Marta em: valores e inovação
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Não plagie.
Obrigada e boa leitura, espero que gostem!
UNIC
Minha madrasta bem que tentou me avisar dizendo que eu não deveria sair de casa em dia de chuva. Mas qual é? Era, quando sai, apenas uma garoa que logo ia passar — pelo menos, fora o que passara no telejornal. E junto a um guarda-chuva, meu celular — para emergência — e os livros que tanto queria devolver, fui-me direito para a rua.
Eu estava agasalhada com uma espécie de casaco vermelho de marca, eu o tinha ganhado de aniversário de dezesseis anos da minha mãe. Aparentemente, a única função do casaco era ser bonito, pois eu estava tremendo muito por dentro.
Mas não retornaria para casa e receberia de minha madrasta um “— Eu bem que te avisei!” de jeito nenhum. A rua estava deserta, o que não era uma característica sua — já que costumava ser bem movimentada. Esse foi um dos fatos que me fizeram realmente pensar em voltar. Meus passos e alguns carros passando pela rua eram as únicas coisas ouvidas no momento.
Coloquei os fones de ouvido, enquanto continuava me dirigindo para a biblioteca nem tão próxima de casa.
Eu não me lembro quanto tempo andei, mas sei que foi o suficiente para eu querer sentar e descansar, mas talvez isso se deva ao fato de eu não ser uma pessoa tão atlética assim. De qualquer forma, quando cheguei a Biblioteca Pública, logo adiantei-me para parar em um lugar mais aquecido.
Desliguei a música do celular, para que ficasse atenta caso se alguém — por algum caso — me chamasse ou coisa do tipo. A Biblioteca Pública não era tão grande assim, com apenas um andar para livros de empréstimo.
O que mais me encantava por ela, era que nas paredes largas, personagens de livros se encontravam pintados, alguns como: Harry Potter, O Pequeno Príncipe e algumas criaturas de Nárnia também se faziam presentes.
Os livros eram divididos em gêneros. Dezenas de estantes os separavam e eu não sabia em qual entrar, já que vários gêneros me agradavam de algum jeito. Todos os livros tinham algo a me ensinar.
A pequena fila que eu estava esperando sumiu rapidamente. No balcão da recepção, encontrei Ana, uma senhora já de idade que trabalhava por ali durante alguns anos já.
— Olá, Ana! Vim devolver esses daqui — entreguei-lhe os três livros que eu havia pego semana passada.
Ana sorriu contente. Suas rugas à mostra e os cabelos já tingidos pela velhice. Ela ergueu uma sobrancelha em questionamento.
— E o que achou dos 13 porquês?
Eu respirei fundo, sabendo que a conversa poderia durar horas. Afinal, já cheguei a conversar por tanto tempo com Ana sobre meus livros favoritos — que não eram os mesmos que os dela (mas fazer o quê? Ela era realmente uma boa ouvinte) — que meus pais chegaram a vir pessoalmente me procurar, achando que alguma coisa devia ter acontecido comigo.
— Bem interessante. A forma como o autor trata o suicídio da menina, e o quão ansiosa você fica para saber o que foi que Clay aprontou com ela, porque ele nega ter tido algum motivo que complementasse o suicídio dela… Ah, maravilhoso! E quando descobrimos? Achei que o motivo seria pior… mas ele bem que negou ter feito algo ruim, mas, mesmo assim, adorei.
Ana sorriu, com os dentes amarelados do café que costumava sempre tomar.
— Eu sabia que adoraria.
Foi minha vez de sorrir em gratidão.
Ana deu baixa nos três livros que devolvi, e assim, sai da fila de devolução, partindo para as diversas prateleiras. As prateleiras costumavam ser bem distantes uma das outras, o porquê disso era que entre as estantes, havia vários sofás e mesas dispostas de forma aleatória para que as pessoas pudessem desfrutar alguns minutos do livro que fossem escolher.
Lembro-me da vez que estive tão magoada com meus pais — quando eles estavam em processo de divórcio — corri para cá, porque sequer ler em casa me trazia paz. Dessa maneira, sentar-me num daqueles sofá me trazia um conforto enorme. Minha mãe quando descobriu onde eu estava quase chegou a me matar. Uma experiência um pouco traumática.
Foi passeando por entre as prateleiras que ouvi a primeira trovoada. Meu corpo inteiro estremeceu, causando-me arrepios de medo. Eu tinha que escolher os livros que levaria logo… porém eram tantos títulos que eu nem havia dado uma pesquisada ou lido, pelo menos, a sinopse!
Mas de qualquer forma, a chuva estava parecendo que engrossaria, e isso não era nada bom. Deixei a estante de Ficção/Romance para trás e andei em direção às portas da Biblioteca Pública, deparando-me com a chuva rala, até então.
Porém, foi ouvida mais uma trovoada e assim, um raio caiu a quilômetros de distância, assustando todos por ali. Ana logo levantou-se de sua cadeira e correu para dentro do depósito da Biblioteca, deveria ter ido desligar alguns equipamentos que não eram necessários estarem ligados.
Após o relâmpago ter reluzido o céu, uma chuva forte e grossa começou a cair. Foi quase um desespero total e já estava começando a imaginar o que diria para o meu pai quando o mesmo soubesse que eu teria que ficar por alguns minutos a mais presa dentro do estabelecimento.
Um garoto e uma mulher adentraram à biblioteca com as roupas ensopadas. Ninguém precisava ser um adivinha para saber que os dois haviam entrado no local para que não se molhassem ainda mais.
Entretanto, eles não pareciam ter vindos juntos, já que se separaram quase que no mesmo instante. O garoto seguiu para a esquerda, em direção a um dos bancos, sentando-se por fim. E a mulher loira e alta, seguiu pela direita, onde uma placa indicava o banheiro feminino.
Eu respirei fundo e voltei a encarar o céu. A chuva parecia que demoraria mais algum tempo até ir embora de vez.
Talvez minha madrasta estivesse mesmo certa, eu não devia ter saído de casa hoje.
Desisti de observar o céu, assim como várias outras pessoas o faziam, ainda soltando comentários que me desanimavam, tais como: — Parece que a chuva não vai passar tão cedo! — Vi no jornal que na cidade vizinha está chovendo há um dia já!
Encaminhei-me para uma sessão diferente, diretamente para os gêneros de terror. Eu não conhecia muitos livros desse tipo, até porque eu era uma garota bem medrosa, das que passam a noite em claro e totalmente coberta, mesmo se tiver um calor infernal.
Mas eu precisava inovar, foi por isso que meus dedos passearam por diversos títulos e autores. Eu precisaria falar com Ana, para que ela me recomendasse um bom, mas para iniciantes.
— Marta?
De princípio não achei que alguém realmente tivesse chamado pelo meu nome, qual é? Eu não possuía uma lista muito gigante de amigos, e para dificultar tudo ainda mais, a lista com amigos que se interessavam por leitura? Era muito mais vaga.
— Marta? — Pois então, a voz meticulosa repetiu meu nome. E eu parei, cogitando se era para mim mesmo. Virei-me na direção da voz masculina.
O garoto que tinha entrado! Eu o conhecia, havíamos estudados juntos há alguns anos — e ele não era nada do tipo que lia, às vezes me chamava de viciada, e esse foi um dos motivos para eu ter parado de gostar dele. Vocês sabem, àquelas paixonites que desenvolvemos pelas pessoas que aparentam ser tão legais e são tão bonitas! Mas que não as conhecemos nem um pouco…
— Theo?
Ele assentiu, sorrindo e chamando-me com a mão. Eu não sei porque minhas pernas andaram em sua direção. Theo era mesmo um idiota de carteirinha, daqueles que mudam completamente quando estão sozinhos e quando estão com os amigos. Talvez eu deva ter andado em sua direção porque ele realmente era bonito, qual é? Não posso observá-lo um pouco mais de perto? Se bem que observá-lo de longe seria bem melhor, estaria livre das coisas idiotas que ele falaria.
Mas se bem que Theo não era tudo isso. Ele não parecia ser nem original! Se estivesse uma fábrica para tipos de pessoas em sua forma física e até mesmo, mentalmente, Theo sairia daquelas fábricas onde todos são muito iguais.
Theo tinha os olhos azuis, os cabelos loiros, uma barba ameaçando nascer em sua face. Usava aquelas blusas azuis americanas e dava de esportivo, O jogador de futebol. Mas sequer norte-americano ele era para viver entre esses estereótipos. E ao conversar com Theo, seu papo não saia da festa que ele tinha ido no final de semana e quantas trouxas ele tinha pegado… Ah, era bem exaustivo.
O cara que você se envergonha de ter ficado sem jeito ao seu lado, ou de ter corado com um sorriso do mesmo.
— É preciso cair uma bela chuva para te fazer ficar perto dos livros, não é mesmo?
Ao contrário do que imaginei, o seu sorriso alargou-se ainda mais.
— Pois é, talvez esse seja um dos motivos da chuva — ele riu.
Como ele podia achar graça da sua falta de cultura literária?
— É — respondi sem graça, porque eu realmente não sabia o que lhe responder. Ele estava achando graça!
— Não vou nem perguntar o que você tá fazendo aqui, Marta.
Theo estava mesmo começando a me dar nos nervos.
— É uma biblioteca, Theo. As pessoas geralmente vêm aqui para fazer compras, não é mesmo?
Ele riu ainda mais. Sentei-me de frente para ele.
— Sim, foi retórica na verdade. Você está sempre com o nariz colado em algum livro… — ele disse sem sorrir mais. — Acho que deveria ler como uma atividade de lazer, não acha? Sair um pouco…
Agora Theo, o idiota mais babaca do mundo, o cara que nunca pegou num livro, o cara que sequer sabe a diferença entre mas e mais, estava tentando me dar uma lição de moral.
— É uma questão de valores, Theo — respondi-o, escolhendo minhas palavras com cuidado, para evitar muitos danos psicológicos. — Você tem os seus: sair, fazer festa, pegar o máximo que puder, se embebedar e acordar com ressaca. Dormir com uma desconhecida e não contrair uma DST! Uou! É realmente um aproveitamento da vida. Agora os meus valores: ler e adquirir cultura. Ler é estudar, mesmo que seja prestando atenção em como o autor contorna uma situação e, até mesmo, como lidar com as pessoas… Você tem uma meta, que é bem fútil, mas é a sua meta, o.k.? Eu tenho a minha: crescer na vida.
Theo ficou alguns segundos — que pareceram uma eternidade — em silêncio, ponderando minhas palavras. Eu não sei em qual nível eu o havia ofendido.
— Assim você me ofende, Marta — ele sorriu.
Eu juro que eu não o entendia. Não mais.
— Eu tenho outros valores também, mas você sabe, estamos no ensino médio, é a época mais gostosa para se curtir. Pense comigo — ele criou uma linha imaginária no ar — você daqui a pouco — porque o tempo passa correndo — vai ter trinta anos. Vai querer filhos? Uma empresa? Vai ter um trabalho, certamente. E provavelmente um marido. Com os trinta não é mais a idade para sair e curtir. Fazer burradas e quebrar a cara. É com a nossa idade, entende? Para que nós possamos aprender a diferença do certo e do errado agora. E eu tenho certeza que na maioria das histórias que você lê, as garotas da sua idade não passam o dia trancafiadas em casa devorando livros e livros todos os dias… Se sim, qual seria a graça?
Eu não havia entendido em como tínhamos chegado nesse ponto da conversa. Theo no fim, parecia saber — mesmo que por um momento — qual era a diferença entre mas e mais.
— É relativo — falei. — Eu só sei que esse é o momento que decido o que quero pra vida, e invisto nela. Só porque é o melhor momento para curtir não quer dizer que tenho que ser uma ignorante ambulante que não sabe das coisas e só pensa em garotos e em seus músculos.
Theo abriu um sorriso gigantesco.
— E por que você não faz os dois?
Se esse era o ponto em que Theo queria chegar, então, parabéns para ele! Lá estávamos: Theo com um sorriso enorme, como se tivesse me pego em uma enrascada. E eu com uma bela linha de expressão. Eu não sabia, essa era a verdade. Talvez falta de tempo fosse uma bela resposta, mas eu sabia que não era tanto assim.
Eu realmente vivia com o nariz colado em páginas e páginas e me sentia confortável. Me imaginar em um local cheio de pessoas grudentas, embaladas por uma música e bebendo álcool sem mesmo ter dezoito? Inimaginável, na verdade.
Dentre todas as mentiras que podia lhe contar, optei pela verdade.
— Eu não sei.
— Eu sei, porque você está muito ocupada — ele bateu um dedo na mesa — lendo as histórias dos outros e esquecendo de criar a sua mesma. — Era um bom ponto. — Sabe qual meu maior medo?
Eu não sabia se ele queria mesmo que eu lhe respondesse.
— Meu maior medo é ter uma vida igual à dos meus pais — disse-me e encarei seus olhos azuis, obtendo a verdade de suas palavras. — Imagina, estudar, estudar e estudar mais um pouco. E depois trabalhar, trabalhar e trabalhar mais um pouco e então de repente, por um cansaço do destino ou uma encruzilhada, bater com a morte. Qual teria sido o proveito de tudo? Em qual o momento em que eu aproveito a vida? Eu não quero a vida deles… batalham todos os dias por notas de papéis… É uma vida bem exausta e só de pensar que poderei viver assim… isso me mata. E para um belo resumo, tenho medo de perder a vida assim e esquecer, do mesmo jeito que você tá fazendo, de criar a minha própria história.
Nós dois continuamos em um silêncio por mais algum tempo. Eu não estava mais entendendo nada. Qual por fim, era a linha de raciocínio da conversa? Eu a havia perdido. Eu estava em silêncio porque não sabia o que lhe dizer e Theo permanecia calado porque já havia terminado.
— Acho que se esse é o ponto, não aproveitar a vida, você deveria dar uma lida nas histórias também. Livros sempre vêm com algo para nos ensinar, sabia? Alguma coisa bem importante por detrás de toda a trama… E ainda mais quando nos divertimos com eles, é maravilhoso também.
Theo riu.
— Tudo bem.
Eu fiquei surpresa. Minhas sobrancelhas ergueram-se e minha boca praticamente virou um belo “O”.
— Tem certeza? Estamos em uma biblioteca, posso te enfiar vários livros para ler.
— Desde que não sejam tão chatos quanto aos que a professora passa na sala de aula…
— Eles não são chatos! São clássicos, uma literatura incrível!
— Se você diz… — sorri. — Mas por mim agora, você terá que vir a uma festa comigo, o que acha?
— Improvável. Tenho planos para o final de semana que a festa vai acontecer.
— Mas você não sabe qual é o final de semana.
— Pois é, ando bem ocupada.
— Vamos lá, Marta! — ele estava mesmo tentando me convencer a ir em uma festa com ele? Se os tempos fossem outros eu estaria corada pelo corpo inteiro e já teria dito sim de primeira. — Vamos mudar um pouco, hãn? Sair da rotina. Eu da minha e você da sua? Inovar?
Ponderei por alguns segundos.
— Só se você ler a saga inteira de Harry Potter.
— Mas pra quê? Têm os filmes.
— Você me enoja.
— Tudo bem, eu leio. Quantos são?
— Sete.
— Uou. Não pode ser outra saga não?
— Não — eu ri.
— Ok. Estou disposto a fazer esse sacrifício, mas você vai ter que fazer o que eu pedir na festa, então.
— Eu não vou te beijar, Theo.
— Vamos ver então.
Ele sorriu de canto. E eu nunca havia pedido para que Theo fosse tão… Theo.
Durante o tempo em que nos dirigimos por entre as prateleiras — para que eu escolhesse o livro que ele fosse levar — nem havia reparado que a chuva já tinha parado por um bom tempo.
Notas finais
Beijocas!
Espero que tenha gostado!
Fale com o autor