Marte e Vênus
4 A jogada dos doces
Quinn abriu os olhos. Seus olhos cor avelã estremeceram ao sentir uns raios de sol na íris. Ela se espreguiçou na cama king size de grosso edredom verde-musgo e logo pôs os pés no chão. Havia uma cesta com uma tortinha de abóbora com o nome dela e um coração. Mas ela sabia que aquilo não era obra de Samuel Evans, seu novo namorado. Noah Puckerman era o autor. Típico. Ele sempre a enchia de doces quando estavam brigados. Primeiro era uma tortinha, depois aumentava, para cestas e cestas, até que ele tivesse certeza que ela devia ter comido ao menos um doce. A jogada era simplesmente genial porque, no fim, ela cedia.
Ela costumava dar as amigas, até que se rendesse no final. Bem, na verdade só dava a Santana, que as vezes comia sem nem que Quinn desse seu aval. Já Rachel e Genevieve se recusavam a querer algo vindo dele, por quem tinham profundo desprezo. Puck sempre fazia piadinhas pelo fato de Rachel ter uma queda por Finn, um lufano. A Genevieve ele torcia o nariz pelo fato dela ser filha de Draco e Gina Malfoy e se referia a eles como ‘’traidores’’.
Naquela manhã em particular se sentia satisfeita o suficiente para não se render a sua paixão por doces. Se comesse um, estava dando entrada para o rapaz continuar a corteja-la e ela estava certa de que pela primeira vez levaria alguém que não fosse Puckerman a sério. Espreguiçou-se lentamente como um felino. Depois perambulou até o salão comunal da Sonserina em seu luxuoso robe de seda rosa. Tinha acordado mais cedo que o habitual, mesmo Rachel não tinha acordado para sua sessão matinal de embelezamento facial, um tratamento que, segundo ela, diminuía seu nariz aos poucos. Tratamento esse no qual só ela via os efeitos.
Ela se sentou no sofá de couro preto de frente as janelas que davam para o fundo do lago. Podia ver ao longe os tentáculos da lula gigante. Aqui está outro segredo sobre Quinn Fabray: ela amava tudo a ver com água. Frequentemente ela e Genevieve acordavam cedo para ter o banheiro dos monitores só para elas e abrir todas aquelas torneiras para mergulharem. Quinn sentia paz mergulhando e nadando. Genevieve ajudava. Ela era co-capitã e apanhadora do time de quadribol da Sonserina, o que dava a ela os mesmos direitos dos monitores. Rachel Berry era a monitora da Sonserina junto a um menino detestável chamado Hunter Clarington. Aparentemente McGonagall achara uma boa ideia colocar a perfeccionista e o cara mais chato da escola no comando da bagaça, mas quem seria ela para discordar?
—_Precisamos conversar – disse uma voz embargada atrás dela.
Quinn não se surpreendeu ao se deparar com Santana López observando-a. Santana era uma garota de descendência latina, era magricela e tinha um nariz afilado, ela estava entre os mais populares da Sonserina apenas por ser sexy e sabia, se aproveitava disso sempre que podia. Por todos esses anos que Quinn a conhecia, os maiores prazeres da vida dela tinham sido humilhar os que considerava mais fracos, Quinn não sabia a troco de quê.
—_Pode começar, estou escutando – retorquiu Quinn, surpresa consigo mesma por não sair dali batendo os pés como uma criança de 5 anos.
Santana se postou a frente dela tapando sua visão, os olhos fixos nela.
—_Não pode continuar me ignorando, Quinn, por favor, já fazem dias! – ela parecia decidida a não chorar, mas seus olhos e a voz embargada a traiam __Foi um erro, por favor, me perdoa! Não consegui me controlar!
Quinn não disse nada, continuou a olhar Santana e esperar sua defesa. Santana odiava quando a amiga fazia isso com ela. Se tinha algo que Quinn era boa, era em desprezar e fazer o outro se sentir inferior sem abrir a boca. Mas, claro, olhe só para ela! A menina não tinha um defeito na aparência. Era detestável. Ser loira, linda, rica, ter olhos cor avelã, um nariz perfeito, a voz doce...o rosto parecia ser esculpido por anjos, ainda que brega era tudo o que Santana sempre pensou sobre ela. Obviamente não diria nem sob tortura.
—_Você sabia que eu e Puck tínhamos uma história – foi tudo o que a loira falou, desamarrando e amarrando o laço do robe no seu corpo apenas porque não tinha nada melhor pra fazer __ e não se importou
—_Foi mais forte do que eu, você não sabe... pelo que venho passando, precisa entender, Quinn, por favor, nos conhecemos desde o primário – Santana parecia decidida a não chorar, mas seus olhos marejados a entregaram e, acreditem, ver a durona senhorita López chorando não era algo visto com frequência. Na verdade Quinn nem se lembrava se um dia tinha testemunhado tal marco histórico. Por isso achou melhor realmente escutar o que viria a seguir. Santana respirou fundo e fechou os olhos.
—_Eu estou apaixonada – declarou ela. Quinn abriu a boca para falar algo certamente de cunho azedo, mas a latina fez um gesto para que ela parasse com a mão e abriu os olhos vagarosamente. Quinn pode ver claramente as lágrimas rolando dos dois olhos de Santana Diabla López __Por uma garota. Eu olho para ela e não posso tocar. Não posso nem ao menos falar com ela. Eu só a vejo feliz e não sou eu quem a faz feliz. Não faz ideia de como é.
Quinn fechou a boca automaticamente e franziu o cenho. Isso explicava muita coisa. E para ser sincera, doeu mais por ela ter traído a amiga com o namorado do que pelo namorado em si. Sempre soube que Puckerman não valia muita coisa, mas não esperava isso da amiga de infância, que sabia desse fato tão bem quanto ela. Quinn a observou por um tempo.
—_Hm...é por mim?
Santana revirou os olhos e limpou o olho direito com o indicador, negando com a cabeça.
—_Bem que você queria — disse a garota e Quinn entendeu que ela diria quando chegasse a hora.
—_Ficar com Puck foi uma estratégia idiota e desesperada de me forçar a desviar atenção dela – ela se sentou do lado de Quinn e fixou o olhar nos pés descalços no chão frio de mármore da luxuosa sala comunal. Quinn seguiu o olhar dela e não pode deixar de notar o quão resistente o corpo dela devia ser __Pensei que poderia ser atração por um fruto proibido, algo novo, não sei, eu só – a voz dela tremulou e ela choramingou por alguns segundos em silêncio — __nunca pude contar nada a ninguém, mas sou apaixonada por ela desde que a conheci. Quer dizer, somos da Sonserina...
—_Estou namorando Sam Evans da Grifinória – interrompeu Quinn
Isso foi o bastante para Santana parar e abrir a boca, mas a fechou logo em seguida, engolindo em seco.
—_É uma merda porque agora não posso te julgar.
Quinn deixou sair um riso e ficou de pé, puxando-a para um forte abraço. Santana mal pode crer que ela estava falando com Fabray novamente, ela só correspondeu e a abraçou, não sabendo se ria ou chorava ao mesmo tempo.
—_Eu te perdoo e agora estou mais tranquila que é lésbica, assim tenho certeza que não vai dar em cima de Sam – ela deu um sorrisinho maldoso para a velha amiga
—_Você é ridícula! – exclamou Santana em resposta, abraçando-a em direção ao dormitório, mas rindo e limpando as lágrimas __Pelo menos ele não é da Lufa-Lufa...
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Sam estava cedo no Grande Salão. Teria aula de feitiços com Flitwick mais tarde, mas queria passar um tempo maior com a namorada no café-da-manhã. Ele estava comendo depressa quando Quinn entrou ladeada por Santana, Rachel e Genevieve. Era como se o sol entrasse pelas pesadas e imensas portas do salão, ele nem notou quando Madame Norra roubou um pedaço de bacon de seu prato. Heather deu um tapa na cabeça dele.
—_Ai meu Deus, você é tão ridículo! – sussurrou ela para que ele ouvisse.
—_Rá! Diga isso quando Junior estiver por perto – replicou Heath na hora, dando um sorriso provocador por cima do Profeta Diário, o que foi suficiente para Heather lançar um olhar mortal ao irmão.
Junior estava sentado algumas cadeiras mais distante deles, colocando afoitamente quanta comida coubesse no prato. Era o goleiro e capitão do time de quadribol da Grifinória e estava no sétimo ano. Era um rapaz de cabelos cor bronze, muito sardento, primo e melhor amigo de Annie Malfoy, irmã mais velha de Genevieve. Ele tinha um irmão mais novo, Joey Weasley, uma réplica exata do irmão mais velho, só que com cabelos mais ruivos. Era do terceiro ano da Corvinal e grande amigo de Henry, terceiro filho do casal Potter.
Quinn falou algo as amigas e foi diretamente a mesa da Grifinória e por fim pôs as mãos nos quadris, olhando o namorado, que fingiu não vê-la(como se ele não tivesse acordado mais cedo só para ficar com ela).
—_Bom dia! – exclamou ela alegremente dando um sorriso largo a mesa da casa rival e fazendo Heather parar de puxar os cabelos do irmão.
—_Quinn, meu amor, não tinha te visto chegar! – disse Sam, se fingindo surpreso e levantando imediatamente para dar um beijo no rosto dela. Mercedes revirou os olhos.
—_Que bom que vamos ter um tempo antes da aula, já comeu? – perguntou ela, limpando o canto da boca dele com um guardanapo.
—_Já, já sim. Estava te esperando.
—_Queria te apresentar a uma pessoa... pode ser? Me permitem roubar Sam por um instante?
Blaine e Heath foram os únicos a responder um ‘’sim’’ desincronizado e sem graça, ela se levantou sem perder a pose com Sam, e ambos foram a mesa da Sonserina.
—_Sam, esta é Santana López, minha amiga de infância. Temos nossos desentendimentos mas... bom, nossa amizade é forte.
Sam estendeu a mão para ela: __É um prazer conhece-la, López.
Santana segurou a mão dele e apertou de volta, franzindo o cenho com um olhar de desconfiança.
—_Te conheço de algum lugar, lábios de salamandra...
Quinn a advertiu com o olhar.
—_Quero dizer, achei seus lábios muito bonitos, posso imaginar o que Quinn faz neles...
—_Santana!
—_O que eu quis dizer é que a beleza dele é muito exótica, achei os lábios afrodisíacos! Só isso!
Quinn puxou Sam para o lado dela. Santana continuava a olha-lo com interesse. Rachel deu um soco no braço dela, que saiu de transe.
—_Com licença, casal, preciso ir com as meninas ao corujal... mas volto logo,podem aproveitar, né?
Ela puxou Genna e Rachel com ela, que mal tinham terminado de tomar seus sucos.
—_É bom ter um bom motivo para me tirar da mesa sem me deixar terminar meu café-da-manhã reforçado, não te falei mil vezes que é a refeição mais importante do dia? – Rachel estava furiosa, nem tinha dado sua habitual olhada na mesa da Lufa-Lufa atrás de Finn.
—_Eu lembrei da onde eu conheço o beiçudo – ela olhou atônica para as duas amigas __Vocês precisam me ajudar. E eu preciso revelar algo também.
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