Margem Distante
17 Mergulho na escuridão
Notas iniciais
Margem Distante
"O ódio estava me testando."
17. Mergulho na escuridão
Estava afundando. Afundando na doce e triste escuridão, caindo em um precipício sem fim, onde a única fonte de luz que tenho são meus olhos, que agora brilhavam em um tom escarlate. Escuto vozes ao fundo chamando, mas não quero segui-las. Metade de mim queria desesperadamente voltar, mas a outra metade tinha medo. Medo de voltar e ver mais destruição, tristeza... Ódio.
Sentia-me flutuando, em um grande oceano de memórias. Uma força estranha fluía, era como se algo quente e ao mesmo tempo gélido envolvesse o meu corpo. Parte dessa força era aconchegante, acalmava-me de uma forma familiar, já a outra parte era fria e forte, tomava a minha cabeça rapidamente, deixando-me insana.
Quero sair daqui. Esse lugar faz a minha cabeça doer, meus ossos tremerem, todos os meus medos juntos em um só...
Oh... Entendo...
O ódio estava me testando.
Uma luz branca vinha em minha direção. Nadei naquela imensa sombra negra, tentando alcançar a única forma de sair de lá. Senti meus olhos ficando ainda mais brilhantes, e realmente acho que não foi uma boa ideia ir nessa direção...
Uma presença estranha vai chegando por trás, mas não consigo mais mover o meu corpo. Chegando mais perto da luz, a escuridão vai ficando para trás, mas, antes de poder comemorar, dois braços envolveram meu corpo, puxando-me para baixo. Tento gritar, me mexer, mas não consigo. Vozes agora sussurravam em meus ouvidos, me deixando ainda mais estranha.
“Se você continuar lá... Todos irão morrer. Sua existência é um perigo. Você nunca deveria ter nascido. Uma meio-ayakashi com sangue de deus vai contra as normas das margens. Você é um acidente natural.”
Não... Pare...
Por favor...
“Mas você pode acabar com tudo isso... Sucumba ao ódio Sayo, deixe-o te dominar, você nunca mais sentirá tristeza, dor... Vamos...”
Deixe-me em paz... Nunca vou deixar nada me dominar! Nunca! Não vou os deixar fazerem isso comigo novamente!
Todas aquelas risadas, ecoando de uma vez só. Sentir significa se machucar. Amigos... Familia... Amor...
Nada disso é real!
A escuridão estava sucumbindo o meu ser, trazendo uma sensação poderosa, me deixando com sede... Sede de poder.
Antes de mergulhar completamente, minhas mãos foram agarradas, puxando-me para a superfície novamente. Quando penso que tudo a minha volta estava acabado, posso ver seus olhos brilhando. Um azul, outro violeta. E ai tudo volta a fazer sentido.
“Sayo...”
“Filha...”
“Nee-chan...”
“Nós sempre estaremos com você.”
Aqui não posso chorar, mesmo querendo muito agora.
Mesmo querendo, nunca vou sucumbir, pois ainda existem pessoas que desejam a minha existência. Todos aqueles... Que me amam. Mamãe, Yuuki, Yamato. Mesmo depois de tudo que eu disse e fiz. Vocês conseguem sorrir daquele jeito, fazendo meu coração chorar.
Eu... Amo vocês... Todos vocês.
E assim eu consigo sair dali, daquele mar escuro e sombrio. Onde o ódio e o medo sempre irão esperar para me testar. Minha própria mente.
...
A realidade era a mesma.
Kofuku estava tão horrorizada que me pergunto se ela segurava um grito. Daikoku mantinha seus dedos perto da barreira, então percebo de quem eles estão com medo. Minha boca estava em curva, formando um sorriso tão assustador que quando me toquei, voltei meu corpo para o chão, deixando a espada cair.
Os gemidos de dor de Yamato ainda eram escutados. Levantei rapidamente e fiquei olhando para os lados, atordoada. Não sabia o que fazer. Todas as experiências de minutos atrás ainda rondavam a minha mente, uma por uma, fazendo minha cabeça ir para o espaço novamente. Estou com medo. Queria que tudo voltasse ao normal, já não aguento mais tanta coisa de uma vez na minha vida.
– Ela tem os mesmos olhos Kofuku. Os mesmos olhos sedentos do Yato antigamente. – O homem olhou para mim superior e depois virou a cabeça para o Yuu. – Você é a regalia do Yamato, certo? – Yuuki concordou, e o grandalhão o empurrou para dentro da barreira. – Nunca imaginei que teríamos que fazer uma purificação tão cedo, mas temos que fazer antes de tudo dê errado. Kofuku, você sabe que nós e a Bishamon somos os únicos que não sofreram uma reencarnação...
Depois de uma longa pausa, ele continuou.
– Mas antes, eu quero verificar uma coisa que o Yato me disse a respeito do Yamato. – Então, desfez a barreira. Não entendo... Primeiro eles praticamente negam ajuda, depois querem fazer de tudo para ajudar. Tch, não vou me meter nesses assuntos estranhos por enquanto. – Tire a camisa.
Virei minha cabeça levemente, pois estava praticamente ao lado do seu corpo. Escutei Yuuki resmungar sobre algo. Meu rosto está levemente corado, mesmo que eu já o tenha visto sem camisa, ainda me sinto um pouco constrangida sobre isso.
– Como suspeitava...
Levantei o olhar rapidamente e pude ver. A ferrugem estava desaparecendo das costas do Yamato tão rapidamente que quase passava despercebida. Mas quando uma camada desaparecia, outra começava a corroer novamente a sua pele. Ele consegue curar a ferrugem?!
– O sangue da sua mãe o impede de morrer por conta da ferrugem... Achei que teríamos um problema maior-
Um baque. Desta vez, não aguentei.
– Achei?! Como assim achei?! Não estão vendo a dor que ele está sentindo?! Ele vai simplesmente ignorar essa dor e viver feliz da vida?! Melhor ainda, por que ele está sentindo essa dor?!
Seu olhar baixou um pouco, revelando um olhar culpado. Sei que ele compreende, talvez tenha sido um pouco dura.
– Ele está sentido isso por-
– Não Daikoku... Não fale para ela! – Yamato segurou a camisa de Daikoku e usou seu apoio para levantar. Não faça isso idiota, continua sendo tão orgulhoso?!
– Estou preocupada com você Yamato! Por que todos me tratam como se fosse uma criança?! – Por quê? Por que todos continuam se machucando por minha causa? Que droga!
– Por que você age como criança! Deveria parar de ser tão imatura e deixar a gente te proteger! Se continuar assim, vai acabar morta!
Minha mão... No seu rosto.
Jamais... Nunca mais diga isso!
– E você acha que quero que vocês me protejam?! Não quero mais ver as pessoas mais importantes para mim, morrerem! Enquanto não posso fazer nada, apenas observar! Pare de ser orgulhoso e deixe-me te proteger! Idiota! – Recuei minha mão para o meu peito e massageei-a levemente. As lágrimas em meus olhos saltaram, pareciam cachoeiras.
Esse sentimento pesado nas minhas costas. Essa tristeza e culpa. O passado...
Sua expressão surpresa me fez baixar a cabeça. Seu rosto não saiu do lugar, mas o vermelho da tapa estava se formando.
Desculpe Yamato... Te bati novamente.
Aproximei-me do seu corpo e estendi minha mão para o seu rosto, acariciando-o e sentindo as manchas subirem nela, mas me recuso a retira-la dali. O Yamato nunca teve contato com uma família de verdade, pelo menos não comigo e com o Yuu. Mas irmãos sempre devem estar juntos.
– Acho que posso aguentar a dor... Se você estiver do meu lado, Sayo. – Acenei com a cabeça e retirei minha mão lentamente. – Agora, nós temos que tomar mais um banho, para retirar essas manchas! Vamos! Mas não juntos, o maninho iria ficar zangado. – Piscou e foi em direção do Yuu, que ainda tinha a feição emburrada. – Vamos seu idiota, temos que controlar esses seus pensamentos pervertidos. – Então assim, todos saíram do quarto, deixando-me sozinha.
Fui até um espelho que tinha lá e observei meu rosto pálido, meus olhos rubros. Fecho os olhos com força quando aquelas lembranças alcançam minha mente, mas tenho que ser forte. Meus cabelos negros estavam desgrenhados e minhas roupas, sujas de sangue. O meu sangue. A lua estava sendo a única luz do lugar, mas por estranho que pareça, meu medo estava indo embora aos poucos, deixando um sentimento aconchegante.
– Vejo que está controlando o ódio magnificamente, Sayo. – Essa voz... Desgraçado.
Seu corpo estava sentando na janela, que dava a perfeita visão da lua. As madeixas loiras e longas continuavam presas em um rabo de cavalo e o terno era negro que quase se misturava com o céu da noite. Os olhos castanhos de cobra continuavam sombrios e opacos.
– O que você quer, Edgar? – Não virei para olhar o seu rosto, apenas o observei do espelho.
– Apenas observando minha favorita. Espero que ache logo o que deseja, pois alguém importante está chegando.
Sempre falando coisas estúpidas.
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