Margem Distante
5 É um sonho não é?!
Notas iniciais
Margem Distante
“Uma simples verdade às vezes dói tanto quanto mil mentiras.”
5. É um sonho não é?!
Um turbilhão de dúvidas me invadia.
Por que ela estava falando do meu pai? O que ele tinha a ver com a conversa?
– Como assim, quando você conheceu o meu pa-
Ela levantou e me deixou sem resposta.
– Vamos esquecer filha, foi algo do passado, e eu não quero remoer coisas assim.
Eu estava muito confusa e queria saber. Mas... Acho que não devo perguntar a ela, já fiz muita coisa por hoje.
Suspirei, colocando a xícara vazia em cima da bandeja.
– Tudo bem mãe – Olhei para seu rosto preocupado e sorri, para alivia-la. Olhei para o relógio novamente. O clima está bem tenso. – Acho que devo comprar umas roupas de frio. O inverno está chegando e eu ainda não tenho tantas assim. – Foi a única desculpa que se passou pela minha cabeça. Eu sei, foi horrível.
– Oh! Agora que você falou, eu tenho algo para te dar! – Ela saiu correndo do meu quarto e eu a acompanhei. Foi até seu quarto, abriu uma gaveta qualquer, tirou algo comprido e rosa e colocou em minhas mãos. – Isto era meu, eu tinha a sua idade quando ganhei dos meus pais. Ele tem muito significado para mim, e vai ajudar você no que você procura.
Ela sorriu.
Mas o qu-
– A senhora sab-
– Então! Agora isto é seu. – Interrompeu-me batendo as duas mãos.
Sorri de volta e olhei a peça de roupa que estava em minhas mãos.
Algo importante para a minha mãe, e ela estava me dando. Também será importante para mim. Tem algum significado estranho, e eu vou descobrir.
Peguei o cachecol em mãos e enrolei em meu pescoço, deixando seu calor aquecer meu pescoço e parte do meu rosto.
– Nossa... Você ficou a minha cara quando era jovem! Faltou só gostar de luta e... – Ela piscou por um segundo – Esqueci! Eu tenho que tirar o assado para o almoço!
Saiu correndo para a cozinha.
Eu... Tenho a impressão que ela esqueceu me contar algo...
– Tenho que parar de ser tão curiosa. – Sussurrei.
Tirei o cachecol do pescoço e dobrei-o adequadamente. Fui até o meu quarto e coloquei-o em cima do criado-mudo.
– Filha! Tem como você ir até o meu escritório para mim e ver se o Yuuki passou por lá? – Gritou da cozinha – Se eu for até o hospital, eles irão me encher de perguntas do tipo: “Quando a senhora vem?”, “E as ações, estão rendendo?”.
– Claro. – Gritei de volta.
– Não se esqueça de ir agasalhada, está frio lá fora!
Vesti uma roupa simples de inverno, mas era confortável e quentinha já que eu sou fácil para pegar resfriado. Enrolei o cachecol novamente em volta do pescoço e deixei seu calor confortante envolvê-lo. Subi ele mais um pouco para ficar na altura da minha boca, sentindo um pouco o seu cheiro.
Meus olhos se abriram de surpresa.
Aquele cheiro...
Senti meu rosto esquentar, mas não sabia o porquê, não consigo lembrar nada, apenas que...
Aquele era o meu cheiro favorito.
Fui até a porta de casa, me despedi devidamente da minha mãe e fui atrás do Yuu.
As ruas estavam movimentadas, as pessoas iam e viam, enquanto umas procuravam por algo, outras apenas seguiam seu caminho de cabeça baixa, respondendo com toda ignorância do mundo: “Não me perturbe, sou uma pessoa ocupada e não tenho saco para você.”.
Andava pelas calçadas frias e úmidas pelas fortes chuvas de “pré-inverno”. Meus passos eram rápidos e barulhentos, não aguentava muito tempo fora de casa, chamava muita atenção. Principalmente... Por conta dos meus olhos.
Nem sei por que nasci com os olhos rubros. Eles podiam ser avermelhados, mas rubros? Chamam muita atenção, e por onde passo, todos olham primeiramente para os meus olhos. Por isso ninguém chega perto de mim, acham que eu estou com alguma doença ou que sou uma aberração.
Por isso odeio sair. As pessoas que não te conhecem te julgam pela sua aparência. É o mundo em que vivemos, todos julgamos uns aos outros. Até mesmo eu. É algo do ser humano...
Mas... Talvez eu não seja um humano.
Talvez eu seja mesmo uma aberração.
E... Aberrações não devem existir não é?
Apertei a ponta do meu casaco com força...
Esse sentimento... De ódio.
Não quero senti-lo, é horrível.
...
Cheiro... Bom.
Levantei a cabeça para poder enxergar melhor as pessoas que andavam á minha frente, mas era difícil, eu era baixa demais.
– Com licença, por favor, licença. – Algumas pessoas olhavam para mim e arregalavam rapidamente os olhos, outras apenas se distanciavam e tinham até aqueles que me ignoravam. Bem, eu não ligo de qualquer jeito.
Olhei a placa da rua novamente...
A rua em que eu quase morri naquele acidente.
Um flash.
O para-choque do caminhão.
Uma mão me puxando.
E...
Aqueles olhos.
Senti-me tonta novamente. As luzes começaram a se distanciar de mim e o barulho parecia insuportável... Estou com muito sono.
Arrumei espaço e entrei em um beco qualquer, para tentar me distanciar um pouco daquele monte de gente.
Estava frio, e eu não tenho luvas ou gorros. Meus dedos estavam gelados e o meu rosto também.
– Eu vou congelar desse jeito...
...
Aquele cheiro.
Inalei mais um pouco daquele aroma, tentando reconhecer ele de algum lugar. Era tão familiar. Vinha do fim daquele beco, então caminhei até lá. O final tinha uma saída mais a frente, mas tinha uma cerca, de algum tipo de metal, impedindo a passagem.
– Será que eu consigo pular? Hum... Vamos tentar.
Nem sei porque estou fazendo isso. Apenas sinto que devo seguir esse cheiro para encontrar a verdade...
Ou encontrar algo a mais.
Escalei-a, mas bem no final, senti certa tontura, que fez meu corpo ficar um pouco preso, mas logo consegui me desvencilhar, caindo em pé.
Nem sei desde quando deixei de ficar tão desastrada.
Limpei minhas vestes e comecei a sentir o cheiro novamente...
Pareço um cachorro...
Ou um gato.
Avistei uma pequena ponte, que ficava acima do rio da estação de tratamento de água. Era bem perto do escritório da mamãe, vou aproveitar e ir procurar o Yuuki depois...
Algo começou a se mexer na ponte.
– Mas o que... O que é aquilo?
Espremi os olhos.
Um garoto. Ele tinha cabelos negro azulados e...
Os olhos.
Vários flashes começaram a invadir a minha cabeça de uma vez...
Uma conversa com um garoto...
Um Deus...
Seus olhos azuis...
Seu cheiro...
Yato... Gami...
Minha cabeça vai explodir assim.
Mas, no final...
Eu consegui lembrar.
– Quem diria em Yamato, você não consegui nem se esconder de uma garotinha. – Corri até a ponte, podendo ver tudo mais claramente.
Vi um corpo jogado. Aquele vermelho vivo espalhado em volta.
Yamato estava arfando e pronto para atacar. Uma mulher estava a sua frente. Tinha os cabelos negros e longos, seus olhos eram tão negros quanto o seu cabelo. E segurava uma espada que parecia bem antiga.
Corri mais rápido.
Pude escutar um pouco da conversa deles.
– Viu o que você fez Nora?! Era só um humano! Porque teve que matar ele?! – Yamato parecia bem zangado com a mulher.
– Yamato-kun, você deveria parar de se comportar como o seu “ancestral” e se soltar mais. – Desapareceu em forma de luz e reapareceu ao seu lado. – Eu mataria esse humano novamente se pudesse, principalmente porque ele é cria daquela meio-ayakashi...
Deu um beijo em seus lábios.
Que sentimento é esse?
Eu quero socar ela.
– Ei! Você aí vovó! – O que?! Porque eu fiz isso?! – O que pensa que está fazendo?!
Eles olharam para mim. A mulher sorriu.
– Oh... Isso vai ser muito divertido – Começou a gargalhar, depois deixou um sorriso maníaco no rosto – Quem diria que o Yato pudesse ser tão idiota ao ponto de criar uma aberração dessas! Hahahahaha! Uma meio-ayakashi que tem sangue de Deus! – Sua katana desapareceu e ela voltou para o lado do corpo, que tinha uma espécie de bolinha felpuda flutuando ao seu redor. – Isso realmente vai ser divertido!
Apressei ainda mais o passo...
E pude ver bem de perto a vitima de quem eles tanto falavam.
Meus passos foram cessando.
Não... Não pode ser...
Meu coração falhou uma batida. Não escutava mais nada ao meu redor. Só conseguia olhar para aquele corpo estirado no chão. Seus cabelos negros, seu rosto pálido e sujo de sangue, seu óculos quebrado e jogado ao seu lado. E o seu pingente que havia ganhado da sua irmã... Estava em suas mãos.
E de repente... Quero matá-la mil vezes.
Vai se arrepender...
Como ela vai se arrepender.
Não quero sentir ódio. Mas... Nesse momento... Ele parece ser um sentimento tão bom, que me preenche tão rápido.
Parei ao lado de Yamato, que se espantou e disse algo que eu não escutei. Então sacudiu meus ombros, mas apenas afastei seu corpo do meu. Tudo ao meu redor não tinha foco, somente a vagabunda e o vermelho em seu rosto. Vou arranca-lo dali, chutar sua cara para que ela veja como realmente é a cor do sangue, do seu sangue...
– Não quero escutar, eu quero somente bater muito naquela mulher.– Apontei – Vadia... Você está morta.
Minha vida foi passando aos poucos diante dos meus olhos. As lágrimas saiam dos meus olhos como duas cachoeiras... Eu estava insana. Sentia cócegas em todo o meu corpo, dando-me a vontade de gargalhar, de cantar uma música. Senti que ser um monstro não importava, pelo contrário, estava sendo o maior prazer que já senti em anos.
– Então... Você era irmã dele? – Olhou para mim com desprezo, depois sorriu. – Que pen-
– VOCÊ VAI SE ARREPENDER! – Corri em sua direção e tentei bater em seu rosto, mas ela segurou a minha mão. – VAI SE ARREPENDER DE TER MATADO O MEU IRMÃO!
Ela matou o...
– Então... Que os jogos comecem. – Dizendo isso, desapareceu.
Yuuki.
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