Notas iniciais
Enjoy ^-^

Apesar de adorar o pai quando era pequena, Akane admirava a mãe e olhava para ela como se ela estivesse sempre a brilhar. Para a pequena Akane, a mãe era perfeita. Ela sabia fazer tudo e, quando o pai chegava a casa, beijava-a na mão e dizia que a amava, Akane desejava ser como a mãe quando crescesse e ter que a amasse tanto como o pai a amava.

Esse desejo evaporou-se com o passar dos anos. Depois de o pai morrer, a mãe tinha desfalecido. Parecia constantemente, completamente exausta. Com a inocência perdida, Akane sabia muito bem que a mãe não fazia tudo bem. O amor que tanto invejara e desejara tinha-se transformado numa anedota.

“Amor” não era mais nada a não ser uma emoção a que eles, humanos, se apegavam para se sentirem melhor. Na verdade, não havia amor verdadeiro ou puro. Era simplesmente um intercambio de elogios que fazia a outra sentir-se melhor e, no fim, puramente uma maneira de dar continuidade a futuras gerações. Pelo menos era assim que Akane o via.

Para quê meter-se nessa confusão quando centenas de pessoas já o faziam?

Continuava a respeitar a mãe. Ela tinha-a criado depois de a única pessoa que providenciava para a família morrera, da melhor maneira que sabia como. Tentara mostrar-lhe afeto e explicar-lhe o que era realmente amar alguém, enquanto ela crescia. Contara-lhe histórias dela e do seu pai e de como se tinham apaixonado.

Akane achava que os pais eram a exceção à regra.

Depois de mudarem-se para a casa da melhor amiga da mãe, Akane tinha observado com horror o relacionamento que os pais de Aoi tinham. Quando era dia para os pais se encontrarem com os professores, enquanto a mãe ia com um sorriso na cara, os pais de Aoi discutiam sobre quem estava livre para levar o filho. Muitas vezes, nenhum deles ia, deixando Aoi aos cuidados da sua mãe que, segundo Akane, era muito mais capaz de discutir com o professor sobre os problemas de Aoi na escola.

Aoi tinha uma certa inveja de Akane que, mesmo não tendo pai, recebia mais amor da mãe do que ele, mesmo se juntasse a sua mãe e o seu o pai. Ele queria sentir esse tipo de amor e achava que, se se aproximasse mais de Akane o ia sentir.

No entanto, quando a beijou pela primeira vez e a viu chorar, só sentiu uma pontada no peito. Depois, sem saber o que mais fazer, fez o que os pais sempre faziam e deu-lhe dinheiro para encobrir o mal que tinha feito.

Pelos vistos, não tinha funcionado, porque Akane olhou-o com desdém quando ele o fez. Olhando agora para trás, Aoi apercebia-se que podia ter parecido desrespeitoso aos de Akane. Mas só o tinham aceitado a desculpar-se daquela maneira. Segundo o pai, pessoas da sua estatura nem sequer deviam desculpar-se. Eles nunca faziam nada de mal. Nunca erravam.

Aoi pensava que iria crescer a ser odiado por toda a gente se Akane e a mãe não se tivessem mudado enquanto ele ainda estava a ser moldado. Ao ver a inocência de Akane a desaparecer aos poucos, Aoi sentia necessidade de a proteger de qualquer pessoa que lhe tocasse. Mas sabia que Akane não apreciaria o gesto e achá-lo-ia fútil, por isso arranjara outra maneira de a manter por perto, dentro do seu campo de visão.

Pedira à mãe para que Akane o acompanhasse para a escola que ele fosse e, quando o pai objetou, Aoi disse que, se não o fizessem, podiam esquecer a sua entrada na universidade prestigiada para onde queriam mandá-lo.

Depois do pai ceder, Aoi decidiu que tinha tudo controlado. A menina de tranças, sem inocência nos olhos e dotada com amor estava sempre ao seu lado. O que não era bom para ela, em bastantes ocasiões.

À medida que crescia, Aoi começou a procurar desesperadamente pelo amor que tinha visto nos olhos da menina que se tinha mudado para sua casa há dez anos atrás. E então, começou a namorar com várias raparigas. Nalgumas ocasiões, mais do que uma de uma vez. Aoi não tinha dificuldades em encontrar uma namorada, mas voltava sempre a Akane quando não encontrava o que queria nas outras raparigas.

Nos seus olhos, Akane tinha começado a ter medo dele e ele continuava a pagar-lhe porque parecia resultar e…bem, ele não sabia o que mais fazer. Até ao dia em que tinha dito aos pais que Akane fazia anos no dia seguinte.

Queria ver um sorriso na cara dela. Pelo menos uma faísca de felicidade ou gratidão nos olhos dela…para depois consumi-la. Aquele vazio no seu coração tinha de ser preenchido e Aoi sabia que Akane tinha amor suficiente dentro dela para partilhar algum.

Ela pertencia-lhe. Aoi tinha decidido isso há muito tempo atrás. Por muitas namoradas que tivesse, ou até mesmo se se chegasse a casar, Akane nunca escaparia. Tinha-se tornado uma necessidade tê-la por perto.

No entanto, quando Akane olhou para o bolo e o deitou ao chão, Aoi não viu inocência, amor, gratidão, felicidade…ódio. Foi a única coisa que viu. Ódio. Ódio por ele ter contado aos pais quando era o seu aniversário e por eles terem a indecência de sequer pensar que era correto celebrá-lo, quando sabiam perfeitamente que o seu pai tinha morrido nesse dia.

E os seus pais sabiam. Mas Aoi, não.

Nos dias seguintes, Aoi descobriu que a Akane que ele conhecia não era realmente Akane. A verdadeira Akane não tinha amor suficiente para partilhar com os outros. Aliás, Aoi duvidava que ela tivesse sequer algum amor para oferecer.

Ele só via ódio. E tristeza, seguida de culpa, bem enterrados dentro dela.

Aoi perguntava-se se ele era o único que pensava que, talvez, ela estivesse a encobrir a tristeza e a culpa com uma máscara de ódio. A mãe dela tinha-o aconselhado a deixá-la em paz. Ela ficava assim todos os anos. Iria passar.

Mas ela era…Akane era…ele não queria que passasse, simplesmente. Queria que acabasse, permanentemente! Porque ela era…Akane…ela merecia sentir amor outra vez, e ser a menina feliz que Aoi sabia que ela tinha sido.

Tal como a mãe dela dissera, passados alguns dias depois de Aoi a ouvir a chorar no telhado da escola, Akane voltou a ser a rapariga de tranças que fingia ter medo dele.

Mas se aquilo era só uma máscara, Aoi preferia que Akane se comportasse normalmente, à sua volta. Queria que ela gritasse com ele, chorasse, fugisse. Porque, por muito que ela fugisse, ele estaria sempre atrás dela. Por ele…ele estava…Akane era…Akane pertencia-lhe! Preferia uma boneca rachada do que uma casca vazia pintada de ouro sem nada lá dentro.

Chegou a pensar que, se ela chorasse nos braços dele, não seria mau de todo.

Mas ela sorria-lhe e fazia tudo o que ele queria por certas quantias, tal como tinha feito durante aquele ano.

E foi então que Aoi se apercebeu. Akane não era burra nem se deixava levar simplesmente porque os outros queriam. Akane estava a manipulá-lo para conseguir o dinheiro. Isso podia chateá-lo, se ela não estivesse disposta a ser abusada por outras raparigas por causa dele, só obter as pequenas quantias que ele lhe dava.

Alguns dias depois, Aoi descobriu que Akane nem sequer estava a usar o dinheiro para si própria. Guardava-o numa conta no nome da mãe ou comprava-lhe alguma coisa, de vez em quando. Também descobriu, pela empregada que limpava a casa, que Akane tinha uma foto do pai, com algumas flores (sempre frescas) à sua volta, e bastantes fotografias da família de três, espalhadas pelo quarto. Mas nenhuma depois do pai ter morrido, apesar de ele saber que Akane tinha tirado um par delas só com a mãe, desde então. Essas, segundo a empregada, estavam à beira da cama da mãe.

Aoi chegou à conclusão que Akane não era apenas uma boneca rachada. Estava completamente partida. E ele começou a achar que não conseguia repará-la sozinho.

Akane sabia o que Aoi andara a fazer.

A espiá-la, a entrar no seu quarto. Tinha quase a certeza que a empregada tinha visto a fotografia que Akane tinha do pai, escondida num dos armários.

O que Aoi queria, era o que ela não sabia.

Já não lhe pedia tantos favores, o que lhe estava a custar caro. Quando tinha dez anos, antes de Aoi começar a oferecer-lhe dinheiro, Akane tinha trabalhado numa loja de conveniência. Na altura, ela era mais…desenvolvida do que as suas amigas e tinha enganado o dono facilmente.

Tinha trabalhado lá durante alguns meses, secretamente. E pelos vistos ia ter de começar a fazê-lo de novo. Pelo menos, já não tinha de mentir sobre a sua idade, mas tinha de mentir à escola, que proibia que os alunos trabalhassem antes dos dezoito anos.

Akane encolheu os ombros. Não tinha importância se chegasse cansada a casa, logo que ninguém desconfiasse e continuasse a ter boas notas.

Tinha quase a certeza que os pais de Aoi queriam enviá-lo para uma faculdade privilegiada no estrangeiro e tinha a certeza que ele iria querer que o acompanhasse. Akane não tinha dinheiro para ir para uma faculdade dessas, o que lhe deixava com uma opção. Uma bolsa de estudos completa que eles ofereciam aos três melhores alunos dos primeiros anos. Ia ser difícil, mas Akane estava acima da média na escola de prestigio que frequentava correntemente com Aoi. Não era só ela que estava confiante. Os professores também a aconselhavam a inscrever-se na faculdade e seguir os passos de Aoi, tal como tinha feito até ali.

Akane queria que a mãe tivesse saído daquela casa quando ela partisse para o estrangeiro com Aoi. Era por isso que guardava o dinheiro que Aoi lhe dava numa conta no nome da mãe. Também era por isso que agora teria de arranjar um emprego.

Raios, Aoi!

Se ela não conseguisse entrar na faculdade por ela própria, não iria aceitar qualquer dinheiro da família de Aoi. Preferia ficar por ali quanto aos estudos, e começar a trabalhar a tempo inteiro.

Isso serviria de punição para Aoi. Um menino que, provavelmente, nunca tinha ouvido essa palavra.

E, se a família dele dissesse que ela tinha de ir com ele se queria que a mãe continuasse a viver ali, Akane não se iria importar, porque já tinha dinheiro suficiente para alugar pelo menos um pequeno apartamento e sustentá-las a ambas durante um par de meses, até ela arranjar um emprego apropriado para sustentar a mãe.

Mas, se quisesse admitir, Aoi era…para ela, que tinha perdido tudo quando ainda estava a ser moldada…Aoi era a única pessoa a quem poderia chamar de amigo. Tinham-se moldado mutuamente, à medida que iam crescendo.

Akane não fazia ideia se tinha ensinado alguma coisa a Aoi, mas ele tinha-lhe mostrado que o mundo era injusto e cruel.

Akane não queria deixar a mãe sozinha naquela casa, mas também não queria que Aoi a abandonasse. Nunca o admitiria. No máximo, diria que estava ansiosa por frequentar uma faculdade tão diferente e que ficaria desiludida se não o pudesse fazer.

Nunca admitiria que talvez pudesse ter saudades de Aoi.

Tal como nunca tinha admitido que ficava um pouco feliz quando entrava na escola ao lado dele ou como ficava com ciúmes sempre que Aoi arranjava uma namorada nova, sem sequer olhar para ela.

Sem sequer olhar para ela? O que é que ela queria, afinal? Aquele rapaz tinha abusado da “bondade” dela durante anos e tinha-a tratado como miúda de recados já há um ano.

Aquilo que sentia quando estava ao lado dele, não era amor, pensou ela. Era uma reação normal de uma adolescente saudável. Com certeza iria passar quando ela se tornasse numa adulta.

“Amar” era uma coisa desgastante e que tomava muito tempo que podia ser gasto em coisas mais rentáveis. Tal como tomava tempo, também tomava espaço na mente das pessoas nesse estado.

Akane não queria que isso lhe acontecesse. Por isso, mesmo que aquilo fosse uma reação normal de uma adolescente saudável, talvez devesse afastar-se um pouco de Aoi…até aquela fase passar. Tinha a certeza que ia passar!

Afinal, ele também já não lhe pagava e parecia que também não precisava dela.

Isso…deixou-a surpreendentemente deprimida.

Notas finais
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