Margaret
4 O empurrão que eu precisava
Notas iniciais
Minha cabeça dava pontadas em sincronia com o celular, que ainda vibrava na palma da minha mão. Dormi por horas, mas elas não tinham sido suficientes, levando em conta a dificuldade que tive para abrir os olhos.
Quando finalmente despertei, ainda meio atordoada, percebi que já estava escuro lá fora. Olhei para o celular e vi um número desconhecido na tela. Eram oito horas da noite; eu havia dormido mais ou menos sete horas.
Realmente não era o suficiente.
— Alô? — falei em português, sem perceber.
— Hum... Danielle Quinn?
— Isso, isso, sou eu — respondi, dessa vez em coreano, percebendo a minha confusão.
— Oi, aqui é Na Ji-na. Fez uma boa viagem?
— Na Ji-na... — tentei me localizar o mais rápido possível.
Meus olhos se arregalaram quando me dei conta. Era a minha chefe, minha supervisora, mais especificamente. Meu pai havia me falado sobre ela, mas deveríamos nos conhecer apenas depois de amanhã, na segunda-feira.
— Senhora Na! Me desculpe, acho que ainda estou um pouco confusa por causa do fuso horário. Como vai?
— Ah, tudo bem. Jet lag é horrível. E nada de “senhora Na”, pode me chamar só de Ji-na, tudo bem? — disse, com bom humor. — Conseguiu descansar?
— Consegui, sim.
Acho que nunca me senti tão cansada.
— Que bom. Eu queria me encontrar com você. Consegue vir agora? Vou mandar o meu endereço.
— Seu endereço?
— É. Assim podemos nos conhecer melhor. Mas, olha, venha com uma roupa bonita, um vestido. Nós vamos sair.
— Certo — disse, nervosa. — É... daqui a uma hora? — arrisquei.
— Perfeito. Nos vemos daqui a pouco, então. Tchauzinho!
A chamada foi encerrada, deixando-me com a maior cara de besta possível.
O que fazer naquele tipo de situação? Eu só podia concordar. Afinal, ela era a minha chefe, mesmo que não quisesse ser tratada formalmente.
— Tudo bem, Danielle. Você consegue. Não é nada demais — disse a mim mesma, como um mantra, embora fosse difícil acreditar.
Levantei da cama e fui logo procurar uma roupa na mala. Um vestido, como ela havia sugerido. Optei por um branco de alças, que não estava amassado e ficaria bem com a minha jaqueta jeans oversized.
Meu cabelo — não tão curto quanto eu gostaria — estava um caos. Eu estava um completo caos e tinha apenas uma hora para colocar tudo em ordem.
***
Com sorte, consegui ficar pronta em quarenta minutos, e o endereço não era tão longe. Lembrando-me das dicas do senhor Han, consegui pegar um táxi rapidamente e chegar ao meu destino sem dificuldades.
Quando dei por mim, estava diante da porta do apartamento 212, tocando a campainha.
— Danielle! — Uma mulher muito mais nova do que eu havia imaginado abriu a porta com um lindo sorriso.
Ela não parecia ter mais de vinte e sete anos. Seus cabelos eram longos, castanho-claros, e seus lábios exibiam um lindo batom vermelho, que combinava com o restante do look: vestido preto, botas e jaqueta de couro.
— Olá! — respondi com um sorriso, torcendo para conseguir disfarçar o meu cansaço.
— Entre. Só não repare na bagunça, é inevitável quando eu me arrumo.
Apesar do aviso, a casa não estava tão bagunçada. Havia apenas algumas roupas jogadas sobre o sofá e uma taça de vinho pela metade na mesa de centro da sala.
O apartamento não era tão grande quanto o meu, mas era aconchegante e acolhedor, com seus tons pastéis.
— Desculpe ter chamado você assim, tão de repente. Eu estava ansiosa para conhecê-la e achei que hoje seria uma boa oportunidade.
— Desculpe, mas o que vai ter hoje? Para onde vamos?
— Vamos a uma festa. Os garotos resolveram se divertir um pouco antes de começarem os ensaios para o show em Busan.
Os garotos.
— Vamos a uma festa particular do BTS?
— Isso. — Ela me analisou por alguns segundos. — Você não ficou nervosa... Já os conhece?
— Fiz muita pesquisa antes de vir para a Coreia, mas não os conhecia até pouco tempo atrás.
— Isso é bom. Achei que essa seria uma boa oportunidade para apresentá-los pessoalmente. Assim, eles pareceriam mais humanos do que Idols e isso é importante quando você trabalha tão perto deles.
— E eu agradeço a oportunidade. Farei de tudo para ser uma boa companhia.
— Ah, que isso. Só precisa relaxar e ser você mesma.
Essa era a missão difícil: ser eu mesma. Eu não tinha ideia de quem era naquele momento.
Em outros tempos, estaria enfiada no meu quarto, no Brasil, ansiando para que aquele dia fosse o último.
Restava-me descobrir como era essa nova versão de mim mesma.
— Um pouco de vinho antes de sairmos? — Ela me ofereceu uma taça.
Como eu recusaria a sua simpatia?
Apesar de não beber, parecia impossível dizer não. Então, sorri minimamente e peguei a taça, tentando acompanhar o seu ritmo, mesmo que a bebida parecesse rasgar a minha garganta.
— Vamos?
— Vamos.
Ji-na colocou as taças na bancada da cozinha, junto à garrafa de vinho, e, por fim, saímos do apartamento.
Por sorte, consegui relaxar no carro a caminho da festa. Era fácil conversar com Ji-na. Ela era divertida, parecia me contagiar com o seu entusiasmo e não me tratava como uma criança por eu ter apenas vinte e três anos.
Porém, não queria me precipitar. Nunca havia tido a sorte de trabalhar para alguém de quem gostasse, mas começava a achar que nós nos daríamos muito bem.
— Então, por que resolveu sair do Brasil e vir para a Coreia, Danielle? — perguntou, acelerando um pouco mais. O trânsito fluía bem.
— Carreira — respondi, depois de pensar por alguns segundos. — Achei que seria bom ter uma experiência diferente.
— Você trabalhava com audiovisual. — Afirmou ela.
— Sim, eu me formei em Cinema.
— Estou trabalhando com uma verdadeira cineasta aqui. — Ela sorriu, agitando os ombros.
Não pude deixar de sorrir também. Ela tinha uma energia radiante.
— Acho que vai se dar muito bem nesse trabalho.
— Mas e você? Conte um pouco sobre o seu trabalho na HYBE. — pedi, mudando o foco da conversa. Não queria me aprofundar mais.
— Comecei como assistente temporária de produção enquanto estudava comunicação. Fazia um pouco de tudo: organizava equipamentos, acompanhava gravações, conferia cronogramas e resolvia os pequenos desastres do dia a dia.
— Parece cansativo.
— Era muito. Depois, surgiu uma oportunidade no setor de conteúdo digital, e fui crescendo dentro da empresa. Trabalhei como produtora, liderei uma equipe e, hoje, supervisiono alguns departamentos, incluindo o seu.
— Então você conhece todas as etapas do trabalho.
— E quase todos os problemas imagináveis — respondeu, rindo. — Mas nada tão divertido quanto ser cineasta, aposto.
— Ser cineasta não é tão divertido. É difícil na maior parte do tempo. Bem difícil.
— Acho que qualquer carreira é. Antes desse trabalho, eu era aspirante a escritora.
— Sério? Isso é incrível.
— Também era difícil e não muito lucrativo.
— Sei bem como é isso — comentei, abaixando a cabeça por alguns segundos.
— Mas olhe só para nós. Conseguimos o trabalho dos sonhos de muitas pessoas — disse, otimista.
— É, acho que sim.
— E quer saber? No fim das contas, o que importa mesmo é construirmos a nossa própria felicidade, não importa onde estivermos ou qual carreira escolhermos.
— O dinheiro na conta também importa muito.
Ela soltou uma risada leve, e eu sorri em resposta.
— Acho que vamos nos dar muito bem, Danielle.
— Danni. Pode me chamar de Danni.
Permanecemos por mais algum tempo na estrada, até entrarmos em um bairro extremamente luxuoso.
A coreana parecia muito familiarizada com tudo aquilo, ao contrário de mim, que mantinha os olhos grudados na janela, admirando as casas e os condomínios espalhados pela região, formando um cenário exuberante.
Paramos diante de um desses condomínios. Não havia ninguém no que parecia ser uma portaria.
Ji-na pegou o celular, leu alguma informação, abaixou a janela do carro e digitou alguns números no totem ao lado. Em seguida, o enorme portão automático se abriu, e ela entrou no local.
Tínhamos conseguido entrar.
Agora, o meu mundo e o do Bangtan Sonyeondan haviam colidido.
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