Melisandre e os sacerdotes adentravam as muralhas do castelo. O caminho estava muito estreito por conta de neve e pedra, retardando a passagem rápida. Fora preciso usar de muitas chamas para retirar o amontoado de neve, madeira e cadáveres revividos para abrir caminho. A matilha de lobos avançou primeiro. Alguns dos sacerdotes afastaram-se, rumo a outros portões mais longínquos. Melisandre sabia que os outros sacerdotes já estavam fazendo isso – uma legião do sacerdócio fizera uma barreira por todo o castelo – embora a parte do sul do círculo deva ter morrido após os ataques dos dragões.

— Entrem e protejam a parte interna — falou o Rei do Norte. Ele havia perdido sua coroa durante o frenesi do ataque do dragão-wight, assim como perdera o olho de vidro de dragão. — Os Vagantes estão atrás de Bran, e se meu irmão cair, assim como nós, apenas o sul há de tentar proteger-se do ataque.

Se nós cairmos, o mundo está condenado, Melisandre pensou. O sul não estava a par da real ameaça – se já estivesse, estaria se virando sozinha –, assim como os outros reinos. Se Jon, o Azor Ahai, ou Daenerys, ou mesmo Stannis, caíssem, junto do menino-corvo, tudo estaria fadado a escuridão e silêncio.

Caso não, o plano se seguiria. Edmure e Bran fariam suas jogadas, seja lá quais fossem, assim como Margaery; mas isso não interessava a sacerdotisa. Não agora.

O Corvo já tem seus joguinhos, Melisandre sabia. Estavam todos seguindo seus passos, alguns sabendo disso ou não.

O Rei do Norte parecia mais um valiriano do que um nortenho – pálido, magro, com cabelos argênteos. Se os olhos fossem cor-lavanda, facilmente seria um irmão de Daenerys, a exceção do queixo forte que compartilhava com a irmã Arya. Até a armadura era valiriana, com o aço escuro como fumaça e cheio de glifos do império caído.

Apesar de todo o esforço feito desde que a batalha começara, o rei dos nortenhos ainda tinha alguma força de vontade dentro de si. A sacerdotisa de Asshai sabia o que era: o fogo de R’hllor que reanimara-o. A chama ainda estava acesa, lutando para permanecer o calor. Queimava tal qual as chamas pálidas na espada longa que Jon empunhava.

O vento fazia a capa desgastada e rasgada do monarca esvoaçar. Seu lobo estava ao lado dele. Pararam perto da entrada do castelo. Melisandre e Benerro estacaram os passos juntos. Homens e mulheres corriam para dentro, apavorados; outros permaneciam, prontos para uma última batalha antes de morrer.

Ao lado do monarca, estava a princesa selvagem, Val, sua fiel companheira (fosse qual fosse o significado para tal na situação atual de Jon). Suas vestes brancas estavam rasgadas, sujas, amareladas. Sua trança loira estava desgrenhada. Havia um hematoma roxo na bochecha esquerda dela.

Jon olhou para trás, para o norte, de onde havia vindo. Tudo era um breu, exceto os luzires azuis, cada vez mais próximas. Eram lentos, mas estavam próximos.

— Essas coisas podem ser lentas e atrapalhadas — declarou ele —, mas vi os líderes deles matando. São rápidos. Mais rápidos do que nós. — Virou o semblante para Melisandre. Havia algum medo no único e avermelhado olho dele. Mas estoicismo também. Esse era um homem que lutaria até o fim.

Tão igual a Stannis, pensou ela. Havia muita força de vontade em ambos, mesmo que muitos pensassem que houvesse falta de ardor; havia uma ardura que recusava-se a apagar, sem a necessidade de qualquer magia. Era natural deles.

Benerro interrompeu a interlocução:

— Talvez devêssemos permanecer do lado de fora das muralhas — sugeriu. — Agora que o Grande Outro se aproxima…

— Vocês vão entrar — cortou Jon, olhando para o alto sacerdote de soslaio. Voltou a fitar Melisandre: — Cuida dos meus irmãos caso eu caia.

Melisandre assentiu, mas falou:

— Você há de revê-los. — Isso não queria dizer que ele ou mesmo os irmãos fossem terminar vivos, mas ela achou ser a coisa mais gentil para se dizer no momento (e ela achava que isso realmente ocorreria). Sorriu. — E, além do mais, eles já estão grandinhos para se proteger.

Jon deu um sorriso lupino.

— Creio que tem razão. Mas faça-o mesmo assim. Você me deve, Milady.

— Devo? Meu Rei, devo lembrar-lhe, eu devolvi sua vida. É graças a mim que está cá para lutar.

O Stark levou uma mão até a bochecha dela. A luva havia sido perdida, a palma pálida e dedos negros estavam expostos. O toque dele era frio, mas a pele da sacerdotisa era cálida.

(Melisandre não deixou de notar que ele a tocara com a mão “humana”, ao invés da mão enegrecida e endurecida pela magia do fogo.)

— Eu sei. — Agora ele tinha um meio sorriso triste. — E por tal sempre irei te odiar. — Roçou um dedão na bochecha dela. — Gostaria de ter dado mais vazão a meus desejos enquanto pude.

Ele ainda me deseja. A sacerdotisa nunca duvidou de que a volúpia ainda estivesse no corpo de Jon, mesmo que no fundo. Seu aliado era humano, afinal. Ele não poderia evitar seus sentimentos e instintos, apenas lutar para não ser levado por eles.

Se esse rei ainda tivesse uma semente para ser usada, Melisandre poderia ter feito bom uso dela, mesmo que só uma vez; mas R’hllor não quis assim. Não era para ser.

Melisandre deu um sorriso complacente. Tocou a mão dele, afastou-a.

— Vossa Graça sempre foi um homem de dever. Se orgulhe por sempre ter sido fiel a quem era, meu rei.

— Estão falando muito para quem está para morrer. — Ambos se viraram para encarar a voz. Era Stannis, andando de forma um tanto lenta até eles, mas não chegava a claudicar. Havia perdido sua capa, sua coroa, uma de suas manoplas, o elmo… Mas ainda agarrava-se a sua espada. O objeto emitia um brilho sem calor, mas o rei ainda insistia em agarrar-se a ela.

Melisandre olhou para o objeto com um tanto de culpa. Ela imaculara-se com insanidade de que Stannis era o Príncipe que foi Prometido, mas não era a verdade.

Todavia, meu deus o levou até Stannis. Ainda existe um propósito para ele. Talvez Stannis ainda pudesse ter uma última chance de mostrar seu valor para com o reino. Era tudo que lhe restara: dever.

Enquanto muitos corriam para dentro do castelo, Melisandre, Benerro e Jon permitiram-se esperar Stannis. Quando este chegou até eles, disse:

— Bem, agora estamos mais próximos do fim, creio. — Suspirou de forma áspera, olhando para a imensa bruma que crescia. Seu gorjal parecia estar sufocando-no. — Nem acredito que conseguimos ir tão longe.

— Poderemos ir sempre mais do que imaginamos — comentou Melisandre, compadecida pelo desgaste de seu velho companheiro, guerreiro e amante. Era triste, mas Melisandre sabia que era ora do adeus. Despedir-se de tudo e todos. Ela já havia vivido muitos anos e mais anos até esse momento. Estava pronta para dizer adeus; mesmo assim, percebeu como era difícil. Havia um nó em sua garganta.

Jon também não estava com papo para melosidades.

— Vá para dentro, para o bosque — demandou a Benerro. — Vê se não falha, ou, caso passemos desta batalha com a vida, a vossa iluminada vai ser o menor dos seus temores.

O Supremo Sacerdote vermelho pareceu ultrajado com a ameaça não-tão-velada-assim. Mas, como aquele com este falava era o consorte de sua salvadora, Benerro apenas fez um “humpf!”, girou os calcanhares, prosseguiu Harrenhal a dentro.

Antes de Melisandre ir atrás de seu chefe, virou-se para Stannis, deu-lhe um beijo na bochecha, sem importasse com os espinhos do pelo facial.

— Adeus, meu Rei.

Stannis deu-lhe um sorriso cansado, acenou com a cabeça.

— Adeus, Milady.

Melisandre virou-se, foi até seu sacerdote. Tinha um plano para compartilhar com ele, mas tinha de ser rápida ou tudo estaria perdido.

Quando os sacerdotes se foram, Jon virou-se para Val.

— Por que ainda está aqui? — quis ele saber.

Ela o olhou como se ele tivesse dito algo estúpido. Adorava como ela tinha a mesma expressão de Arya nesses momentos. Queria que Daenerys fosse mais assim. Havia calor nela, mas não como Jon gostava. Faltava algo entre ele. (Embora, tinha de admitir, sempre gostasse do jeito mais calmo e gentil de Cetim. Sentia falta dele, de como sempre era aconchegante dividir o colchão com ele, por debaixo das peles quentinhas. Cetim sempre reclamava como Jon sempre tinha um abraço frio.)

— Meu lugar é com você — retrucou a selvagem. Jon sabia que ela não queria morrer entre algumas pessoas mais frágeis, preferindo morrer lutando.

Jon segurou um sorriso.

— Vós ficais onde eu ordeno. — Não queria demorar-se naquilo, mas sabia que Val podia ser teimosa. — Quero que você proteja meus irmãos.

Aquilo enfureceu a princesa selvagem.

— Não sou babá de seus irmãos!

— Não, mas é a guerreira a quem mais confio suas vidas — treplicou ele. Doía tentar falar mais alto, mas precisava; havia muita gritaria. — Anda, Val. Sabes que não podemos perder tempo. — Quando ela tentou falar ele atalhou: — Não era você quem acreditava que eu era o salvador dos povos?

Ela pareceu vacilar com o uso de uma fala dela contra ela mesma. Por fim, bufou, assentou, virou-se, prestes a afastar. Antes que o fizesse, Jon a agarrou pela cintura, puxou-a para si, de forma bruta. Val se virou, mas antes que pudesse fazer algo, Jon a beijou, empurrou a língua para dentro dela. Ele era bom com a língua, apesar de não usá-la tanto. Por fim ela o abraçou, ele sentiu o toque quente dela. A espada Dayne aquecia os dois. Era estranho, mas, por um instante, Jon se deu o privilégio de ignorar a dor em volta dele, os gritos, a dor interna que atordoava-lhe o espírito.

Quando se afastar, a selvagem estava sem fôlego. Sua trança cor de mel estava meio desgrenhada. Fitando-lhe o olhar cinzento, Jon falou:

— Eu devia ter te sequestrado desde o começo.

Ela riu

— Você ainda pode tentar, Stark, caso vivamos. Mas eu ainda tentarei cortar-lhe os dedos e a língua. — Ela sabia que não havia o funcionamento nas partes mais íntimas.

Val afastou-se, correndo para longe. Jon teve um vislumbre de sua trança esvoaçando antes dela sumir.

— De repente vós virou um galanteador — zombou Stannis, seco. — Creio que cada um tem seu jeito de encarar a morte.

— Eu já encarei a morte antes — retrucou Jon, vendo-o de soslaio. — Não é culpa minha de que está mais morto do que eu.

— Humpf. Pensar que, caso possamos sobreviver, eu terei de lhe aguentar, me faz questionar se realmente vale a pena lutar.

Os dois homens riram. Apenas eles entendiam o humor que tinham.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Melisandre tentava acompanhar os passos de Benerro, que resmungava em outra língua. Moqorro estava logo ao lado, usando as chamas de fogo vivo de seu cajado com forma de dragão para cuspir fogo vivo na neve. Uma legião de sacerdotes e sacerdotisas caminhava na neve, emanando calor. Pessoas e animais passavam por eles, com mais pressa.

— Benerro, meu supremo líder — ela o chamou —, precisa ouvir-me…

— Acho que todos já ouviram demais a senhora. — Havia uma óbvia irritação nas palavras, mesmo elas sendo filhas. Nem sequer ele a olhava.

Melisandre não ia desistir. Chegara muito longe para tal. Sabia que o líder vermelho não gostava das artes das sombras dela, mas tais habilidades pudessem ser úteis.

— Creio que possa conseguir impedir a ameaça do Grande Outro. — Agora corria mais apressada. A neve estava derretendo pelo calor das chamas dos sacerdotes, mas o vento frio aumentava. Os servos do Grande Outro estavam próximos.

— Ótimo, então o faça logo. — Ainda a ignorava.

— Oh, iluminado, eu lhe imploro por apoio — falou ela, tentando manter o passo. Os pés afundando na neve. O cabelo vermelho dela voava. — Sei que detesta as sombras, mas eu as comando. Nosso deus as cria com sua luz e as escraviza…

Benerro se virou num segundo, erguendo a mão. Uma luz explodiu de sua palma, cegando e queimando Melisandre, que veio a virar o rosto, caindo de joelhos. Os olhos de Benerro eram duas bolas de fogo. As tatuagens luziam em furioso laranja-dourado, incandescente. Até mesmo a boca dele rebrilhava, como se tivesse uma estrela dentro da garganta.

Os sacerdotes e os outros grupos de pessoas que passavam pararam para ver a cena.

Furioso, Benerro bradou:

— Eu não preciso de suas sombras malignas, feiticeira! Você deixou que o Grande Outro maculasse vossa mente, fazendo-a acreditar em falsos messias!

Melisandre grunhiu, ardendo até a alma. Estavam perdendo tempo! Tinha de fazê-lo escutar o que tinha para dizer, ou estariam condenados.

Instintivamente, levou uma mão até a gargantilha. O rubi ardia, queimando sua pele. Se se partisse…

— Eu deveria quebrar seu glamour! — ameaçou Benerro. — Sua ilusão engana há muitos, mas não a mim…

— Senhor! — Era Moqorro, fiel servidor de Benerro. — Apesar de erros, a mulher de Asshai serviu com louvor o Senhor da Luz. Deveríamos ouvi-la, Meu iluminado.

— Deveríamos acabar com a ilusão dela! — retrucou Benerro.

— Iluminado — falou Moqorro, ousando demais. — Ela disse que o nosso deus crua e comanda sombras. Ela não mente. Nosso deus é maior que a escuridão.

Após alguns segundos, a luz angustiante de Benerro arrefeceu-se. Ainda brilhando, expelindo fumaça, mas sem mais machucar Melisandre, que agora tinha as vestes queimadas.

— Está certo, vou ouvir o que tem a me dizer, umbromante de Asshai — declarou ele. — Mas se eu discordar, ou caso venha a falhar-te, você e Moqorro virão cinzas antes da enviada do Grande Outro cair sobre nós.

Melisandre grunhiu, ardendo, com a garganta em carne viva. Tossiu, lutando para se levantar. Seu Glamour ainda permanecia.

— Se apresse — falou Benerro —, está esfriando.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

A Rainha aproximava-se das imensas muralhas do castelo chamado Harrenhal. Estava contente por isso – achava que essa luta já havia se estendido demais. Estavam há quase três dias ou nesse estado. Ela de bom grado deixara a batalha se estender, mas os deuses estavam perturbados com a situação – e perturbando-a por isso.

Muitos corriam para dentro, mas uma parte ficava. Era uma barricada humana, formada por homens com um elmo que tinha um espeto na cabeça. Os tais “imaculados”. Os filhos d’A Rainha debocharam deles, mas ela os achava bem semelhantes – vazios, seguindo ordens da líder sem questionar.

Atrás da fileira, sabia ela, estava o tal Rei do Norte. O último Rei do Inverno. O irmão do maldito corvo. Ela amaria matá-lo.

Os Wights lutavam para penetrar a muralha de escudos. Era bem extensa, mais de dez metros, protegida nos flancos. A Rainha teria de passar ela mesma pela carapaça de ferro, pois alguns tolos maguinhos do fogo ainda permaneceram do lado de fora para ajudar com os incêndios. Como eram irritantes. E previsíveis.

A legião de mortos se abriu para ela. Elegante, passou por eles em cima de sua aranha. Ela preferia que os mamutes derrubassem aquela última linha de frente do castelo, mas a maldita Rainha Dragão queimara os mamutes mais próximos e arruinou o seu plano! (Algo muito comum para essa Sangue-Quente fazer, pelo que A Rainha percebera pelas almas que consumira. Todos tinham algum ressentimento dela.)

De qualquer forma, não ia demorar muito. Estava bem avançada. Seus mortos matavam qualquer Sangue-Quente no caminho, antes de ser necessário usar de seus filhos para tal. Queria eles bem agitados para a batalha final sedentos por sangue. Alguns matavam humanos aqui e ali, mas não em grande número. Jonnel e Torrhen brincaram com um rapazola, deixando preso num círculo de Whites enquanto o cutucavam com as pontas frias de suas lanças, por cima dos cadáveres de cavalos. O Sangue-Quente terminou com várias partes enegrecidas pelas picadas congelantes, com o corpo inteiro ficando inchado e negrume, enquanto o moleque chorava e rezava até finalmente morrer.

Torrhen capturara uma mulher selvagem, após caçá-la com alguns lobos e cães revividos. A mulher fora devorada viva quando ele ficou rapidamente entediado. Após isso, ele e Jeor usaram arcos de gelo para acertar alguns filhos da floresta que encontraram.

Jeor, após achar uma mulher entre os selvagens e sentir o calor da vida dentro dela, achou engraçado arrancar o feto de dentro; mas sentiu-se decepcionado após ver que o rebento não estava muito formado para tal. Como castigo, agarrou a mulher, forçou-se para dentro dela, empurrando seu membro viril frio para dentro da buceta. Não tinha excitação como os de sangue, mas tinha a depravação deles. Não queria procriar com a criatura, apenas exercer poder contra ela e vingar-se pelo desgosto que ela lhe deu. No fim, a semente dele apenas congelou e queimou a pele dela, assim como seus toques.

Boq, famoso amador de animais, divertia-se em matar primeiro os animais dos troca-peles, para em seguida usá-los para matar os antigos donos, bem quando estes tentavam se recuperar do trauma do elo cortado. Boq também gostava de usar seu cavalo para dar coices. Começou a fazer isso quando ficou fascinado pelos dothrakis e seu amor por equinos e escravidão. Ele achou justo que, sempre que achasse um dothraki, usasse seu exército de cavalos revividos para matá-lo. E ele mostrou uma boa criatividade para tal: dar coices na cabeça; pisotear um sangue-quente com todos os cascos; usar as mordidas dos cavalos para matar de forma lenta; gostou até de imitar a tradição do povo dos adoradores de cavalos: ele criou correntes de gelo, usou-as prende nos calcanhares ou pulsos de alguns sacos de carne, prendia a outra extremidade no cavalo, arrastava a vítima conforme o cavalo se movia.

Ah, como era bom ver os guerreiros podendo se divertir após tanto tempo de penúria! Finalmente algum sentimento positivo após anos esquecidos!

A Rainha avançava para mais perto da linha de frente, em cima de sua bela aranha. Os outros Wights estavam conseguindo adentrar em outros portões. Os mortos de dentro do castelo, em geral, estavam perdidos, mas uma boa parte atacava as defesas externas por trás.

Os deuses estavam ganhando. A Rainha sentia o júbilo deles, agraciada por tal.

As muralhas estavam maiores agora. A Rainha Dragão se aproximava, ela sabia, mas o seu próprio dragão já estava pronto para tal.

Ao chegar em frente aos escudos redondos, um sobre o outro, A Rainha parou. Sorriu.

— Podem matar, meus filhos.

Felicitados, seus filhos gritaram, trotaram para frente. Suas lâminas bateram contra o metal, trespassando-o como papel. Por vezes o golpe também acertava o guerreiro que segurava o escudo. Alguns arqueiros lançaram flechas. Três acertaram um vagante, que escorreu em agonia; mas os outros eram mais sagazes e capazes de desviar, graças aos seus reflexos assaz.

Uma flecha zuniu, indo até A Rainha. Ela a parou no ar, poucos centímetros de seu rosto, erguendo o braço num gesto delicado e simples. O ar em torno da seta ficou tão frio que esta veio a congelar. Nem mesmo moveu-se mais. Veio a cair em um instante.

Meus poderes estão mais fortes, saboreou ela. Sua aranha moveu-se leve, como uma brisa de inverno fresca. Os corpos dos mortos ainda estavam parados. A Rainha e seus guerreiros gelados queriam alguma ação. Ela queria combater quem estava atrás daqueles escudos: o novo portador da luminífera. O último Rei do Inverno.

Por sorte, ele não estava muito longe. Pouco atrás dos imaculados que acabaram por ser tombados, estava o monarca: sua visão, como era quando ela o via pelos olhos de outrem, era enervante: parecia-se com um dos imperadores antigos. O olho vermelho como rubi, cabelos claros, pele pálida, a maldita espada flamejante.

Ela odiou aquele homem. Ao lado dele, parecendo uma versão mais régia, estava o tal Stannis Baratheon. Os dois monarcas tinham seus corpos besuntados de luz pelas lâminas rebrilhantes de suas espadas.

A Rainha sorriu, mas não desceu da aranha. Infelizmente, a luta teria de ser atrasada.

Por que eles não se movem?, questionou-se Stannis, vendo o exército dos mortos e seus líderes pálidos parados defronte a ele. Os soldados dos vivos estavam em riste – o Rei Jon, seu lobo, os três irmãos Redfort, Lorde Blackwood; Belwas, o forte, dentre outros soldados que arriscaram-se a ficar e lutar. O vento enregelante os flagelava, os pontos brancos cegando-os.

Será que querem que lutemos primeiro? Ou querem nos atemorizar? Questionou-se ele. De fato, a visão do imenso exército de mortos e seres de gelo era, no mínimo, enervante.

Foi apenas quando o rugido do dragão surgiu que ele percebera a armadilha. A assustadora e bela mulher de gelo sorriu ao ouvir o ribombar e as faces perdidas dos guerreiros. Atrás dela, uma luz vermelha surgia, aumentando. Um vento frio avançou, junto do ressoar de trovões.

O dragão de Daenerys avançava. O calor escaldante chegava bem antes, aumentando gradualmente.

Daenerys se manteve firme, demorando para arriscar-se. Devia deixar a fúria de Drogon contida. Caso Viserion aparecesse, seria pior.

A imensa fortaleza estava aumentando. Drogon passava por cima dos corpos mortos, fazendo-os voar e queimar com seu calor abrasivo. O bater de suas asas os lançavam para longe, como se fossem meros bonequinhos.

Conforme aproximava-se, Dany sentiu que a fúria e frisson de seu filho aumentava. Tal ódio parecia imiscuir nela. Seu coração batia mais forte. Rangeu os dentes, sabendo que os inimigos estavam bem à sua frente. Bateu no seu filho com a corrente-chicote. De novo, de novo, de novo, cada vez mais frenético e potente. A fraqueza sumia de seu corpo.

Dany não sabia se Jon ou Stannis estavam na defesa da fortaleza, mas não se importou. Estava mais perto agora. Não perderia sua chance. Aquela guerra acabaria agora e que se danasse as baixas. Era fogo e sangue.

— Dracarys! — Não sabia como estava furiosa até falar as palavras.

Drogon abriu mais a boca, a luminosidade aumentou quando o fez, junto do fulgor.

Seu potente golpe foi evitado quando Viserion desceu pelo ares. Bem a tempo, como A Rainha de Gelo e Trevas e suas mentes haviam planejado. O Wight de Wyvern mordeu Drogon no pescoço, dessa vez, mais perto da pequena cabeça. O dragão ferido virou a cabeça para o lado, expelindo poucas chamas, parecendo engasgar. Seu corpo afundou na terra e neve, criando alguns montes conforme se arrastava. O corpo deslizou para o lado, arrastando os corpos dos revividos, esmagando-os.

O vento quente Drogon atingiu Jon e seus companheiros, atingidos por névoa e poeira. O pior, porém, não foi isso, e sim o que houve depois: a luta dos dragões.

Daenerys, agora mais furiosa por ter sido deixada ludibriar, acertou o pescoço do filho com as correntes. Este debateu-se, tentando recompor-se, erguer-se. Drogon ergueu a cabeça, mesmo ferido, cuspiu fogo para todos os lados, imbuindo o ar com sua luz e calor.

Viserion afastava-se, quase atingido pelas chamas. Mas uma parte fora afetada: sua cauda. A ponta estava parcialmente queimada.

Ele vai para o céu para apagar o fogo.

Não perdendo tempo, mãe botou o filho para voar. Drogon, mesmo desnorteado, bateu mais asas, lutando contra a dor. Erguendo-se no ar.

Infelizmente, a Mãe dos Dragões não percebeu que o vento de seu filho, que estava a poucos metros de onde o Rei do Norte e os seus soldados estavam, jogou o monarca e os outros para longe. Enquanto Drogon e Viserion debateram-se no chão, foi como se um tornado tivesse se criado.

A Rainha e os seus ficaram onde estavam, parecendo nem sentir a poderosa ventania.

Agora, bastava apenas procurar pelos guerreiros, verificar se ainda estavam vivos, e matá-los caso fosse o caso.

Apesar de facilitador, A Rainha mostrou-se decepcionada. Ela queria uma luta!

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Melisandre estava em uma das torres de Harrenhal. Não no topo, pois não tivera tempo. Apenas correra e subira alguns degraus. Estava de pernas cruzadas no chão, murmurando feitiços. Movia suas mãos e dedos, tecendo, enfeitiçando.

Falava com as sombras. Pedia-lhes para fazer o que ela queria. Costurava-as, entrelaçando-as, como quando fizera com a luz de seu glamour – só que agora usava treva ao invés de luz.

Melisandre treinava as artes umbromantes antes mesmo de ter o nome de sacerdotisa, nas antigas terras de Asshai. Estudara por anos. Falava com as chamas, com a luz, com sangue, com as trevas.

Havia muita magia nesse castelo onde ela agora estava. Muita morte, dor, traição, sangue, fogo. A magia estava impregnada nas pedras disformes. Mesmo os deuses pagãos sofreram na construção de tal estrutura gigantesca. Melisandre agora tentava usá-la para si, mas era perigoso. Haviam almas tristes e vingativas ali. A energia negativa lhe puxava para onde ela nem se atrevia a ver.

Imaginou a silhueta de seus irmãos sacerdotes. Imaginou costurando a escuridão sobre eles, escondendo sua luz. Treva sobre treva. Uma manta se formava sob seu comando.

Eu sou a luz, a treva se curva ante mim, pois eu sou sua criadora!

Seu rubi brilhava, ardendo. Estava queimando-a, mas ela tinha de suportar. Não podia parar de tecer seu feitiço. Seu corpo começava a suar. Estava queimando de dentro para fora. Rangeu um pouco os dentes, mas prosseguiu. Manteve os olhos fechados, sabendo que seu corpo inteiro brilhava, iluminando o aposento.

Moveu as sombras do castelo. Imaginou-se as segurando, levando para onde queria. Continuou ignorando a dor, ignorando o desespero. Seu corpo implorava para que ela parasse, mas ela não o faria. Seu deus precisava dela.

Não posso falhar, pensou a sacerdotisa em extrema agonia, sou a guerreira da luz. A sombra há de obedecer a mim!

Sua carne começou a silvar, expelindo fumaça.

Ouviu um voejar de asas atrás dela. Um crocitar.

— Não me interrompa…

— Rápido! — grasnou o corpo.

Melisandre bufou, irritada por aquele animal irritando. Se não corresse o risco de quebrar o feitiço, teria torrado o bicho.

O animal voou até o ombro dele, mas a pele das patinha queimou ao tocar no ombro fulgente dela. O pássaro deu um gritinho de dor e voou para todos os cantos.

— Rápido! Rápido! Rápido!

Melisandre o ignorou, furiosa.

Ouviu alguém na soleira, aproximando, mas não deu atenção. Seria um dos revividos por necromancia? O corvo tentara lhe avisar?

— Precisa de ajuda, Milady?

Ainda tentando manter o foco, mesmo exausta, Melisandre abriu os olhos, encontrando os olhos escuros d’O Esfinge. Este afastou a máscara de aço valiriano, revelando a face. O ambiente estava tão quente que o rosto feminino dele estava suando. Sorriu para ela.

— Estava indo ver a bela princesa, mas o Corvo falou-me que uma bela dama estava precisando de mim e, bem — deu de ombros —, nunca poderia negar a ajudar uma bela dama.


X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

A Rainha usava seus Wights para procurar o monarca. A Rainha queria acabar com sua vida antes de ir até o Corvo de Três Olhos. Por sorte, seus deuses estavam felizes, então deixaram ela aguardar. O Corvo estava praticamente derrotado. Apenas precisavam lidar com o dragão – e rápido, pois o sol logo poderia surgir.

Enquanto isso, seus filhos terminavam de matar os vivos por ali. Enfiando suas lâminas nos corpinhos deste. Estavam entediados, querendo alguma ação, mas os sobreviventes estavam fracos demais para tal.

A Rainha compartilhava tal sentimento. Temia ser um sentimento eterno.

Mas logo as coisas melhoraram quando um dos vivos ergueu-se. Os guerreiros gelados sorriram, mas a líder deles os afastou. Queria aquele para ela. A contragosto, seus filhos afastavam-se, mesmo irritados.

A Rainha deslizou da aranha, delicada, leve. Uma verdadeira rainha. O guerreiro aproximou-se dela, mesmo parecendo frágil. Mesmo com o frio, praticamente não usava roupa. Talvez achasse que a sua massa corporal fosse o proteger do calor. Ele empunhava uma lâmina de ponta curvada.

A Rainha sabia bem quem era aquela pessoa: Belwas, O Forte. Um guerreiro estrangeiro que matara todos em seu caminho, mas apenas após eles deixarem um corte em seu corpo. Uma cicatriz como memória.

Que criatura interessante! Mais interessante mesmo, era a arma em sua mão: não apenas era um arakh – era um arakh de aço valiriano.

O homenzarrão cambaleou até a Rainha, que andou calmamente até ele. Queria alguma disputa. Mas, pelo que ela podia ver, o enorme guerreiro estava bem fraco – não estava acostumado com o frio, perdeu massa muscular, e ainda estava muito tonto após o golpe da ventania.

Mesmo assim, ele manteve-se firme. Bateu uma vez na barriga, depois outra, enquanto permanecia a erguer o arakh. Parecia chamá-la para um desafio.

— Quer que eu o corte primeiro, Belwas? — ela falou, numa voz doce, inocente. Bem, bem suave.

O homem nada respondeu. Não a entendia. Bom, não tinha problema, ela fez o que ele queria – de chofre, ela avançou até ele, sem nem formar uma espada.

Belwas pareceu assustar-se num instante, mas tentou acertá-la; mas A Rainha foi mais rápida. Um corte diagonal de seu dedo fez o grande e forte Belwas grunhir, cair de joelhos, largar o arakh, levar as mãos até a barriga. Ele gorfou sangue. Filetes escuros, quase negros, jorraram pela boca. Ele fez uma careta de dor, parecendo confuso. O corte da unha dela, bem na oblíqua barriga, fazia sangue jorrar.

A Rainha estava escada defronte a ele. Ela levou uma mão até o queixo dele. Um sssssiilvo se fez ouvir, Belwas grunhiu novamente enquanto névoa surgia da parte tocada.

— Que decepção — falou ela, sem se importar com a dor do guerreiro. — Esperava alguma luta.

Seus dois filhos, Jeor e Torrhen, agarraram Belwas, pegando-o por debaixo dos ombros, fazendo a pele silvar. Belwas escarrou mais sangue. Mais sangue expelia do corte na barriga. Jonnel foi até a cena. A Rainha deu um passo para o lado, pronta para ver o espetáculo.

— Você desonra nossa amada Mãe — declarou Jonnel, para o homem em agonia. — Merece sofrer por isso.

De chofre Jonnel enfiou a mão na barriga do homenzarrão. O homem deu grito, escarrando mais sangue da boca escancarada. A barriga assobiou com o toque enregelante. Ao retirar, estava agarrando uma tripa bem gorducha. Belwas espasmou enquanto retirava o estômago dele. Começou a gritar, soltando mais sangue. Tentou se soltar, movendo os braços, mas Jeor e Torrhen ainda o mantinham bem preso. Eles o arrastaram, afastando-o de Jonnel, enquanto este dava alguns passos para trás, puxando a tripa na mão, que enegrecia com o toque. Mais do estômago caia conforme moviam Belwas. Este tentava soltar-se, agarrar as tripas, mas era inútil. Seus gritos pioravam, ele começou a chutar o chão de forma espasmódica.

Por fim, os movimentos do homenzarrão ficaram lânguidos. Os olhos reviraram para cima, enquanto ele espumava e soltava mais sangue pela boca.

Por fim, eles o soltaram. Belwas tombou no chão, espasmando. Indiferente, Jonnel largou a tripa gelada.

— Olha, achei mais um! — falou Boq, indo até uma região com montículos de neve e terra. Ele sentiu o calor da vida no local, enfiou as mãos na terra. Quando as retirou, jogou um homem para longe.

O homem tossiu, escarrando sangue. Boq foi até ele, ergueu-o. Era um homem jovem, ruivo, com cota de malha. Reconheceu-o como Jon Redfort. Sabia dele pelas mentes absorvidas.

Divertido pelos sons de ofego do homem, Boq deu um tapa, voltando a derrubar o soldado. Sua pele estalou, ardendo pelo toque. O golpe foi tão potente que quebrou o queixo de Jon. Chutou o homem caído, fazendo a armadura chiar a cada golpe. Divertidos, Jeor, Torrhen, Jonnell, Roose e Joel começaram a chutar o frágil homem, rindo. Seus golpes logo quebraram a cota de malha, as placas de metal e até as costelas, fazendo Jon grunhir e guinchar de dor.

Boq voltou a se agachar sobre ele. Assustado, Jon tentou engatinhar para longe, mas foi incapaz de fugir. Boq o ergueu pelo braço, fazendo o Sangue-Quente gritar de dor pela queimadura do frio. Boq arrancou a camisa em farrapos dele. Com uma lâmina de gelo que surgiu tão rápido quanto sumiu, cortou-lhe as costas.

— Olhem, irmãos! — bradou Boq. — É com isso que as sangue-quente trepam!

Os irmãos riram ante a visão nua do homem. Este olhava para todos os lados, apavorado. Seu queixo pendia para um lado, balançando.

— E pensar que as coitadas se contentam com isso… — Levou uma mão até o pau e o saco do sujeito, apertou. O pobre Jon apertou os olhos, enquanto dava um guinch o de dor. A pele se contorceu de dor, enquanto o homem espasmava.

Quando Boq soltou a região, tudo o que sobrara era um montículo de carne preta e retorcida. Por fim, o braço do Redfort se partiu, quebrado após a duração prolongada do toque de Boq. Jon estatelou-se de cara na lama. Rastejou, parecendo mugir como uma vaca, enquanto se contorcia de dor.

Boq pisou de leve no crânio ruivo de Jon, pressionando-o levemente. A cabeça pareceu começar a queimar com a pressão, congelando os cabelos. O queixo afastou-se mais do local onde estava, sendo ouvido outro estalo mais profundo. De começo, pareceu que Boq iria quebrar o pescoço, mas depois ele ordenou a dois Wights aproximarem-se. Um agarrou o braço de Redfort, enquanto outro agarrou o toco frio. Ergueram Jon, obrigando-o a deixá-lo de quatro.

Boq caminhou até ficar de frente às nádegas expostas de Jon. Agachou-se um pouco, aproximou as duas mão da região.

— É assim que vocês colocam a cara no espeto, não é, Sangue-Quente? — indagou Boq, formando uma haste de gelo.

A ponta cresceu, indo até o anus de Jon, penetrando-o. Jon tremeu e grunhiu, mas foi incapaz de fugir. O sincelo adentrou mais fundo, congelando a carne quente, empurrando-a, abrindo caminho. O gelo penetrou e penetrou, cortando carne, fazendo um túnel no corpo de Jon, que tremelicava e chutava conforme tinha seu corpo violado.

Por fim, tossindo, deu um último espasmo, pouco antes da ponta da lança passar pela sua boca e ficar para fora como uma seta de cristal. Estava morto. Boq ergueu-o no ar, como se fosse um simples pedaço de carne animal no espeto.

O Vagante sorriu com a obra de arte, mas logo o sorriso minguou. Ele jogou o corpo de lado, antes de o reviver. O tédio voltou a tomar conta.

A Rainha estava irritada, sem dar atenção para nada daquilo. Estava sentindo os vivos, mas os Wights eram fracos demais para explorar a neve. Bufou, irritada. Os deuses estavam ficando ansiosos.

Jonnel, sentindo a irritação de sua Deusa-Mãe, foi até ela.

— Hemos de terminar com o falso herói hoje, minha amada e temível mãe. Nós…

— NÃO SOU SUA MÃE! — berrou ela. Ele nem deve ter tido tempo para ouvir, pois no mesmo instante ela o golpeou. Foi muito rápido. Jonnel não existia mais. Agora era neve.

Ela olhou para os estilhaços de gelo. Deveria estar indiferente, mas sentiu um vazio. Tinha poupado Jonnel por seu fracasso, mas agora o matara quando ele apenas quisera lhe dar apoio. Agora ele estava perdido de vez.

Mãe. Ele me chamou de mãe. Foi isso que a fez reagir. A palavra lhe afetou. Lembrou-se da mãe de Daenys. Por que lembrou-se disso? A mulher estava morta há milênios.

Os outros a olharam, assustados. Sempre tiveram medo dela.

Os deuses afligiram-lhe a mente. Estavam irritados agora. Ela perdera tempo! Ela os decepcionara! Ela não era uma boa sacerdotisa para eles!

Tremendo, ela bradou para os seus filhos-escravos:

— Eu não sou a mãe de vocês! De nenhum de vocês! Eu sou sua dona, sua deusa, entenderam!? EU SOU A DEUSA DE VOCÊS!

De uma só vez, todos se ajoelharam ante ela.

— Entendemos e idolatramos, ó, Grande Deusa do Inverno Eterno — clamaram todos, de cabeça baixa. Eram todos um, implorando por perdão.

Essa é a sina que os deuses lhe deram. Um vazio cruel. Uma procura eterna por aprovação.

Sentindo uma solidão, A Rainha chamou por sua aranha. Esta veio. Ela sentou-se no animal.

Devo procurar pelos reis eu mesma. Seria um erro deixar para os Wights…

Não!, urgiram os deuses. Você falhou, perdeu nosso tempo! Mate o corvo!

Mas eu…

AGORA!

A Dor perpassou seu corpo, apertando. Por fim, aceitou a derrota. Prosseguiu. Seus filhos estavam logo ao seu lado.

Isso precisa acabar.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Sentiu algo macio e quente em seu rosto. Jon grunhiu, sentindo todo o restante do corpo estando gelado. Abriu o olho, vendo a língua tocando sua face, agitado.

Grunhindo, ergueu-se. Suas costas doíam. De certa forma, achava isso bom. Sentia-se vivo.

Olhou em volta. O ambiente estava um caos. Havia mortos para diversos lados, com poucos humanos para combatê-los.

Tateou, sentindo a sua espada. Apagada. Teria de refazer a magia. Com dificuldade, Jon ergueu. Olhou para o horizonte, vendo uma fileira de mortos entrando no local.

Meus irmãos, pensou, tonto. Agora o castelo havia sido invadido. Tinha de reencontrar seus irmãos. Tinha de encontrar Bran, Sansa e sua irmãzinha Arya uma última vez antes do fim.

Se fosse para morrer, que fosse com a alcateia unida.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

A Rainha sentia uma magia no lugar. E calor. Muito calor. Todavia, apenas treva tomava conta do lugar. A Rainha cavalgava em sua Aranha, assim como seus filhos cavalgavam cavalos – interessante como eles ainda preferiam cavalos, seria uma remanescência dos costumes dos Sangue-Quente? – perscrutando o ambiente. Havia algo estranho. A magia havia sido tocada.

— Sinto vida — falou Torrhen. — Mas não a vejo.

— Não precisamos ver — rebateu A Rainha. — Apenas sentir e matar. — Mas ela sabia que ele estava certo. Havia vida ali. Muita. Mas… onde? Devia estar bem a frente, mas nada viam.

Então, um cântico começou. Uma entonação da língua que ela falara em vida, mas as palavras pareciam modificadas. Era um encantamento, ela sabia, dos sacerdotes. Era um canto suicida, mas ela sabia que dificilmente tal magia lhe faria mal – ainda mais sem ninguém por perto.

Olhou para as torres. Sim, agora entendia: haviam mexido nas sombras. Elas estavam fora do lugar. Elas foram reformadas, mas como? Antes de agir, ela precisava entender…

Então o cântico aumentou, agonizante. O calor veio junto. A neve no solo começou a diminuir. Estava derretendo.

Então a Rainha entendeu. Olhou para frente. O calor estava maior. A canção estava no fim.

Furiosa, sentindo os deuses se enfurecerem com ela, A Rainha lançou uma lança de gelo para frente. Mas foi inútil. As sombras se desfizeram. Um rebrilhar explodiu. Os deuses rugiram contra ela, furiosos com sua falha.

Seus filhos gritaram, assustados, se contorcendo. A pele começou a quebrar. Derreter.

Harrenhal inteira tremeu quando o que pareceu um verdadeiro sol nascer e morrer em um instante. Os poucos humanos por perto arderam, tal qual os corpos mortos, que foram pulverizados. Os poucos que sobreviveram foram cegados – seus olhos derreteram. A carne estourou em bolhas, ardendo.