Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
83 Garroteado
Alleras estava correndo, a passos assaz, mesmo na neve e no amontoado de pessoas que passavam na frente, quando a neve irrompeu sobre ele e o mundo. Não teve sequer tempo para soltar uma exclamação com o susto, apenas um som que mais parecia um pigarrear, antes de ser abatido pela explosão da nevasca, que quase o soterrou vivo.
Quando conseguiu abrir as pestanas, fracamente, sentiu que sua nuca estava para explodir. Tentou mover a cabeça, mas pareceu-lhe pesar mais que chumbo, de modo que suas forças se esvaíram no mesmo instante. Voltou a fechar os olhos, esperando o breu, mas via estranhas luzes dançantes e disformes saltando em um fundo preto que mais parecia com um abismo sem fim.
Gemendo de dor, levou as mãos para frente, sentindo uma força fria parecendo cobrir-lhe-as. Quando sentiu algo sólido, imaginou ser o chão, empurrou, erguendo-se. Balançou, tal qual um gatuno, para retirar a neve que estava sobre ele. Quando o peso sobre si diminuiu, chacoalhou a cabeça, retirando a cobertura açucarada dos cachos pretos. Quando aprumou-se, com as pernas formigando, passou uma mão pelo cocuruto, deslizando os dedos dentre os fios escuros, retirando o restante de neve. Seus olhos estavam entreabertos, mas a visão estava turva. Um leve som de “tac-tac” parecia tocar ao fundo de sabiam-os-deuses-onde. As mãos formiguejavam, de modo que ele abria e fechava os dedos, para facilitar o corrimento do sangue – apesar de desconfortável, o formigar indicava que o calor voltava para seu corpo. O seu corpo, porém, ainda parecia dormente, com as pontas dos seios estando doloridas friúme flagelante.
Os olhos começaram a formar imagens novamente, indicando que a mente estava voltando a funcionar. Piscando, com a vista se ajustando, meneou a cabeça para um lado, depois para o outro, esquadrinhando o local.
Havia carroças quebradas, parcial ou totalmente cobertas por uma camada fria de neve. Algumas pessoas tentavam sair da neve, desesperadas; embora boa parte parecesse morta. As ondulações dos flocos apinhados faziam Alleras lembrar-se das dunas dos desertos de neve. Não havia, porém, o calor fustigante do sol, nem o cheiro de pederneira e enxofre no ar, muito menos o marrom baço da areia, perfilado de cristais. Havia apenas a neve acinzentada, cobrindo parte do mundo. Os cristais de areia foram substituídos por iluminantes joias azuis, que flutuavam, parcas, no ar.
Havia algumas formas dançando, parecendo borrões, que foram ganhando forma conforme o som do “tac-tac-tin” aumentava.
Antes de seus olhos parecerem voltar ao normal, O Esfinge percebeu se tratar de pessoas lutarem. O barulho, portanto, devia tratar-se do barulho de espadas. Havia, também, clavas, escudos, porretes e até arcos…
Arco! O arco!
Como se a vida voltasse com mais rapidez pelo desespero que implodiu em seu ser, ele virou-se para frente, relanceando para baixo, começou a cavar a neve com as mãos, buscando o arco de Coração de Ouro que fora lhe dado de presente para sua mãe. Suas mãos pareciam destrambelhadas, sem saber que local realmente deveriam cavar. Quando sua mão esquerda pareceu prender no que pareceu corda, sentindo o fio resistir ao movimento, ele meteu a outra mão no local, até sentir o fio grosso do couro. Os dez dedos débeis, quase voltando a ficar dormente pelo frio, fecharam-se sobre a longa tira de couro, puxaram-na.
O alforje logo avultou-se, brotando do chão, com um tanto de neve acumulada dentro dele. Algumas flechas ainda mantiveram-se, embora temesse que não fossem muitas, mas ele não tinha como saber se não haviam quebrado quando foram atingidas pelo que pareceu uma avalanche que vinha do próprio chão.
Alleras tomou o alforje para mais perto de si, pronto para tentar ser rápido e tirar a intumescência que havia dentro dele, depois teria de procurar o seu arco dourado…
Antes que pudesse fazer tal movimento, porém, sua nuca foi puxada com força para trás, tendo seus pelos da nuca quase arrancados. Deu um grunhido, fez uma expressão de dor, sentindo que seu couro cabeludo estava prestes a ser arrancado. Largou o alforje, jogou os braços para trás, agarrou os braços de seu algoz, que insistia em puxar e balançar a sua cabeça. Parecia que seu pescoço estava para ser quebrado ou que a cabeça seria arrancada.
De olhos esbugalhados, tentou fitar a face da pessoa que tentava dar cabo de sua vida, mas parecia ser apenas uma treva sólida, esmaecida, engastada com duas sáfiras de fogo fátuo gélido. O pútrido cheiro frio da morte enchia as narinas
Suas pernas eram inúteis, incapazes de mover ou mesmo chutar a criatura que o agarrava. Tentou jogar seu corpo para frente, na esperança desesperada de que, mesmo que doesse, os fios do cabelo se partissem, permitindo que Alleras pudesse se libertar.
Infelizmente, antes que qualquer movimento pudesse ser feito, a laringe começou a ser esmigalhada, travando a passagem de ar. Tentou olhar para frente, vendo apenas uma forma acinzentada que parecia não ter parte da cabeça (apesar de não conseguir visualizar direito; parecia mais ter um borrão tremendo defronte a ele, os olhos azuis parecendo moscas voejando para cá e lá).
Alleras tentou engolir ar, mas era incapaz de. Mãos frias, duras, não paravam de pressionar sua garganta, enquanto outras continuavam tentando arrancar o seu couro cabeludo. Tentou soltar as mãos que o garroteavam, tentando enfiar os próprios dedos por dentro dos dedos da criatura. Quando não deu certo, tentou empurrar o ser à sua frente; agarrar os pulsos para desprender as mãos frias; socar os braços e punhos.
Nada adiantava – seus gestos eram débeis; os algozes, mesmo putrificados, tinham dedos de aço e pedra, não largando-o por nada.
Seus movimentos desesperados foram perdendo a força; sentia o sangue parecer se acumular na própria face, como se a cabeça estivesse ficando quente, quente a ponto de não sentir nem os flocos frios que caíam em sua face, que parecia estar prestes a explodir. Manchas pretas começaram a surgir novamente em seus olhos, que começavam a perder todo o campo de visão.
Será que foi isso que Harrold viu antes de morrer?, se questionou. Um pensamento estranho passou em sua mente, enquanto o preto tomava conta do mundo…
O puxão em sua cabeça pareceu ficar frouxo de forma abrupta. Alleras, que ainda sentia um aperto nos cachos, fez força para abrir os olhos, vendo uma luz surgir atrás dele. Sua boca ainda estava escancarada, mas o ar ainda recusava-se a entrar. Débil, voltou a bater nos braços do morto-vivo defronte a ele, novamente, sem resultado.
A cabeça da criatura a sua frente foi imbuída em chamas, que foram rápidas em se espalhar pelo resto do corpo. A luz machucou a visão de Alleras. Algo, talvez uma lâmina de uma arma de guerra, desceu como uma sombra, um som abafado surgiu, os braços que ele agarrava caíram, mas as mãos não soltavam a garganta. O corpo em chamas caiu para trás quando um machado cortou uma das pernas.
Alleras nem se importou em visualizar e tentar entender o que estava acontecendo; continuou agarrando os membros que insistiam em garroteá-lo. Não soltavam-no por nada. Tombou para o lado, sentindo as forças terminarem de esvair.
Duas figuras se aproximaram dele. Não eram Wights, visto que eram rápidos e não tinham olhos brilhantes. Um deles tentava tirar as mãos que agarravam a garganta de Alleras, enquanto o outro tentava soltar os braços que insistiam em agarrar os cabelos dele – até ver que era menos importante e decidir tentar ajudar o companheiro.
— Temos de cortar os dedos… — uma voz abafada falou.
As palavras fizeram a mente de Alleras voltar a funcionar, agindo como um mnemônico. Largou os membros que o enforcavam, uniu os braços, deslizando a mão direita pelo tecido da manga grossa, sentindo os elos de cota de malha por de baixo. Ao sentir a dureza do cabo de osso de dragão, agarrou, puxou, rasgando o pequeno alforje escondido, assim como o tecido acolchoado. As duas pessoas que estavam diante dele se afastaram quando a lâmina avultou. Num chofre, como se passasse faca em um tablete de manteiga, o punhal valiriano cortou a pele fria e negra, destruindo os membros e ossinhos. Os dedos logo caíram, sem jorrar qualquer líquido, seguidos pelos braços.
Quando a garganta estava livre, Alleras engoliu ar, fazendo um som até animalesco, resfolegando em desespero. Inalou, soltou, inalou, soltou. O sangue voltou a circular, percorrendo o caminho pelas veias do pescoço como uma enchente em fúria. Levou uma mão até a garganta, sentindo o sangue quente escorrendo por debaixo da camada da pele, veias pulsando. Curvou mais, cuspindo a bílis que acumulava-se em sua garganta. O verde escorria de forma rançosa conforme Alleras o cuspia com dificuldade. Estômago dolorido, contraído, parecendo empurrar tudo para fora. Parecia ser uma luta para respirar. Sempre que tentava recuperar o fôlego, as tripas pareciam se contrair, empurrando mais vômito.
Alguém em pé ao lado dele cortava os cachos de seu para soltar as mãos que ainda estavam agarrando os tufos capilares – a pessoa devia ter pego o punhal valiriano quando Alleras largou a lâmina no desespero para respirar.
Um pouco mais recuperado, notou um par de botas altas no seu campo de visão, perto de onde ele regurgitara. Erguendo a cabeça, seus olhos acompanharam o corpo ganhando forma conforme subia o olhar.
Uma moçoila, estatura média, magra como uma vara, com olhinhos escuros como os de Alleras (exceção ao formato do olho), nariz adunco. O cabelo caía em uma cascata de ondas negras e amarronzadas, pintalgado com neve em diversos locais. A magra rapariga agarrava um arco em suas mãos enluvadas; o alforje nas costas.
O rosto parecia familiar a Alleras – o escuro do cabelo e olhos, mais o nariz –, mas percebeu de quem se tratava ao ver que o peitilho tinha um pequeno represeiro no canto.
A irmã de Brynden Blackwood, percebeu. Passara um tempo espionando o Lorde; se bem se lembrava, o nome de sua irmã era Bethany.
Fosse quem fosse, ela estendeu uma mão a Alleras.
— Precisa levantar logo, estrangeira — falou a moçoila magrela, criando baças nuvenzinhas conforme pronunciava palavras. — Temos que lutar. Você consegue me entender?
Apesar da garganta dolorida, Alleras respondeu:
— Sim — Voz enfraquecida. Agarrou o braço estendido com ambas as mãos, lutando para se erguer.
— Fala minha língua. Bom. E que bom que também tem um arco.
Alleras grunhiu ao ficar ereto. De início não entendeu o que Bethany falava, até olhar para baixo e perceber a corda do arco ainda presa a seu corpo. O arco estava com ele esse tempo todo e nem notou! O frio dormente deve ter afetado sua percepção… ou apenas o desespero emburrecedor. Dane-se, isso nem importava agora.
Olhou para as pessoas que o salvaram. Ao lado da Blackwood, reconheceu Styr, o Magnar Thenn, marido de Alys Karstark, que usava uma armadura de bronze escamada. Em sua mão, o machado que fora usado para desmembrar os Wights que atacaram Alleras.
— Obrigado — falou, o contralto enrouquecido pelo esganamento.
— Sou Bethany — apresentou-se a rapariga, sem saber que Alleras tinha alguma ideia de quem ela era.
— Sou Sarella. — Fez questão de forçar um sotaque ao pronunciar as palavras. (Não sabia se era uma boa ideia usar seu nome real, mas não Alleras pensou em nenhum outro no momento, e, de qualquer forma, ninguém conhecia Sarella.)
Sentiu algo escorrer pela sua cabeça, descendo até a bochecha. Levou uma mão até o local, tocou no líquido, levou os dedos até o campo de visão. As pontas estavam pintalgadas de vermelho.
Styr falou:
— Lamento pelo cabelo, Sarella, mas as mãos não lhe soltavam e não você não parava de se mover.
— Hum? — Alleras franziu o cenho, até lembrar-se que o Magnar tivera de cortar alguns tufos para livrá-lo do agarramento (embora talvez o sangramento fosse por conta dos puxões agressivos do servo dos Caminhantes Brancos). Mexeu no topo da cabeça, sentindo os tufos de cabelo gosmento grudando em seus dedos, sujos de sangue. Fez um muxoxo. — Não importa — falou, agradecendo ao líder do PovoLivre. Sua cabeça ainda latejava, mas teve de ignorar.
— Tem forças para batalhar, mulher? — indagou Magnar, o elmo de bronze brilhando a luz de uma tocha que aproximava-se do trio, carregada por algum selvagem da tribo Thenn que caminhava até o trio.
Allleras assentiu, retirando o arco do ombro.
— Preciso de flechas — avisou, lembrando que as flechas em seu alforje foram destruídas pelo impacto que ocorrera pouco antes.
— Tenho algumas para lhe emprestar — falou Bethany.
— Tome isto de volta — Styr falou, oferecendo o punhal de Alleras, segurando pela lâmina. O Esfinge foi rápido em pegar o objeto novamente, com medo de que o líder tribal acabasse por se cortar sem querer.
— É afiada — falou Styr, levando um dedo até a boca, mostrando que havia sim se cortado; mas, por sorte, não criou caso. Virou-se, observando os outros membros dos Thenns (bom, Alleras deduziu serem Thenns, mas podia ser um grupo heterogêneo) se unindo ao trio; alguns com tochas, outros com armas, fossem espadas ou machados de bronze, ou arco e flechas prontos para atacar qualquer ameaça. Havia alguns Filhos da Florestas também. Estes carregando adagas de obsidiana e tochas.
Alleras, ainda ignorando a dor, escondendo o incômodo com o escorrimento morno, indo até quase o pescoço, e a ardência que sentia nos locais onde a pele fora rasgada, olhou para o mundo à sua volta. Dentro das muralhas, era difícil visualizar a escuridão do mundo, mas percebeu que o mundo além-muralha tinha uma intensa luz baça vermelho-dourada, com alguma fumaça cinzenta subindo no ar gélido e brumado.
Algumas pessoas tentavam impedir os zumbis de avançarem, mas boa parte estava reunida onde Alleras estava agora. O chão era claramente um acúmulo de deve, densa, mas inconstante, podendo afundar a qualquer momento. Os mortos lutavam para sair da neve, enquanto outros andavam até onde Alleras estava.
Styr pegou uma tocha, iluminando a sua armadura.
— Meu povo, Os Caminhantes estão sobre nós! — bradou, sem parecer ter medo. — Que lutemos até vencer ou até cair, mas sem abaixar a cabeça e sermos escravos de gelo como nossos amigos falecidos!
Seu povo gritou em resposta, batendo lanças, espadas e machados contra os escudos, fazendo um barulho que magoou os ouvidos de Alleras.
Homens e mulheres, tanto adultos quanto crianças, viraram-se, prontos para a dar a vida por seu Magnar (a palavra era algo “Lorde” na língua antiga, se Alleras bem se lembrava de seus estudos – tinha orgulho de ter aprendido diversas línguas na Cidadela, conhecendo Valiriano e suas variações, assim como outros línguas mais antigas, sabendo um pouco de Dothraki, mas nada de forma excepcional). Morreriam em defesa de seu líder.
Alleras virou-se para Bethany, que esvaziava o alforje antigo de Alleras (jogando neve e flechas quebradas no chão).
— Onde estão os monarcas? — perguntou ele, enquanto ela colocava flechas melhores no objeto.
Bethany chacoalhou a cabeça.
— Não faço ideia. Talvez tenham morrido, mas não pensarei nisso.
Eles não podem ter morrido, pensou. Sabia que os três tinham de aguentar até o fim para salvar a humanidade. Não sabia como, mas isso lhe fora assegurado.
Também tenho meu papel a cumprir se sobreviver a isso, pensou. Claro, era uma tarefa bem simples.
Bethany jogou o alforje para Alleras, que o agarrou, meio desengonçado.
— Pronta?
Ele acenou. Aquele não seria o dia da morte dele; viveria para morrer depois da alvorada.
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