Marés do Tempo
10 De volta as Marés.
Notas iniciais
A taverna parou quando a sombra entrou pela porta na tempestade, os ventos varreram o cheiro de bebida e os sorrisos sujos dos homens que ali estavam. A sombra caminhou, com suas botas enlameadas, por entre as mesas caladas, antes risonhas e cheias de palavras sujas. A mera presença desta sombra era capaz de gelar a alma de todos os presentes, dos mais bondosos aos mais crueis.
A sombra sentou na mesa do bar ao lado de um homem de casaco vermelho, parecia que instantes antes ele não estava ali, mas agora sua presença era a mais imponente do recinto.
O homem do bar aproximou-se, acostumado com estes tipos, parecia nunca mudar seu comportamento.
–Rum para nós dois. — disse o homem do casaco vermelho.
–Dois copos de rum senhor?- indagou o homem do bar.
–Duas garrafas. — disse eu, certeiramente, sorrindo de lado levemente.
O homem, levemente espantado, dispos a nós duas garrafas de rum caribenho. Produzido em cuba.
Abri a minha com a boca e tomei um trago ofegante, o homem do casaco me encarava sobriamente aguardando. Eu o notei, e abri minha bolsa de viagens, que sempre levava ao meu lado esquerdo.
Depositei no balcão uma pistola reserva, um saquinho de munição, uma faca otomana, polvora, alguns aparatos estranhos de metal, um boneco de voodoo e, por fim, um cubo negro, com entalhes em ouro, e uma ampulheta branca esfumaçada estampada em todas as faces.
–Aqui está o dispositivo. Demorei, ainda mais por conta das tempestades... O triangulo é instavel. — Disse, tomando outro gole, e passando o cubo para o homem em vermelho, ele o analisou prontamente.
–É o mesmo. — Concluiu. — Temos que tomar cuidado, você tem certeza que o deixou com ele? — Disse o homem, a sua voz parecia temerosa.
–Absoluta, eu jamais erraria... Ele ja tem consciencia de tudo... assim como eu tive... é imposivel que as marés saiam do rumo... — Eu disse, certamente. Bebi outro gole, estava morrendo de sede.
Eu bati a garrafa no balcão. Afastei o banco. Levantei-me. Guardei rapidamente as coisas na bolsa. Olhei ao redor. meus olhos dispares vasculharam tudo. O castanho leu todos os sentimentos dos presentes, seus olhos e expressões. O verde penetrou em seus pensamentos, sujos e em sua maioria futeis, aquele lugar não atraia muitos pensadores.
–Vai voltar a vida de pirata?- Perguntou o Homem de vermelho, olhando-me com seus olhos, tambem vermelhos, como os de um demonio.
–Alguma vez a deixei? — Disse eu. Andei até a porta, os olhos acompanhavam. Abri as portas duplas para o vento e a chuva novamente, sorri de lado. Pisei com minhas botas na rua enlameada e as portas se fecharam atrás de mim, deixando aquele ambiente. Eu tinha coisas para fazer... Devia voltar as marés do tempo.
O fade to black, que eu havia mandado James enviar para nassau, seria afundado no mar, junto com o dispositivo. Mas Ghost poderia nos guiar. Ela era parte das marés do tempo. Eu sei que eu iria encontrar, e que deixaria comigo esmo, em uma taverna da inglaterra, para que eu começasse minhas viagens, e comandasse as marés do tempo. No final, tudo seria apenas para ajeitar a minha vida, e o curso do universo, corrompido pelo planeta do tesouro e pela caixa. Eu era apenas o estabilizador. Pensar assim não me deixava feliz, mas me tranquilizava.
Eu precisava continuar navegando e isso basta.
Segui o curso para o centro do triangulo das bermudas.
Eu apreciava a caixa preta a luz do luar, james bebia perto de mim, parecia inquieto. Eu estava preocupado com Ghost, não sabia o que podia acontecer com ela quando a caixa afundasse novamente. E Juliana me preocupava... Ela era uma das poucas, muito poucas pessoas, que me olhavam nos olhos sem medos.
–Ei James, nós vamos voltar a nossa velha disputa cara?- Disse eu, já cansado de conter palavras. Ele me encarou severamente com seus olhos vermelhos, eu esperei que ele sacasse uma arma e atirasse em minha testa ali mesmo, mas o olhar dele abrandou.
–Eu não sei... Eu te busquei por tantos mares apenas para descobrir que você conseguiu tudo que queria, que você se tornou capitão do meu navio e da minha tripulação, que você tomou o controle do maior tesouro do universo. E depois, quado eu retomo tudo, você vira o jogo e me faz ficar do teu lado... — Ele abaixou a cabeça. — Nós nos admiramos, no fundo. Mas eu sempre fui o mais cruel, o mais feroz, o mais sanguinário, e você simplesmente conseguia tudo que queria...- Ele agora levantou os olhos para a noite. -E agora estamos lado a lado...-
Eu sorri de lado, a historia era bonita, quem sabe um dia, quado minha vida estivesse para acabar, eu não escrevesse algo sobre isso...
–Eu vou voltar mesmo a vida de pirata, james. Mas não por muito tempo. Não sei como vai ser daqui para frente, sem o fade to black... sem o tesouro... E nassau está em decadência, homem... Os piratas só tem mais alguns anos por estes mares. Eu não pretendo morrer na mão de soldados do rei.- Eu olhei para a lua, assim como ele. Ali haveriam algumas cidades em alguns seculos.
Lionel se aproximou de nós. Ele ainda estava triste por ter tido que matar Peter. Foram momentos tensos. O corpo de peter fora jogado ao mar naquele dia mesmo. E nunca mais se ouviria falar dele. Ele, que foi um companheiro, e que viajou conosco pelo espaço...
Eu peguei uma garrafa e bebi um gole, O rum não era mais amargo que meu passado, e nem mais forte que meu futuro.
Em alguns dias já estávamos exatamente no centro do triangulo das bermudas.
Os dois navios estavam parados, o Fade to black estava sendo carregado de explosivos. A engenharia dimensional criada a partir do Dispositivo iria causar uma enorme depressão no universo naquela área, não seria difícil ocorrer acidentes. Aquela região foi escolhida por ter o melhor campo magnético daquela parte do globo, este campo anularia a pressão da fenda dimensional... Ou quase isso.
Depois de eu ter dado uma ultima vistoria no navio, eu retornei ao The Unforgiven, para organizar o naufrágio.
A rede de explosivos estava localizada por todos os cantos do imenso galeão, dentro e fora da engenharia dimensional, um tiro que detonasse um, começaria a detonação de todos e, por fim, afundaria para sempre o navio, como uma nau qualquer.
Todos nós fixemos fila na balaustrada do navio para ver o naufrágio ao por do sol, o navio que tanto nos servira... Todos nós atiraríamos juntos, exatamente ao mesmo tempo. Era um fim honroso para um companheiro, como todos nós.
Quando o sol estava lançando seus últimos raios para as nuvens rosadas e alaranjadas. Cantamos.
Life, it seems, will fade away
Drifting further every day
Getting lost within myself
Nothing matters, no one else
I have lost the will to live
Simply nothing more to give
There is nothing more for me
I need the end to set me free
E com este ultimo verso, disparamos. O som das pistolas e mosquetes não pode superar o grito de adeus de nosso amado navio, que nos seguira desde as estrelas até as profundezas do oceano.
Eu, com lagrimas na alma, virei-me. -Triste, não é, James?-
Mas james não estava lá.
JAMES JESS SEU IDIOTA! gritei, enquanto cortava uma das cordas do mastro com a espada e agilmente pulava, segurando-me, para o navio em chamas a nossa frente.
Eu cai no chão e rolei para longe enquanto o convés explodia e uma fenda dimensional se abria a minha direta.
Arrombei a porta do salão com um chute, e lá dentro eu não sabia mais dizer o que era realidade e o que era o inferno.
Tudo era sugado, se retraia e controcia, o fogo se expalhava e erguia-se em torrentes, queimad todo o oxigenio restante, eu perdi a audição e minha visão ficou turva, mas eu sentia o cheir da fumaça e sentia o nada tentando me engolir.
Corri entre as explosões, estilhaços e farpas entravam em minha carne, mas eu tinha que salvar James, eu sabia onde ele estava.
Entrei no corredor. Portas explodiam em chamas e fumaça era sugada para o nada, eu tinha alucinações, de demonios em carne viva clamando pela minha morte. Eu corria, desviava, pulava por cima de mesas e destroços, tudo para chegar a ultima porta o final do corredor. eu corpo se queimava enquanto eu corria entre as explosões.
Cheguei ao final do corredor, tudo explodia, eu vi por um buraco da explosao meus companheiros aterrorizados, com faces de espanto, temia ser a ultima imagem deles que eu veria, com meus olhos dispares, alucinasdos e lacrimejantes.
Pulei e arrombei a porta da cabine do capitao com um chute, cai no chão, tonto, minha visão tentava discernir formas e cores da escuridão que se formava.
–James, fuja! por que está ai? o que está fazendo?- No fundo eu sabia.
–Um capitão de verade- Disse ele, virando-se e olhando para mim, com triseza, piedade, escarnio e amizade, tudo em um mesmo olhar, eu lia sentimentos, e menstes, mas não sabia qual era quala gora. -Sempre afunda com seu navio.
Ele veio até mim, me estendeu a mão, eu a segurei.
Levantei, limpei meus olhos e minha mente de todas as explosões ao redor, foquei-me no por do sol que entrava pela grande janela da cabine, e no meu amigo em minha frente.
Abraçei-o.
Ele me jogou contra a mesa com um golpe, e veio para cima, eu chutei-o, ele tomou o golpe da bota na face, e girou, me atingindo em cheio tambem, eu cai da mesa e me bati na janela, que rachou.
Eu percebi o que ele iria fazer, e não pude impedir. Ele pulou sobre a mesa e me atingiu em cheio no peito, quebrando o o vidro e me jogando para fora da sala.
Ele gritou: Adeus!
Eu vi o fogo consumir a cabine do capitão, enquanto os ultimos raios do por do sol batiam em meus olhos dispares e assustados, eu estava vivo, mas James havia decidido morrer com honra, e afundar com seu navio.
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