Marina e Simão
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Notas iniciais
Marina não conseguiu se enturmar com as outras meninas e tremia de pavor só de pensar no tal baile que seria promovido numa noite de sábado. Como o previsto, ninguém a tirou para dançar e as outras troçavam do seu cabelo que não ficava ajeitado nem com gel. Os moleques a achincalhavam por causa do aparelho.
Não tinha clima para continuar dentro do refeitório que estava caracterizado com globos espelhados no teto, luzes especiais e uma pista de dança livre para todos se divertirem até o toque de recolher que foi estendido até a meia-noite, afinal, era sábado.
Não quando seu apelido era boca de lata.
Chorando, Marina se sentou naquele mesmo tronco cortado onde conheceu o Anjo. Estava longe de todos. Considerando a hora, não deixava de ser uma atitude arriscada. Sua música preferida ressoando ao longe a deixava mais entristecida ainda. Sabia que um dia iria tirar aquele aparelho e ter um sorriso bonito, mas não queria ser alvo de piadinhas por causa disso o tempo todo como se o único meio de ser respeitada fosse a beleza física.
— Eu não gosto de vê-la chorando. — disse uma voz conhecida de Marina.
Simão arriscou fazer um carinho na cabeça de Marina que estava sentada com os joelhos cruzados, escondendo o rosto.
— Eu posso ajudar?
Marina não tinha condições de respondê-lo.
— Eu já te disse que fico triste quando te vejo chorando?
— Eu estou bem!
— Posso te oferecer um lenço?
Simão tirou do bolso frontal da calça jeans um lenço branco de pano e ofereceu à Marina que sem erguer a cabeça, estendeu a mão, agradecendo-o pela gentileza.
— Se você quiser conversar, estarei aqui! — falou Simão, comovido.
Antes que a menina continuasse entristecida pelas brincadeiras de mau gosto, Simão encaixou uma de suas mãos às de Marina. Ela desviou o olhar, mas o Anjo não a permitiu prosseguir.
— Não seja tímida.
— Sou feia e tímida, e daí?
— Feia você não é, mas é muito tímida.
— E daí se eu for? — estrilou Marina irritada com aquela mania de as pessoas julgarem-na mal só pelo fato de ser tímida. — Qual é o problema com a minha timidez? Eu não sou doente, sou tímida!
— Você deixa esses pirralhos te ofenderem, não devia.
— Por que se importa? Eu não ligo!
— Não liga? Então por que está chorando como se o mundo fosse acabar?
— Também é proibido chorar?
— Não! Claro que não!
— Por que está aqui?
— Porque eu senti sua falta lá dentro. Isso é errado?
— Na verdade não, mas é estranho.
— É estranho porque é a primeira vez que você sente isso?
— É, é sim.
— Eu não tiro os olhos de você desde que nos vimos pela primeira vez, Marina.
— Você não tira os olhos de mim? As garotas bonitas estão lá dentro, garoto do livro. — Marina apontou em direção ao refeitório do acampamento.
— Não me importa nenhuma delas, não percebeu ainda?
— Eu ainda acho estranho.
— Eu ainda acho estranho que nos conheçamos há tempos e você não tenha tentando adivinhar meu nome.
Marina sorriu espontaneamente e Simão alisou o queixo dela, com carinho, com um afeto que nunca antes demonstrou por ninguém.
— Você que pensa. — sorriu Marina sem fitar os olhos de Simão.
— Já te disse que não precisa ter medo de me olhar nos olhos. — Simão ergueu com delicadeza o queixo de Marina para que pudesse olhar bem dentro dos olhos dela, o que era um desafio e tanto para quem se sentia desconcertada por não poder controlar as sensações que se apossavam de seu corpo e entravam em contato com todos os segredos íntimos de sua alma.
— Eu acho que sei o seu nome...
— Será que sabe?
— Eu tenho cara de Marina?
— Você é uma Marina. Mas e eu tenho cara de Simão?
Marina riu plena de que acertou a adivinhação. Das mil combinações, compreendia. Simão tinha cara de Simão. Era simples dizer.
— Você é o primeiro Simão que eu conheço.
Simão concordou com a cabeça e Marina prosseguiu:
— Aposto como te enchem de apelidos bestas com aumentativos, né?
— Sim, mas já passei da fase de me importar. Afinal, tenho dezesseis anos. Você também não deveria se importar. Eles não sabem quem é você de verdade. Eles se acham os maiorais pregando peças nos outros, um jeito sutil de tentarem lidar com a insignificância deles.
Simão a entendia, Marina teve certeza disso observando com mais calma as covinhas que se formavam nas bochechas dele:
— Eles te deixam pra baixo porque você deixa!
— Como você conseguiu deixar de se importar?
Marina não enxergava nada que tornasse Simão alvo de chacotas como ela era.
— Eu te disse que seu sorriso é o meu sol? — perguntou Simão, mesmo sabendo que antes nunca havia sentido coragem de dizer aquilo. E como ensaiou. Sozinho no banheiro ensaiava a entonação, como seria segurar a mão macia dela e lhe dizer que estava apaixonado.
— Não... Ninguém nunca me diz esse tipo de coisa...
— Seu sorriso é lindo e resplandecente como o luar.
— Sempre achei meu sorriso tão torto, tão sem graça...
— Você é que pensa!
— Sabe, garoto do livro, eu acho que estou sentindo algumas coisas que não posso falar.
— Pra mim você pode. — incentivou Simão.
— São coisas que eu devia falar com uma menina.
— Se envolverem o meu nome, quero que fale comigo.
Marina estremeceu, constrangida:
— Tudo bem se não quiser falar agora. — compreendeu Simão, terno, incerto se devia pedir para segurar nas mãos de Marina ou segurá-las de uma vez por todas. Na imaginação tudo parecia um pouquinho mais simples: as mãos não suavam, o coração não batia como um tambor rufando, a voz não sumia quando precisava se fazer notar.
— Eu não sei como falar.
— Fale o que sentir.
— Certo! Só depois não reclame!
— Eu gosto de te ouvir falar!
Marina abaixou a cabeça:
— É normal pensar tanto em alguém?
— Se sim ou se não, não sei, só sei que eu também não consigo parar de pensar em você.
— Então eu não estou sozinha... — suspirou Marina.
Simão segurou nas mãos de Marina que não fez nenhuma menção de se soltar como também não desviou o olhar. Era um grande avanço. Ela já havia se acalmado um pouco e apesar de ainda estar com os olhos úmidos, não chorava copiosamente como quando ele a encontrou.
— Quando você me olha desse jeito eu fico sem graça...
— Eu poderia passar o resto da vida te olhando assim, Marina. — declarou-se Simão que brincava com as mechas negras do cabelo de Marina, colocando-as atrás da orelha dela até sentir coragem de perguntar se podia beijá-la:
— Tipo... um beijo na boca?
Simão assentiu contente:
— Por que não?
Marina cobriu o rosto com a mão solta e Simão a tomou, com calma:
— Pra você tem problema se eu nunca tiver beijado ninguém? — indagou Marina, esperando também que Simão não contasse a ninguém sobre aquelas sensações.
— Eu tenho o privilégio de ser o primeiro! Isso é demais!
— Pra você é?
Marina nunca tinha beijado ninguém. Aquela perspectiva tão distante da sua realidade agora era próxima e palpável, parte dela, um sonho que aprendia a cuidar porque a partir do momento em que seus lábios tocaram os dele, tudo fluiu com uma naturalidade que a espantou.
Apesar da pouca idade e da inexperiência, a garotinha sabia que o conhecia desde muito antes daquele encontro nos troncos cortados. Não podia dizer de onde, nada, porque nem mesmo tinha essa estimativa. Era como se sempre o tivesse visto em sonho ou o tivesse amado em outra vida. Era não menos do que uma sensação mágica que podia compartilhar com alguém, algo que lia nas linhas dos livros, mas agora podia provar sem apenas supor.
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