Margot

1 Sutilmente mandada embora


Notas iniciais
Oi pessoas! Olha, eu tenho um péssimo histórico de atualização de fics, então vou longo avisando: não achem que eu morri ou desisti da fic se eu passar um mês ou dois sem atualizar. Mas enfim, não desistam por isso, por favor!
Espero q gostem!

Os pingos de chuva açoitavam as janelas e o fogo crepitava na lareira. Margot apertava as mãos uma na outra com força e passava os pés pelo carpete carmim num movimento lento e metódico. Não sabia para onde — ou para quem — olhar, por isso preferiu focar sua atenção na renda bordada em sua saia. Estava na mesma situação há alguns minutos: mordia os lábios, abria a boca e fechava logo em seguida. Às vezes se sentia decidida a falar, então umedecia os lábios, mas desistia. A verdade é que ela não sabia o que dizer. Por fim, pronunciou uma única palavra:

- Semideusa?

Ela não parava de repassar os últimos acontecimentos na cabeça. Era o primeiro dia das férias de verão. Tinha passado a tarde inteira com Charles, o jardineiro, tentando plantar algumas begônias no jardim da mansão. Até então, tudo normal. Mas assim que entrou em casa descobriu que eles tinham visita. Porém o que mais a surpreendeu foi quem era: um rapaz chamado Mike, que aparentava ter vinte e poucos anos, usava uma boina vermelha enorme e calças mais folgadas do que deveria. Esse definitivamente não era o tipo de pessoa que eles costumavam receber em casa.

Eles jantaram e foram para sala de estar. Foi exatamente lá que tudo desandou. Aconteceu tão rápido que ela mal conseguiu acompanhar: de repente o estranho falou coisas sobre ser uma meio-sangue.

- É isso aí — Mike respondeu, sorrindo. Ele não havia tirado os olhos dela nem por um segundo.

- O que isso significa? — perguntou. Sua cabeça não parava de rodar e bem lá no fundo ela ainda tinha esperanças de que tudo aquilo fosse só um pesadelo. A qualquer momento acordaria em seu quarto com o coração um pouco acelerado, olharia ao redor assustada, mas no fim perceberia que está tudo bem.

- Significa que você é filha de um deus, ou uma deusa...

- Eu sei disso. Eu quis dizer... Em que isso vai mudar a minha vida? — Ela interrompeu-o, sua voz saindo baixa e rouca, talvez por conta do tempo que passou calada.

- Sabe, Maggie... Posso chamar de Maggie, né? Então... Você tá bem? Você tá tremendo um pouco... Quer dizer, não é todo mundo que leva "a revelação" numa boa, então eu até entendo, mas fica calma tá? Isso não é o fim do mundo! — ele disse, rindo — e eu vou responder a sua pergunta: você não pode continuar morando aqui. Quer dizer, até pode, mas não é aconselhável, a não ser que você queira virar petisco de mostro... — deu uma risadinha, mas parou imediatamente ao perceber a expressão perplexa de todos na sala — desculpa, isso foi meio chato. Eu vou evitar explicações, a gente tem um videozinho bem legal no acampamento que fala tudo bem direitinho.

- Acampamento? — Margot perguntou. Sempre gostara de pensar que o autocontrole era uma de suas qualidades, mas o que antes era só uma sensação desagradável dentro dela estava começando a se transformar em um crescente desespero. Ela começou a imaginar até quando resistiria ao impulso de correr até o seu quarto e se trancar lá para sempre.

- Acampamento. É para lá que você vai. Seus pais já concordaram com tudo e tomaram todas as providências, suas malas já estão prontas e esperando no carro e eu aconselho levar um travesseirinho porque, sabe como é, conforto é importante em viagens de carro...

- Viagem? Mas... Para onde vão me levar? — Ela perguntou, com o desespero nítido na voz e seus olhos começando a marejar.

- Long Island! Lugar lindo, você vai gostar.

- Pai? Prudence? Vocês estão me mandando embora? Por favor, não façam isso...

Segurar o choro se tornou impossível. Antes que pudesse fazer alguma coisa a respeito, as lágrimas começaram a descer furiosamente por suas bochechas vermelhas. Ela se sentia péssima, um estorvo. Era como se eles pretendessem se livrar de um problema desnecessário, coisa simples, como tirar erva daninha do jardim. Mas ela era uma pessoa que ia ser tirada de casa. Pior ainda, era uma filha. Como eles podiam estar sendo tão frios?

Os soluços dela pareceram deixar Mike extremamente desconfortável. Ele fez menção de abraçá-la inúmeras vezes, mas mudou de ideia. Terminou dando tapinhas amigáveis no ombro da menina, que soluçava encarando o pai e a madrasta.

- Margot, minha querida, não fique assim. — Prudence levantou-se apressadamente do lugar que tinha ocupado na sala junto ao pai da garota e deu-lhe um abraço. — Ora, vai correr tudo bem! Levante-se, vamos — ela foi conduzindo Margot para a porta — Eu aposto que você vai adorar o acampamento. Vai ter um monte de... coisas lá.

- Não fique assim. Pense positivo, queridinha. Eu também não gostei muito da ideia assim que ouvi. Quer dizer, um bando de adolescente sem juízo agrupados sem diretrizes rígidas o suficiente? Eu sei, isso parece um roteiro de filme de terror. Mas, você sabe, foi assim que lhe criamos: mantendo você longe de toda essa selvageria. Por isso, estamos plenamente convencidos de que você não vai se misturar com pessoas impróprias.

- Como skatistas — completou Prudence — odeio eles — ela acrescentou. — E surfistas. E pessoas tatuadas. E meninas de short, todo mundo sabe que menininhas, mocinhas, não deveriam usar short.

- Prudence! Essa enumeração de horrores é desnecessária, desse jeito não vou conseguir dormir a noite. Mas o recado está dado. Seja você mesma, sempre. Não se deixe infectar por esses comportamentos terríveis. Oh, acho que é hora de dizer adeus.

Só então Margot percebeu que durante aquela conversa eles tinham cruzado a casa e já estavam na porta. Mike os tinha seguido em silêncio.

- Então é isso, fique bem. — disse Prudence.

- Mas eu posso vir visitar, não posso?

- Ah, meu bem, quanto a isso a resposta é não. Não é, Mike?

- Olha, na verdade...

- É, mas fazer o quê? É assim que as coisas são... — Prudence interrompeu-o. — Não se preocupe, criamos uma conta no banco para você. Assim você não vai se sentir sozinha nem desamparada! Certo, Richard?

- Certíssimo. — respondeu o pai de Margot. — Está no carro, junto com suas malas. Agora venha aqui, me dê um abraço antes de ir.

- Mas vocês não vão? — ela perguntou.

- Não, não. Detestamos despedidas. Aposto que você também, por isso vamos fazer isso bem rápido, certo? — disse Prudence.

Ela abraçou Margot, que logo em seguida foi abraçada pelo pai. Todo aquele falso otimismo e a pressa em se ver longe dela estava lhe machucando profundamente. Ela começou a se perguntar: será que eles pelo menos iam sentir sua falta?

- Não se machuque. Boa sorte — ele sussurrou em seu ouvido. — Vamos lhe enviar um cartão de natal, eu prometo.

- Tudo bem, pai. Eu posso pelo menos me despedir de Charles? Acho que ele ia gostar se eu pelo menos desse um abraço nele...

- Margot, que inapropriado! Ele já é um idoso, deve estar dormindo a essa hora. Pela manhã diremos que você mandou um abraço. Agora vá, querida, antes que fique muito tarde. Te amamos.

- Vamos Maggie, acho que essa é nossa deixa. — Mike disse e foi levando-a pelo braço em direção a um carro ligeiramente caindo aos pedaços. Ela não resistiu, nem tentou ficar. Não chorou mais nem implorou. Na verdade, estava sentindo uma coisa nova queimando por dentro, uma raiva que secou suas lágrimas e fez com que ela chegasse a desejar entrar logo naquele carro e fugir o mais rápido possível para Long Island. — Sabe, seu pai queria que o motorista nos levasse, mas eu achei que não tinha porquê, já que um amigo meu me emprestou esse carro enquanto eu estou na Pensilvânia. — disse Mike, mas Margot não estava prestando atenção. Ela estava totalmente concentrada em guardar tudo que estava vendo muito bem na memória: o enorme jardim — que estava encharcado por causa da chuva recente -, a mansão antiga — que pertenceu ao seu avô -, o casal que sorria e acenava na porta; tudo. Porque ela tinha a sensação de que passaria um bom tempo sem ver nada daquilo.

Notas finais
Então, por hoje é só pessoal. Eu ia adorar saber o que vocês realmente acharam então, se não for atrapalhar, um review cairia bem...
Até o próximo cap!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.