A noite mais densa estava sobre o mundo, Arya podia sentir. O ar gélido era quase sólido, sendo amostrado pela baça bruma que impedia qualquer um de ver um palmo à sua frente.

— Devíamos de estar lá embaixo — ralhou Gendry, observando a figura esguia de sua princesa. Esta não lhe respondeu; continuou a olhar para mundo abaixo, rente a base da muralha de Harrenhal. Uma densa e gelada cobertura alva se sobrepunha sobre a pedra fundida. Presas de gelo cresciam na circunjacência da murada, como se fossem estalactites de cristal.

A neblina impedia-a de ter uma boa visão do campo — mesmo que seus olhos tivessem sido bem treinados. Contudo, Arya sabia que logo a ameaça estaria bem ali, atacando Harrenhal. Havia poucos focos de luz visíveis que podiam ser vistos; formiguinhas flamejantes que ziguezagueavam para lá e cá, parecendo perdidos. Os mamutes e gigantes eram mais facilmente vistos — seres enormes, segurando troncos de árvores com pedras amarradas.

Os Filhos da Florestas eram um tipo de linha de frente: uma equipe suicida, com diversos membros adentrando nos túneis escuros e sinuosos, emergindo deles para atacar Os Outros com suas armas de obsidiana. Apesar do grande número de enviados, era improvável que qualquer um saísse vivo.

Havia também armadilhas de obsidiana na neve, feitas por alguns soldados e os pequenos seres da floresta, para retardar e, com alguma sorte, matar o máximo de inimigos possíveis.

O castelo de Harrenhal seria cercado de todos os lados — não apenas frente ao inimigo. Seria ilógico, visto que o inimigo os superava em tamanho. Os imaculados eram a principal força da barreira humana que circundava o castelo; não totalmente, mas em maioria. Todos concordavam que eram quase impenetráveis.

Arya sabia que a escolha estava certa: ela mesma analisara os soldados eunucos, vendo-os como um espelho do treinamento da Casa do Preto e do Branco: impassíveis. Resistentes ao extremo, aguentando até o frio que nunca sentiram.

Pouco atrás de Harrenhal, além do Olho de Deus, existia um exército que iria lutar contra os Vagantes Brancos, caso eles passassem pela imensa fortaleza — ou caso ainda resolvessem atacar o sul enquanto boa parte atacava os soldados de Jon e Daenerys.

A brisa friúme aumentava. Arya sentiu o borbotão gelar seu rosto. Era um golpe forte, trazendo o cheiro da morte fria que seu irmão, Jon, havia lhe descrito ter quando os mortos reanimados estavam por perto. Podia não ver o inimigo ainda, mas podia farejar sua proximidade. Os animais também — os cavalos, mamutes, lobos, dentre tantos outros animais, estavam agitados pela presença mortal do inimigo. Sentiam o fim aproximando-se.

Ao pensar nas trevas que se aproximavam, as sombras andantes que mal tocavam o chão, Arya sentia-se em misto de tensão e exultação. Talvez fosse normal sentir-se assim ante uma iminente batalha e, talvez, ante ao que pode ser o fim de sua vida, junto da vida de todos que ama e odeia; mas a Stark sentia como se algo dentro dela lutasse para se arrastar para fora, como um verminho. Sufocava essa estranha sensação dentro de seu peito. Conforme o fim aproximava-se, era como se todos os sentidos de Arya acordassem para lutar e proteger os que amava; também, porém, era como se seu interior começasse a lutar contra ela — não eram as outras vozes; era apenas uma. Um barítono aveludado e cruel, furioso para sair.

Devo deixar minha mente limpa; devo ser quem sou. Devo lutar hoje, para haver um amanhã.

— Arya! — Sor Gendry a chamou novamente, com fúria na voz.

Ela virou-se, lenta. Tudo parecia um sonho para ela. Nada daquilo deveria ser real.

Sentiu uma mão tocar a sua — como era macio, o toque.

— Arya — Edric sussurrou, sua voz musical formando pequenas nuvens que logo sumiam —, precisamos ir, minha princesa.

Para Arya, foi como ver seu marido pela primeira vez em muito tempo: os olhos com sombras; o púrpura estava baço, o branco em volta estava avermelhado. Sua pele pálida, acinzentada. Tocou-lhe suavemente no rosto, nas bochechas sulcadas; não sentiu calor algum, nem maciez, pois a mão estava enluvada.

Eu fiz isso, pensou ela, eu suguei a vida que havia nele.

Edric afastou o toque dela, segurando a mão dela na sua, dando um aperto de leve.

— Temos que descer, Arya — insistiu ele, cansado, fazendo fumaça com a boca. — Estamos perdendo tempo aqui.

Ela não respondeu. Não sabia bem o porquê, mas era como se não soubesse o que fazer.

Por fim, Ned e Sor Gendry se viraram, com o marido de Arya a puxando gentilmente pela mão, fazendo-a seguí-los. Enquanto caminhavam, homens e mulheres iam e vinham, apressados, levando arcos e alforjes cheios de flechas com pontas de obsidiana que brilhavam com a luz dos archotes. Alguns dos soldados aqueciam caldeirões de óleo fervente. Todos tinham espadas consigo, mas todos sabiam que as adagas de vidro de dragão eram mais eficazes do que aço.

A obsidiana poderia ser mais eficaz do que lâminas aceradas contra os caminhantes; mas eram mais frágeis, praticamente induráveis numa batalha.

O chão da galeria da murada também estava coberto de neve e gelo. O calor das chamas bruxuleantes podia derreter uma parte, mas ainda era difícil de andar no local — o mais seguro era usar botas nortenhas, cuja sola tinha espinhos para quebrar o gelo, assim, permitindo a locomoção.

Quando estavam perto das escadas, Arya voltou um pouco a si, começando a apertar o paço. Suas botas espinhentas estavam mais firmes. O vento selvagem fazia a trança de seu cabelo debater-se ruidosamente, como chicote batendo no ar.

Ninguém falou nada enquanto desciam os degraus. Por sorte, o espaço era bem grande, de modo que podiam dar espaço para as pessoas que subiam e desciam pelo lance de escada quase interminável. Tochas bruxuleantes iluminavam o caminho, mas ainda era tão escuro que era como pisar em sombras.

Do lado de fora, a algazarra.

Homens e mulheres, fossem eles selvagens, nobres, plebeus, clãs, marchavam, afobados, em extremo alerta. Alguns vinham montados em cavalos, outros em cabras skagosi; havia alguns montados em animais ainda mirabolantes, usando o poder de Warg. A tribo dos Homens da Costa Gelada, uma tribo do povo livre, tinha carruagens feitas de ossos de morsa, puxados por cães e lobos.

Trabucos e catapultas estavam montados no pátio de Harrenhal, prontos para atacar. As pedras eram vidro de dragão amarrados, prontos para serem estilhaçados e destroçar os inimigos de gelos que seriam afetados. Eles também seriam imbuídos em fogo poucos antes de os lançarem.

Era difícil dizer se tudo aquilo daria certo; mas o desespero pede medidas desesperadas.

O Rei do Norte estava em pé, falando algo com um dos líderes selvagens, Tormund Terror dos Gigantes. Falavam na língua dos Primeiros Homens, como de praste. A princesa Val estava aprumada logo atrás do monarca, vestida de couro fervido e cota de malha. Sua pálida mão enluvada segurava o cabo de osso da adaga negra. Mais pálido do que a princesa selvagem, era a montaria albina do Rei do Norte, seu lobo, Fantasma, acompanhando-o como sua pálida sombra.

Quando viu a irmã e seu grupelho se aproximando, Jon dispensou Tormund com um gesto do braço que parecia pedra enegrecida. Deixou o trio aproximar-se, observando-os, silencioso. Seu olhar sério, desigual, era enervante.

Arya não se ajoelhou, nem reverenciou; não era preciso com Jon — ou talvez fosse só despeito mesmo. Seus companheiros o fizeram. O Rei do Norte não esboçou emoção alguma. Fitou a princesa.

— Deuses lhe guiem, irmãzinha — disse Jon. Arya não conseguiu saber se era deboche. O irmão parecia cada vez mais distante de suas leituras.

— Valar Dohaeris — era a única resposta que ela tinha.

O Rei do Norte (ou Rei Consorte, eram tantos títulos que era fácil se perder) levou, lânguido, o olho rubra para o marido de sua irmã.

O Lorde de Tombastela, vendo que poderia ter a conversa que tanto aguardava, deu um passo à frente. Seu cabelo loiro-acinzentado esvoaçava em glória na noite.

— Outrora, disse que havia dois desejos em meu coração…

— Um vós já tem — relanceou para a irmã, antes de voltar a fitar o fidalgo.

Ned assentiu.

— Agora, está na hora de Vossa Majestade me realizar o outro.

Jon assentiu, sem rebater, esperou para saber o que era.

Ned desembainhou a espada, ajoelhou-se na terra e lama, cabeça bem abaixada, costas bem curvadas. Colocou a espada deitada entre as duas mãos, ergueu-a até o Rei do Norte.

Arya observou a lâmina, escrutinando-a: pálida como osso, mas mais brilhante, meio leitosa. Os padrões na superfície tinha ondulações, como aço valiriano, mas não em forma de ondas suaves; eram mais quadradas. De alguma forma, sabia que havia um poder nessa espada longa — e odiava esse tal poder, sem saber o porquê.

— És vossa — disse Ned, ainda bem curvado.

Arya pigarreou, sobressaltada.

— Não, Ned! — crocitou, vendo erro fatal que resultaria de tal gesto.

Seu marido ergueu a pálida cabeça, olhou-a de esguelha. Seu rosto era uma pedra.

— Não cabe a você ordenar-me nisso, Arya.

Ela bufou, cravando um olhar colérico no rosto de seu companheiro. Ned estava errado; ela podia fazer algo. Ela tinha as habilidades para…

Antes que pudesse fazer algo, Jon falou:

— Por que me oferece Alvorada? — indagou; os olhos vividos esquadrinhando a superfície acerada-leitada. Arya podia ver um tipo de ambição queimando no olhar do irmão, tanto o olho normal quanto o de pedra talhada.

O lorde de Tombastela ergueu o olhar, encontrando o rosto longo do cunhado.

— Para cumprir a promessa de meus antepassados — respondeu. — Os Hightowers podem ter se esquecido, mas os Dayne se lembram.

O Rei do Norte assentiu, parecendo sentir o peso daquelas palavras de um modo que Arya não podia. Pegou no cabo de couro da espada, segurando-o com seu braço queimado pela sacerdotisa de R’llhor. As pontas de seus dedos pareciam garras, agarrando o pescoço de uma presa. Quando o Rei ergueu a lâmina, num chofre, foi como golpear o ar; a Alvorada parecia cortar o nada.

Arya odiou a lâmina. Odiou aquela espada ancestral, sentindo-a como se fosse uma espada inimiga, pronta para perfurá-la.

Jon desceu a lâmina, tocando na palma da mão pálida, de dedos negros (mas cobertos pela luva de couro). Deslizou a palma coberta pelo fio; no mesmo instante, uma incandescente chama pálida percorreu o mesmo caminho, conforme a mão passava.

O lusco-fusco que implodiu foi quase como se um novo sol tivesse explodido. Todos no local apertaram os olhos e viraram o rosto, com alguns cobrindo a lusco-ofucência com as mãos. Mesmo Arya teve de se afastar. A luz pareceu queimá-la por dentro. Sibilou, como uma cobra.

— Pelos deuses… — Gendry parecia sem fôlego, olhando para a Alvorada imbuída em fogo pálido, maravilhado, olhos bem vidrados no rebrilhar. A boca escancarada ante tal magnitude de poder.

Todos no local pararam para ver a opulência pálida que rebrilhava nas mãos de Jon. Este a ergueu, bem alto, ao ver que todos o olhavam. Todos pareceram esquecer as tarefas, ordens, medo, desespero — olhar para a cena, renovou o espírito de todos os que ali estavam. As luzes bruxuleantes perderam o brilho ante o que parecia uma estrela recém-acendida.

Ao ver todos os olhos em si, Jon não tardou:

— Todos nós somos o escudo que protege o reino dos homens! — bradou, com uma voz alta, mesmo que ainda muito enrouquecida. — Todos nós somos irmãos em vigias! Todos são meus irmãos nesta patrulha!

Ao ouvir aquelas palavras, todos urraram em resposta, gritando em euforia, batendo escudos e armas. A chama de Jon reacendeu seus ânimos. Mesmo os animais faziam-se ouvidos.

Jon virou-se para Ned, agora de pé. Pela primeira vez o Nortenho parecia revivido de verdade, tendo um sorriso lupino nos olhos.

— Minha irmã bem fez em escolhê-lho. — Olhou para Arya, ainda mantendo o sorriso selvagem; mas este veio a morrer quando viu o semblante da irmã mais nova.

Ele abaixou a espada, olhando sério para a irmã.

— Nossa irmã já adentrou no Salão — falou ele. — Você… não se despediu, não é?

Arya o encarava, como se olhasse para um estranho estúpido. De alguma forma, não sabia porque, ver seu irmão, ali, em glória, a deixava irritada. Apenas assentiu.

Vendo que nada mais tinha para ser dito, Jon apenas disse:

— Valar Morghulis, irmã.

— Valar Dohaeris.

Jon virou-se, acompanhado pela princesa selvagem e pelo seu lobo.

— Que deu em você, Arya? — Ned indagou, estranhando a forma como a esposa se comportava.

Mais rápida do que uma águia, girou, dirigindo um tapa potente na bochecha de Ned. A pele estalou com o golpe do couro, ficando rapidamente avermelhada. O rosto pálido do dornês virou para o lado com o golpe.

Apesar do ultraje e da dor, Ned não falou nada. Apenas olhou para baixo.

— O que deu em você para fazer tamanha estupidez? — ela indagou. O vento ficava mais nervoso, a neve era esgurmitada por todos os lados; chamas se contorciam, parecendo prestes a apagar.

Edric não a olhou. Apenas cerrou os punhos.

— Não achei…

— Você nunca acha nada que preste — a voz dela era gélida, baixa. A fúria ainda era perceptível, porém.

Ned tremeu um pouco o queixo, indignado, mas recusou-se a erguer o rosto, olhá-la, mesmo que de esguelha. Ela pôde ver as lágrimas acumulando-se nos olhos dele.

Antes que ela pudesse soltar mais um comentário, Gendry intrometeu-se na interlocução:

— Já chega, Arya! — falou ele, numa surpreendente defesa do marido dela. — Ned fez o que achava certo. Nós protegê-lo-emos…

— Proteger? — Ela encarou-lhe na face feia, interrompendo. Virou-se para o marido. — Ele que proteja a si mesmo.

Deu meia-volta, deixando-o. Gendry ficou para trás, observou Edric. Num momento, o cavaleiro-ferreiro pareceu tentar falar algo, mas, sem graça, afastou-se do lorde de tombastela, indo até a princesa, com os passos bem apressados.

Ned os observou partir, com seu coração dilacerado e humilhado. Mas, o mais triste de tudo, é que ele sabia que a perdoaria quando a reencontrasse. O amor virara uma necessidade.

Engoliu seco, sufocando o choro. Até o frio cruel que o cercava parecia insignificante.

— Milorde — um dornês o chamou. Ao virar-se, Ned viu que usava o símbolo dos Daynes cozido no peito.

— Sim, Herold?

O cavaleiro hesitou.

— O senhor acaba de entregar…

— Eu sei o que fiz e o porquê fiz.

— Mas, Milorde…

— Eu ainda vou para frente da batalha! Anda, arrume-me uma espada!

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Todos estavam no Bosque Sagrado, orando. Todos confiavam em Bran como seu salvador.

E ele seria. Só tinha de esperar as mortes acontecerem. Quando o pior acontecesse, entraria em ação.

Do alto de seu trono de raízes, Brandon olhava para todos abaixo dele. Era um apinhado de pessoas; altos e baixos, magros e gordos; homens e mulheres; adultos, idosos, crianças. Até mesmo alguns que nem de Essos eram. Isso era bom — havia mais convertidos. A maioria se enrodilhavam com mantos puídos, tentando se proteger do frio.

Perto do represeiro onde estava assentado era protegido por filhos da floresta, homens verdes, cranogmanos, e esposas de lanças. Todos segurando lanças altas, com pontas em forma de folhas. Os corvos empoleirados nos imensos braços pálidos da árvore coração estavam agitados, Bran podia sentir.

— Queria estar participando da batalha — reclamou Meera, perto do tronco-trono de Bran. Usava uma armadura de escamas de bronze bem polido, brilhando como fogo graças aos archotes. Ao invés de uma lança, ou de seu famoso tridente, a magrela cranogmana segurava o cabo da espada ancestral da casa Targaryen, a Irmã Sombria. (Podia imaginar o quanto custara a Jon convencer Daenerys sobre aquilo.)

— Gosto que me faça companhia, Meera — redarguiu o príncipe prostado entre as raízes. Ah, se pudesse estar ao lado da jovem Lady de Atalaia da Água Cinzenta agora; ia abraçá-la, dar-lhe o prazer que merecia receber.

As vozes logo vieram num fluxo de reclamação, o que veio a atordoar e, principalmente, irritar Bran. Ele crocitou que se calassem, dizendo que sabia bem que não podia deixar-se levar por leviandades.

A principal voz contra isso era Jojen, mas Bran imaginava que era apenas a perturbação dos desejos sexuais que o deixava assim. Não podia culpar o falecido amigo por isso; mas não era sua culpa que seu corpo e coração tivessem necessidades.

Você poderia tentar lutar contra eles!, insistiu Jojen. Existem outras mulheres…

Cale-se, Jojen! Sua hora passou, deixe-me em meus anseios! Sabes que nada poderei fazer com sua irmã!

— Meu príncipe? — Era a voz de Meera. Bran olhou para baixo, em sua direção.

— Sim, milady?

— Está tudo bem?

Ele sorriu para ela.

— Oh, são apenas os fantasmas novamente, minha cara. Nada com que deva se preocupar.

Ela anuiu, mas parecia-lhe titubeante.

— Se você diz…

— É o que digo, pois é o que é, Milady. Os antepassados apenas estão agitados com a situação, como bem se pode imaginar.

Meera acenou com a cabeça. Seu cabelo castanho estava trançado numa longa linha; seus olhos eram castanhos, em contrastes com o de Jojen. A neve caia em boa quantidade no topo da cabeça. As belas bochechas estavam coradas pelo frio ambiente.

Ah, como ela era bela…

Bran nunca falara para sua amada companheira a verdade sobre o irmão dela; era melhor para Meera achar que Jojen um dia vagara pela neve e sumira. Assim, ela não sofreria o trauma de saber que Jojen fora absorvido pelas entranhas Bran, sendo degustado.

Você fala isso para que ela não se afaste de ti!

Calado, Jojen! Sua voz é a mais irritante entre todas!

Você também sente meu amor fraterno por Meera, ele acusou.

E você sente o calor de meu corpo quando a imagino nua! Se não parar, imaginarei que a tenho como minha esposa na cama!

Silêncio. Jojen se abstera, enquanto algumas vozes riam com escarninho de sua bizarra humilhação. Bran sorriu, feliz com a paz, compartilhando o regozijo das outras almas.

Você tem um coração duro como casca de represeiro, ralhou lorde Brynden, mas pôde sentir que o ancião também se divertira. Ele tinha um humor ácido. Dessarte, também sabia que ele achava a relação incestuosa um tanto nostálgica — o antigo corvo de três olhos sentia saudades de sua amada Shiera, e gostava de pensar que Bran e Meera eram como eles (embora nada tivessem em semelhança).

— Acha que vai mesmo acontecer? — a cranogmana perguntou. A agonia em sua voz fez com que o coração de Bran se apertasse, querendo abraçá-la.

Ele anuiu.

— Sim, Milady. Logo, o inimigo há de invadir e vir até mim.

— Como sabe?

Bran descobriu o ombro, afastando a manta. As marcas azul-enegrecidas que a Rainha da Noite lhe deixara queimavam, como se a bruxa de gelo ainda estivesse comprimindo a carne macia e pálida.

Fora culpa de Bran. Fora descuidado ao viajar pelas raízes e ousar ver as terras de Sempre Inverno. Quando os deuses da árvore corrompida o viram, ela também o vira. Num segundo, a mente pareceu carne, sendo agarrada e marcada.

Era por isso que Bran sabia que ela estava indo para Harrenhal — ela o sentia. Ele era a mente coletiva em contraponto a mente corrompida. A Rainha era o fim da humanidade; ele, salvação.

— Ainda doi? — a irmã de Jojen indagou, enquanto ele cobria a ferida. Anuiu a pergunta dela com um meneio da cabeça.

— Sim, mas isso é bom. Logo, tudo acabará.

— Ainda bem — disse Meera, sem saber o caos que ainda estava por vir nos próximos dias e meses. Ainda haveria muitas mortes e traições.

Quando sentiu a ferida se apertar, Bran grunhiu, contorcendo-se em dor. Mordeu o lábio, apertou os olhos. Levou uma mão ao local da dor, mesmo sabendo ser inútil. A pior dor mesmo, porém, foram o urrar das vozes em sua mente, fazendo-o sentir que seu crânio estava prestes a explodir.

— Bran! — Meera virou-se, preocupada. — Que houve?

Ele respirou profundamente. Esperou as vozes se acalmarem. As almas o faziam sentir sua própria agitação. Quabdo pareceu melhor, ignorando a dor no ombro, falou:

— Estão vindo. Logo hão de tocar o berrante.

Meera franziu o cenho.

— O quê…

Antes que ela terminasse, o ribombar do berrante foi-se ouvido no fundo do Bosque Sagrado, fazendo os ossos de todos no ambiente arderem.

Meera rilhou os dentes, sentindo seus ossos queimarem. Logo, outros berrantes vieram; mas não eram da mesma intensidade e poder que o primeiro.

— O quê…?

— É Daenerys — Bran explicou para a companheira. — Ela já viu o sinal.

Ela ainda se sentia perdida, apesar da ardência ter diminuido.

— Que sinal?

Bran apontou para o horizonte com um dedinho pálido. Meera seguiu o olhar na mesma direção.

Uma intensa luz surgia lá longe, como o amanhecer.

— Não é o sol… — Meera sabia que talvez o sol nunca mais viesse.

Bran pareceu ignorar a pergunta.

— Devo ajudar como posso. — Ergueu a cabeça, olhou para os corvos. Sorriu, tendo uma ideia do que poderia fazer.

Os corvos crocitaram, adejaram suas asas, começando a voejar.

Todos os adoradores no chão de nove abriram os olhos, fitando as aves batendo voo ao mesmo tempo. Uma nuvem plumada e negra se formou, num grito de mais de duzentas aves, que partiram para a guerra.