Margem Distante
12 Primeiro passo para uma nova realidade
Notas iniciais
Margem Distante
"Seus olhos eram como um felino azulado"
12. Primeiro passo para uma nova realidade
Sabe aqueles flashback's onde as imagens são lentamente queimadas em sua cabeça? Quando suas memórias são levadas de você? Puxadas da sua cabeça? Acompanhadas de tanta dor que você nem pode descrever?
Pois é, me senti assim naquele momento.
Aquelas duas pessoas eram totalmente desconhecidas em vista. Mas sentia algo vindo do garoto de olhos azuis... Era parecido com alguém que já havia visto... Em algum lugar.
Não deu sequer tempo de pensar, quando dei por mim, algo pontudo deslizou, perfurando meu peito, fazendo um barulho tão pavoroso e cruciante que a dor nem incomodava tanto... Pelo menos no começo.
Dois buracos negros estavam a minha visão, e uma voz feminina invadiram meus tímpanos.
– Vai ser divertido fazer isso com a sua mãe... – Mãe... Não! Não! Não toque na minha mãe... Nem na Sayo. – Adeus, Yuu-kun.
A dor em meu peito foi aumentando. Minha visão foi escurecendo... Os barulhos... Eram tão distantes.
Sinto-me... Tão sonolento.
Então... É assim que nos sentimos como morremos? Tão desesperados e arrependidos por não termos feito tudo o que queríamos?
– Yuu! Eu te amo Yuu! Você é meu irmãozinho para todo o sempre! – Seu rosto era sorridente... Sayo...
– Monstro... Monstro... Monstro... – Lembro-me do dia em que ela ficou tão apavorada que vomitou na sala de aula. Fiquei irado e quis bater em todos ali.
Quis protegê-la para sempre... Prometi isso para ela... Mas... Em um dia qualquer... Ela vai receber a notícia que o irmão fraco dela não pode fazer nada... E foi assassinado por alguém que nem viu o rosto... Tch.
Merda! Eu não quero deixá-la só...
Eu... A amo.
– Sayo... Desculpe por não conseguir te proteger. – Foi tudo que pude dizer.
Tudo escurece e entro em um sono... Sono eterno.
∞∞∞
Minhas mãos tentavam afastá-lo, mas ele era mais forte. O beijo não era violento, era calmo e terno. Pressionava minha nuca delicadamente e a sua mão apertava minha cintura contra si, como se não quisesse soltar... Seus caninos eram meio pontudos, machucando um pouco meus lábios.
Mas isso não vem ao caso... É o meu irmão! E isso é errado!
Yamato... Solte-me... Por favor!
Me prende entre seus braços e pernas e começa a beijar meu pescoço.
Sinto-me suja, sinto que isso é totalmente errado.
– Pare Yamato... Por favor... Não faça isso... – Minha voz era tremida e as lágrimas começavam a sair.
Parou por um segundo e colocou as mãos na cabeça, puxando os cabelos como se sentisse dor.
Seus olhos encontraram os meus... E me assustei.
Estava como o Yuu... Aqueles mesmos olhos selvagens e insanos... Pareciam que iriam me matar a qualquer segundo... Azuis e frios.
– Por favor... Pare... – Minhas lágrimas desceram mais uma vez.
Ele ficou surpreso, e por um segundo, quando seus olhos piscaram, pareceu voltar ao normal. Olhou para mim confuso e para a nossa situação.
– Sayo... ? – Seu rosto ruborizou – N-na-na-nani?! O que eu estou fazendo?! Porque eu estou quase levantando sua blusa?!
Ele... Não se lembra?
Por um momento pensei que estivesse mentindo... Mas seus olhos estavam confusos e pareciam dizer a verdade.
– Não foi nada... Você somente ficou um pouco insano depois do beijo – Um pouco? – Não foi nada demais, você conseguiu se controlar. – Ainda estava com certo medo dele. Daqueles olhos... Não pareciam com os seus normais. Eram raivosos e cheios de ódio.
Continuou em cima de mim.
– Não se lembra de nada?
Fez um esforço, colocou a mão nas têmporas, forçando o pensamento. Depois jogou a cabeça para trás e bufou...
– Hum... Somente que... – Ruborizou ainda mais – Que eu te beijei... A propósito, desculpe por aquilo, não pensei nas consequências.
Agora sinto o "meu" rosto ficar quente. Não tinha para quê lembrar-me ao beijo, estava quase esquecendo e levando a vida normalmente (irônia).
– Tudo bem... Agora... Bem... Pode sair um pouco?... Você pesa.
Óbvio. Parecia ter quase o dobro da minha altura. Eu ficava um pouco abaixo do seu ombro, igualmente com o Yuu. Acho que a altura dos dois é parecida, ou igual.
– Ah! Desc-
Uma voz ecoou no quarto, surpreendendo nós dois.
– O... Que... Está... Havendo aqui?! – O...Ou... Agora completou meu dia.
– M-mãe?! – Yamato saiu de cima e ficou no canto do quarto, abanando as mãos na frente do corpo – Isso mão foi nada! Apenas estava ajudando a Say, que passou mal e-
– Você estava em cima dela seu idiota! Que ótima maneira de ajudar alguém! – Uma veia saltou da sua testa. Quando pisquei, ela já estava estrangulando o moreno. Depois deu uma joelhada na sua coluna, jogando-o para fora do quarto – Hoje você dorme na casa do cachorro do vizinho! (E onde o Dragon vai dormir?)...
Do nada, começou a fazer umas poses dramáticas.
– Oh filha, não deixe esses garotos fazerem o que quiser com você... – Lágrimas forçadas saíram dos seus olhos – Aprenda com a mamãe e dê uma lição nos dois... – Depois chegou perto do meu ouvido – Principalmente no Yamato, ele merece.
Depois dessa até esqueci da situação em que estava.
– Ai, ai... Mãe, só a senhora para me fazer rir em um momento como esse.
Levantei e arrumei minhas roupas.
Minha atenção foi voltada á um par de olhos curiosos no canto do quarto. Olhos violetas que pareciam ternos e frios ao mesmo tempo.
Aquele sim era o olhar que eu conhecia.
Retribui o olhar, junto com o sorriso, fazendo o mesmo ficar emburrado e corado.
Com certeza aquele não era o mesmo Yuuki de horas atrás, aquele que me beijou. Esse parecia mais...
Com aquele Yuu de antes.
– Vai filha, você precisa contar "muita" coisa pra ele. – Novamente foi para perto do meu ouvido – Mas não faça nada de errado, lembre-se que no caso do Yuu, você pode se tornar uma ovelhinha num piscar de olhos.
Mas o qu-
Ela é louca?!
Meu rosto ficou quente.
– Não! Ele não...!
Sua risada era alta e meio triste.
– Vai, mostre onde era o seu antigo quarto. – Suas mãos empurraram minhas costas com força, fazendo-me bater de cara no peito dele – Oh... Desculpe, acho que usei força demais... He... Hehehe – Que risada sínica.
Hum... Força demais não é, dona Hiyori?
Ele saiu do quarto e ficou me esperando do lado de fora.
– Por aqui Yuu. – Peguei sua mão e envolvi seus dedos com os meus, assim como fazíamos quando criança...
Sentia tanta falta dessa época.
Onde não me preocupava com ele ir para a escola e ficar rodeada de garotas e garotos que me odeiam. Onde éramos somente eu, ele e a mamãe...
Sei que o Yamato entrou na nossa vida também, mas o Yuu era um caso a parte.
Sua mão era gelada, enquanto a minha era quente. Dava um choque térmico quando se encontravam, fazendo meu corpo arrepiar sem motivo algum...
Meu rosto esquentou.
Por que tenho que corar tão facilmente?
Puxei-o até o seu quarto. Era um cômodo com paredes brancas, tinha uma cama, uma escrivaninha, essas coisas... Um quarto de um garoto normal.
– Aqui. Você pode usar as roupas do armário, são todas suas. Isso aqui em cima se chama computador e serve p-
– Sei o que é um computador Sayo. – Sua voz estava mais grossa, mais madura. Mas não esquecendo o fato que me cortou e que agora estou parecendo uma idiota. – Somente esqueci sobre a minha vida antiga, não sobre o mundo real.
Esse...
É totalmente igual ao antigo Yuu!
– Pois passe bem. Vou para o meu quarto... Senhor Yukio. – Puxei suas bochechas como fazia antes. Sorriu do mesmo jeito... É, parece que ele não mudou nada.
– Sayo, antes me diga... – Segurou sua placa entre os dedos. – O que é isso?
Escutei um trovão tamborilar o céu azul escuro.
Dava para escutar meu coração trincando.
Não... Realmente se esqueceu...
Novamente tenho vontade de chorar, mas fecho o punho com força para prendê-las.
Sua voz continuou:
– Não me lembro dela ou de como foi parar aqui – Não... Pare... – Deve ter sido algo especial para mim.
...
Um misto de alegria e tristeza circulavam em meu coração.
Arregalei os olhos, soltando as salgadas lágrimas, deixando meu rosto mais leve.
– Ah, desculpe! Disse alguma coisa? – Suas mãos agarraram os meus braços, olhei em seus olhos e senti algo remexer em meu estômago. Eles estavam lacrimejando.
Por quê?
Porque ele estava chorando?
– O que? Porque estou chorando? – Passou a mão no rosto e a olhou depois. – Não sei... Só não chore. Isso me faz querer chorar também.
Seus dedos percorreram a linha do meu queixo, causando mai um arrepio. Depois seu polegar foi de encontro aos meus olhos, limpando as lágrimas delicadamente.
– Prontinho... Agora não chore... Estou aqui, não tem razão para chorar.
Yuuki...
Yamato...
São tão diferentes.
Yuuki tinha um jeito fraternal e ao mesmo tempo não. Parecíamos muito perto e muito longe ao mesmo tempo. Já Yamato, tinha um jeito mais amigável, eu e ele tínhamos nossos altos e baixos... Parecia que nos conhecíamos a mais tempo, como se tivesse sido meu irmão desde sempre.
Mas... Agora estão brigando um com o outro.
Não... Não quero me preocupar mais com os dois... Vou deixar tudo andar do meu jeito.
Queria tanto apagar o meu passado, para não ter que sofrer e chorar enquanto outras pessoas querem meu sorriso...
– S-sim... – Encostei minha cabeça vagarosamente em seu peito, assim como sempre fazia quando me consolava. Suas mãos levantaram, mas pararam no caminho.
Abracei sua cintura (Pois era o máximo do meu alcance) e afundei minha cabeça entre seu casaco sujo de sangue seco...
Tem isso também...
Ele não poderá ter uma vida humana.
Não escutava seu coração bater.
Mais lágrimas saíram.
Suas mãos tentaram, mas desistiram novamente.
– Por favor... Não me deixe sozinha Yuu... Está escuro sem você aqui irmão...
Quando o dia chegou
Que eu perdi o meu caminho de volta
E as estações pararam
E se esconderam debaixo da terra
Quando o céu fica cinza
E tudo está gritando
Está escuro.
Não conseguia ver o caminho para o controle.
Meu coração estava voltando a despedaçar como antes.
Minha boca estava secando como antes.
Minha cabeça doía como antes.
Não era morte... Era pior... Era o sofrimento... A dor... As consequências da vida.
Senti seus braços envolverem meus ombros, enquanto eu apertava o pano da sua camisa, chorando por motivos diversos. Levantou meu rosto com a mão e deu um leve beijo na testa.
Aquele era o Yuuki. Por um segundo... Tenho certeza que naquele momento, o Yuu estava lá.
E tudo lentamente vai queimando.
Tudo deixa de fazer sentido.
– Desculpe por não lembrar Sayo... Mas não se preocupe... Vou tentar dar ao meu máximo daqui para frente... Não vou entregar você ao Yam-... Não... Você não é um premio de consolação, é a nossa irmã... Não irei deixar você sozinha... Prometo.
Uma das suas mãos recolheu o meu pulso, onde continha a minha plaquinha (Em forma de pulseira). Deu um leve beijo nas costas da minha mão. Pude senti a maciez dos seus lábios. Fecho os olhos, guardando aquela sensação dentro de mim, suspirando.
Não sei como pará-lo...
Ou nem mesmo quero.
Deu um sorriso de canto, revelando seus dentes, principalmente uma das suas presas.
– Afinal... Já sabemos a quem você perten-
A voz de Yukine entra rapidamente em nossos ouvidos:
– Podem vir para a sala um pouco? A Hiyori quer falar com vocês.
Ele me soltou e finalmente voltei à realidade.
O que estava fazendo?!
Ele...
Eu...
Droga, com certeza estou com problemas mentais!
Yuu agarrou minha mão possessivamente e me arrastou para a sala.
É... Parece que voltamos ao campo de batalha.
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