Marés do Tempo
2 Fundo da escuridão
Fomos na direção onde os mapas diziam ser o “buraco de minhoca”.
Um “buraco de minhoca” é uma abertura no espaço-tempo que serviria de atalho a algum lugar deste universo ou de outro. Há diversas lendas no folclore pirata sobre o chamado “planeta do tesouro”, um local onde foram guardadas certa vez todas as riquezas de uma inteira galáxia. Assim como as lendas na era de ouro dos piratas, como a fonte da juventude, esta lenda já levou diversas vidas ambiciosas e sonhadoras para a morte.
Seria agora a minha vez?
–A toda lads! Vamos para esse Buraco de minhoca! Sairemos de lá ricos!- (aaaeew! Capitão)
–Ou não, né...- disse uma voz feminina atrás de mim, eu virei-me rápido a tempo de ver a mesma bela garota de antes com um sorriso maroto no rosto desaparecer em fumaça.
Em meu interior eu já não tinha mais duvidas de que a veria, pessoalmente, alguma hora, meu coração batia rápido, de medo, surpresa e excitação.
Avançávamos cada vez mais para o espaço aberto, eu havia saqueado do busque insígnia muitas cargas precisas, mas, estranhamente, todas eram de períodos históricos separados, não havendo nenhuma ligação lógica entre eles, eu sabia estar diante de um grande mistério.
Depois do susto com a imagem da garota, desci a taverna para beber um pouco com meus amigos.
Eles conversavam e gritavam uns com os outros, brigavam e ameaçavam-se amigavelmente, como sempre.
Lionel estava um pouco mais afastado com seu copo, eu cheguei mais perto, depois de roubar a caneca de um de meus amigos sem que este sequer notasse.
–Lionel, você acha que encontraremos algo bom daqui para a frente?- comecei, Lionel era um dos meus melhores companheiros, depois de inúmeras brigas no passado, sendo ele de um grupo rival meu, quase nos matamos, eu fiz-lhe uma cicatriz na testa que está ali até hoje, arruinei-lhe a vida e, cruelmente,deixei-o para morrer em uma ilha do mar do norte.
O jogo de espadas era feroz, quase não se sabia onde as espadas batiam, na chuva, dois rostos ferozes rosnavam, um era eu, molhado, com o tapa olho que me cobria o olho verde, que lia sentimentos, e com um olhar mais feroz e acuado. O outro, Lionel, acabado da luta, ferido, mas com um olhar letal, as ondas batiam contra a costa metros abaixo, um passo em falso e meu fim estaria certo nos espinhos negros do rochedo onde nos encontrávamos.
Lutávamos com o intuito de destruir-nos, eu por achar que assim me libertaria finalmente de meu rival e ele por achar que libertaria para sempre a si mesmo de um amigo que um dia lhe faltou.
Conheci-o a muito tempo, numa taverna, bebemos juntos, conversamos, mas ele parecia fraco, e eu precisava de gente com força para navegar, ele, embora honesto, não tinha o poder necessário e, com pesar, tive de deixa-lo, parti sem ele, deixei-o esperando no cais. Foi nesse dia que cobri meu olho verde, o de ler sentimentos, com um tapa olho.
Acenei para ele de longe, ele com toda a bagagem nos braços e a esperança escorrendo da face, foi triste, era meu começo no mundo cruel da pirataria.
Eu saqueei, feri inocentes por botim e troquei vidas por ouro, quase troquei minha própria alma em troca de gloria, quanto mais me enchia de ouro, mas vazio estava minha alma, mais egoísta, frio e cruel me tornava. Eu era um homem honrado... era.
Um dia soube, em uma troca de informações numa taverna obscura, que o homem a quem eu caçava, James Jess, havia contratado uma tripulação e tinha se tornado um corsário a serviço do rei, eu dei um sorriso de lado, joguei dois dobrões a mesa e parti a seu encontro.
Nos encontramos em meio a uma tempestade, numa ilha rochosa nos mares do norte, eu e James Jess, mas que surpresa não foi a minha quando ele se retirou, rindo, deixando para enfrentar-me não ele próprio, mas outro homem.
Lionel me encarava, com ódio nos olhos e espada em punho, a alma em pedaços clamava pela vingança, e agora ali estava ele, pronto para acertar as contas quem um dia o enganou e o deixou para trás, não pude deixar de me sentir o errado, o vilão, o cara que deveria morrer, passou-me pela mente que deveria deixar-me matar e fazer com que a justiça ficasse ao lado de quem poderia ser meu companheiro, mas que fora cruelmente deixado de lado.
Mas ele veio, e eu pensei melhor.
–Não seria melhor pararmos agora, Lionel, e partirmos juntos?-
–Para que, para que me abandones de novo, Smith? Acho que não, agora você morre-
Cruzamos espadas na noite, uma, duas, três vezes as laminas se tocaram, eu buscava derruba-lo pelas pernas, e sua raiva buscava cortar-me a cabeça.
Esquivei-me de seus golpes e desviei sua lamina, ele não era realmente meu nível, percebi isso pela força excessiva de seus golpes e o desespero com o qual lutava, uma, duas aberturas, poderia mata-lo nessa, não, uma chance, desarmei-o, fiz-lhe um corte no peito, girei a lamina, um na perna, caiu de joelhos, coloquei a lamina em seu pescoço.
–Acho que você perdeu, meu amigo...- O ódio reverberou dentro dele quando disse essa palavra.
–Você nunca poderá chamar ninguém de amigo! Cão infiel! Posso morrer agora, Mas você nunca terá amigos de verdade, solitário! Uma pessoa podre como você nunca terá companheiros! Nunca terá amor!-
Suas duras palavras chegaram a mim, senti-me um demônio traidor, O demônio dos sete mares, já me chamaram assim antes, e de muitas coisas mais, nunca boas, realmente.
–você tem razão- Guardei minha espada- adeus.-
Caminhei lentamente a meu navio, quando senti. Meus sentidos nunca me deixavam na mão, ele me atacou por trás, eu me virei, com raiva, desviei sua lamina, não sem que ele me cortasse o tapa-olho, jogando-o no precipício, e com um movimento rápido, fiz-lhe o corte na testa, o sangue esguichou, e a chuva não foi o suficiente para limpá-lo. Encarei seu rosto vermelho de sangue e disse:
–Eu nunca ataquei ninguém pelas costas.-
Claro, encontrei-o novamente algum tempo depois e... agora, depois de muita historia que depois esclarecerei, ele está aqui comigo, como um dos meus maiores companheiros nesse universo.
–Olha, capitão, eu não sei direito o que vem pela frente, mas, como a gente já fez muita, muita coisa nessa vida, eu não me importo de acabar ela lutando com você ou contra você.-
Sorri. Tomei aquilo como um “estou com você para o que der e vier”. Um velho amigo como Lionel era de grande valor sentimental para mim, até por causa da nossa historia, mas eu sabia muito bem que havia um risco enorme de acabarmos um ao outro de maneira trágica.
Andei mais um pouco com o copo, agora já acabando seu conteúdo, em mãos. Atormentava-me a imagem da garota, ela me era familiar, como se eu devesse conhece-la, e ela parecia estranhamente ligada a mim, eu a veria em breve, tinha certeza.
–Johnathan, como vai o curso?- Disse, parando ao lado de meu amigo enquanto este olhava um mapa holográfico do universo ao redor em miniatura.
Johnathan era uma das pessoas a quem eu conhecia a mais tempo de todos da tripulação, ele fora meu companheiro na Inglaterra, onde éramos dois estudiosos de arqueologia, trabalhávamos procurando em mapas sobre lendas e tesouros da historia mundial, ele cuidava dos mapas, e eu, da ação. Ele me ajudou quando me meti com alguns piratas que estavam saindo de Londres, mas nunca foi de lutar realmente, por isso, quando decidi zarpar para mais aventuras, ele ficou, deixando-me os mapas e as indicações, foi me de grande valia, e depois de algum tempo, consegui contatá-lo novamente, tornando-o parte de meu grupo de companheiros.
A propósito, meu posto de capitão é quase puramente simbólico, e foi dado de mim a mim mesmo e consolidado pela falta de oposição. Ou aceitação geral, como gosto de dizer.
–Estamos chegando perto da área vazia onde há a ocorrência da passagem do espaço-tempo, devemos tomar cuidado, há uma estrela muito antiga por essas regiões será um perigo se ela atingir o ultimo estagio enquanto a gente estiver passando.-
–Ah, mas seria muito azar se isso fosse acontecer logo agora- Johnathan riu, mas eu fiquei um pouco apreensivo, pois esse era bem o tipo de coisa que costuma acontecer comigo. Deixei a caneca e continuei a caminhada, dirigi-me ao convés, andei marcando os passos com as minhas botas, pensando profundamente, e, como de costume, sem chegar a nenhuma conclusão sobre nada.
Ao levantar o braço para abrir a porta que dava ao convés, quase fui atropelado por uma criatura estabanada que abriu a porta na minha cara, passando a milímetros do meu nariz e por pouco não levando junto o lado direito de meu corpo.
Não bastasse quase me matar, a figura ainda se dispôs a tropeçar e cair em cima de mim.
Segurei-a por instinto, e um sorriso se abriu em meu rosto ao vê-la, era Elizabeth, outra de minhas antigas companheiras.
–Capitão, venha rápido, acho que isso não vai dar certo.-
–o que?- e ela me puxou para fora, para o convés, onde a vista da galáxia estava ao nosso redor.
Quando olhei a estrela que se situava no espaço perto de onde estávamos, senti-me cansado de imediato, como se ela me sugasse a energia, a cápsula de energia que protegia o convés possibilitava que eu a visse a olhos nus. Ela era incrivelmente velha, como se existisse desde o começo das eras, e estava muito, muito cansada, como um ser antigo cansado já de tanta vida, e que agora preparava-se para descansar eternamente sob o sono da morte. Aparentemente aquela estrela, com cerca de três vezes a massa do sol, estava pronta para encontrar-se com a morte na ultima fase da vida estelar, ela quase tinha sentimentos, e sentia-se no crepúsculo de sua vida, de onde quer que fosse vista, ver-se-ia um por do sol.
O medo crescia dentro de mim, pois eu sabia muito bem o que precedia o fim de uma estrela.
Em um instante, ela desapareceu, um solavanco no barco indicava que uma grande energia fora concentrada em um ponto.
Meu desespero foi enorme, encarava com olhos arregalados o espetáculo, dei-me logo conta de uma coisa, se não agisse rápido, iríamos morrer.
–Campos energéticos ao máximo! Desvio de energias ativado a ponto de exaustão! Velas de captação fechadas! Preparem-se para a morte depois de cumprir com tudo isso!-gritei, logo voltando a observar o ponto espacial onde a estrela desaparecera... ou quase.
A explosão fora tão incrivelmente intensa que vi toda a matéria ao meu redor balançar como se fosse feita de gelatina, fomos arremessados para todos os lados, ondas de energia passavam pela nave, sem chocar-se conosco devido aos canais energéticos abertos, se não fossem eles, estaríamos em um estado de semi-matéria agora.
Uma super-nova agora encontrava-se no espaço onde existia a velha estrela, e esta convertia-se rapidamente em um dos mais temidos mistérios do espaço...
Um buraco negro.
Uma coisa macabra começou a acontecer, as pessoas começaram a virar esqueletos, devido a radiografia x no campo de radiação do buraco negro, a gravidade era tão intensa que vimos a luz ser sugada de todos os lugares do espaço, em efeito psicodélico, para dentro da escuridão formada.
Os canais anti-gravidade exteriores da nave começaram a ser danificados, causando um leve movimento contrario, os motores eram inúteis, pois, se ativados, arrastar-nos-iam para dentro do nada, e seriamos comprimidos no centro do buraco negro, tornando-nos nada em uma imensidão quase inexistente.
Estávamos encalhados, como uma ilha, orbitando o buraco negro.
Me virei chocado, para meus companheiros assustados, todos agora eram esqueletos, como eu, e alguns ainda se desesperavam com isso.
Senti-me desconfortável ao olhar para minhas mãos e ver quase apenas ossos, dava para reparar se olhasse com atenção o leve contorno que indicava a carne, mas era de fato um efeito macabro.
Chamei alguns companheiros para minha cabine, e quatro esqueletos se prontificaram, pela forma dos ossos, reconheci-os, fomos andando pelos corredores até que chegamos a porta escrito -cabine do capitão- e entramos.
Não era muito maior do que as outras, mas tinha muito mais coisas e acessórios, olhei para os orbitas vazias de Lionel, Elizabeth, Johnathan e Jasminy.
–Certo, nossa situação atual é a de que estamos orbitando um buraco negro e somos todos esqueletos, poético, não? Bem, como a gente sai daqui?-
Lionel se prontificou a falar:-Olha, capitão, na verdade, eu acho que devíamos pensar melhor, por que nosso objetivo aqui é encontrar uma abertura no espaço-tempo, e se estivermos orbitando em uma? Os buracos negros não sugam toda a matéria? Acho muito possível que nossa passagem esteja também no centro do buraco negro.-
Jasminy atravessou na minha frente-Então você quer que a gente morra, né? Por que entrar num buraco negro para ver se achamos uma passagem no espaço-tempo é maluquice, mil vezes mais fácil achar a morte!-
Elizabeth riu de bom humor- Olha só como a gente já tá!- e, de fato, éramos todos esqueletos fosforescentes.
–Tenho uma ideia- Levantei-me- Lionel despertou-me uma duvida, e acho que devemos verificar, navegaremos para o centro do buraco negro e ativaremos as marés dos tempos, no máximo, provavelmente, com isso, teremos um vislumbre da passagem, estaremos atentos, e iremos a ela. De tantas deformações no espaço que temos devido a buraco negro, a linha de divisão é sensível, romperemos atirando toda a carga energética dentro do buraco negro sobrecarregado, e com as marés do tempo ativadas nos perfuraremos o universo nesse ponto...-
–E passaremos pela passagem ao desconhecido- Terminou Lionel. Levantamos, demos um aperto de mão de cumplicidade, abraçamos nossos companheiros e fomos ao convés novamente, e eu ao timão.
–Certo meus amigos! Ativem os motores, desfaçam os canais de gravidade artificiais, pois iremos ao buraco negro!- após um tempo, onde todos pareceram pensar por um momento, olhando uns para o esqueleto dos outros, um disse: U-há!
Dois acompanharam, depois cinco, depois dez, e logo todos gritavam juntos e entusiasmados, levantando as mãos de ossos e rindo com suas caveiras.
Quando as minhas ordens foram cumpridas, navegamos diretamente para o centro do buraco negro, seguindo as linhas de luz e matéria, que desciam, como rios, para a escuridão, era uma bela vista, depois de tantos fenômenos.
Em alguns minutos estaríamos frente a frente com a verdadeira escuridão.
Procurei respirar fundo, olhei para as mãos no timão, olhei para meus companheiros esperançosos, depois de tanta historia, acabaria assim? Devíamos, e íamos, tentar.
–vai nessa!- disse aquela voz feminina que tantas reflexões me custara, olhei para trás, vi a garota, bela como uma miragem de esperança no deserto, me olhava e sorria. Ela desapareceu.
Olhei para a frente, enfrentaria a escuridão, encararia os mistérios, não, não acabaria agora.
–Ativem os canhões de energia! Preparem as armas de fusão! Abram as velas no máximo! (capitão! Há risco de incendiar!) (ninguém se importa! “Muahahaha”) saquem as pistolas e atirem toda a carga no centro do buraco negro!-
Todos os canhões e todas as armas dispararam. E toda a munição perdia-se no centro do buraco negro.
Atirem! Atirem! Atirem!
Uma mão tocou meu ombro. –capitão, já ta na hora.- Era Lionel.
–E vamos as marés do tempo!-
Toda a eternidade passou a nossa volta, universos foram devorados pelo buraco negro, nossas armas continuaram a atirar todo o fogo, a energia concentrava-se e nossa realidade ia ficando mais fraca quanto mais se concentrava o buraco negro, ele estava cada vez mais carregado de energia, e mundos inteiros eram também levados ao seu interior, ele ficara carregado demais, e nós estávamos perto.
Cada vez mais perto de seu centro, nossos canais de energia não aguentaram mais, as velas entraram em chamas, os motores explodiram, tudo se contorceu e rodopiou, a vida e a morte já não faziam mais sentido, não havia nada, mas eu vi. Haviam sentimentos ainda. Era a energia que faltava. Conseguimos. Passamos pelo atalho no espaço-tempo.
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