O cheiro almiscarado do sexo permeava o ambiente, mas era sobrepujado pelo cheiro dos juncos no chão, assim como as velas de noz-moscada.

As noites de amor com Tyrek eram sempre rápidas — não existia muito prazer nelas, pelo menos para Alla. Dever raramente se unia a prazer. Eram opostos.

O sobrinho do retorcido Tyrion Lannister não era um mau rapaz; gostava de Alla, sempre estava lendo suas poesias para ela, tirando bons pedaços de comida de seu prato e botando no prato dela; tinha um olhar enamorado para ela, coisas assim. Alla achava que isso devia compensar a precocidade do Lannister no leito conjugal.

Ele é apenas um rapaz imberbe, logo há de melhorar. Tyrek fora sequestrado por Varys há muito, levado para algum local de Essos, tudo quando ainda tinha 13 anos; tudo para que a Aranha tivesse o herdeiro de Rochedo Casterly preso em sua teia (e, suspeitava Alla, usar algum informação que o herdeiro pudesse ter — afinal, ele fora escudeiro de Robert). Não era uma surpresa que o filho de Tygett Lannister, um dos falecidos irmãos do também falecido Lorde Tywin, tivesse pouca experiência com mulheres. A solidão que ele deve tê-lo deixado ansioso por algum punhado de carinho e atenção.

Um trovejar distante logo se fez ouvir. Não eram realmente trovões no céu; o eco do quebrar das ondas do mar salgado entrando sob as falésias reverberava pelos túneis do castelo, fazendo-se parecer que havia uma tempestade. Fazia um tempo que não ouvia tal barulheira; o gelo adensara muito nos últimos tempos, congelando boa parte da costa — isso queria dizer que os mares estavam agitados.

Alla virou-se no imenso colchão de penas, olhou para seu marido. O cabelo loiro cacheado de Tyrek, o famoso louro d’ouro Lannister, estava esparramado no travesseiro. O rosto de mármore estava solene, pálpebras fechadas; boca aberta, ressonando de forma parca. O peito subia, descia, subia, descia.

A cama do casal era maior do que a cama de um rei tinha direito de ser. As pernas da cama eram talhadas no formato de patas de leão. As grossas colunas de madeira, feitas de coração de ouro, um material advindo das árvores das Ilhas do Verão, eram bem esculpidas: leões e leoas eram vistos caçando e matando presas. O dossel que cobria o catre era de uma seda carmesim com renda dourada, feita de fios de ouro puro, mostrando a cabeça de leões a rugir. Pelo tecido, transparecia o brilho das tochas que ainda não haviam se apagado.

Alla virou-se para o outro lado, afastou as cobertas grossas e perfumadas de pinho, ergueu o talho, ficando assentada na beirada do imenso catre cheio. Suspirou, triste por não conseguir dormir. Levantou-se, afastou-se do catre. Pegou um roupão verde-samito que deixara na cabeceira da cama, atou o cinto na cintura.

Andou um pouco pelo quarto, sentindo o suave toque do veludo felpudo do tapete que cobria o chão de pedra. Os aposentos eram absurdamente imensos, maiores até do que qualquer aposento da Fortaleza Vermelha. A exceção da Sala do Trono de ferro; mas mesmo esse aposento era pequeno em comparação a boa parte dos opulentos aposentos do Rochedo.

Rochedo Casterly não era um castelo em cima de um Rochedo: o rochedo era o próprio castelo. Superava qualquer construção humana já construída: muito maior que Torralta, ainda maior que a muralha. O local um dia fora governado pelos Casterly, até Lann, O Esperto, surrupiá-lo para si. No começo, os Casterlys fortificaram o topo da imensa pedra colossal: um forte circular, seguido por muros, portões e torres vigias. Tudo num passo lento do que foram milênios.

Como pensavam pouco, esses Casterlys. Lann e seus descendentes foram mais sagazes: da rocha extraída por milênios, formando túneis de onde o ouro fora encontrado e retirado, o ambiente acabou por ser retrabalhado para formar um espaço de lazer e convívio. E assim a mina de ouro tornou-se um assento: túneis, masmorras, depósitos, quartéis, salões, grandes salões, estábulos, escadarias, pátios, sacadas, jardins, um septo , passagens, cavernas, minas, galerias, calhas, poços, quartéis, arsenais, quartos de dormir, alojamentos de servos, zoológico e até um jardim com bosque sagrado foram construídos dentro do rochedo. Para defesa, janelas e seteiras foram feitas para atingir os seus inimigos.

Alla não conseguiu segurar sua surpresa ao ver a imensidão dos aposentos que ali havia ao chegar no local pela primeira vez, tamanha era a imensidão do castelo.

O quarto que ela e seu marido compartilhavam não tinha janela alguma — estavam longe demais da borda para isso; tentar fazer uma vista para o mar, dali, seria como abrir um túnel novo. Nem valeria o esforço; sempre parece a hora do lobo nesse maldito inverno.

Sob a luz das chamas bruxuleantes os veios de ouro que haviam nas paredes de rocha densa rebrilhavam como raios dourados. O teto era tão alto, que ricas tapeçarias eram presas no alto da parede, tecidas com fio de ouro e prata, tão largas que quase tocavam o chão. Havia candelabros dependurados no alto do teto de pedra, feitos de ouro, enfeitados com cristais dilapidados – topazios, diamantes, diamantes negros, esmeraldas e rubis, onde velas de cera de abelha ardiam e derretiam.

Andou até a lareira dos aposentos. Esta, tão larga que quase chegava ao tamanho de um homem, ainda encontrava-se com algum fogo, mas a chama era fraca; a maior parte da lenha já encontrava-se transformada em um amontoado de tições e cinzas flutuantes. Nas bordas, dois leões sentados nos quartos traseiros, feitos de ouro.

Quase todos os móveis do Rochedo dos Lannister, senão eram de ouro puro, eram cobertos por ele: cadeiras, mesas, arandelas, vasos, vigas, até bengalas de idosos e latrinas – tudo coberto por folhas de ouro dando a impressão de serem ouro amarelo puro. (Podia até parecer glamuroso no começo; logo ficava enfadonho, parecendo uma elação arrogante e absurda, porém.)

Alla andou até uma cadeira – como dito anteriormente, era coberta de ouro –, assentou-se. O som dos “trovões” estava aumentando, de modo que ela achou que iria enlouquecer.

Será que devia mandar chamar o meistre? Ele podia lhe dar algum remédio para dormir – não. Não o faria. O meistre ficava na torre, acima de todos; seria ridículo chamá-lo agora, demoraria muito. Seria uma perda de tempo chamá-lo para algo tão banal, fazendo ambos perderem tempo.

Antes o velho sabichão deixara-lhe uma poção doce para sonhos, porém ela já acabara.

Novamente, um som distante de trovejar. Levou as mãos até as têmporas, massageou a região, franzindo o rosto. Sua cabeça parecia prestes a explodir. Tomou um hausto, sentindo seu coração começar a acelerar. O ar entrava com dificuldade.

Verdadeiramente, talvez nem quisesse mesmo dormir; ainda tinha pesadelos com a corte de Porto Real. A imagem de Elinor engasgando, lutando por ar, fitando-a, acusando-a.

Estremeceu. O fantasma de sua prima ainda a atormentava. Endireitou-se no assento. Elinor estava morta, assim como Megga. Alla estava viva, pois fez o que tinha de fazer. Estava, agora, na fortaleza mais resistente do mundo conhecido. Até mesmo Visenya declarara que nem Balerion, O Terror Negro, que derretera a imensidão de Harrenhal, conseguiria derreter a moradia dos Lannisters.

Apesar de segura externamente, Alla temia não estar segura internamente: estava cercada por leões maldosos; todos olhavam-na de soslaio, dando sorrisinhos falsos para ela. Não confiava em nenhum deles: podiam estar prestes a envenená-la para depois conseguir o seu assento ao lado do Trono de Leão Dourado para si. Os lordes e ladies vassalos não tardavam de mostrar as galinhas que chamavam de filhas para o futuro Lorde Tyrek. Putinhas venenosas, todas elas! Esbanjando suas belezinhas mequetrefes, tentando passar a perna em Alla. Não importava; as damas de companhia nunca estavam fora da vista de Alla. Não perdia uma de vista; não lhes daria tempo para seduzir seu tolo marido, muito menos botar o que não devia em sua taça de vinho. (Se bem que o ar andava envenenado pelos murmúrios malditos daqueles vassalos asquerosos — tudo por conta da vagabunda Cersei Lannister!)

Alla sabia vestir seu rosto de Lady, tanto quanto sabia envergar um vestido. Seu sorriso sempre estava afiado e mavioso; um tom de voz melífluo; palavras sempre gentis. Na hora da comida, sempre passava os melhores pratos para os lordes mais detestáveis — uma boa imagem garantida; mas também uma forma de evitar algum envenenamento.

Para sua sorte, conseguia fazer uma boa pantomima: existiam diversos músicos no Rochedo. Toda a noite trovadores, flautistas, gaiteiros, violinistas, harpistas, entre tantos outros. Havia sempre música e diversão. Seus salões eram um porto seguro, onde as pessoas poderiam esquecer da guerra que arrasava os Sete Reinos e que matara tantos homens e mulheres. Que os lordes rissem, embriagassem e dançassem! Suas mentes vespertinas ficariam desbotadas, qualquer tramoiazinha mesquinha que estivessem pensando seria deixada de lado. Aqueles lordes estavam velhos, tristes, cansados da guerra; uma boa festança era tudo o que precisavam.

Seu esposo luculo, como todos de sua família, podia ser inocente aos risos e bebedeira; mas Alla não se deixava enganar, não verdadeiramente: a vida lhe provara bem cedo que não se podia confiar em ninguém. Ninguém era leal a ninguém, a não ser a si próprio. As pessoas nunca realmente seriam sinceras umas com as outras; sempre veriam outrem como mais um degrau para pisar e subir. Era assim que as pessoas eram — era assim que ela tinha de ser para sobreviver.

Por isso fez o que fez; não porque queria, porque era um monstro, ou qualquer coisa do tipo — fez o que fez para sobreviver. Elinor estava condenada há muito, as primas da nova rainha tinham de pagar; o acordo com Tyrion era uma passagem só de ida para a segurança e locupletação. Poder.

Seus olhos estavam pesados. Isso era bom. Logo ia dormir.

Mas, se viesse a dormir, os sonhos viriam…

(Elinor lutava; forçando-se para sequer soluçar. Os olhos. Os olhos haviam percebido a culpa de Alla. Eles gritavam: Culpada! Culpada! Culpada! CULPADA!!!)

Alla soluçou. As lágrimas começavam a rolar. Odiava lágrimas. Elas queimavam sua pele, riscavam seu rosto, mostravam a sua fraqueza. Faziam-na lembrar de seus tempos como prisioneira naquela horrível corte vermelha onde fora refém do Alto Septão, Cersei Lannister, depois para Daenerys e Aegon. Pelo menos a imbecil princesa de Dorne se mostrara mais complacente.

Nunca mais voltaria a viver assim, prometera a si mesma, há muito tempo. Foi por isso que aceitara a proposta de Tyrion: ficar longe das tramas da corte, longe daquelas pessoas crueis que não tardariam em tramar contra ela, prendê-la, mandá-la para o bloco do carrasco…

Não. Nunca mais. Que Os Outros levassem eles e suas fintas crueis e sangrentas. Ela ficaria em Rochedo Casterly, onde estaria segura. O local era inexpugnável! Nem mesmo os montadores dragões ousariam invadir!

Uma batida nas sólidas e grossas portas de madeira a retirou de suas elucubrações. Virou-se de imediato para a direção das grossas batidas. Levantou-se, indo até a entrada. Seu marido deu um gemido sonolento — devia ter bebido muito. Tiveram uma festa há poucas horas, e Tyrek bebeu uns bons goles de dourado da Árvore, enquanto se empanturrou com biscoitos e uma grande truta coberta de açafrão. Do jeito que estava indo, logo ia engordar.

Alla destrancou a porta, entreabriu-a. Olhou pela soleira. Estava o meistre do Rochedo, junto com o chefe da guarda do Castelo, Sor Ergin. Eles eram ladeados pelos dois guardas que Alla trouxera consigo após a morte de Olenna: Arryk e Erryk (ou, como ela passara a chamar após desistir de reconhecê-los, tal qual a falecida lady fazia, Esquerda e Direita). Se tivesse espadas perto dela, melhor ter espadas da Campina. Pouco atrás deles, estava Jocelyn Swift — uma mulher simplória que servira como aia da antiga rainha Cersei. Nunca a quis como sua dama de companhia, mas o pusilânime de seu marido a convenceu a tê-la ao seu serviço, o que ela fez; pelo menos ela, assim como a parente, Joanna Swift, funcionavam como reféns para aquela estranha casa de galo azul. Não gostava de deixá-la aos pés de sua cama, pois a insípida roncava — por sorte Tyrek tinha muita volúpia, então sempre usava isso para fazer Jocelyn ficar na antecâmara.

— Silêncio, meu marido está a dormir! — fingiu se importar. Na realidade, não dava a mínima, mas estava irritada. A agitação do mar estava ainda maior, parecendo um ribombar incessante. Quando entreabriu a porta, o barulho piorou.

O meistre remexeu nos elos da corrente em volta de seu pescoço.

— Com seu perdão, Milady, mas temo que…

— Lorde Tyrek deve ser acordado — falou Sor Ergin. — Ele precisa saber do que ocorre, Milady.

Alla franziu o cenho. Deve! Ele me me diz “deve”!

Detestava esse homem. Os olhos verdes eram pálidos como os de Tywin, mas ardentes como os de Cersei. Era quase careca como o falecido lorde Tywin também, não fosse o cabelo parco e ruço nas laterais da cabeça. Teria como convencer seu marido a se livrar dele? Talvez convencê-lo de que Sor Ergin “é valente demais para ficar aqui, devia ir para a guerra, mostrar seu valor!”.

Sim. Era uma boa ideia. Lembraria de falar tudo isso a Tyrek na próxima conversa de travesseiro deles.

Ela abriu mais a porta.

— O que é? É sobre a guarnição nas fronteiras?

O meistre assentiu, mas quem falou foi o chefe da guarda:

— É sim, mas também tem mais.

— O quê? — insistiu ela.

Sor Ergin bateu o pé.

— É melhor que Milorde Tyrek escute, Milady.

Alla fez um pequeno muxoxo. (Bem, pelo menos ele os chamou de Lorde e Lady.) Largou o ferro da porta, deu meia volta, indo acordar seu senhor marido.

— Jocelyn, acenda as velas! — ordenou, de costas para a dama de companhia, enquanto andava até o catre do casal.

— Querido — ela disse, tocando-lhe no ombro. — Querido, temos problemas.

Tyrek grunhiu, fazendo um esgar, como se fosse uma agonia acordar. Abriu os olhos, piscou-os. Quando parou, apertou-os, forçando a visão a focar nela.

— Alla? Que horas são, esposa?

— A Hora do Lobo, acho eu — disse ela. Talvez fosse mesmo. Sempre era de noite.— Sor Ergin e Meistre Creylen têm coisas para falar.

Aquilo pareceu deixá-lo mais atento. Ele ergueu o torso, ficando sentado. Estava nu, mas o coberto o cobria da cintura para baixo. Alla virou-se, exclamou:

— Jocelyn! Traga uma roupa para meu marido!

A moça parou de acender as velas e foi até um armário, onde pegou um roupão de veludo vermelho.

— Traga um mais quente, pelos deuses!

Ela girou os calcanhares, voltou ao armário, onde pegou um roupão grosso de pele de urso tingida de vermelho.

Quando ela se aproximou, Alla arrancou as vestes da mão dela.

— Por que ainda não jogou lenha na fogueira, Jocelyn? O fogo está a apagar!

A moça assentiu.

— Desculpe, milad…

— Ande, Jocelyn! Estás muito lerda!

Jocelyn fez uma vénia fugaz, girou os calcanhares, correu até onde pudesse achar uma lenha. Quando ela se foi, Tyrek levantou-se do catre, deu as costas para a esposa e ela ajudou-o a vestir o roupão.

— És muito crassa com a pobrezinha, esposa… — disse-lhe seu marido, enquanto se virava.

— Jocelyn é muito lenta — resmungou ela, enquanto amarrava a faixa de veludo na cintura dele.

— Bem, se ela não a agrada…

— Não agrada, mas isso é culpa de Cersei que não lhe ensinou nada. Melhor que fique comigo, pois posso ensiná-la. — Era uma clara mentira; apenas deixava a pusilânime Jocelyn a seus serviços pois pelo menos sabia que ela tinha muito pulso fraco para tramar algo. Uma desconhecida poderia ser arriscado.

Tyrek sorriu e botou o rosto da esposa entre as mãos. As mãos dele eram macias, bem sedosas em oposição às mãos calejadas de Sor Tallad. O cavaleiro andante parecia ter algum desejo por Alla, mas ele, apesar de promissor, era de muito baixo nascimento. De todo o modo, ele morrera na batalha para defender as forças da Capital graças a Rainha Cersei (aquela mil vezes maldita!).

— És tão bondosa, esposa — elogiou o bêbado marido. Deu-lhe um beijo suave nos lábios dela.

— Sou mesquinha — respondeu ela, cansada. Seus pés estavam doloridos; olhos pesavam e coçavam. Queria resolver logo tudo aquilo. (E torcia para que Tyrek estivesse bem bêbado, para que assim não tivesse de dormir com ele.)

O marido de Alla soltou o cabelo dourado que estava dentro do roupão, deixando os cachos de ouro batido caírem até as espáduas. Seu lindo rosto pálido estava bem avermelhado pela bebida. Apesar da irritação do sono que deixava o branco dos olhos vermelhos e pálpebras inchadas, o verde de seus olhos ainda eram hipnotizantes. Era um rapazildo bonito, apesar de um tanto apressado e ignorante.

Sor Ergin limpou a garganta, chamando a atenção deles. Alla e seu marido deram a volta no catre, indo até os soldados e os meistres. Prontamente, os soldados da Campina foram até o casal, se prostrando atrás deles. Alla sorriu. Eles sabiam a quem obedecer.

O ribombar trovejante aumentava ainda mais, para a imensa irritação de Lady Alla.

— O que houve, Sor Ergin? — indagou o Herdeiro do Rochedo. — É sobre o meu exército?

— Por acaso não seriam mais daquelas histórias tolas de coisas mortas, não é? — interpelou Alla, antes que o soldado respondesse. Andavam ouvindo tais estapafúrdias há dias, principalmente de refugiados da guerra que vinham do Tridente. Um bando de mulambentos esfomeados, todos esses. Convencera seu marido a fazer ouvidos moucos para esses esfomeados; tinham ajudar apenas o povo que estava no Oeste – e bem podiam haver espiões entre os ditos refugiados. (Não foi tão complicado desconvencer seu marido a ajudar os desabrigados chorões — as histórias de mortos e deu princípe corvo que salvaria à todos espantava qualquer um com bom senso.)

O meistre tirou uma carta da manga, entregou-lhe para o (quase) lorde do Rochedo, que a pegou, começou a ler. Ao aproximar a carta do rosto, apertando os olhos, Alla percebeu que ele estava com dificuldade para se concentrar na leitura. Ela esticou a mão para ele, que foi rápido em entender o gesto. Sorriu, entregou-lhe o pedaço de papel.

Pelo lacre quebrado Alla percebeu que se tratava de uma carta advinda de Dente Dourado. A escrita era um verdadeiro carrancho, com alguns pingos pretos esparsos pelo papel, indicando que fora escrita a pressa — talvez por isso fosse tão curta.

“Uma densa neblina impede a visão do exército. Uma legião invade. Uma invasão de mortos. Existem ursos e gigantes entre eles. Incêndios em celeiro foram feitos para tentar queimar a maior parte, mas sem sucesso. Tenho relatos de estranhos de gelo matando nossos soldados. As coisas mortas são muitas, por favor, enviem ajuda.”

Ela leu o conteúdo para o seu marido, depois virou-se para o meistre e o chefe da guarda.

— Que pantomima é essa? — indagou, gesticulando com o papel na mão. — Que absurdo é esse? Acordaram-nos por isso?

O pequeno e velho Creylen se encolheu ante a cólera dela. Sor Ergin não abalou-se.

— Não é troça, Milady — afiançou ele. — Outras cartas vieram de casas próximas à região do Dente Dourado.

Asas escuras, palavras escuras, pensou, enquanto seu rosto abrandava. O meistre retirou algumas outras cartas das mangas e de bolsos escondidos. (Que mais esse senhorzinho teria escondido nas vestes?)

As cartas eram de casas pequenas próximas à região do Dente Dourado. Uma das mensagens era da Casa Serrett, que não fora atacada mas que informava que um pequeno grupo de batedores, após ouvirem estranhos relatos, foi enviado para averiguar; poucos voltaram, porém, com estranhas histórias sobre coisas mortas.

Alla balançou a cabeça, descrente de tudo aquilo que era jorrado nela.

— Não é possível — disse. — Só pode ser alguma tramoia dos Nortistas. Eles querem nos enganar com essas estranhas histórias de Caminhantes.

— Pode até ser, Milady — falou Sor Ergin. — Todavia, temo que algum ataque esteja a ocorrer. Devemo-nos triplicar a guarda, aqui e em Lannisporto, e mandar mais soldados vassalos para defender o território.

Os olhos esmeraldas de Tyrek se arregalaram. O sono se dissipou diante do medo.

— Acha que podem invadir Lannisporto? E o Rochedo?

O soldado deu de ombros.

— Podem até tentar, mas o caminho é longo. As terras do Oeste são ricas, não apenas em ouro e prata, mas em colinas. E, pelo andar da carruagem, todas as colinas estão cobertas de neve. Além disso, mesmo que passem pelo Dente Dourado e subam a Estrada do Rio, ela também está encoberta pela neve. Levará muito tempo para chegarem até aqui.

— De todo o modo — disse Tyrek —, você está certo, Sor, devemos proteger nosso território.

— Além do mais — Alla os lembrou —, nosso exército está quase todo montado no Leste. Caso essa força armada caia…

— Caso ele caia — atalhou Sor Ergin —, ainda estaremos preparados, com as tropas em Lannisporto bem armaduradas e guarnecidas. E não nos esqueçamos que é impossível invadir o Rochedo; temos como cortar as entradas por mar e terra; além de termos bons mantimentos, podemos durar anos aqui.

Os Reynes e Tarbecks também, Alla pensou, lembrando de como o cruel Lorde Tywin destruiu duas casas sem piedade; porém preferiu nada proferir. Apenas engoliu seco. O som retumbante do mar afligia sua mente. Rilhou os dentes, ignorando a barulheira agourenta.

— Não posso ficar parado enquanto meu povo sofre! — redarguiu o herdeiro de Tyrion Lannister.

— Milorde — aconselhou meistre Creylen —, não podemos perder o senhor. Tyrion o declarou herdeiro; não podemos nos arriscar…

— Como posso herdar terras se não lutar por elas?

Ao ouvir aquilo, Alla mais uma vez percebeu como Tyrek não entendera o mundo de fato. O tolo brio de homens custara tudo para ela — assim morreu Renly, Sor Loras, Lorde Mace, Lorde Garlan; até Elinor e seus comparsas. Não deixaria que a tola soberba Lannister estragasse tudo mais uma vez.

Sem pensar, Alla ajoelhou-se, agarrando a mão de seu marido. Este virou-se no mesmo instante, surpreso com o gesto abrupto de sua companheira.

— Sor, meu bom esposo, imploro-te para não o fazer! — Disse, com a voz transparecendo a dor em seu coração. A dor angustiante que tanto guardara dentro de si. Lágrimas escorreram pelo seu rosto, queimando suas bochechas. — O Oeste precisa de você; eu preciso de você. Não me faça perder-te… não depois… depois de tudo…

Finalmente, após abrir seu coração para a dor que tanto resguardou, não se aguentou, quebrando em soluços incontroláveis. Não conseguia fazer mais nada, apenas chorar, chorar, chorar.

(Culpada!, a voz de Elinor ribombou, machucando Alla. Culpada! Culpada! Culpada! Culpada! Culpada!)

Quando deu por si, sentiu os braços de Sor Tyrek fazendo-a levantar-se. Ainda soluçava, mas ele pareceu não se importar. Afastou as mechas cheias do cabelo dela, chupou as lágrimas dos olhos dela, enquanto a abraçava contra si. Quando ele, delicado, empurrou o rosto dela para seu ombro, ela chorou ali, até não poder mais. Estava tão triste, cansada, irritada… não suportava mais ficar em pé ou mesmo acordar todo o dia. Apertou Tyrek contra si, cravando suas ungulas nele, como um animal desesperado. Prendeu-se nele, como se fosse uma rocha onde pudesse se segurar; sentiu a calidez dele.

Quando não mais havia forças para sequer chorar, seu marido a separou com delicadeza.

— Oh, minha pobre rosa, não chore mais — pediu ele, com dor na voz. — Se é o que meus conselheiros, e minha amada esposa, pedem tanto, então ficarei onde estou.

Alla conseguiu esboçar um sorriso. Beijou o marido, rápido, nos lábios. Tyrek sorriu de volta, parecendo feliz com a felicidade dela.

Podia até não amá-lo; mas ele seria bom para ela. Isso era o que importava. Logo, ela rezava, sua regra atrasaria mais um mês, e ela teria certeza de que estava grávida. Assim, ela sabia, Tyrek seria completamente dela – só o fato dele saber que tirara a virgindade dela já o quase fez explodir de júbilo. Pelo visto, o brio dos homens era facilmente maleável.

Quando os ânimos acalmaram-se, Tyrek virou-se para o capitão da Guarda – um som de sinos explodiu, reverberando pelos túneis do castelo. Logo, o barulho aumentou; mais sinos devem ter sido tocados. O trovejar do mar aumentou. Todos ergueram os olhares, como se o teto viesse a desabar com o som.

Alla deu som mortificado.

— Pelos deuses, o que é isso agora?

— É o alarme! — respondeu Sor Ergin sobressaltado com os sinos. — Estão atacando!

— O Rochedo? — indagou Sor Tyrek. A ideia era impensável.

— Não sei, mas tenho de averiguar. — O capitão girou os calcanhares, indo até a porta, mas esta se entreabriu e um homem passou pela soleira. Ajoelhou, vermelho, esbaforido.

Alla franziu o cenho ao ver o homem ajoelhado no tapete:

— Quem…?

— É Mellys — explicou meistre Creylen. — Ele me ajuda com os corvos, Milady. — Virou-se para o homem esbaforido. — Que houve Mellys? Fala!

— Os alertas… Lannisporto… atacado…

— O quê!? — exclamou o capitão da guarda. Pegou o homem pelo braço, obrigou-o a ficar em pé. — Quem está atacando?

O homem tossiu, mas conseguiu falar:

— Homens de fe… Homens de ferro… invadiram…

— Quê? O quê!?

Alla deu um suspiro, horrorizada. Tyrek franziu o cenho.

— Greyjoys? Aqui? Mas, como…?

— Incendiaram… incendiaram nossas galés e dromones e dracares — revelou Mellys. — Eles estavam… infiltrados. As galés, elas não eram de comerciantes de Essos; eram dos invasores. Eles a usaram para se infiltrar aqui, e, de repente, começaram a atacar.

Sor Ergin o largou, deixando o homem se recompor. Ele limpou a garganta, voltou a falar:

— Houve outro ataque. Dracares vieram, usando o nevoeiro estranho como camuflagem. Eles estão saqueando o local, queimando septos, lojas, casas, casebres, assim como outros navios.

Sor Ergin exclamou uma praga.

— Malditos! Esses nascidos não tinham todos morrido no ataque a Harrenhal?

Mellys deu de ombro.

— E a nossa frota? — quis saber Tyrek. — Ela realmente foi destruída?

Mellys fez que sim com a cabeça.

— Lamento, Sor, mas sim. O que eles não queimaram, saquearam para si.

— Nunca fomos grandes em frota… — lamentou-se Meistre Creylen. — Mas, esse ataque — abanou a cabeça. — Teriam os homens de Ferro perdido a cabeça de vez?

Alla falou:

— A frota que saqueou a Campina era enorme, pelo menos mil navios, pelo que me lembro; mas se dispersou antes de Aegon atacar. Uma parte estava com Euron no Tridente, mas também deviam ter ido para as Ilhas de Ferro. Sabem-se os deuses quantos navios esses demônios do mar ainda tem; mas não devem superar a frota real. Boa parte estava com Daenerys após ela tomá-la de Victarion. — Virou-se para o meistre: — Devemos chamar a frota real de imediato; Aegon detém a maior frota marinha agora.

Creylen anuiu.

— Acha que atacarão Ilha Bela? — indagou Tyrek para seu capitão das guardas.

— É possível — admitiu ele. — De toda forma, temos de pedir ajuda o quanto antes; nossas principais forças estão a leste, e não temos frota marinha para nos protegermos dos invasores do mar.

— Devíamos abrir abrigo no Rochedo? — indagou Tyrek. — Não podemos fazer ouvidos moucos para o ataque de meu povo!

Alla foi rápida em pousar a mão no ombro de seu marido, chamando sua atenção:

— Faremos o que pudermos, Tyrek — falou ela. — Todavia, não podemos nos arriscar a deixar entrar pessoas do lado inimigo; você viu como são traiçoeiros. — (Na verdade, era mais para não perderem tempo com bocas inúteis e famintas.) — Temos de nos proteger agora, mais do nunca, pois estamos cercados de inimigos.

— A Lady do Rochedo fala com sabedoria — ecoou Sor Ergin. — Deixe-me cuidar das forças armadas, enquanto nosso meistre cuida de solicitar ajuda real.

Apesar de abalado, Tyrek consentiu com um aceno da cabeça, suspirando.

Alla e Sor Ergin trocaram um rápido olhar, e este assentiu para ela antes de sair do cômodo, junto do meistre e de Mellys. Pelo visto, ela tinha um apoiador na corte. Ótimo, mas ainda ficaria de olho nele, por via das dúvidas.

Quando eles se foram, com Esquerda e Direita sendo os últimos a sair, fechando a porta, Tyrek sentou-se nas cadeiras perto da lareira, parecendo exausto. O som trovejante do mar era imparável agora.

Alla foi até seu marido, debruçou-se, colocando as mãos em seus ombros. Ele estava tenso. Tyrek ergueu o rosto. Seu brilhante olhar esmeralda encontrou os olhos de corça dela, sorriu. Ergueu um braço, afagou a bochecha rosada e morna dela.

— Fico feliz que esteja comigo, Alla. Você é minha rocha.

Ela sorriu, fitando aquele inocente olhar de joias. Beijou-lhe a testa.

— Não, amor, você é minha rocha.