Dany, apesar de ainda aturdida pela queda, tentou reagir ao ver os dois meteoros brilhantes que estavam para colidir contra ela e seu primogênito. Tentou agarrar as rédeas de Drogon, lutando contra a letargia, ao passo que esse, oposto ao estado de sua mãe, encontrava-se agitado, rugindo, balançando a cauda, asas, soltando fogos em todas as direções.

Está nervoso pois sabe que seu irmão é um inimigo, notou a rainha, sentindo que suas pernas e nuca estavam quase explodindo. Era possível que Drogon de alguma forma sentisse a magia no irmão?

Daenerys – meio se esticando meio se jogando – tentou aproximar-se das correntes que eram usadas para agarrá-la na cela. Uma delas estava partida. Agarrou-a, fazendo força para aprumar-se no assento enquanto puxava os elos. Evitou o desejo cruel, desesperador, de olhar para cima. O barulho das asas aumentava, assim como a fúria de Drogon.

Quando suas costas pareceram arder em extrema agonia, Dany estava endireitada, ainda erguendo o braço cuja mão lutava para ter força em cada um dos dedos. Os elos voaram sobre a cabeça da rainha, que logo os fez descer contra a pele coriácea de Drogon. No mesmo instante que a corrente estalou, Dany bradou:

DRACARYS! — com uma força que ainda não sabia que existia em seus pulmões. A fúria do antigo sangue do dragão ainda queimava em seu ser. Não morreria sem lutar.

Com fúria, Drogon rugiu, um rugido de cólera animal, diferente de seus guinchos de desespero, erguendo a cabeça para os céus nevadores. Da boca escancarada expeliu fogo negro e vermelho, lançando um espada de luz na escuridão. O mundo voltou a brilhar.

Daenerys ergueu o olhar. O jorrar de chamas se estirava em várias direções conforme seus filho serpenteava com o pescoço, balançando a cornuda cabeça para todos os lados.

Viserion havia sumido. O fogo o espantara. A teoria de Daenerys estava correta.

Respirou fundo. A mente precisava estar limpa. Aquele nos céus não era seu filho, não mais. Era o inimigo. Enroscou um pouco da corrente em seu braço, agarrou os elos com a mão. Estava mais firme, mas seu corpo castigado ainda doía. Ignorou a dor no corpo, a dor na alma, na mente. Assim como ignorou a úmidade que escorria pelas cochas. Não era ora para isso; a dor devia esperar.

Os elos de metal dançaram no ar antes dela os fazer descerem novamente.

Sōvēs! — Drogon rugiu, mas fez o que sua mãe ordenou. Com dificuldade, remexeu-se na neve. Os movimentos lânguidos, seguidos de um sibilar longo e irritado, mostravam a dor que o animal alado sentia. A neve se remexia e derretia conforme as asas movimentavam-se. O sangue brilhante, fumacento, escorria por uma abertura no braço do animal, como uma bica de lava.

Drogon começou a balançar a cauda, conforme libertava-se mais da dor, fazendo os flocos voarem, liquefazerem-se. Ignorando a dor, superando-a, as asas translúcidas começaram a se abrir; as pernas impulsionando o corpanzil serpenteante para frente. Asas subindo, descendo, subindo, descendo; os movimentos lentos ficando rápidos. A vida superando o medo; a fúria parecia abrandar-se.

Dany não cessava o chicotear. Ininterruptos, os elos retiniam conforme serpenteavam, atingindo o pescoço de Drogon aqui, ali, acolá. De novo, de novo, novamente, mais uma vez, sem nunca cessar. A vibrância em seu peito expulsava a fadiga, receios, qualquer coisa que a impedisse. A excitação crescia para além de qualquer outro sentido. Era como um pássaro que voava ao infinito, quebrando as grades da gaiola invisível, sem olhar para trás.

Drogon uniu as pernas, empurrou o chão, alçando, por fim, o voo. O ar frio e quente se entrelaçaram.

O chão ficou para trás, diminuindo conforme o ser alado avançava pelos caminhos gelados dos ares. A fera que era fogo em carne rugiu – não por fúria ou medo, mas por um instinto de liberdade, coragem, um arrojo ancestral que lhe alçava até para além das nuvens.

Dany não fechou os olhos, não olhou para trás, para baixo. Olhou, destemida, para a escuridão que cuspia ventania cruel nela. Era uma Targaryen, o frio não lhe assustava – ela era fogo transformado em carne, tal qual seus filhos.

Ela era uma Targaryen; não cairia sem uma luta. Então se corrigiu: ela não cairia.

Conforme subiam, subiam e subiam, Daenerys, do alto dos deuses, olhou para o sul: os homens lutavam e morriam. Cercados por mortos que andavam, sem fogo, atordoados pelo assalto de neve, não tinham qualquer chance.

Um sopro de Drogon, porém, iria resolver tudo.

Forçando bem o braço dolorido, ela o jogou para trás, ficou girando umas três vezes, até que golpeou o lado esquerdo de seu filho com toda a sua força; ele reagiu como ela queria – fúria afoita. Virou-se em direção ao chicote, como indo atacar o atacante invisível. Não tardou para Dany estar vendo as imagens pequenas e barulhentas dos homens, que pareciam uma mancha que ficava mudando de forma conforme ela avançava com seu filho. Mesmo em menor número o exército abaixo dela era destemido, mantendo-se firmes, sem recuar ante os inimigos.

Quando estava praticamente por cima do campo de batalha (que mais parecia um abate cruel), descendo numa diagonal até ficar perto do chão, falou:

Dracarys! — Daenerys era uma rainha; sabia que eram baixas aceitáveis. Mortos apenas aumentariam o exército inimigo.

Imaginou que muitos tenham tido tempo de virar o rosto para o céu, em direção a luz que se desabrochava como uma flor cruel. Os gritos, agora que estava mais perto, eram ainda mais altos. No fim, porém, tanto carne quente e viva, quanto morta e fria, queimaram ao serem dardejadas pelas flamas de Drogon.

Dany tentou abafar os gritos em sua mente, mas parecia impossível; nem mesmo o vento cortante os impedia de fustigar seus ouvidos. Lutou contra a gritaria, lembrando-se que dragões não choram. Irredutível, estalou o chicote de elos mais uma vez, guiando seu filho pelo campo, ao mesmo tempo bradando “Dracarys!” enquanto o fazia. O cheiro de carne podre queimando subia, queimando suas narinas, fazendo os olhos da rainha lacrimejar. Nem mesmo o trovoar de asas de seu Wyvern pareciam abafar as centenas – talvez milhares – de vozes lá embaixo.

Enquanto dava voltas no local, Dany não estava esquecida do verdadeiro inimigo – seu filho ressurgido iria atacá-la novamente, disso não havia dúvidas.

Onde estava ele? sabia que o inimigo temia seus dragões; logo a impediriam de queimar tantos integrantes de seus exércitos.

As labaredas subiam, subiam, subiam. Os corpos eram como tições – enegreciam conforme queimavam; o corpo se contorcia. Os vivos corriam de sua rainha, apavorados. Dany lutava para não enxergar a cena.

num chofre, Drogon foi ao chão; Daenerys quase foi jogada da cela, não fossem as correntes.

Quieto como a lâmina de um homem sem rosto, Viserion desceu dos céus, como uma flecha indo até o alvo. Cuspido pelas nuvens, aproveitando-se da distração da escuridão, do ataque de Daenerys, ele conseguiu atingi-los, mesmo em voo, acertando por pouco sua outrora mãe e atingindo com tudo às costas do antigo irmão de fogo.

O impacto foi quase pior que o anterior, considerando os ferimentos já causados pelo primeiro. Cinzas de corpos voaram como flocos de neve quando o corpanzil de Drogon chocou-se contra o chão, se arrastando um bocado por ele, esmagando qualquer pobre coitado que ainda estava vivo no caminho forçado. Quanto a Daenerys – seu corpo pareceu ficar em mais agonia do que nunca; o braço do “chicote” estava quebrado, ficando molenga, agonizante; sua virilha parecia ter sido rasgada, sangue escorrendo até as pernas. Sua cabeça não estava tão dolorida, mas, não fosse seu gorjal, talvez seu pescoço tivesse quebrado, pois estava dolorido por toda a região. Além do braço partido, seu tórax também doía, principalmente conforme ela respirava. Talvez tivesse quebrado alguma(s) costela(s).

O primeiro ato de Daenerys depois de sua queda foi escarrar sangue. Sua boca inteira parecia ter sido esmagada por pedra – alguns dentes pareciam ter se partido, provavelmente ou se quebraram e/ou ficaram soltos com o impacto cruel da queda. Dany sentiu um deslizar pela sua boca, mas não fazia ideia de qual dente havia sido, nem se importava com tal coisa no momento. Sua língua também doía como nunca antes; não apenas uma dor causada por uma simples mordida – parecia estar com um pedaço esfacelado, pendendo como um filete agonizante de carne. Cuspiu mais sangue, atordoada com a imagem de como estava estraçalhada.

Gemendo de dor – quem sabe estivesse com tanta dor que nem de gritar era capaz? –, Daenerys usou o braço bom para se apoiar na cela que tinha, forçando-se a prumar. Sua cabeça era como se fosse um ovo de dragão prestes a explodir.

Drogon não gritava de dor; apenas parecia fazer um amuado guinchar alongado; um tipo de ganido de serpente. Estava estirado no chão, sem fazer nada para mover-se. O brio dele estava apagado. O dragão, antes excelsior, parecia, agora, pronto para o abate.

Os barulhos feridos de Drogon eram uma espada flamejante perfurando coração de Daenerys. Lágrimas escorreram enquanto se deixava cair, flácida, na cela. Estava ferida, cansada. tudo estava perdido. Ela não era um dragão, não de verdade – era apenas uma jovem mulher, fraca, enlutada pelo seu filho morto, incapaz de salvar os outros vivos.

(Lembre-se de quem é, Daenerys. Seus dragões lembram, e você?)

Viserion. Ele logo viria, ela sabia. Estavam ambos enfraquecidos demais para lutar contra ele – bastava um ataque (fosse de garras, dentes, ou mesmo seu simples peso contra seus frágeis corpos), tudo estaria terminado.

Pensando nisso, logo uma pergunta surgiu na mente de Daenerys: como ainda estamos vivos?

Olhando em volta, vendo as formas de corpos enegrecidos, entortecidos, enquanto as chamas cobriam a rainha e seu filho como muralhas, Dany entendeu: Viserion não ousaria atacar. Não com todo aquele fogo em volta: provavelmente ele não tinha mais tanta resistência às chamas; O Inimigo não se atreveria a perder sua principal, não com a vitória tão próxima.

A chama excelsa em Daenerys reacendeu. Ela ainda era Mãe dos Dragões. A Khaleesi do Mar Dothraki. Não se rendia tão facilmente. Tomou ar, como que para aumentar o fogo em si, reergueu-se no dorso de Drogon.

Não havia tempo a perder. Os Outros poderiam jogar outro vento contra os vivos, apagando as chamas, matando os que sobraram. Tinha de agir – AGORA!

O braço quebrado – tinha de ignorá-lo. Gemendo de dor, remexeu-se um pouco, até a corrente deslizar pelo braço flácido. Com a mão que funcionava fez o possível para dar uma volta da corrente pelo membro quebrado e pela cintura. Lágrimas deslizaram pela sua face durante todo o processo. Dany não tinha nada para morder, de modo que imitou Stannis Baratheon, apertando o maxilar com toda a força que tinha. O sangue se acumulava na boca, vazando pelos lábios, escorrendo pelo queixo. A fumaça acre enchia seus pulmões, de modo que tentava segurar a respiração. Seu corpo, brilhante pelas chamas, perspirava sem parar, fazendo várias partes de seu corpo (nariz, queixo, orelhas) pingarem. O suor unido ao sangue.

Quando conseguiu, deu um puxão nos elos, apertando mais o braço contra o corpo. Sem conseguir se conter, acabava tendo espasmos de dor. A mão quase largava a corrente, mas Dany manteve-se firme. As placas de aço preto estavam amassadas em diversas partes da armadura, de modo que temia que alguma parte tivesse, além de esmagado pele e osso, tivesse cortado alguma região importante, criando algum sangramento sério. Se fosse o caso, não teria como saber, nem como parar. Sangraria até morrer.

Não. Não pensaria nisso. Ainda estava viva. Isso era o que importava.

Cuspiu o sangue acumulado em sua boca, antes que acabasse por engolir e/ou engasgar com ele. O líquido grosso escorreu por todo o queixo, respingando na armadura amassada. Engoliu o ar pela boca. Sua cabeça ficou estranha por um tempo, meio atordoada, meio leve. Ficou zonza, manchas brotavam nos olhos. A cabeça parecia pesada, o queixo tocando na armadura… O corpo pendeu para frente…

Sabendo o que viria a seguir, por reflexo, deu um puxão com a mão, esmagando o braço quebrado. Grunhindo de dor, irritada, acordou num chofre. Sentia-se um animal. Não apenas um animal abatido, mas um animal que, ao ser encurralado, não fugia da briga.

Apertou os dedos em volta dos elos. O metal não estava frio, nem morno – estava quente. Tentando sentir alguma firmeza, apertou, balançou um pouco. Não podia ouvir o cantarolar dos elos, pois seus ouvidos estavam surdos com um zumbido interminável.

(Você é do sangue do dragão. Lembre-se de suas palavras.)

— F-fogo… — gemeu, erguendo o braço. — E… Sangue…!

Numa fúria dracônica, ergueu o braço, não deixando a corrente escapar por entre os dedinhos que tinha. A ponta da corrente acertou suas costas, fazendo aço retinir contra aço, antes dela jogar a mão para frente, fazendo a junção de elos formarem outro aro no ar, a ponta atingindo o pescoço de Drogon.

Nada. O animal nem mais se mexia.

Dracarys… — murmurou Dany. O animal nem deu sinal de ouvi-la.

Ignorando a dor, ela repetiu o gesto. De novo, de novo, de novo, sem parar, sem se importar com a dor.

— Drogon! — ela gritou com a pouca força que tinha. — Sōvēs!

O dragão negro pareceu fazer um som irritado, mas não moveu-se.

Dany olhou em volta. O fogo diminuia. O fim estava próximo. Viserion, seja lá onde estivesse, logo saltaria como uma serpente para dar o bote final.

Um som de trovões surgiu.

Dracarys! — falou, o sangue ardendo na garganta. — Dracarys, Drogon!

Sem parar, Daenerys manteve as chicotadas. Alguns elos já estavam quebrando com os golpes.

Tinha de ser destemida; seu filho desprezava fraquezas. Tinha de ser firme.

Por fim, quando os sons aumentavam, Drogon começou a mexer-se novamente, espantando a neve. Ergueu a pequena e chifruda cabeça. Começou a abrir a boca, mas parecia estar fraco até para realizar tal ato.

— Dracarys! Dracarys! DRACARYS!!!

O vermelho foi expelido da boca escancarada de Drogon, aumentando as chamas do local, derretendo a cobertura de neve que se acumulava.

Dany logo percebeu que sorria, mas nem sabia o porquê. Sabia que não podiam ficar ali para sempre – não apenas precisavam garantir a morte de Viserion; tinham de ajudar a salvar os vivos contra a Longa Noite.

Que assim fosse, então – era o momento de mais uma batalha nos ares. Mais uma vez, mãe contra filho. Irmão contra irmão.

Sōvēs! Sōvēs, Drogon!

Não foi preciso de mais um ataque das correntes. Seu filho entendeu de primeira. Estavam conectadas no que parecia ser a batalha decisiva. Rugindo tanto de dor quanto de fúria, seu primogênito abriu as asas, começou a abaná-las de forma parca. O corpo, talvez por estar ferido demais pela queda, ao invés de caminhar, ou mesmo claudicar, deslizava pelo chão de terras, neve, cinzas e morte. Era como se Drogon fosse uma imensa serpente alada. Fumaça saia em mais quantidades das narinas dele, mostrando seu esforço para permanecer em pé.

O som do trovão parecia aumentar conforme a audição de Daenerys retornava. O coração dela batia junto das asas de seu primogênito, mas sabia que o ribombar não era apenas dele – era de seu falecido filho, tentando alcançá-los antes de voar.

Dany não se virou, nem olhou para cima, apenas fitava a cena à sua frente. Não temeu a escuridão, pois sabia que precisava passar por ela para tocar na luz.

Atiçando mais seu filho, ela voltou a açoitá-lo com o chicote-corrente. Ambos se enchiam de vida conforme Drogon batia mais as asas, ignorando a ferida imensa em uma delas. O vento fustigava Daenerys e ela amava essa sensação. Era como estar viva novamente. A dor era passageira para o sangue do Dragão, pois o calor a tudo curava.

Finalmente achando força nas pernas, Drogon saltou para os céus, como antes. Mesmo lento, fraco, com um bater errático, ele ainda era um dragão. Ainda podia ser a sombra alada que queimava os céus.

Rugindo em desafio à noite, o Wyvern, sem hesitação qualquer, foi até o céu de trevas. Não temia o frio, não temia a morte.

A cortina de nuvens logo foi perpassada pelo serpenteante Drogon, que avultou-se contra a parede enregelante. A camada era densa, pois não parecia ter fim. Mesmo com o gorgolejar afoito de fogo, nada parecia dissipar a bruma densa que invernava o mundo. todavia, não estocou o braço; tinha que instigar Drogon.

Dany em momento algum olhou para trás, mas não precisava – sabia que seu filho mais jovem estava logo atrás.