Marlene In Wonderland
2 A lagoa de lágrimas
Capítulo 2
A lagoa de lágrimas
— Muito curiosíssimo e muito curiosíssimo! — gritou Marlene (ela estava tão surpresa, que por um momento quase esqueceu como falar um bom inglês). — Agora eu estou esticando como o maior telescópio que nunca houve! Adeus meus pezinhos! — Quando ela olhou para baixo, seus pés pareceram-lhe já quase fora do seu campo de visão, tão distante estavam. – “Oh! meus pobres pezinhos, quem é que vai colocar seus sapatos e meias para vocês, queridos? Eu tenho certeza que eu não serei capaz! Eu estou muito longe para preocupar-me com vocês: vocês agora têm que se virar o melhor que puderem... Mas eu preciso ser boa para eles”, pensou Marlene, “ou eles podem não me levar para onde eu quiser! Deixe-me ver...Eu vou dar para eles um par de botinas todo Natal.”
Marlene começou então a planejar consigo mesma como faria isso. “As botinas poderão ir pelo correio”, pensou, “e como vai ser engraçado, mandar presentes para seus próprios pés! E como o endereço vai parecer maluco!
"Ilustríssimo pé direito da Marlene
Tapete Felpudo
perto da Lareira
(com amor, Marlene)."
Oh! Deus, quanta bobagem estou falando!”
Exatamente nesse instante a cabeça da menina bateu contra o teto da sala: ela estava com mais de dois metros e meio de altura. Marlene finalmente apanhou a pequena chave dourada e apressou-se em direção à porta do jardim.
Pobre Marlene! Era tudo o que podia fazer, deitar-se de lado para olhar o jardim com um olho, mas ir até lá era mais difícil do que nunca: ela sentou-se e começou a chorar novamente.
- Você deveria estar envergonhada de si mesma — disse Marlene — Uma menina crescida como você (ela bem podia dizer isso...) chorando desse jeito! Pare agora, eu lhe ordeno! — Mas ela continuou do mesmo jeito, derramando galões de lágrimas, até que houvesse um grande lago ao seu redor, com quase meio palmo de fundura, estendendo-se por metade da sala!
Depois de um tempo ela ouviu pisadinhas ao longe e rapidamente secou os olhos para ver o que vinha vindo. Era o Coelho Branco voltando, muito bem vestido, com um par de luvas brancas em uma mão e um grande leque na outra: ele vinha trotando com muita pressa, resmungando consigo mesmo:
– Oh! Ela vai me matar se eu a fizer esperar!
Marlene sentia-se tão desesperada que estava pronta para pedir ajuda a qualquer um: então, quando o Coelho chegou perto dela, a menina começou com uma voz baixa, tímida:
– Por favor, Senhor... — O Coelho parou violentamente, derrubando as luvas brancas e o leque, e disparou em direção à escuridão tão rápido quanto pôde. Marlene apanhou o leque e as luvas, e, como a sala estava muito quente, começou a abanar-se enquanto falava:
“Puxa! Puxa! Como tudo está tão estranho hoje! E ontem as coisas estavam tão normais! O que será que mudou à noite? Deixe-me ver: eu era a mesma quando acordei de manhã? Tenho a impressão de ter me sentido um pouco diferente. Mas se eu não sou a mesma, a próxima questão é “Quem sou eu?” Ah! esta é a grande confusão!” E Marlene começou a pensar em todas as crianças que ela conhecia e que tinham a mesma idade dela, para ver se tinha se transformado em alguma delas.
- Eu tenho certeza que não sou Ada — ela disse — Porque os cabelos dela são enrolados e os meus não. E eu tenho certeza que não sou Mabel porque ela é muito mais engraçada! Além disso, ela é ela e eu sou eu e... Puxa, que confuso isso tudo é! Vou tentar ver se ainda sei tudo que sabia. Deixe-me ver 4 vezes 5 são 12 e 4 vezes 6 são 13 e 4 vezes 7 são... Nossa! Eu nunca vou chegar a vinte desse jeito! Entretanto a tabuada não quer dizer nada: vamos tentar Geografia. Londres é a capital de Paris, Paris é a capital de Roma, e Roma é... Não, não, está tudo errado. Eu tenho certeza! Eu devo ter me transformado em Biebe! Eu vou tentar recitar “A abelhinha atarefada”. Ela cruzou então as mãozinhas sobre o colo como se estivesse na escola e começou a recitar a poesia, mas sua voz soava rouca e estranha e as palavras não vinham como de costume:
Olha o pequeno crocodilo,
Mexendo sua cauda brilhante,
Espalha as águas do Nilo,
Que alegria!
Como ele fica feliz,
Que patas bonitinhas,
Bem vindos peixinhos,
Que dentões enormes!!!
— Tenho certeza que estas não são as palavras corretas — disse a pobre Marlene, e seus olhos ficaram cheios d’água novamente. -Eu devo ser Biebe, afinal, e eu vou ter que ir e viver naquela casa tão pequena, e quase não ter brinquedos para brincar, e oh, ter sempre tantas lições para aprender! Não, não vou me convencer disso: se eu sou Biebe, eu vou ficar aqui embaixo. Não adianta eles colocarem suas cabeças para baixo e dizer, “venha para cima, querida”. Eu vou simplesmente olhar para cima e dizer “Quem sou eu? Digam-me isso primeiro e depois, se eu gostar de ser a tal pessoa, eu subirei: se não, vou ficar aqui até ser outra...” Mas, puxa — e Marlene começou a chorar, com uma súbita explosão de lágrimas. — Eu queria que eles olhassem para baixo! Eu estou tão cansada de estar aqui sozinha.
Enquanto dizia isso, Marlene olhou para baixo em direção a suas mãos, e ficou surpresa ao notar que tinha vestido uma das luvas do coelho enquanto falava.
“Como consegui fazer isso?”, ela pensou. “Eu devo estar encolhendo novamente.” Ela então levantou-se e foi em direção à mesa para medir-se em comparação a ela e descobriu que, pelas suas contas, estava agora com mais ou menos sessenta centímetros de altura e continuava a encolher rapidamente. Marlene descobriu que a causa daquilo era o leque que segurava, e jogou-o fora impetuosamente, exatamente a tempo de salvar-se de encolher inteiramente.
- Escapei por um triz! — disse Marlene bastante assustada com a súbita mudança, mas muito feliz por ainda existir. — E agora para o jardim! — E ela correu com toda rapidez para a portinha, mas, alas! A pequena porta estava fechada novamente, e a pequena chave dourada estava sobre a mesa de vidro como antes, “e as coisas estão piores que nunca”, pensou a pobre criança, “porque eu nunca fui menor que isso, nunca! E eu digo que isso é ruim, muito ruim, é sim!”
Enquanto pensava essas palavras seu pé escorregou e, num instante, splash! ela estava até o queixo na água salgada. Sua primeira idéia é que teria caído no mar
– E nesse caso eu posso ir embora pela ferrovia — disse Marlene para si mesma. (Marlene tinha ido à praia apenas uma vez em sua vida, e tirara a conclusão que em qualquer lugar da costa inglesa que se vá, você encontra algumas cabines de troca de roupa, crianças cavando na areia com pás de madeira, e uma fila de hospedarias atrás, e mais atrás ainda a estação de trem). Mas logo percebeu que estava no lago de lágrimas que derramara quando estava com dois metros e meio de altura. — Eu gostaria de não ter chorado tanto! — disse Marlene enquanto nadava tentando encontrar a saída. — Eu devo estar sendo punida por isso agora, suponho, afogando-me em minhas próprias lágrimas! Isso sim será uma coisa estranha. Entretanto, tudo está estranho, hoje. — Nesse instante ela ouviu algo chapinhando no lago um pouco mais adiante e nadou para perto tentando entender o que era aquilo: inicialmente ela pensou que poderia ser uma morsa ou um hipopótamo, mas então lembrou como estava pequena e logo compreendeu que era apenas um rato, que tinha escorregado como ela.
“Será que adiantaria”, pensou Marlene, “tentar falar com esse rato? Tudo é tão fora do comum aqui, que eu posso até pensar que ele pode falar: de qualquer maneira, não há mal em tentar.”
Então ela começou:
– Oh Rato, você conhece a saída desse lago? Estou muito cansada de nadar de lá para cá, oh Rato. — (Marlene pensava que esta era a maneira certa de se falar com um rato: ela nunca fizera isso antes, mas lembrava de ter visto na Gramática do Latim de seu irmão: “Um rato... De um rato... Para outro rato... Um rato... Oh rato!”) O rato olhou para ela inquisitivamente e parecia piscar um dos seus olhinhos, mas não falava nada.
“Talvez ele não entenda inglês”, pensou Marlene. “É provável que seja um rato francês, vindo para cá com William, o Conquistador.” (Como todo seu conhecimento de história, Marlene não tinha noção clara sobre há quanto tempo aquilo tinha acontecido) Ela começou novamente:
– Où est ma chatte? — que era a primeira frase do seu livro de francês.
O Rato deu um súbito salto para fora da água e começou a tremer inteirinho, com medo.
- Oh! desculpe-me — gritou Marlene apressadamente, temerosa de ter ferido os sentimentos do pobre animal. — Eu quase esqueci que você não gosta de gatos.
- Não gosta de gatos — gritou o Rato com uma voz nervosamente aguda. — Você gostaria de gatos se fosse eu?
- Bem, talvez não — disse Marlene num tom calmo. — Não fique bravo com isso. E eu ainda queria lhe mostrar nossa gata Camie. Eu acho que você passaria a gostar de gatos se pudesse apenas olhar para ela. Ela é uma coisinha linda — Marlene continuou, meio para ela mesma, enquanto nadava preguiçosamente pela piscina afora — Ela senta-se ronronando tão bonitinha ao lado do fogo, lambendo as patas e lavando o rosto... E ela é tão fofa para se criar... E ela é boa também para pegar ratos, oh, desculpe! — gritou Marlene novamente, enquanto o rato arrepiava-se todo, e ela sentiu que dessa vez realmente o ofendera.
- Nós não vamos mais falar sobre isso, se preferirmos.
- Nós, realmente — gritou o Rato, que tremia até à ponta da cauda — Como se eu quisesse falar sobre esse assunto! Nossa família sempre odiou gatos! Aquelas coisas detestáveis, baixas, vulgares! Não me faça ouvir esse nome novamente.
- Eu não faço, realmente — disse Marlene, querendo mudar rapidamente o assunto da conversa. — Você... Você, gosta de cachorros?
O Rato não respondeu, então Marlene continuou impacientemente:
– Há um cachorrinho lindo, perto da nossa casa, eu gostaria de lhe mostrar! É um pequeno terrier de olhos brilhantes, você sabe, com oh!, com um pêlo marrom comprido e anelado! E ele pega as coisas quando você joga, e senta-se e pede comida, e todo esse tipo de coisas... Eu não consigo lembrar de metade delas...e ele pertence a um fazendeiro, você sabe, que diz que ele é muito útil, vale mais de cem libras. Ele disse que o cachorrinho mata todos os ratos e... Oh! puxa! — gritou Marlene em um tom desconsolado. — Temo que o ofendi novamente.
O Rato nadava para longe dela o mais rápido possível, produzindo uma grande agitação na lagoa à sua saída.
Marlene chamava suavemente atrás dele:
– Rato querido! Volte, e nós não iremos falar de gatos, nem de cães, se você não gosta deles!
Quando o Rato ouviu isso, virou-se e nadou lentamente em direção a Marlene: seu rosto ainda estava pálido (de raiva, Marlene pensou) e disse, com uma vozinha baixa e trêmula.
- Vamos para a praia, e então eu vou lhe contar minha história e você vai entender porque eu odeio gatos e cães.
Estava mais do que na hora de ir, pois ao lagoa estava ficando cheia de pássaros e animais que nela caíam. Havia um Pato e um Dodô, um Papagaio e uma Aguiazinha, e muitas outras criaturas curiosas. Marlene seguiu o caminho e o grupo todo nadou junto para a praia.
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