfume que, certamente, só agravava o fato de ser interrompida naquele momento.

— O que faz aqui? – ela rosnou, mudando completamente o tom de voz.

— Preciso me trocar – a moça olhou vacilante para o Conde de Chagny.

— Está ocupado, volte depois – Soliére ignorou, torcendo o nariz.

— Deixe a menina, Soliére – disse o Conde – vamos a um lugar melhor.

Soliére sorriu, enfeitiçada, e se deixou levar pelo Conde para fora do lugar. Quando a dupla passou pela porta ele sorriu com simpatia e piscou para Blanche, indicando com um aceno de cabeça que ela estava livre para utilizar o camarim. A moça sorriu. Os nobres irmãos De Chagny eram doces e simpáticos, cada um ao seu modo. Como Christine e Soliére tinham sorte por conhece-los!

Blanche estava exausta. Arrastou-se até uma das cadeiras em frente aos espelhos e, depois de se certificar que não havia nenhuma passagem atrás deles, se deixou descansar. Descalçou as sapatilhas de ballet sujas e molhadas e massageou os pés doloridos. Precisaria de muito descanso para se recuperar, não era nada fácil andar com aquelas sapatilhas depois de ficar quase doze horas sem tirá-las do pé. Se sentindo um pouco melhor, encostou os pés no chão, sentindo o piso frio confortar seus dedos.. Os braços estavam repletos de hematomas, assim como as pernas, além de um ou outro corte espalhado pelo corpo. Havia uma garrafa de vodka escondida atrás de um armário que Blanche pegou para umedecer um lenço e limpar seus machucados. Depois de tomar uma dose para aplacar a dor, ela limpou as feridas. Corte por corte, arranhão por arranhão, até que a ardência se tornasse suportável.

Sentiu lágrimas correrem em seu rosto, descendo pelas bochechas. Estava com medo, de continuar na ópera, de ser morta pelo fantasma. Estava assustada, depois de ter acreditado que iria morrer nas mãos dele. Seu reflexo embaçado no espelho revelava que marcas avermelhadas de estrangulamento em seu pescoço. A sensação era de que a mão enluvada do homem ainda a segurava e apertava como se fosse um galho seco de uma árvore, até quebrar. Mais um gole de vodka para esquecer. Quem diria que ele era apenas um humano? Truculento e agressivo, mas nada além de um ser de carne e osso. Talvez assim fosse pior, ele estava mais perto e parecia mais letal agora que ela havia o conhecido. Um arrepio subiu por sua espinha. Blanche trocou rapidamente suas roupas para algo mais confortável, sentando-se em um canto, a garrafa de vodka na mão.

Notas finais
Gostaram?