Notas iniciais
Começam as mudanças na vida de Marina :)

Antes do Natal, Marina e a mãe viajaram centenas de quilômetros para serem recebidas de braços abertos pelos avós da menina que as acolheram com muito carinho, até porque se preocupavam muito com as responsabilidades de Regina. Haveria espaço o suficiente para todos viverem muito bem, além de oportunidades reais de emprego e conforto. Para quem recomeçava era uma ótima perspectiva, analisando o quadro de crise econômica que o país passava.

Marina relembrou com carinho dos tempos em que brincava no balanço feito de pneu, de comer pitangas e sair para mergulhar no rio. Poderia passar o verão inteiro daquele jeito, não reclamaria. As burocracias ficavam por conta dos adultos. Eles não gostavam de envolvê-la nas questões “complicadas”, no entanto a garotinha não se agradou nem um pouco com a ideia de passar o restante das férias em um acampamento.

— Hoje você reclama, mas quando tiver de voltar pra casa vai é chorar e pedir pra ficar! — convenceu Regina que queria ver a filha trazendo amigas para casa, sentia falta de riso, conversas, música alta. Ela sabia que embora fosse uma boa confidente, não substituía uma menina da idade. Havia muita coisa que Marina nunca lhe contaria e era natural que compreendesse.

— Eu estou me divertindo muito em casa! — protestou a garotinha que escondia a sua inabilidade social fingindo que gostava de ser sozinha, uma meia verdade.

— Você tem só treze anos, Marina. Precisa ter amigos da sua idade! Não quero que passe a vida inteira ensimesmada.

— Eu gosto de ser do jeito que eu sou!

Outra meia verdade.

— Eu também gosto, mas quero te ver feliz!

— Eu sei ser feliz... — reclamou Marina.

Se a meia verdade não era uma mentira em potencial, também não se enquadrava a uma afirmação legítima.

Não adiantou Marina chorar e usar o velho truque da febre. Regina Queiroz já conhecia todas aquelas artimanhas pueris e não se convencia tão facilmente, a menos que fosse vítima de alguma peça muito bem pregada, mas a criatividade da filha não estava em alta.

Regina auxiliou a filha a preparar as bagagens na véspera da partida, uma sexta-feira de sol.

Marina despediu-se da família e partiu de ônibus para o referido acampamento exatamente na divisa entre Chinchila do Norte e Balneário dos Anjos. Conseguiu, por sorte, uma poltrona perto da janela e lá permaneceu calada, olhando a estrada e as paisagens que se modificavam conforme os longos quilômetros até a base do acampamento separavam-na de seu lar. Ela gostava de se perder nos próprios pensamentos e imaginar tudo o que tinha vontade de colocar no papel, mas geralmente não conseguia.

O restante da criançada estava em polvorosa. O motorista do ônibus desejaria cumprir o restante da viagem para a colônia de férias utilizando um bom e potente protetor auricular porque a algazarra era tanta que o risco de perder a concentração também era grande.

Ninguém se aproximou de Marina quando o ônibus desembarcou naquele território coberto pela mata atlântica, um verdadeiro paraíso escondido no meio do nada.

Marina não podia negar que o lugar era lindo, igualzinho àqueles em que desbravava durante as leituras. No entanto, para ela a sensação de tristeza era grande porque além de ser a primeira noite em que dormiria longe da mãe, nem sequer poderia chorar, ninguém entenderia; as outras crianças tirariam sarro dela o restante das férias.

Os alojamentos da colônia eram confortáveis e dois pavilhões dividiam meninos e meninas. Havia cerca de cem jovens no acampamento. As garotas, porém, eram cinquenta e três enquanto eles estavam em quarenta e sete, com idades entre oito e dezoito anos.

Para quem não gostava muito de praia não deixava de ser uma boa alternativa. De qualquer forma, Marina não estava contente, não por ser ingrata e contrariar a vontade da mãe, mas porque nunca gostou muito de multidões e sabia que era impossível passar despercebida quando se usava um aparelho enorme que logo lhe rendeu o apelido ingrato de boca de lata.

Fugir era praticamente impossível porque além de se denominar uma empreitada bastante arriscada para uma menina da sua idade sem dinheiro e muito menos resistência para caminhar quilômetros e mais quilômetros até encontrar um único telefone público, a alternativa mais otimista era esperar os dias passarem e não criar confusão.

Os monitores do acampamento invitaram a todos no grande pavilhão onde funcionava o refeitório para falarem um pouco sobre as mudanças daquele ano e checarem se todos estavam presentes. Uma das normas mais notáveis era, claro, a de não se afastar do grupo sob hipótese alguma. A segunda afligiu sobremaneira a pobre Marina: era proibido ficar no quarto. Todos os jovens tinham de estar em alguma atividade ou do contrário receberiam um memorando.

Marina preocupou-se. Podia sentir as gotas de suor escorrendo testa abaixo. Tudo bem que fazia bastante calor, mas para quem não tinha qualquer aptidão para os esportes, atividades recreativas que dependessem de dotes físicos para serem desempenhadas apavoravam a pobre menininha de aparelho.

Marina não gostava nem de Educação Física, ainda que a professora pegasse leve nos exercícios.

Para um primeiro dia, os instrutores foram indulgentes. Todos jantaram macarrão com almôndegas e suco de frutas às 19h00min e se recolheram em definitivo para o descanso às 22h00min.

Apesar do cansaço pela viagem, Marina não conseguiu dormir e assim sendo pôde escutar as conversas das outras meninas. A impressão que tinha era a de sempre ter chegado tarde demais para tudo. Nunca conseguiu ter uma melhor amiga para si, nem ser especial em nada, nem mesmo ter um grupo para estar. Nada. Todas as pessoas conversavam como se fossem amigas de longas datas e ela, ímpar, escutava a tudo sem nunca ser importante para ninguém senão sua mãe e seus avós.

Se Marina não tinha sorte para amizades, tampouco com garotos. Ainda não havia beijado ninguém. Não que se importasse com isso.

Notas finais
No próximo capítulo o Simão lindo vai aparecer, não percam!