Se eu pudesse descrever-me em uma palavra no momento em que cheguei em minha nova casa, essa palavra seria: enganado.

Não que fosse uma casa horrível. Mas por duzentos e oitenta mil, eu esperava algo bem mais... simpático.

Que clichê seria minha vida se esta fosse um filme; — lembro de pensar. Um roteirista quase falido que se mudou para uma casa velha que fica bem no meio de dois prédios futuristas e imensos, em uma cidade imersa em tecnologia e modernidade. Um homem magro de trinta anos com cara de ser seis ou sete anos mais novo e que carregava uma maquina de escrever por ai.

Tão deslocado e pitoresco.

Se eu estivesse lendo minha própria historia, reviraria os olhos de tão clichê. Em uma historia dessas eu provavelmente seria o psicopata, ou talvez o protagonista bonzinho que acha uma mulher linda mas que tem câncer. Nós nos apaixonaríamos e ela morreria no fim. Ou, ela talvez não tivesse câncer, e então eu morreria no fim.

De qualquer forma, muito clichê.

Eu, como todos que se precipitam, estava enganado sobre minha história. Bem, não tão enganado assim, mas isso não vem ao caso. O caso é que minha linda mulher — e não, não é a Julia Roberts, se é que você me entendeu... Há! -não tinha câncer e tão pouco está morta, e eu obviamente, estou tão vivo quanto ela.

Mas existe algo na vida de quem conta a sua própria história que nos torna aptos a falar de nossa vida, mesmo que ela não tenha vampiros, bruxos, câncer ou um tordo... O que seria muito legal aproposito, o tordo, eu digo.

Se eu não estive em um barco com um tigre a deriva no mar e não sou um Afegão atrás de uma pipa, o que eu posso ter de especial para contar?

Vou te dar três motivos para acreditar que eu posso valer a pena continuar lendo: Chocolate, sequestro e uma paquistanesa de olhos azuis.

Esse é o momento em que eu trabalho no suspense e paro de escrever...

Notas finais
Obrigada pelos peixes!