Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
61 Prometida
Margaery viandou pelo terreno coberto de neve fresca, quase que a esmo no ermo. Apenas seguiu o som de aço contra aço. Logo, ela sabia, encontraria seu futuro noivo.
A neve caia assaz, cobrindo o terreno por inteiro com sua cobertura branca, gelada e açucarada. Onde muitos homens passaram e cavalos haviam trotado, formaram-se sulcos, que misturavam neve e lama, fazendo uma camada de lambança.
As fogueiras esparsas de sacerdotes vermelhos rebrilhavam na treva, criando focos de luz bruxuleantes que variavam de tamanho e cor. Guerreiros e, principalmente, plebeus apinhavam-se ao redor das figueiras, protegendo-se contra o friúme dos ventos, enquanto ouviam as preces infieis dos sacerdotes dos malditos sacerdotes que Daenerys trouxera consigo do Mar Estreito.
Margaery tentava os ignorar, andando sem olhar para os focos de luz ardente que estavam à sua volta; mas era difícil fazer ouvidos moucos para as tagarelices dos sacerdotais rubros, fossem elas em valiriano ou na Língua Comum.
Odiava toda aquela situação.
Enquanto chegava ao Pátio da Corrente de Pedra, Margaery olhava para diversos locais, tentando achar Lorde Brynden, sem sucesso.
Para tentar passar despercebida, subira o capuz de seu manto, diminuiu a luz de seu lampião, com cuidado para não apagar por completo a luz. Seu manto de lã grossa e azul-escuro, sem grande riqueza ou qualquer adorno, ia esconder seu belo vestido verde-samito, debruado em cetim branco e com pérolas no peitilho. Com sorte, a aba larga de seu capuz calharia de escondê-la bem — além do mais, ninguém a esperaria nesse Pátio, onde apenas guerreiros e seus ajudantes passavam o tempo treinando.
Não apenas de homens encontravam-se a treinar as artes da guerra no local; mulheres adultas também treinavam: usavam lanças, arco-e-flechas, espadas, envergavam cota de malha e couro fervido como se fossem simples vestidos.
Muitas delas, Margaery sabia, eram fêmeas do Povo livre e da Ilha dos Ursos; entretanto, muitas mulheres da plebe ou de alguma casa nobre tomara coragem para treinar entre os homens.
Mulheres guerreiras! Eram malditas mulheres guerreiras! Onde o reino ia acabar se continuasse assim?
Não apenas a barreira dos gêneros fora esquecida; a idade, também, nada significava para a corte insana de Daenerys e Jon.
Foi uma surpresa para Margaery ver que tantas crianças estavam a treinar entre adultos: garotos e garotinhas usavam adagas, espadas pequenas e lanças, golpeando estafermos, enquanto eram chefiados por adultos de olhar duro, que escrutinavam os gestos dos mais novos, sopesando-os, para garantir que estavam bons para combate.
Surpreendentemente, muitos dos jovens estavam com ferocidade no olhar e nos gestos: sabiam onde atacar e como atacar, atingindo principalmente as pernas. Quando observou alguns fingindo ataques a adultos reais, que tentavam agarrá-los e impossibilitados de continuar a se mover, percebeu que as crianças pulavam ou rolavam sobre si com extrema sagacidade e leveza, conseguindo fugir dos golpes, ficar atrás do inimigo, onde conseguiam achar um local exposto para atacar. (Como era um treinamento, ninguém era realmente ferido, mas podia-se imaginar que os pequenos-guerreiros-infanto acabariam por furar/cortar qualquer nesga de pele exposta que vissem; fosse com as facas ou com a ponta de lanças, ou mesmo alguma pedra que achassem disponível.)
Uma jovem de olhar duro, pouco mais velha que a maioria dos guerreiros que observava, estava a esquadrinhar os infanto-soldados atacando seus oponentes. Usava couro fervido com taxas de ferro, com um urso negro cozido no torso de sua veste. Devia de ser a tal Lyanna Mormont. (A cara feia e franzida entregava mais a sua linhagem do que o brasão na roupa.)
Não bastava o exército de estrangeiros e pagãos, agora vão corromper crianças!? A cada dia que passa uma nova absurdidade toma conta dos Sete Reinos!
A cada dia que passava, Margaery cada vez mais notava o quanto o reino encontrava-se ameaçado pela presença Stark-Targaryen: o Rei do Norte (ou Rei do inverno, como percebeu que alguns o chamavam, talvez dado a palidez de seu rosto ou ao ambiente extremo atual) provara-se um insano: deixando selvagens invadirem o reino, dando-lhes cota de malha, armando mulheres e crianças para massacrarem gente civilizada; tudo com a promessa absurda e paranóica de que tudo era para combater a “Verdadeira Ameaça”.
Daenerys não ia nada longe: seus exércitos eram tão selvagens, senão mais, do que os de seu consorte: Dothrakis estupradores e saqueadores, falsos soldados estrangeiros que atreviam-se a envergar armaduras de cavaleiros ândalos e usarem seus títulos, sacerdotes pagãos que transmitiam suas mentiras encantadas para enganar os tolos; além de tudo isso, ainda trazia consigo uma cruel e faminta fera de fogo que consumia tudo que podia queimar.
Juntos, todos eles iam de trazer mais caos e morte para os reinos; trazer ainda mais devastação até que nem mesmo as cinzas sobrassem.
Margaery precisava detê-los!
Os ventos frios e o barulho de espadas a enrodilhavam. Com o passar do tempo, vendo que não achava Lorde Brynden, pensou em voltar para os aposentos da princesa Sansa, sentindo-se cansada.
Ainda seguindo seu caminho a esmo, ela relanceou o Rei Stannis Baratheon, que analisava, carrancudo, os soldados, enquanto falava algo com Lorde Edmure, ao seu lado.
Margaery observava as duas figuras a distância, sem poder ouvir o que o tio de Sansa sussurrava no ouvido de Stannis. Ao ver aquele terceiro monarca, ela lembrou-se de como aquele homem duro e cruel estragara os planos do falecido pai de Margaery, como matara Renly e isso acabou por abalar Loras.
Era estranho como tudo isso parecia, agora, distante e pequeno para ela. Em outros tempos, imaginava, teria proferido pragas (mesmo que internas) para Stannis Baratheon e sua maldita bruxa. Agora, entretanto, percebeu que era preciso ver Stannis para que lembrasse que o odiava e o porquê.
Renly nunca foi nada para mim, refletiu, lembrando-se de como era belo e galante aquele que fora seu primeiro marido. O sonho de toda donzela — mas que nunca se interessara por qualquer um delas. Um fanfarrão que ia fazer a Casa Tyrell ficar mais próxima do trono; é isso que Renly Baratheon fora, e, infelizmente, morrera antes de completar tal missão.
Dois escudeiros passaram por ela, girando um imenso barril cheio de areia, que servia para limpar as cotas de malha que estavam dentro do objeto. Deu espaço para que passassem, ficando de lado, ainda mais distante do Rei e do Lorde Supremo do Tridente.
Mas o que Edmure está falando com Stannis?, ela perguntou-se. Tinha que saber mais de Edmure; saber se ele e sua influência sobre os vassalos do Tridente era grande ou não. Apesar de parecer evitar a sobrinha mais velha, Margaery não tinha esperanças de que ele estaria disposto a deixar a família de lado e até voltar-se contra eles.
Afastando-se mais de onde estava, acabou por ver um sujeito familiar.
Lorde Lyle Crakehall estava a lutar contra dois homens ao mesmo tempo, bloqueando-os com sua espada bastarda. Os golpes e avanços dos inimigos em nada adiantava, com o Lorde de Darry mantendo-os à distância.
O falecido irmão de Margaery, Sor Garlan, também gostava de treinar contra três inimigos de uma vez; isso o deixava preparado para futuras lutas intensas que talvez tivesse de travar.
Isso não o salvou de um golpe sorrateiro enquanto dormia, entretanto.
No fim, Sor Lyle acabou por derrubar dois homens na lama gelada e amassou o capacete do terceiro até que este também veio a tombar, largando a espada. Sem olhar para nenhum deles, Sor Lyle virou-se, deixando o local, enquanto escudeiros e servos foram a auxílio dos soldados caídos — estavam especialmente preocupados com o terceiro, que, logo Margaery viria a descobrir, acabou por cair num sono do qual nunca acordaria. O estrago dos golpes fora tanto, que o elmo nunca nem pode ser retirado.
Lorde Crakehall tirou o próprio capacete do rosto, indiferente aos homens que acabara de ferir e a algazarra atrás dele.
Um homem bruto e cruel.
Tomando coragem, Margaery bateu os calcanhares até o Lorde de Darry.
— M’lorde — ela o chamou, preferindo usar do modo errado para pronunciar o título nobre. (Sua voz estava melhor, mas ela torceu para estar enrouquecida o bastante para não ser reconhecida por pessoas em volta.)
Quando ela aproximou-se dele, o homem a olhou de soslaio, franzindo o cenho, enquanto entregava o capacete para um escudeiro. Ao reconhecer o rosto de Margaery, ele afastou as grossas sobrancelhas.
— Ah, Lady… — Parou de falar, virou-se, dispensou o escudeiro com um gesto, voltou a olhar para ela. — Acompanhe-me, por favor.
O raciocínio é rápido, percebeu ela.
Assentiu e seguiu ao lado dele, enquanto alguns soldados continuavam a lutar em outros locais. Os três feridos por Sor Lyle foram levados até um meistre.
Sansa não consagrou esse homem em sua ordem de cavalaria, pensou, enquanto analisava o homenzarrão ao seu lado, com barba negra desgrenhada, salpicada de cinza, olhos aracnonegros, ombros altos. Era um homem feio, mas não era isso que ela precisava no momento.
Virou o rosto. Nenhum dos dois se olhava quando começaram a falar.
— Em que posso ser útil? — indagou ele, olhando para o lado, fingindo interesse na luta entre dois jovens nortenhos que lutavam com espadas embotadas.
— Sabe me dizer onde encontra-se Lorde Brynden?
Ele virou o semblante, olhando para frente.
— Hmm… Creio que está no Salão das Casernas, com seus homens de armas. — Após um tempo, ele falou: — E com Lorde Jonos Bracken, creio. — Acrescentou ele.
Margaery manteve-se firme em seu andar, mas quase vacilou ao ouvir o nome do Lorde de Barreira de Pedra. Bracken e Blackwood odiavam-se, por qual motivo estavam a se falar?
— E… Anda tudo bem com o Lorde Bracken e o Lorde Tully?
O homem deu um rápido descer e subir de ombros, enquanto acompanhava uma carroça de armas que passava por eles com o olhar e a cabeça.
— Ouvi que brigaram esses tempos — respondeu, olhando para a carroça, que afastava-se deles. — Não tenho certeza. Mas eles não tem se falado há um certo tempo.
— Algo relacionado a casamentos, imagino? — ela sugeriu.
— Pode ser. — Ele voltou a olhar para frente. — Pelo que soube, Lorde Jonos não está contente em ter de casar sua filha mais velha e herdeira com o Lorde de Corvarbor.
— Uma sugestão da princesa Sansa, de certo — comentou Margaery. Nem tinha certeza se estava certo, mas quanto mais confusão, melhor.
— Não tenho dúvidas.
— Bem, obrigada pela ajuda, milorde. — Continuou: — Eu gostaria que nossa conversa…
— Margaery Tyrell nunca esteve nesse pátio — ele atalhou, afastando-se dela, a passos largos..
Bruto, mas sagaz.
Talvez ela devesse ter voltado aos seus aposentos com a princesa Sansa, mas a ansiedade de ter ouvido sobre Brynden se encontrando com Jonos. Girou os calcanhares até a Caserna.
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O Salão das Casernas era perto do pátio, sendo usado pelos homens de armas para fazerem suas refeições. Por sorte o local não tinha tantos degraus para subir — mas nem por isso tinha poucos, de modo que os pés de Margaery estavam doloridos quando ela chegou ao topo, quase ofegante.
Deixando o lampião de lado, ela andou pelo local, observando as pessoas que andavam pelo local, muitos eram servos levando travessas com comida e algumas taças. Mesas de montar, encimadas por velas de sebo e junco, estavam esparsas ao longo do imenso salão, com diversos soldados sentados em volta delas, comendo, bebendo e compartilhando suas histórias uns com os outros. As vozes formavam uma algazarra de som que ribombava pelo ambiente cavernoso.
O vapor das comidas se unia com a fumaça dos archotes, velas de sebo e juncos e lareiras no chão, tornando o ambiente sufocante e ardente para os olhos. O cheiro de comida gordurosa também enchia o ambiente.
A maioria das pessoas assentadas em volta das mesas eram homens — alguns com mulheres sentadas em seus colos, usando vestes finas e transparentes, impróprias para o enregelar do inverno no qual se encontravam, muitas com os seios expostos para quem quisesse ver —, mas era possível ver muitas mulheres guerreiras sentadas em seus próprias mesas e conversando entre si. Uma ou outra tinha a coragem (e/ou audácia) de assentar-se entre os homens, como iguais, rindo e compartilhando de suas próprias histórias.
Margaery andou pelo recinto, sentindo o cheiro de cerveja pesada e junco queimado. A fumaça ardeu em seus olhos, fazendo-a piscar e expelindo lágrimas, que escorreram pelas suas bochechas anguladas, ardendo-as.
Andou a esmo pelas mesas oblongas, quase esbarrando em algumas das figuras sentadas, que erguiam os braços em brindes ou brandiam espadas e punhais, prometendo matar o inimigo, como um bando de desmiolados desbaratados. Um até chegou a subir na mesa, brandir a espada no ar, proferindo que ia matar o dragão do falso rei Aegon.
Toda aquela algazarra lembrava Margaery dos imensos e fartos banquetes que seu falecido primeiro marido dava durante a sua campanha para tomar o Trono de Ferro. A comida servida era melhor do que a gororoba de Harrenhal, mas, de resto, era sempre assim: jovens cavaleiros galantes iludidos, achando que teriam canções sobre suas glórias em batalha.
No fim, a grande parte estava agora morta, sem nenhuma canção lisonjeira.
A maioria morrera na batalha contra Aegon VI, em Ponta Tempestade, ao lado do pai de Margaery.
(Batalha era uma forma bonita e eufemista de descrever tantas mortes: abate seria o termo mais correto, visto que o exército Tyrell foi massacrado pelo inimigo: cavalos e homens de armadura afundando na lama; espinhos e buracos escondido nos atoleiros enlameados; a água do céu caía copiosamente, atrapalhando a visão dos soldados; enormes elefantes de armadura assustavam as montarias dos soldados da Campina, esmagavam-os com suas poderosas patas redondas; arqueiros das Ilhas do Verão, usando seus belos arco de Coração de Ouro, atingiam com maestria as pessoas no campo, mesmo a vários metros de distância, sem nem sair das seguras ameias de Ponta Tempestade.
Os sobreviventes do massacre enlameado tentaram retornar a Porto Real, apenas para serem mortos por Randyll Tarly e seu exército de traidores.
Aegon não tinha nem um dragão na época, mas, mesmo assim, sem nem sair do castelo dos Baratheon, havia massacrado o principal exército do Trono de Ferro. O caminho estava livre.
E assim foram-se os cavaleiros de verão, enterrados na lama do inverno.)
Três homens, sem camisa, começaram a lutar entre si, trocando socos entre si, enquanto outros soldados começaram a urrar com a cena de briga. Em uma mesa, dois outros, mais jovens, começaram a brigar, agarrados um nos outros, esmagando as velas e tigelas, fazendo-as cair no chão. Um homem deitou uma jovem mulher na mesa e começou a trepar com ela na frente de todos; um guerreiro tomou coragem e tentava sequestrar uma selvagem para si, enquanto esta o mordia e chutava, aos risos; um Thenn beijava uma prostituta dos sacerdotes vermelhos, enquanto massageava os seios pontudos e escuros de; uma esposa de lança lutava contra um sulista do Tridente, pois este estava irritado com mulheres lutando; la.
Os homens estavam agitados, percebeu Margaery. Estavam com os nervos à flor da pele, ansiosos por estarem tanto tempo imóveis no castelo esquisito e assustador de Harren, o Negro. E, com o tempo, isso ia piorar.
Perto de uma parede adjacente à outra, percebeu que estava Lorde Blackwood, e, sentado à sua frente, um homem que ela reconheceu como Lorde Bracken. Enquanto muitos no salão gritavam, a mesa com Brackens e Blackwoods estavam quietos.
Margaery, agora sabendo qual senda seguir, andou até o local, passando por uma prostitute de roupas rasgadas e mãos cheias de moedas de prata, ouro e cobre. (Havia lágrimas no rosto da mulher.)
Quando aproximou-se da mesa, atrás do lorde Bracken, parou, hesitante. Brynden Blackwood estava pensativo, olhando para Lorde Jonos, afônico. Um de seus companheiros murmurou algo em seu ouvido, ele ergueu os olhos negros, achando a figura de Margaery. Voltou a relancear o Lorde a sua frente, limpou a garganta, falou:
— Lorde Jonos, agradeço pela sua companhia, mas ainda tenho de pensar no que me disse. Se me der licença…
O Lorde de Barreira de Pedra assentiu, levantou-se, junto de seus homens, girou os calcanhares, afastou-se da mesa. Margaery temeu que ele a visse, mas ele nem pareceu ter lhe visto ali.
Quando os soldados Bracken afastaram-se, Lorde Tytos gesticulou com a mão, indicando que Margaery poderia se sentar, que ela fez com rapidez.
Ao assentar, ela não afastou o capuz, com medo de ser reconhecida por quem por ali passasse.
— Milady — saudou o Lorde de Corvarbor. Devia ter em torno de quase 30 anos. (A própria Margaery percebeu, um tanto assustada, que não estava mais tão longe dos 30 dias de seu nome.) Os olhos escuros dele a fitaram, iluminados pelo fogo das velas, ansiosos por uma resposta dela.
Margaery umedeceu os lábios, que pareciam secos.
— As coisas andam bem com Lorde Jonos Bracken, espero?
Ele aquiesceu, pegando uma caneca de cerveja preta do norte, tomando um longo trago, fazendo seu gogó subir e descer algumas vezes. Quando terminou, pousou a caneca na mesa, limpou a boca com as costas da mão. Apesar disso, o queixo ainda estava sujo, com uma mancha preta na ponta.
— As coisas não andam bem entre ele e Edmure — respondeu.
Margaery assentiu.
— Então, ele veio até você?
— Quase… Temo-nos visto desde… desde o casamento de meu irmão.
Ela anuiu novamente. Olhou para os colegas de Brynden, que estavam quietos, com alguns olhando para ela, para o lorde, ou tentando desviar o olhar. Margaery relanceou Lorde Blackwood.
— Podemos falar em outro local? — ela sugeriu.
Brynden assentiu, levantou, andou até o outro lado da mesa, tomou a mão de Margaery, que levantou e pôs-se ao lado dele.
— Companheiros, aproveitem a cerveja até eu voltar! Curtam bem a noite, rapazes, pois logo chegam as xotas para ajudá-los a dormir!
Os colegas de bebida ergueram as canecas de cerveja, urraram e brindaram ao seu lorde.
Margaery e Brynden afastaram-se da mesa, andando por entre as mesas apinhadas de pessoas.
— O Rei do Norte tem parado de cobrar pela cerveja — comentou Brynden, enquanto andavam pela algazarra.
Ela o olhou de esguelha, surpresa.
— O Rei cobrava?
Brynden deu um riso com escarninho, abafado pelos lábios selados.
— Cada moeda contava para saciar o Banco de Ferro, Milady. Agora, acho que isso já não faz diferença.
— Ah.
— Ele tem nos dado algumas putas também — continuou ele. — Os homens andam agitados, como você bem deve ter percebido. As brigas e o desejo tem aumentado constantemente.
— Então — ela continuou por ele —, toda a noite, existem bebidas e orgias.
Brynden anuiu.
— Muitos pagam as mulheres uma boa quantia pela noite. Acredite, não vai querer estar aqui quando as mesas e cadeiras forem retiradas e deixarem apenas algumas almofadas. Nesse momento nós, homens, temos, bem… necessidades. — Continuou: — É difícil separar o que é uma prostituta e o que é uma serva. Ou, então, uma guerreira selvagem; nem se é muito velha ou muito jovem. — Finalizou: — Bem fizemos em afastá-la.
Margaery anuiu, um tanto enojada. Aquele lorde falava de sexo e estupro de forma muito leviana para seu gosto.
Não importava, não estava ali para isso.
— Foi Lorde Lyle Crakehall quem me falou que estava aqui.
Brynden relanceou-a pelo canto do olho.
— Então…
— Ele não gosta da princesa Sansa.
— Humpf… e quem ainda gosta? Ela simplesmente deixou-se seduzir pelo O Esfinge! Envergonhou a todos nós!
Margaery fungou, pensando que ainda não era o momento para Brynden estar a par de tudo.
Quando saíram do Salão, desceram as escadas íngremes. O som das pessoas dentro da Caserna ainda reverberava pelo caminho.
— Você deu as ervas para Lady Wynafryd? — Margaery indagou, sem circunlóquios.
Lorde Brynden a olhou de soslaio, voltou a olhar para frente.
— Eu… não consegui. Mas garanti que Hos bebesse todas as que você me deu, Milady.
Incompetente! Mentiroso!
Margaery respirou fundo. Aquele jovem lorde havia claramente dado as ervas para o irmão e deixado que Wynafryd fosse abusada pelo irmão. Era depravado, cruel… mas que mais ela poderia esperar de alguém que concordara com o plano sórdido de Margaery? Ela sabia dos riscos e o fez mesmo assim.
O problema era que os que mais pagavam pelos seus erros e atitudes, eram os inocentes.
Ninguém mais é inocente, disse a si mesma.
— Bem — ela disse —, pelo que vejo, a vida de casado não lhes fez bem.
Ele apenas deu de ombros.
— Desde que meta um filho nela, que mal tem? A criança herdará a fortuna Manderly. Porto Branco, todos os cales, sua frota, minas de prata, Castelo Novo… tudo irá para os Blackwood.
— Se seu irmão botar um filho nela, no caso — contrapôs ela, um tanto irritada pelo comentário cruel dele.
— Isso pode ser resolvido — retrucou ele, sem parecer abalado. — Podemos usar aquelas ervas novamente.
— Não sei se conseguirei mais… — ela respondeu, sabendo que dificilmente Arya lhe daria alguma erva afrodisíaca. Ademais, nem sequer queria dar afrodisíacos para o casal outra vez.
— Pode tentar?
— Hã… Eu não sei…
— Eu agradeceria se o fizesse. Afinal, andamos muito longe para parar agora.
Existe uma ameaça velada nesta frase?
— E o quão mais longe Milorde estaria disposto a sair? — inquiriu ela.
Brynden parou de andar na escada, o que fez Margaery também sustar seus passos. Ambos viraram e encararam-se. Blackwood a olhou com seus olhos escuros por um tempo.
— Tire o capuz — ele disse, monocórdio.
Margaery afastou o capuz do rosto, revelando sua face de bochechas altas e ovaladas, olhos grandes de corça, pele perolada, nariz arrebitado, lábios em formato de botão de rosa. Toda ela era iluminada pela luz de um archote que estava perto deles, salpicando-a de ouro fulgente.
Os olhos escuros de Brynden ficaram mais escuros conforme ele esquadrinhava sua face. Sua face longa ficou rubra.
— Soltai os cabelos. — A voz era embargada. Os olhos estavam cravados na boca apetitosa dela.
Ela levou uma mão até a nuca, bagunçando os cachos espessos, enquanto meneava a cabeça. Logo, seu brilhante cabelo caia até seus ombros, em ondas castanho-queimadas.
Lorde Blackwood respirou fundo, cravando o olhar na mulher à sua frente. Sem que ele nada falasse, Margaery afastou o manto, revelando a roupa verde-samito e o cinto de miosótis que circulava em sua cintura fina. O decote quadrado era alto, mas ainda mostrava os pequenos seios dela.
Brynden desceu o olhar, percorrendo a figura esbelta de Margaery, com os olhos ficando mais escuros pelos desejos que passavam pela sua cabeça. Ele sustou o olhar no peitilho dela, e Margaery percebeu que ele engoliu seco e umedeceu os lábios. A respiração dele pareceu ficar tensa. Imaginou que ele estava bêbado, pois o cheiro forte de cerveja saía da boca dele, que estava entreaberta.
Ela abriu a boca para falar algo e quebrar o silêncio; no mesmo momento, porém, Brynden a pegou pela cintura, apertando-a com a palma, puxou-a para si, beijou os lábios dela. A língua dele era quente, azeda pela cerveja nortenha; mas ela não reclamou, deixando-o deslizar para dentro dela, enquanto o lambia. Sentiu a taramela morna de Brynden passar por cada parte de sua boca, mesmo os dentes. Sentia a mão calosa dele pressionando os seus cachos e a sua nuca, forçando-a a ir contra a face dele.
Quando ele afastou, ela mordeu o lábio inferior dele, fazendo-o grunhir.
Quando tudo acabou, ambos estavam sem fôlego. Margaery podia ver o fogo no olhar escuro de Brynden, que a fitava com volúpia e surpresa, enquanto tocava a fenda rubra no lábio.
Por fim, ele afastou os dedos da ferida, sem tirar os olhos de Margaery.
— Eu a quero — disse ele, quase sem fôlego, ainda pressionando a cintura e as costas dela com seu braço forte, puxando-a para perto de si. Podia sentir o bater de seu coração, forte e agitado como um tambor. Sentia também o falo dele, duro, pressionando os calções, cutucando-a, da mesma forma que os pequenos seios dela estavam pressionados contra o corpanzil dele.
Margaery não se entregaria assim tão fácil. Ela estava de cabeça erguida, olhando-o nos olhos. Ainda sentia a mão dele alisando os seus cachos sedosos.
— Apenas após o fim de tudo isso.
Ao falar aquilo, foi como se a mente de Blackwood saísse de um transe, deixando de ficar anuviada. Ele vincou a cara, juntando as sobrancelhas.
— Eu a quero agora — retrucou ele, com raiva baixa no timbre.
Margaery bateu o pé.
— E eu estou dizendo que terá de esperar para me ter.
Deu um sorriso torto, um tanto ácido.
— Não é bom brincar com os desejos de um homem, majestade…
Ele está me ameaçando? Como se atreve? Segurou toda a sua fúria, impedindo o impulso de bater na face de Brynden, fechando a mão em um punho.
— Terá a mim e a minha donzelice quando provar-se digno dela.
O queixo de Brynden tremeu de indignação, um esgar formou-se em seus lábios. Antes que ele falasse ou fizesse algo, entretanto, fechou os olhos, inspirou fundo, tentando acalmar-se.
Margaery imaginava o que esse homenzarrão fanfarrão estava a pensar: em como ela era bela, delicada feita uma rosa, em como o corpo dela era maduro, mas ainda puro, como o de uma donzela. Ele pensava em como ela não era como uma prostituta com a qual ele poderia dormir; era uma dama de boa estirpe, bom nome, pronta para entregar o seu maior valor como mulher para. Talvez, quem sabe, ele não estivesse pensando na núpcia deles, com ela embaixo de seu largo corpanzil, fazendo um som choroso e banhando o pau dele com o sangue dela.
Era uma visão aterradora para ela; mas era excitante para homens como Brynden, que sempre procuravam alguma espécie de boa estirpe nos locais onde podiam enfiar o pau.
Ela levou uma mão até os calções dele, sentindo o falo duro atrás da lã. Fechou os dedos no cinto, puxando-o. Ouviu-o gemer de prazer, como se ela tivesse acariciando-lhe o pênis.
Margaery sentia-se suja ao fazer aquilo; entretanto, disse a si mesma que ia valer a pena no fim. (Pelo menos era no que queria acreditar.)
Finalmente, Brynden abriu seus olhos, lançando um olhar escuro e febril na figura de Margaery.
— Eu lhe entregarei a cabeça que for preciso.
— Mesmo que a cabeça em questão seja a de seu rei? — ela atreveu-se a indagar.
Ele fez que sim, sem hesitar.
— Jon Snow é um fraco! — declarou, com cólera. — Ele casou-se com a rainha das putas pois foi enfeitiçado pelos poderes sexuais dela, e pela promessa de ter o Trono de Ferro! E deixa as irmãs agirem como se também fossem putas libertinas! — Cuspiu nos degraus abaixo.
Voltando a encarar Margaery, Brynden soltou o braço da cintura dela, pegou uma das mãos dela, levou-a até seus pequenos lábios, beijou-lhe as pálidas costas.
— Nenhuma delas tem decência, diferente de vós, Majestade. — disse ele, com a voz embargada pelo desejo ainda potente. — Nenhuma merece os títulos de realeza.
Margaery sorriu. Ele estava mesmo perdido pelo desejo carnal e básico. Era algo primitivo; não impedia “grandes e valorosos guerreiros” de caírem nele, entretanto.
Levou uma mão até a bochecha dele, passando os dedos pela pele dele, sentindo-a quente e tensa ao toque. Tirou a mão dos calções dele, levando-as até o peito estufado dele, sentindo o coração ainda a martelar.
— Na hora certa — prometeu ela, num sussurro persuasivo e suave —, você me possuirá como a sua esposa, e eu serei tudo para você. Terá tudo de mim.
Lorde Brynden não falou mais nada, apenas estava com o olhar fixado nela, anuviado pelo desejo. A cabeça estava um pouco abaixada, a boca estava aberta, como que num convite para beijá-la.
Margaery circulou os lábios úmido de Brynden, sentindo a saliva e o sangue morno neles.
— Devo voltar aos meus afazeres agora — disse ela, sorrindo. — Divirta-se com as prostitutas, Milorde, pois vão ser seu único prazer até me ter.
Ele selou os lábios.
— Nenhuma se compara — ele reclamou.
Margaery apenas riu, ajeitou o manto, subiu o capuz, desceu na escuridão, escondendo o medo que tinha de cair, deixando-o ali, sozinho.
Que pensasse nela.
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Andar no ermo e no frio não foi uma tarefa fácil, mas, por sorte, Margaery logo retornou aos aposentos da princesa Sansa.
Foi uma surpresa quando, ao abrir a porta, viu que Daenerys Targaryen e Jon Stark estavam nos aposentos, falando com a irmã.
Todos viraram-se para a porta, vendo a figura de Margaery parada no umbral.
— Desculpe interromper… — ela disse, atabalhoada pela situação, sentindo o fluxo de sangue arder em suas bochechas.
— Não tem problemas, Margaery — atalhou Sansa. Voltou a olhar para o irmão. — É bom ter uma visita sua, irmão. Venha, vou mostrar-lhe o ótimo avanço que tive no meu trabalho de costura. — Ela andou e gesticulou para a enorme costura que encontrava-se perto do cadeirão
Margaery foi até perto do séquito de mulheres, enquanto a princesa falava com os dois monarcas.
— Onde você estava? — indagou Wylla, irritada, murmurando. O cenho estava franzido— Não foi até a Rainha?
Margaery deu de ombro.
— Queria pegar um ar após entregar os papeis — mentiu. Foi uma mentira dita de forma bem suave, o que sentiu que daria mais credibilidade; mas Wylla não pareceu agradada com a resposta, fazendo um estalo com a língua.
— Vejam só como é bela — falava Sansa ao irmão e a cunhada. Pegou o trabalho de costura. — Toquem, sintam como é macia!
O Rei do Inverno fez o que a irmã lhe pedia e esticou um braço, sentindo o tecido branco-prateado que Sansa erguia, deixando parte da bandeira enrugada.
— O lobo já encontra-se pronto — falou a princesa, com prontidão. — O dragão está quase no fim.
Seu irmão, o Rei, deu um meio sorriso, bem fraco.
— O trabalho anda bem rápido.
Sansa gesticulou para o seu séquito de damas.
— Tudo graças a minhas damas — disse ela. — Temos trabalhado dia e noite nisso. Quase sem pausas.
— A princesa é humilde no que fala — disse Wylla. — Ela é quem mais tem gastado tempo nesse trabalho.
As outras mulheres acenaram com a cabeça, em concordância.
— É de fato um trabalho esplêndido — comentou Daenerys, com um sorriso forçado nos lábios, parecendo desconfortável. Olhou para o seu consorte.
Jon Stark limpou a garganta.
— Bem, aprecio o seu trabalho, irmã, de verdade. Mas temo não ter vindo tomar seu tempo para botar uma boa conversa em dia.
Sansa soltou o trabalho de costura, aprumou-se, franziu o cenho, parecendo confusa, olhou nervosamente para as suas damas, depois voltou a fitar o irmão mais velho.
Jon olhou para todos no local, parecendo estar pensando no que falar.
Uma onda de nervosismo atingiu Margaery, que engoliu seco, com dificuldade. Seus dedos pareceram começar a tremer, mas ela os entrelaçou. Tentou manter a calma, fitando o Rei do Norte.
— O príncipe Bran viu a ameaça aproximar-se — revelou o Rei. — Temo que estejam aqui em menos de uma quinzena.
Todas as damas do séquito da princesa se entreolharam. Sansa levou uma mão até a boca, soltando um suspiro de horror.
— Após tanto tempo… tem certeza?
O irmão anuiu, com o semblante sério.
— Eu e Daenerys vamos anunciar para todos; mas vim avisar-lhe primeiro. — relanceou para todos no local, escrutinando tudo com seu olho de sangue enquanto o fazia. — Todos aqui devem preparar-se, pois A Longa Noite se aproxima.
Sem entender bem o porquê, ouvir aquilo fez um fio fino e enregelante subir pela espinha de Margaery, eriçando os pelos em sua nuca. Seu coração pareceu errar uma batida.
Por que estava tão assustada? A Longa Noite era apenas uma lenda...
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