Margem Distante
4 Conversa entre Mãe e Filha
Notas iniciais
Margem Distante
“Percebo que não sou a única que possui mágoas.”
4. Conversa entre Mãe e Filha
Aqui estou novamente.
Deitada em minha cama, sem qualquer memória da noite passada. A não ser pelos momentos com a minha família, que provavelmente não estará em casa hoje...
Por quê?
Por que esses pensamentos me invadiam de repente?
Às vezes me sentia tão vazia a ponto de chorar só para se sentir angustiada. Queria tanto ter uma mãe que não trabalhasse 24 horas por dia, ficasse em casa, me acordasse para ir à escola, e eu diria: “Só mais cinco minutinhos mamãe...”...
Mas eu entendo que ela faz isso por mim e pelo Yuu.
Eu amo tanto eles, que se existisse uma maneira de parar o tempo, eu faria, somente para ficar rindo e se divertindo com eles pela eternidade...
Mas não dá. Tudo por culpa dele.
Daquele que nos deixou a sós, daquele que simplesmente corre da responsabilidade. Como eu... Queria que ele estivesse pelo menos uma vez, no lugar da mamãe, para ver o que ele a fez... Aquele...
Não, não consigo dizer isso com ele. Mesmo não o conhecendo, sinto que...
Ainda está por ai... Misturado ao vento ou as nuvens.
Meu pai.
Tomei coragem para pelo menos abrir os olhos.
O quarto estava meio bagunçado. A porta do banheiro aberta, uma toalha jogada no piso coberto pelo azulejo branco. Mas... Tinha algo que me deixava ainda mais confusa...
Aquele... Cheiro...
– Droga. Porque não consigo lembrar? – Apoiei o braço em cima da testa e tentei ao máximo lembrar, mas somente flashes rápidos passavam pela minha cabeça. Tinha...
Um tipo de...
Lagarto rosa?!
– Deve ter sido somente um sonho... – Tinha quase certeza – É, somente um sonho bobo... Acho.
Retirei os lençóis de cima de mim e levantei. Cocei os olhos e bocejei algumas vezes... Eu...
Não deveria estar na aula?!
– Aimeudeus! – Deus... Ah, esquece! Que horas são mesmo?!
Abri a porta do quarto e saí correndo. Mas um cheiro agradável agradou meu olfato...
– Panquecas...? – Sussurrei.
Fui até a cozinha e sentei no balcão de mármore, minha mãe estava virando mais uma panqueca e assistindo TV ao mesmo tempo, mas o que mais me impressionou, foi que ela estava assistindo luta livre...
– Tono-sama! Ainda bem que eu tenho suas lutas gravadas! – Ela colocou o punho na frente do corpo e imitou a voz do lutador – Jungle... Savate! – Nem prestei atenção no que isso significava, ela estava tão engraçada que eu nem notei, acho que era algum tipo de golpe. Me segurava para não rir da cara dela, mas não consegui, comecei a gargalhar, assustando a mesma, que desligou a TV por reflexo. – Er... Filha? E- eu não v- vi você ai!... Hehehehe... – Seu rosto estava corado.
– Hum... Porque nunca me disse que gostava de luta livre? – Ela olhou para o lado meio envergonhada... – Não tem problema, eu acho até legal esse negócio de luta, bem que eu poderia começar a ver. Para ter mais assunto com a senhora. – Ela ficou um pouco surpresa e sorriu. – E ai? Desde quando gosta de luta?
Seu sorriso se dissipou.
Ela foi ficando séria aos poucos. Sua expressão ficou meio sombria. Acho que não deveria ter perguntado isso.
– Ah! Desc- desculpa mamãe! – Coloquei as mãos em frente ao corpo – Não queria fazer à senhora lembrar algo que não queria, desculpa mesmo! – Eu estava realmente desesperada, estávamos indo tão bem, mas eu quis ser curiosa. Estraguei tudo.
Ela virou para o fogão e encostou os dois braços no mesmo. Merda. Eu fiz de novo.
– B-bem... Eu... Vou para o meu quarto. P- pode deixar as panquecas dentro do forno, e- eu como depois. – Ela não virou, apenas abraçou o próprio corpo. Mas... Algo fez minhas mãos caírem ao lado do corpo, enquanto minha voz sumia em um fio de arrependimento.
Ela...
Estava chorando.
Meus olhos arregalaram. Tentava falar algo, mas minha boca apenas ficava aberta, sem soltar nenhum som. Quis ir lá e consolá-la, mas achei que não tinha esse direito. Era algo do passado dela, coisas que eu não deveria ter remoído.
– T- tudo bem filha. Eu só estou um pouco tensa, irei deixar o café no seu quarto. Não tem problema se quiser ficar aqui... – Soltou os braços, que caíram ao lado do seu corpo.
Não. Já causei muitos problemas.
Andei até meu quarto e fechei a porta lentamente, escutando seus baixos soluços. A cada um, meu coração falhava uma batida. Realmente...
Consegui estragar tudo. De novo.
Joguei-me na cama e agarrei meu consolo. Meu travesseiro. O relógio digital em cima do criado passava das 08h30min. É. Não tinha como ir mais para a escola. Nem sequer me atrevo a sair daqui.
– Como eu sou burra. – Coloquei o braço sobre os olhos, que estavam apertando um pouco. Porque eu senti a sua tristeza? Era como uma ligação. Algo... Anormal.
Meus olhos foram fechando lentamente.
O sono me invade.
E algo sai de mim.
***
Eu estava sonhando novamente.
Meus olhos abriram levemente.
Eu estava em pé.
Mas, algo estava errado... Novamente.
Tinha outra de mim, ela estava deitada em cima da minha cama.
Meu corpo era exatamente o mesmo. Só que a “eu” que estava em pé, ou seja, eu, (Isso está ficando confuso para minha cabeça entender) tinha algo meio anormal. Uma estranha “cauda”. Ela parecia a de um gato, só que era vermelha e meio transparente.
É só um sonho, só um sonho. Apesar de parecer bem real.
Ela balançava de um lado para o outro e era bem comprida, como ficava meio levantada, batia mais ou menos no meu pescoço. Até que ela é bonitinha. Tentei pegá-la, era macia e eu sentia como se fizesse parte de mim...
– Mas que sonho estra-
Vozes estranhas começam a invadir minha cabeça. Vozes tristes, vozes sofridas.
“Dói... Isso dói muito.” — Uma garotinha.
“Quando que a mamãe vai chegar?” — Um garoto.
“Ai que ressaca, não devia ter tomado tanto uísque ontem.” — Essa voz... Parecia com a do Castiel, meu vizinho e inimigo natural.
“Minha filha... Porque você envolveu nossa filha nisso Ya-”...
Mamãe?
***
Meus olhos abrem com o barulho da porta.
– Filha, seu café, eu fiz panquecas e cappuchinno, seu favorito. – A voz da minha mãe tinha voltado ao normal.
Levantei, mas senti certa tontura e cambaleei, indo de encontro ao criado mudo, onde me apoiei para não cair.
Que sono. Quase consigo manter meus olhos abertos.
– Filha, algum problema? – Ela estava preocupada sua anta! Abre logo a porta.
Conseguir me recompôr e abri a porta, dando de cara com seu rosto meio zangado... E os olhos meio inchados. Entrou no meu quarto com uma bandeja, colocou em cima da cama e voltou a me olhar.
– Que barulho foi aquele?! Parecia que você tinha passado mal e despencado... Ou... Você caiu da cama?!
Como ela era bipolar.
– N- não mãe! Foi apenas uma tontura, eu estou meio sonolenta, desde que acordei do acidente, tenho estado meio lenta... Sou uma preguiçosa. – Cocei minha nuca, olhei seu rosto. Ele estava sombrio novamente. – M- mãe? – Piscou e ficou meio desnorteada.
Ela está estranha desde o acidente.
– Ah, eu só estava pensando porque o Yuuki ainda não voltou... Deve ter dormido na casa do Castiel novamente. Vou mandar uma mensagem para ele, para que ele passe no escritório quando vir da escola. – Ela olhou para o lado e ficou meio vermelha. – Olha, eu fiz cappuchinno! – Entregou-me uma xícara.
Tomei o liquido, mas não senti muito o gosto. Estava querendo saber por que ela estava estranha quando eu perguntei sobre a luta.
– Mãe... Eu sei que não é da minha conta, mas... Sinceramente... – Vamos! Fale! Ela é a sua mãe, é comum falar sobre isso! – Eu queria realmente saber um pouco sobre o seu passado.
Ela arregalou os olhos por um tempo, mas suspirou derrotada em seguida.
– Tudo bem, uma hora eu tinha que te contar. Quando você me perguntou quando eu comecei a gostar de luta, eu não fiquei muito a vontade, mas não pense que foi culpa sua, foi só uma lembrança boba.
A lembrança boba a fez chorar.
– Mãe. A senhora não sabe mentir.
Suspirou novamente.
– Ok... Você venceu. Eu tenho um pouco de vergonha de falar sobre isso, mas eu amo luta, desde meus 12 anos de idade. Sempre fui fã do Tono-sama, um falecido lutador de luta livre. No meu tempo, eu tentava imitar suas técnicas, eu conseguia todas... Mas, – Corou – com certa ajuda. E... Isso foi na época que...
Ela segurou um pouco a respiração e soltou de uma vez.
– Que eu conheci o seu pai.
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