Mary

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Mais um Original do projeto, assim como as outras essa é baseada no título de euma música Winter in my Heart de Vast

Era começo de verão quando me tornei enfermeira do asilo da cidade onde nasci e cresci. Fui criada por meus avós e sempre consegui uma boa interação com idosos. Foi nesse trabalho que conheci Mary, aos seus 78 anos esbanjava sorrisos e brincadeiras.

Sempre disposta a diminuir meu trabalho, seu quarto era sempre bem organizado e ela nunca reclamava do momento de tomar seus remédios. Seu cantinho era repleto de fotos, alguns dos quais eu mesma ajudei a colocar, logo quando uma já havia se acostumado com a outra. Nas horas vagas, ela me ensinava a tricotar, ficava horas a falar sobre receitas que costumava fazer em sua juventude.

No outono, tricotei um suéter laranja para ela usar no inverno. Em dezembro, quando os flocos de neve começaram a cair, lhe entreguei. Seus lábios murchos formaram um sorriso tão belo que senti meu coração se desmanchar.

Por meus avós já terem partido, ficar sozinha no Natal parecia algo ruim, então decidi ficar com os idosos. Mary estava eufórica iria passar o feriado natalino com os filhos. A ajudei a se produzir, pintei suas unhas, trancei seu cabelo branco, ela até arriscou inclusive passar um batom mais escuro.

Na hora que deveriam vir buscá-la, ela estava tão feliz. Falava tanto em ficar com os netos. Porém, na medida que as horas foram se passando e nenhum deles aparecia, resolvi ligar. Falei primeiro com sua filha Mary Jane, a mesma estava de férias com marido e os quatro filhos no Havaí. O filho mais velho, Vincent, tinha um jantar com um cliente e por fim, Anthony, o filho do meio, inventou uma desculpa sobre não ter um meio de ir buscá-la.

Quando entrei no quarto de Mary para lhe informar, ela percebeu no mesmo instante. Abri a boca para falar e ela ergueu a mão para que eu me calasse. Andou até a poltrona e sentou de costas para mim, ficou observando a neve cair pela janela de vidro coberta por uma grade de segurança.

— Eles não virão, certo Annie? — ela disse e pelo seu tom, era possível perceber que chorava.

— Não, sinto muito! — murmurei.

— Não é culpa sua querida, sei que fez o que pôde! — suas palavras eram tão cheias de dor, que senti como se arrancassem um pedaço de mim. Queria tanto ser capaz de protegê-la daquela decepção.



Assim se passou o frio de inverno, era possível ver no olhar de Mary a tristeza, não chegou um único presente natalino para ela. Nem mesmo um cartão. Para tentar animá-la comecei a perguntar sobre sua mocidade, era o único momento que ela parecia mais leve. Falava de seus pais, de como adorava correr com suas irmãs, e da falta que sentia do cheiro dos bolos feitos por sua mãe.

A cada conversa aprendia mais sobre sua vida. Sempre perdíamos o horário a conversar. Após falar o suficiente de sua infância, Mary falou sobre seu marido, dizia que o amou bastante. Contou que quando a caçula nasceu, seu amado saiu de casa, para conseguir um trabalho melhor e nunca mais voltou.

Mary fez todo o possível para dar uma boa vida para suas crianças, lavava roupa de famílias ricas até suas unhas racharem, cozinhava para padarias, o que resultava em algumas queimaduras pelo seu corpo, costurou e tricotou muito. Qualquer coisa para suas crianças.

Por ter partido da casa de seus pais aos 15 anos sem a permissão deles, nunca lhe foi permitido voltar. Não estudou o suficiente para arranjar um bom emprego, então os trocados que conseguia era o suficientes, desde que mantivesse seus filhos vivos, na escola e abaixo de um teto.

Com o brilho no olhar, Mary disse que seu maior orgulho, foi ver Vincent entrar na faculdade de Direito, seguido por Anthony. Contou que a caçula Mary Jane, teve um momento irresponsável em sua adolescência, o que terminou se tornando um casamento feito às pressas, por causa de uma gravidez. Ainda assim, a idosa se orgulhava da filha ser uma mãe tão aplicada.

Contava 8 netos, dois de Vincent, dois de Anthony e quatro de Jane. Viu todos uma ou duas vezes e sentia falta de cozinhar. Depois de ter criado os filhos para o mundo, os três decidiram que ela não podia morar sozinha, foi quando o asilo passou a ser sua casa.

— Não me importo em ficar aqui. Só queria vê-los mais vezes! — confessou certa vez, enquanto me mostrava uma foto onde os quatro estavam na varanda de uma casa, que supus ser onde moraram.

No dia das mães, alguns buquês de rosas chegaram para Mary, vinham acompanhados de fotos recentes dos filhos e netos e como sempre, ela as guardou com carinho.

Em seu aniversário eles apareceram, observei que Vincent ficou mais tempo ao telefone do que com ela, Mary Jane corria atrás das suas crianças, Anthony era o que lhe dava mais atenção e o único que me agradeceu por cuidar dela.

— Mary Jane era a mais complicada, achava que gritar era a solução de tudo. Viu como ela cuida dos filhos? — disse ela quando me mostrei interessada em seus filhos — Vincent puxou muito ao pai, ele é frio e objetivo. O mais amável é o Anthony, sempre me ajudava quando não tinha tarefas da escola!

No outono tricotei luvas, meias e um gorro para ela. Fazer coisas e ouví-la, era o que a deixava feliz, era lindo ver sua pele enrugada se esticar para formar um sorriso.

Então no inverno ela se foi, em um momento estávamos tomando chá, em outro a xícara caiu de sua mão. Ela dizia sentir uma falta de fôlego, nada doía só sentia algo no peito. Segurou com força minha mão e antes de ir pediu-me um último favor: “Diga aos meus meninos que estou indo embora e que não me arrependo de nada que fiz por cada um deles!”

Quando seu aperto forte aos poucos soltou minha mão, senti que o mundo houvesse parado para que sua alma, depois de tanto tempo de sofrimento e abandono, pudessem finalmente descansar. Gritei tantas vezes por seu nome, desejando que ela somente tivesse dormido. Até perceber que de fato ela estava adormecida, mas ela jamais acordaria. Eu jamais poderia ouvir sua doce risada ou suas história que tanto amava. Foi tão repentino, que nem mesmo pude lhe dizer adeus, ou, o quanto ela se tornara especial para mim.

Infarto foi o diagnóstico médico, faleceu na mesma poltrona onde chorou há quase um ano, a mesma poltrona onde tanto me falou sobre sua vida. Seu velório foi triste de se assistir, os três choravam a perda, lamentavam não poderem ter mais tempo com ela.

Agora havia inverno no coração imóvel, frio e triste de Mary. Além das lamúrias, as crianças não pareciam se importar com o corpo da avó, para eles parecia ser nada mais que uma desconhecida — talvez até fosse, se contassem os dias que a viram.

Neve e terra cobriram o caixão no cemitério, os três me agradeceram e ainda ofereceram dinheiro, mas recusei e tentei não ficar ofendida com a oferta, era meu trabalho afinal, mas cuidar de Mary ou dos outros idosos jamais foi um fardo para mim, dinheiro era apenas consequência de fazer o que amava.

Achava incômodo o fato que a mãe houvesse dedicado sua vida a eles para que tivessem boa vida e ainda assim a deixaram abandonada transformando aos um coração cheio de verão, em um coração de inverno. Disse-lhes quais foram as últimas palavras de Mary e até mesmo Vincent chorou. Infelizmente, Mary não era a única a passar por aquilo, haviam tantos idosos que cuidava e tinham o mesmo fim, que minhas lágrimas rolaram só de imaginar o que esses senhores, já no fim de suas vidas sentiam.

Ano após anos, visitei o túmulo de Mary, que assim como ela era cuidado somente por mim, as flores que deixei na visita anterior permanecia ali murcha até que eu limpasse e colocasse outra. Casei com um rapaz dois anos depois da partida dela, quando minha primeira filha nasceu, tive que lhe dar o nome da senhora que tanto significou para mim, era como ter um pedaço de Mary perto de mim outra vez.

Notas finais
Link da música: https://www.youtube.com/watch?v=KO9BMAbiOfc
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!