Mascarade
2 Capítulo 2 - Blanche através do espelho
Notas iniciais
Um, dois, três, quatro. Um, dois…
Todo corpo de ballet para Hannibal ensaiava pela última vez antes da estreia do espetáculo. M. Firmin e M. Monjardin, os novos donos da Ópera, assistiam ao ensaio. M. Firmin era mais alto e seus cabelos grisalhos já acusavam uma idade avançada. Já M. Monjardin, mais baixo, tinha cabelos castanhos e sorria para as bailarinas. Ambos fizeram sua fortuna vendendo sucata, mas sabiam que dinheiro não era o sufuciente para frequentar as altas rodas. Quando souberam da venda do teatro, não puderam recusar, ainda mais por uma oferta tão ínfima. Não sabiam absolutamente nada de ópera, mas sabiam que a visibilidade que traria os tornariam sinônimo de cultura e bom gosto.
Naquele momento, no entanto, os dois homens demonstravam sua completa falta de classe ao se insinuar para as bailarinas. Um olhar mais afiado, um sorriso malicioso, um torcer de bigodes. Todas as bailarinas entendiam muito bem o que aquilo queria dizer, mas se faziam de ingênuas e puras, na esperança de se aproximar aos poucos e conquistar a cama de um dos dois ricaços. Blanche, por outro lado, estava enojada. Como era possível que alguém realmente se sujeitasse a aceitar os flertes daqueles dois homens, apesar do dinheiro? Mme Giry também percebeu o jogo de atração que estragava o foco e a concentração no ensaio e tentava manter a ordem no coro da melhor forma que podia, sem abrir mão de sua classe. Um, dois, três, quatro… Jeté, pliê, arabesque…
Quando M. Firmin lançou seu olhar luxuoso para Blanche, ela desviou e fingiu não ver. Ele tentou desajeitadamente chamar sua atenção mais uma e outra vez, mas a dançarina lhe lançou um olhar tão fulminante e acusatório que, constrangido, ele decidiu flertar com outra bailarina. Mas não era apenas um dos diretores que parecia olhar mais atentamente para Blanche naquela tarde. Ela notou o olhar de um dos bailarinos sobre si algumas vezes, mas ao olhá-lo novamente ele parecia desviar sua atenção. Assim sendo, ela não conseguiu definir se ele estava realmente interessado ou se ela estava apenas imaginando. Já faziam três anos desde que Blanche chegara à Ópera e na época ela já não era tão menina. Se Jared realmente quisesse algo com ela, já teria tentado antes.
— Blanche… — Meg chamou baixinho, distraindo Blanche de seus devaneios sobre Jared.
— Sim?
— Você acredita em anjos?
— Anjos? Com asas, do céu?
— Sim. Acredita?
Pensou um pouco antes de responder. Sua mãe era católica, então aprendera a acreditar. Não que ela já tivesse visto algum anjo em sua vida, ou que eles tivessem atendido suas preces quando precisou, mas no fundo acreditava.
— Acredito, por que?
— E em um anjo da música?
— Da música? Acho que sim. Devem ter vários tipos de anjo… Mas por que seu interesse em anjos de repente? Você viu algum?
— Não! É que… — ela abaixou o tom de sua voz — Christine me disse que canta bem por causa de um anjo da música que lhe ensinou. Você acha isso possível?
— Claro que sim! A voz dela é um talento que só pode ter vindo dos céus! Sabe que no fundo eu morro de inveja. Eu adoraria cantar desta forma.
— Mas Christine parecia estar falando sério. Como se ele desse aulas para ela.
— Você entendeu errado, bobinha! Ela estava falando em metáforas. Com certeza ela reza todas as noites para o anjo da música, pedindo por sua dança e sua voz. Por isso ela disse o que disse. Você imagina demais!
— Meninas, silêncio! — Mme Giry as repreendeu e ambas se calaram, sem voltar a este assunto novamente. Ainda assim, Blanche não conseguiu pensar em outra coisa que não anjos com harpas e violinos até o final do ensaio.
Quando Mme. Giry finalmente as dispensou, Blanche sentia seu estômago se contorcer de fome. Ainda havia algumas horas para descansar antes do início do espetáculo, então decidiu voltar ao camarim com as outras meninas do ballet. Sempre havia algo para se comer ou beber por lá, escondido entre fantasias, caixas e almofadas. Com um pedaço de pão em uma das mãos e um copo de água na outra, Blanche sentou-se em um canto, sobre uma almofada com franjas, aproveitando sua refeição.
Renée, Camile e Colette foram entrando, seus tutus cor-de-rosa preenchendo o apertado camarim. Renée era uma garota ruiva e de sardas, com o rosto em forma de coração. Seus jetés eram perfeitos e ela gostava de se gabar disso. Desde pequena sua mãe lhe levava ao teatro para aprender ballet, tanto que destacou-se desde os tempos de ratinha (ratinha é como se chamavam as jovens bailarinas). Camile era uma garota de cabelos loiros escuros e alta, mais que todas as outras. O que tinha de desajeitada na vida, tinha de graciosa nos palcos. Colete era a mais bonita das três, cabelos escuros e pele morena. O sorriso encantador, mas costumava ser um pouco pessimista e irritava-se com facilidade. As três eram as amigas mais próximas de Blanche, além de Meg e Christine.
O trio se juntou a Blanche, contando fofocas sobre os novos administradores e rindo de como pareciam ridículos flertando. Colette se divertia apontando o nome de uma ou outra bailarina que havia passado no escritório deles depois do ensaio. Blanche ouvia tudo com interesse e todas riam de uma ou outra grande história. Foi Renée quem retirou uma garrafa de vinho de seu esconderijo e ofereceu às outras. Apenas Blanche preferiu não arriscar e continuar sentada com sua água.
Foi então que Soliére entrou. Os cabelos ruivos presos em um coque alto e o rosto perfeitamente maquiado, rejuvenecendo-a o suficiente para que aparentasse voltar aos 20 anos. Num susto Blanche se levantou e se sentiu acuada. Escondendo-se entre as fantasias do camarim apertado, ela conseguiu se camuflar. Aparentemente Soliére não percebeu de imediato a presença da garota, o que lhe deu tempo o suficiente para desaparecer em meio à confusão das outras bailarinas. Ela não tinha ideia se Soliére ainda se lembrava da história do perfume, mas não ia pagar para ver. A mulher havia a perseguido pelos corredores não fazia três horas.
Blanche saiu do camarim na surdina, dando de cara com um rapaz alto e loiro. Era Jared. Ela ficou um pouco constrangida, mas tentou disfarçar, principalmente quando ele sorriu para ela e ela respondeu com um fraco “oi”. Não que estivesse interessada, pois ela realmente não estava, mas havia algo de desconcertante naquele encontro, principalmente depois de ela ter visto ou imaginado seu olhar interessado nela. Blanche se apressou em fugir das vistas de Jared e Soliére e marchou para conversar mais com Meg e Christine, que provavelmente estariam no camarim de Carlota. Lembrou da história do anjo, o que despertou novamente sua curiosidade pelo assunto. Quem sabe Christine esclarecia toda a situação? Aquilo também a manteria distraída até o espetáculo.
Quando bateu à porta não recebeu resposta. Entrou apesar daquilo, mas não encontrou mais ninguém no local. Estava sozinha. A curiosidade tomou conta de Blanche que decidiu aproveitaria a oportunidade para vasculhar o camarim da prima donna. Carlotta, em sua suprema arrogância, jamais deixaria uma bailarina pisar em seu camarim, muito menos bisbilhotar suas coisas. Era uma chance em um milhão que Blanche não podia desperdiçar. A primeira coisa que fez foi correr para as araras, ver as diversas fantasias coloridas, todas com saias largas e armadas. Extremamente bonitas, como as roupas de uma rainha.
Também haviam flores espalhadas por todas as paredes, pétalas de cores e aromas diferentes. Gardênias, petúnias, violetas, rosas… um jardim completo! As bancadas brilhavam com as caixas de maquiagem, as escovas com cabo prateado e os frasquinhos de perfume. Pó, blush, tintura para os lábios… Blanche experimentou um depois do outro, escolhendo com toda a calma o que achava mais bonito e mais caro. Mas como culpá-la? Quem desejou ter aquelas coisas durante toda uma vida não poderia se dar ao luxo de perder uma oportunidade como aquela. Pelo menos até Carlotta voltar ao teatro.
Entre os móveis dourados do camarim, os divãs e cadeiras de veludo e o enorme espelho da parede, encontrou um baú antigo cheio de fantasias e acessórios. Havia uma linda tiara de pedras, gargantilhas de rubis e esmeraldas e colares compridos e elegantes. Blanche colocou a tiara na cabeça, algumas pulseiras de prata e um lindo colar de rubis no pescoço, admirando-se no grande espelho. Sentiu-se belíssima, como a diva de uma ópera.
Aproximou-se do espelho, para se ver melhor, mas perdeu sua atenção nos detalhes da moldura. O espelho era antigo, certamente a peça mais antiga do camarim, e tinha uma bela moldura com entalhes de flores e arabescos. Seus dedos formigaram, ansiosos para tocar levemente a moldura dourada. Sentiu os contornos das flores, as pontas das pétalas ondulando sob seus dedos e sorriu, encantada. Seria ouro? Era como o espelho mágico da Branca de Neve ou o espelho das aventuras da Alice. Blanche deixou-se imaginar como a rainha má, posando em frente ao espelho e perguntando quem era a mulher mais bonita, ela ou Branca de Neve? Depois imaginou-se passando por ele, para um mundo desconhecido e encantado, em que encontrava a rainha branca e a vermelha para uma partida de xadrez. Riu de sua tola imaginação.
Foi então que o espelho abriu. Blanche assustou-se como um gato, o coração aos pulos ao ver o vidro deslizando sozinho. Com um passo para trás, assustada, percebeu que havia uma passagem secreta através dele. No lugar do seu reflexo, havia um longo corredor de paredes de pedra que parecia não ter final.
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