Martírio.
1 Prólogo.
O som gritante das gotas se acumulando numa poça d'água ecoou pelo canal labiríntico do subterrâneo. Os gritos vindos de cima, que buscavam alguma notícia sobre vida lá embaixo, não eram respondidos, apenas ignorados enquanto se mesclam ao som incômodo que propaga-se pelo âmbito. Por fim, silêncio.
Quando a humanidade ganha conhecimento de que seu maior e mais impiedoso inimigo tem em mãos criaturas que até há algum tempo pensavam se tratar de lendas folclóricas, há muitas razões para temer.
E foi isso que aconteceu quando a Blitzkrieg se viu acompanhada de um uivo distante, crescente, aos céus.
O Projeto Heulen – assim chamado pelo ruído que despertam os monstros, similar a um uivo de lobo – é provavelmente o experimento biológico mais agressivo e revelador da humanidade, pelo menos até então.
Vampiros existem, sempre existiram, escondidos, à espreita. Os ingleses e os alemães, conscientes de sua existência, começaram uma caça silenciosa para exterminá-los de uma vez, até que enfim fossem considerados extintos.
Bom, pelo menos foi assim até um deles se ver arrasado pela guerra, massacrado pelos países vizinhos. Um homem com força e coragem assume o poder, e como parte da natureza humana, reacende o ciclo de mortes e destruição para ganhar mais força.
A guerra recomeça, agora mais impiedosa do que nunca. O problema é que na guerra vale tudo.
O cenário mais bizarro entre inúmeros testes nazistas foi quando a criação artificial de vampiros obteve sucesso, assim dando origem ao Projeto Heulen: vampiros sem racionalidade, despertados por um uivo ensurdecedor, com o único objetivo de matar e massacrar.
Tendo todas essas informações, talvez agora você entenda o que significa aquele grande agrupamento de soldados de frente ao que restou de um dos centros científicos nazista, um dos "presentes" que os soviéticos alcançaram antes dos americanos.
Hitler está morto. A guerra acabou. Tudo que restou do Projeto Heulen está abaixo dos destroços, no subterrâneo; um punhado de monstros sanguinários, presos e esquecidos por meses.
De fato, há muita razão para temer.
A corda desabou pela única abertura do teto, enquanto os homens, mesmo armados até os dentes, hesitam. Uma ligeira troca de olhares é feita, e o pobre coitado que vai ter que descer no meio do covil inimigo é escolhido.
Assim foi feito, e o homem deu o primeiro passo no imenso corredor do laboratório subterrâneo. Sua arma, já devidamente erguida, ilumina as grades das celas, todas arrombadas e destruídas.
Deixou a própria respiração pesar, temendo pela própria vida. A escuridão local aumenta a tensão, e a guarda alta não foi o suficiente para impedir o susto quando dois olhos vermelhos foram encontrados no meio do escuro, brilhando.
O soldado apertou o gatilho, e um tiro foi ouvido pelos que ficaram do lado de cima. Pedidos de resposta não foram atendidos, e o stress começou a aumentar entre aqueles homens.
Se as criaturas sobreviveram depois de tanto tempo sem beber e comer, então deviam tomar uma providência.
— Que merda, Aaron! — exclamou um deles, protegido por uma roupagem pesada. Ele foi o primeiro a apanhar uma granada, preparando-se para deslocar o pino e projetar o explosivo lá dentro. Os fios de cabelo loiro escapavam da fria touca, descendo pela testa, e os olhos azuis abatidos serviam como o perfeito reflexo das consequências da guerra mais sanguinária da história.
Todos o viram prestes a atirar o explosivo e exterminar o próprio amigo, mas quem poderia julgá-lo? Em tempos de caos é preciso definir uma prioridade. A dele é exterminar as criaturas que abalaram seu país, a França.
— Espera! — De repente, uma voz saiu de lá do fundo. Aaron está vivo, o que fez o loiro simplesmente desistir de projetar a granada. — Eu estou bem. Estão todos mortos, todos eles!
Felizmente, o projeto Heulen está oficialmente desativado, e foi devidamente destruído.
Os dois grandes olhos vermelhos que brilharam no escuro se revelaram um cadáver, um pobre homem estirado no chão, com uma face de horror estampada no rosto.
A maioria das cobaias por trás dos testes eram judeus, vidas sem importância massacradas pela guerra. A Alemanha tornou sua raiva por este povo uma arma, e aquele pobre velho estirado no chão deixou de ser humano há tempos.
Ele tinha canídeos tão saltados que escapavam da boca, com uma mandíbula ligeiramente avantajada para frente e fios de cabelo grisalhos. A pele assumiu um tom branco-acinzentado, deixando expostas as veias e as artérias que se ramificam por todo o corpo desnudo.
O soldado que assumiu o fardo de ser o primeiro a descer finalmente estabilizou a respiração, se levantando vagarosamente. A touca e os óculos caíram com a queda, expondo os fios de cabelo negros e os olhos de cor castanho-claro.
O uniforme pesado expõe a bandeira de sua nação, a União Soviética em todo seu resplendor. A maior parte do rosto ainda está coberta por uma máscara de tecido fino, que não parece ser o suficiente para evitar todo o cheiro desagradável dos inúmeros corpos em decomposição, achados um atrás do outro.
Na retaguarda, o soldado loiro desceu de rapel, se aproximando vagarosamente do amigo. O sorriso de canto exposto no semblante otimista esconde perfeitamente suas intenções há alguns segundos atrás, quando quase matou o melhor amigo.
— Merda, eu estava prestes a matá-lo. Por que gritou? — ironizou o francês, chutando o cadáver de um dos vampiros. Realmente não tinha motivos para esconder o que havia cogitado há algum tempo atrás; Aaron sabe perfeitamente da índole do companheiro, capaz de qualquer coisa para preservar o "bem maior".
— Fique de bico calado, Caillat. Eu imploro. — E Aaron respondeu, um pouco mais aliviado. Acha extremamente irritante o sotaque francês do companheiro de guerra durante as tentativas de falar sua língua nativa. Quando o soviético se virou, deparou-se com a cara abatida de Aurélien Caillat, inerte, em silêncio. — ...Aconteceu alguma coisa?
O francês, ainda com a arma contra o peito, assentiu positivamente com a cabeça. O cadáver que chutou momentos atrás foi empurrado pelo calçado do pé, expondo o pescoço aberto por dois grandes buracos que atravessaram-lhe a jugular.
Aquele cenário se repetia por todos os cadáveres que encontraram, cada um deles. Ninguém conseguiu dizer nada, deixando o absoluto silêncio tomar conta dos corredores labirínticos.
A Unidade Heulen não morreu por fome durante os dois meses que ficaram abandonados abaixo dos destroços do centro científico, mas sim porque alguém se alimentou deles.
Um eco conveniente escapou do fundo dos corredores, aumentando a tensão e fazendo a dupla erguer seus rifles quase que em simultâneo, tentando iluminar o fundo do corredor. Nada foi avistado.
— Não desçam! Tem algo aqui! — exclamou Aaron, dando um passo para frente. Um soldado novato assumindo a fronte de uma ameaça tão grande quanto um membro do Projeto Heulen é a maior demonstração de coragem que se pôde ter neste tempo, mas coragem não vence guerra.
— Deixa de ser estúpido. — E Caillat sabe diss. Puxou Aaron com força pelo uniforme. Sem abaixar a ponta do rifle, o francês tentou superar o nervosismo e pareceu ter esquecido certas palavras da língua nativa de Aaron, apenas pelo mais puro stress e medo. — Precisamos subir. Vamos detonar tudo de lá em cima.
Aaron, suando frio, assentiu positivamente com a cabeça. De fato é a decisão mais inteligente a ser tomada, e por isso ter alguém tão frio quanto Caillat é um grande às na manga. Ele tem a coragem necessária para colocar seus objetivos acima dos aliados e de si mesmo, com peito de tomar as decisões que o ser humano por natureza hesita.
Mas, como dito, coragem não vence a guerra.
Passos lentos foram se aproximando da única fonte de luz, e o peso da enrolação da dupla se aproximou de forma quadrúpede, com as unhas tão fixadas no chão que suas pegadas são acompanhadas de sangue, que escorre da própria pele e a criatura sequer se importa.
O ser humano teme tudo aquilo que é incapaz de explicar. Um vampiro é uma criatura exótica, cuja força, mesmo variável, sempre vai ser superior à de um humano convencional.
No entanto, vampiros herdaram o que há de pior no homem. Eles ainda pensam, ainda sentem, ainda se enganam. Em outras palavras, a natureza humana presente nos vampiros são sua maior desvantagem.
Mas isso não se aplica ao Projeto Heulen. Lá, esses seres são incapazes de pensar, sentir, expressar algo.
Então, naquele momento, Aaron e Caillat sabiam que estavam diante a uma criatura com instinto animalesco, e com uma força desproporcionalmente grande que parece ignorar tudo que sabem sobre física e biologia.
A criatura se ergueu, mostrando a coluna curva destacada nas gélidas costas esbranquiçadas, tão brancas que se tornaram-se um azul leve. O corpo deve beirar os dois metros, exibindo todas as modificações corporais que um dos maiores vampiros da história possui.
As unhas devem ter metade do tamanho de uma régua, e as presas que escapam da mandíbula avantajada são tão grandes que parecem o suficiente para rasgar qualquer tipo de objeto. Os dois olhos possuem a esclera tomada por um preto forte, a iris se tornou um vermelho brilhante e a pupila um branco fraco, realçando o vibrante rubra.
Na medida que a boca foi se abrindo, as veias do corpo da criatura começaram a se destacar num tom negro. Os fios de cabelo escuros também estavam presentes, mas foi tudo rápido demais para que a dupla pudesse anotar detalhes.
Um grito escapou da criatura. Parece um grito humano, mas de raiva, distorcido.
De repente, tudo ficou escuro. O som de sangue caindo no chão e dos inúmeros disparos contra a criatura não cessaram até que longos minutos se passaram.
Neste dia, trinta e sete soldados ficaram feridos. Vinte foram mortos.
A criatura se alimentou de outros vampiros, tornando-se o mais próximo do "Vampiro Fundador" que conhecemos.
Uma mobilização geral por parte dos Aliados foi à caça, mas o último sobrevivente do Projeto Heulen simplesmente desapareceu.
Cientes da preocupação que os vampiros trazem à humanidade, esses países fecharam o popular "Tratado de Founder", ou "Tratado do Fundador". Seu objetivo é levar o extermínio dos vampiros, e com a descoberta do sistema de pirâmide usado para repassar as habilidades vampirescas, achar a raiz de tudo isso, o Primeiro Vampiro, o que originou todos os outros.
Mantendo a existência dessas criaturas longe da população, o Expurgo não foi silencioso, e nem as mais distantes teorias da conspiração cogitaram na existência de um ser dito como "folclórico", "sobrenatural".
Bom, pelo menos até 1955, quando o governo soviético decidiu que os vampiros podiam ser um trunfo como arma biológica. Foi questão de tempo até os cidadãos mais conscientes notarem o súbito crescimento de canibalismo dentro da União Soviética.
Mas o que há lá dentro ninguém vê. Pelo menos não ainda.
Isolados atrás da Cortina de Ferro, somente uma espécie pode sobreviver.
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