Fogos irromperam contra o céu, como estrelas cadentes e meteoros, dardejando contra a carcaça voadora e desventrada que atacava o exército. A criatura os afastou deslizando pelas correntes de vento ou batendo as asas contra as bolas de fogo. Apesar de parecer estar na vantagem, o cadáver do dragão bateu em retirada, voando para longe. O som retumbante de trovão, causado pelas batidas das asas diminuía de forma gradativa.

Sandor observou a fera alada sumir na noite. O brilho de seus olhos haviam se dissipado, como que nunca existido. Voltou-se para visualizar o campo. Quase não enxergava nada a um palmo de distância, não fosse a imensa chama que cercava o campo, tecida, erguida e mantida pelos sacerdotes do deus vermelho. A neve copiosa atrapalhava ainda mais a sua visão. Riscos brancos caíam copiosamente. O desastre causado pelo Wyvern tinha destruído qualquer outra fonte de luz próxima. Sandor não tinha dúvidas de que o maldito demônio alado estava atacando outras partes do exército, cuidando de destruir qualquer chama (literal) de resistência. Tal tarefa não era laboriosa para a criatura – o filho duma puta já estava morto!

Olhou em volta, não encontrando ninguém por perto. Sua respiração estava agitada, agitando os flocos que caíam; a armadura parecia pesar mais do que nunca. Seu corpo inteiro transpirava, enquanto o coração parecia querer saltar para fora. Fez um esforço tremendo para ficar em pé. Levou uma mão ao ombro. Estava doendo, mas não parecia quebrado, mas, talvez, deslocado. Quando tentou movê-lo, zurrou de dor, caindo de joelhos. Não era, porém, o ombro que estava doendo – era a axila. Sua suvaco doía como um inferno! Sentia o sangue escorrer pelo longo braço, ficando duro como lama bem rapidinho. A pontada de dor era quase semelhante a quando seu irmão, o maldito Gregor o jogou de cara contra o fogo; faltava apenas o fogo.

Voltou a fazer força nas pernas, ergueu-se, exausto. Olhou para trás, encarando a muralha de labaredas. Estava longe demais para aquecê-lo, mas ainda perto o bastante para lançar uma baça luz onde esta. Apertou os olhos, feridos pela luz. Engoliu seco. A visão era aviltante para ele. Mesmo depois de tanto tempo, ainda era o garotinho que o irmão mais velho afundara a cara na lareira.

Desviou o olhar, relanceou o chão. Tentou ver onde poderia ter alguma espada, machada ou qualquer merda que fosse. Tentou agachar-se para descobrir alguns locais que estavam cobertos por flocos; mas um mínimo gesto que deu fez uma pontada intensa perpassar por metade de seu torso, deixando-o de joelhos novamente. Grunhindo, levou uma mão até o local. Deu um toque leve onde doía, que quase o fez grudar de dor novamente. Provavelmente um ou mais elos da cota de malha entraram em sua pele, ficando enganchado, repuxando o local com força.

Sandor, deixando-se sentir cada vez mais medo, olhou em volta novamente. Ninguém por perto. Deveria berrar? Achava difícil alguém sequer ouvi-lo… E não tinha certeza se seria ouvido pela pessoa certa.

Soltou um palavrão. Apertou os olhos, na expectativa de se adaptarem pela fraca luminosidade, esperando que alguém pudesse aparecer, daí poderia berrar e acenar. Percebeu um ponto de luz. Depois outros dois.

Uma miríade de estrelas azuis abriu-se na treva da noite. Sandor sentiu os pelos do corpo encrespando-se.

X O X O X O X O X O X O X O X O X

Dany sentia que toda e qualquer força que tivera algum dia foi-se de vez. Sentia uma dor imensa nas costas crescer; parecendo ter sua espinha torcida. Tentou mexer-se. Falhou. Sua mão boa e a cabeça pareciam pesar muito para realizar tal esforço. Seu braço nem sequer movia-se, apenas transmitia ondas de dor. Abriu os olhos, quase os fechou novamente. A neve cobria seu rosto. O único calor que tinha para si, emanava de seu filho.

Drogon estava estatelado no chão. Seu corpanzil sempre derretia a neve em volta; agora, porém, sua figura massiva e fumegante estava sendo coberta por uma densa camada de flocos acumulados.

Dany meneou a cabeça, permitindo que alguns flocos caíssem. Piscou algumas vezes. Não sentia o próprio rosto. Ergueu o olhar, tentando visualizar algo. Apesar de escuro, conseguiu ver um tantinho da muralha de Harrenhal. A pedra estava rachada, quebrada na parte superior. Os portões, escancarados.

Aturdida, sem entender como havia parado ali, a rainha tentou se mexer um pouco, mas parou quando suas costas travaram de dor. Virando um pouco a cabeça para o lado, viu o chão de treva, com algum vislumbre da parte membranosa e rubra de Drogon. O simples gesto de mexer, mesmo que lento, fez o pescoço dela estalar, aumentando a dor. Após alguns instantes tentando repassar tudo o que ocorrera, lutando contra a dor aviltante, ela lembrou-se da batalha. Da queda, do braço quebrado, do chicote-corrente, da segunda queda…

Viserion.

Uma chama acendeu-se na mente de Dany. Ela abriu mais as pestanas, furiosa. Voltou a tentar erguer-se, engolindo o sofrimento. O sangue estava acumulado, junto da baba e o bílis, em sua boca. Ficar ereta provou-se uma tarefa árdua, mas ela conseguiu apesar da penúria. Aprumada, voltou a esquadrinhar o ambiente. Drogon estava meio caído de lado, com o dorso meio virado. Ela, sua mãe, sua domadora, encontrava-se pendendo para o lado, quase caindo. Seu braço era um peso que balançava, fazendo um tilintar – a corrente! Ainda estava presa em seu braço!

Dany forçou-se a esticar o braço bom para frente/baixo. Quando conseguiu sentir os elos, fechou os olhos, puxou. Ignorou a agonia lancinante que abalou o seu corpo inteiro. Rangeu os dentes enquanto terminava de puxar, erguendo o braço quebrado.

Quando enfim tomou coragem para olhar o membro, ficou horrorizada: parecia virado ao contrário, ou virado em uma direção diferente em mais de um lugar; a manopla estava com todas as placas de aço negras torcidas, esmagando cada um dos cinco dedos que da mão; esta, inclusive, estava tão esmagada quanto. O pulso estava totalmente quebrado, deixando a mão em uma posição de que parecia estar prestes a cair. Todas as placas de ferro que seguiam ao longo do braço pareciam amassadas, como se fossem apenas papel.O mais bizarro, talvez, fosse o cotovelo; Dany podia jurar ver o osso, parecido com uma lasca de madeira pintada de vermelho, saltando para fora da couraça preta, rasgando a pele.

Vendo aquilo, ela percebeu que a queda havia piorado o estado de seu braço quebrado, e que o calor talvez tivesse amolecido e fundido as partes de metal. Talvez fosse impossível tirar aquilo sem arrancar seu braço.

Benerro cuidará disso. Os sacerdotes tinham feito o mesmo com Victarion e Jon, por que não com ela?

Como se sentisse sua dor e desespero, Drogon pareceu mexer-se, dando um loooongo e leeento sibilar.

Por fim, o braço voltou a forma de um peso esquisito quando Dany terminou de soltar a corrente enrolada nele. Deu um grito de dor quando o membro deixou-se soltar e quase cair no chão. Dessa vez, seu filho pareceu acordar de vez, deu um rugido, lufando fogo. O local brilhou por um instante.

A rainha sentiu um solavanco quando seu filho pareceu aprumar-se. Remexeu-se, derrubando a crosta de neve que ainda não havia derretido. Apesar de voraz, os movimentos do wyvern eram vacilantes, mostrando que ainda estava muito machucado. Um rio de sangue escorria de seu pescoço, pingando no chão, criando fumaça acre.

Dany olhou para frente. Via uma faixa de luz distante, quase todo o campo estava escuro, exceto por um outro ponto de luz, que variava entre amarelo-dourado e azul – este em maior número.

Estavam perdendo campo.

Com o pouco de força que tinha, ergueu o braço, dando uma batida fraca com a corrente. Notou que estava mais curta. O fogo e a queda a quebraram.

— Sōvēs…

Fraco, dolorido, mas nunca sem força de vontade, Drogon claudicou para frente, rugindo. Seu bater de asas começou fraco, mas foi se intensificando, ficando agitado. Dany sentia o calor subindo em seu corpo novamente.

X I X I X I X I X I X I X I X I X

Sandor rastejava de joelhos pelo chão, não sentindo mais nada nas pernas. Infelizmente, não tardou para perder o pouco brio que ainda tinha. Exaurido, curvou-se sobre si, tremendo de frio. As figuras de olhos azuis estendiam-se sobre ele, aproximando-se, de braços erguidos.

Sor Sandor fechou os olhos, começando a rezar. Fizera muito isso quando fora salvo na Ilha Quieta. Lá deixara a identidade de “O Cão” para trás. Agora, ele pensou, apesar do medo, orou para ter o perdão da Mãe, e que o Pai lhe julgasse a alma com justiça.

— Sandor! — alguém gritou.

De chofre, ele abriu os olhos, ergueu-se, virou-se para encarar quem era. Dois lobos avultaram-se das sombras, derrubando alguns mortos-vivos. Uma figura esguia derrubava os outros com um bastão de duas pontas afiadas. A arma era praticamente inútil contra eles, mas a figura era fluída como a água. Seus golpes rápidos faziam as criaturas tombarem.

Um brutamontes que surgiu os finalizou de vez – trazia uma espada negra com veias vermelhas pulsantes, banhada em chamas nos dois gumes afiados. Seus golpes cortavam as criaturas mortas como se nada fossem, atravessando até a cota de malha, e incendiava a carne.

A princípio, Sandor pensou ser Beric Dondarrion, voltando dos mortos mais uma vez. Então se corrigiu. Reconheceu quem verdadeiramente era o guerreiro pelo elmo: usava seu capacete acerado, com a forma de um cão de caça. Era Sor Gendry, a putinha da Arya. A outra figura devia de ser a própria Arya Stark, a pirralha insuportável. Deu graças aos deuses por ela ainda estar viva.

Os dois amancebados foram até Sandor estava ajoelhado, enquanto dois lobos pareciam fazer guarda contra os mortos. Sor Gendry lhe estendeu o braço, no que Sandor aceitou de prontidão. O puxão foi tão forte que ele quase caiu, precisando de forças para manter-se em pé. Não sentia as próprias pernas.

— Desculpe — disse o cavaleiro. — Melisandre deu-me este novo braço, ainda estou a acostumar-me. — Ergueu o membro. Mão ainda estava normal, mas abaixo do pulso era tudo uma crosta vermelha e negra bem feia de se olhar.

Sandor fez um esgar, mas não pelo braço – era pelo elmo que o homem usava. Ninguém deveria usar aquela merda amaldiçoada.

— Tem uma espada? — Arya indagou, virada de costas para ele, de prontidão contra a horda inimiga. Seu cabelo estava trançado, mas um tanto encrespado pelo frio. Ela segurava uma lança de represeiro, parecendo uma lança de osso, apontando uma ponta preta para os inimigos, outra para o chão.

— Não — respondeu ele, com a voz tremelicando pelo frio. Detoda forma, não estava em posição para lutar; o braço continuava da espada continuava incapaz de mover-se. — P-perdi a minha… — Olhou para Sor Gendry, depois para a princesa. — Onde está o seu…?

— Perdemos Ned — atalhou Gendry. — É tudo que precisa saber.

Sandor ficou em silêncio. Olhou para a figura guerreira de Arya mais uma vez. Sabia que por baixo de toda aquela armadura excelsior, existia a menininha assustada que ele encontrara no Tridente. Uma piralha mimada, aporrinhenta, que sempre reclamava de absolutamente tudo. Uma menina que perdeu seus pais na guerra. Os irmão. Agora, perdeu um marido.

Sandor voltou a encarar Sor Gendry. Assentiu. Não havia tempo para lamúrias.

— Como sairemos daqui?

— Abrindo caminho — respondeu Arya, ainda perscrutando todos os mortos.

— Meu braço…

— Ou luta ou morre — vociferou ela, falando por cima do ombro. — Não temos tempo para salvar ninguém.

Sandor ouviu aquilo, refletiu que seria algo que ele provavelmente falaria para a moça quando ela era uma criança magrela vagando nas terras devastadas do Tridente.

X O X O X O X O X O X O X O X O X

— Precisa tirar seu clero daqui! — vociferou Stannis defronte a Benerro. O sacerdote supremo do Deus Vermelho era mais careca que o monarca. Trajava ricas vestes escarlates com renda vermelha-escura e dourada, que ondulavam languidamente, seguindo o vento. Seu corpo inteiro tinha tatuagens escarlates que rebrilhavam ao serem tocadas pela luz fulgente das chamas.

Em contrapartida à imagem inabalável do sacerdote, o Rei encontrava-se mais exaurido do que nunca, totalmente agarrado pela fadiga. Estava até difícil manter-se em pé. Hauria com dificuldade, fazendo um chiado agonizante.

Benerro era impassível. Negou as ordens do rei com um menear da cabeça.

Stannis o amaldiçoou. Apenas não o atacou com sua luminífera pois isso apenas traria revolta dos outros sacerdotes – ou Benerro apenas faria dele cinzas.

— Precisamos proteger as pessoas dos enviados do Grande…

— Os enviados do Grande Outro apenas hão de congelar vocês, seu fanático egocêntrico! — rebateu Stannis perdendo a paciência (que já não era muita) com aquele irritante líder religioso. Nem mesmo os fanáticos Florent eram tão irritantes! — Vocês precisam proteger o Bosque Sagrado! Esse castelo não pode cair; se o fizer, temos de ter vocês como principal linha de defesa lá dentro!

Benerro bate o pé. Melisandre foi até o seu supremo sacerdote.

— Majestade está certo — ecoou as palavras de Stannis. Falava no dialeto de Volantes. — Os Outros vão passar…

— Os servos do grande Outro não passam pela obsidiana no solo! — redarguiu o sacerdote, virando para encarar a sacerdotisa. — Devemos garantir de que não hão de passar!

— Mas…

— Sua insolência foi longe demais! — declarou ele, colérico. — Enquanto nós tentamos procurar um salvador, mas você acha falsos salvadores, lesadores da luz! — Apontou para Stannis com a cabeça. — Acha que essa patifaria fazedora de luz que ele empunha é a luminífera? Besteira! É apenas mais Glamour com o qual você deixou enganar até a si mesma!

A mulher vermelha encolheu-se um pouco com as declarações de Benerro. Esse era o grande líder da religião vermelha; poderia quebrar a vida de Melisandre com um mísero gesto se assim o quisesse, fazendo-a virar pó.

— Eu ainda creio que Stannis há de ajudar…

— Você disse que Jon era o Azor Ahai — rebateu ele, seco.

— Sim, mas Stannis… — hesitou. Sabia que nada daquilo ia convencer seu chefe supremo (depois de R’llhor) a fazer o que ela lhe pedia.

Stannis franziu o cenho, cerrou os dentes. Não gostava do modo como Benerro falava com Melisandre – mesmo que nem sequer soubesse o que era dito. Sabia pelo menos um pouco de expressão corporal. Básica, óbvia, mas sabia.

— Que balbucia o grande enviado da luz? — indagou Stannis. — Não temos tempo a perder! Pessoas estão morrendo e voltando como inimigas! Pelos deuses, homem!

Benerro relanceou Stannis. Havia muita soberba no olhar e nos lábios franzidos. “Você não é realmente alguém importante, apenas um careca coroado com uma espada de brinquedo.”

— Existe apenas um Deus, Lorde Stannis — corrigiu-lhe. — E é o nosso. Ele deu-nos o poder de afastar a besta alada que acabou de matar diversos do seu e daquele tal de Jon. Sem nós…

— Já sei — atalhou Stannis, farto desse homem. — Nossos traseiros estavam congelados. Grande ajuda, mas onde estava ela quando sua dita salvadora caiu para a morte? Brincando de acender fogueiras?

Agora Benerro estava mesmo irritado. O esgar dele era demoníaco, as tatuagens ficaram incandescentes, parecendo prestes a incinerar o monarca ali mesmo.

Antes que o fizesse, porém, Melisandre ergueu um braço, apontou para o horizonte.

— Olhem! Ali!

Quando se viraram, viram o que parecia uma bola de fogo rastejando no chão de terra e neve. O ribombar das batidas das asas chegava antes da criatura. Quando estava mais próximas, entenderam ser o dragão de Daenerys (na verdade, maioria já imaginava, mas ficara assustada mesmo assim). Seu dragão voava – ou pelo menos tentava fazer algo próximo a isso –de forma desengonçada. Seus patas batiam com fúria agitada no chão. Era uma grande e espalhafatosa galinha preta e gigante que cuspia fogo ali e cá.

— Pelos deuses… — falou Stannis, incrédulo com a cena. A criatura movia o pescoço como um cobra em agonia, cuspindo fogo sem olhar a quem. Era uma cena aterradora para qualquer um que estivesse por perto.

O dragão devia estar ferido demais pela queda. Uma das asas movia-se de forma mais agitada que a outra, que parecia não conseguir abrir-se por completo. Uma das pernas parecia não ter força, deixando o dragão claudicando de forma agitada.

A fera parou perto de onde Stannis e os sacerdotes estavam. Os soldados e feiticeiros por perto ficaram apreensivos, mesmo sendo um animal aliado – ou assim esperavam, visto que ninguém havia visto Daenerys para ter certeza de que ela estava viva e controlava a fera.

O dragão rugiu, erguendo o pescoço. O cheiro de carne podre e queimada, junto de enxofre encheram o ar de forma enjoativa. Todos no local, exceto os sacerdotes vermelhos, deram passos para trás, sentindo bolhas surgirem na pele. Stannis – um pouco mais distante, mas ainda sentindo a onda de calor da fera de fogo – percebeu brilhantes filetes vermelhos escorrerem pelo imenso pescoço negro da criatura. O líquido expelia fumaça; derretia a neve ao pingar nela. A asa e a perna feridas também jorravam sangue. O chifre esquerdo estava quebrado. Provavelmente fora por conta da última queda.

A neve do local derreteu ainda mais, formando uma camada semilíquida. Fumaça subia por toda a extensão branca.

As pessoas por perto olharam com apreensão para o Dragão. Stannis precisou dar um basta.

— Baixem as armas, seus idiotas! — ordenou ele. Será que não viam a burrice que era apontar uma espadinha para um ser que queimou cidades? — Voltou-se para frente. Encarou a fera. Olhou, sem vacilar, para seus olhos vermelhos. Pareciam duas poças vulcânicas e infernais.

Perscrutando para além do rosto da fera. Viu uma pequena figura montada na sela. Viu Daenerys.

— Grande iluminada! — exclamou Benerro, fitando a imagem destruída de sua rainha.

Alguns sacerdotes vermelhos, junto de alguns soldados de aparência estrangeira, correram até a criatura, sem parecer teme-la. Parte deles escalaram as escamas e espinhos de Drogon, que parecia prestes a matar todos a qualquer momento.

Com dificuldade, Daenerys foi retirada de sua sela, carregada para baixo por seus auxiliares.

Eles ainda veem como sua salvadora, Stannis pensou ao ver a cena. Sabia que nem Robert nem Renly deviam ter sido tão adorados por seus aliados. Sabia que, diferente de seus irmãos e a Rainha Dragão, até mesmo de Jon, ele nunca teria pessoas tão fieis assim.

Foi até a Rainha. Ao ver o estado dela, franziu o cenho, fez uma careta. Era uma imagem agonizante de se ver. A jovem mulher estava um verdadeiro trapo – a armadura estava amassada em vários pontos, semi derretida noutros; o elmo estava perdido, revelando os fiapos de cabelo que estavam tão sujos que perderam o brilho prateado. A pele da rainha estava avermelhada, cheia de bolhas imensas estouradas que expeliam pus em diversas partes do corpo. O rosto era um mistura de sangue coagulado, líquido pungente, suor e fuligem. Os lábios estavam totalmente rachados, sujos de sangue.

Mas o pior era o braço. Estava entortado, com um osso exposto; totalmente esmigalhado. Parecia mais fácil acreditar que havia um galho longo e delgado do que um braço por debaixo de toda aquela couraça preta.

Daenerys estava sem forças para andar, de modo que era carregada por um soldado estrangeiro. Alguém deu-lhe um odre de água para ela,, que aceitou com apreço. Deixou que botassem o bico da garrafa na boca. Bebeu vividamente, terminando todo o conteúdo num gole.

— Benerro… — murmurou ela, fraca, enquanto era levada até o sacerdote.

— Minha iluminada! — Fez uma profunda vénia.

— Meu braço… Meu braço…

O sacerdote examinou o membro (ou o que sobrara dele) referido por ela. Stannis e Melisandre afastaram-se enquanto a cena se desenrolava.

— Acha que ele pode salvá-la? — indagou ele para a alta mulher. Esta respondeu com um dar de ombros.

— Nunca vi ser feito um ferimento como esse. Jon e Sor Gendry tinham a pele afetada, precisando ser cicatrizadas; mas isso… — Olhou de relance para onde Daenerys estava. Esta gemia de dor conforme era levemente tocada. Num momento deu um grito, o que quase fez seu Dragão parecer surtar de vez, assustando a todos.

— Seja lá o que for feito, deve ser feito agora — falou Stannis. — Os mortos estão cercando-nos. Os Outros logo percebem que o terreno é deles e nos invadem.

Melisandre assentiu.

— Tive uma visão — revelou ela. — Do bosque Sagrado de Harrenhal.

Ele a olhou com dúvida.

— Seu Deus, você acha?

— Que mais seria? Acho que todos também o veem, mas Benerro insiste em continuar aqui. Não vão sem ele, acredite; temem estar interpretando errado. Apenas Benerro é quem é mais confiável para interpretar os significados daquilo que nos é mostrado no céu.

Stannis rangeu os dentes. Tinha um palpite do que poderia ser a tal visão, mas achava que sua velha companheira estaca cega para tal percepção. Uma mulher poderosa, limitada pela interpretação que tinha ao ver as chamas e fagulhas de uma lenha de lareira virando tição. Uma cosmovisão tão irreal, limitada e incoerente que seria cômica, não fosse o desperdício do real potencial de poder que era desperdiçado por ela.

Melisandre não poderia matar Benerro? Se bem que achava que ela nunca iria tão longe sem uma visão de seu deus antes. Suspirou, irritado. Religiosos, por que todos tinham de ser tão irritantemente difíceis de lidar? Mais valia tentar fazer o sol nascer quadrado ou fazer a muralha de um castelo criar vida do que impedir que fanáticos agissem de forma normal. Todos tinham pensamentos e modos oblíquos.

Enquanto falavam, alguns homens aproximavam-se. Eram homens vivos. Apesar da destruição sem sentido do dragão de Daenerys, grande parte dos mortos-vivos fora queimada. Stannis achava que tinham algum nível de inteligência, pois pareciam ter se dispersado, evitando aproximar-se de onde ele e o seu pequeno exército reagrupado estavam.

Estão atacando onde o dragão não está, pensou. O mamute e os dois gigantes mortos deviam estar fazendo o mesmo: eles devem ter sido ressuscitados, mas usados para atacar áreas esparsas. Não à toa o dragão revivido se afastara sempre que a ameaça aumentava – o inimigo gelado sabia que mais útil seria não desfazer sua grande arma contra o dragão de fogo que podia queimá-lo num estalar de dedos. Por isso nem tentara atacar Drogon quando este estava caído; provavelmente temia que o dragão ainda pudesse queimá-lo com seu fogo (e este, aparentemente, mostrou-se um pensamento certeiro).

Os mortos podiam ser lentos e limitados, mas a mente por detrás deles, controlando-os como títeres, era bem esperta. Estavam apenas ganhando tempo, desgastando os vivos em um só local, impedindo-os de ter tempo para avançar e atacar. Deixavam-os esgotados, fragilizados, com diversos mortos e outras baixas.

Stannis percebeu que era Jon antes de ver sua imagem em si – reconheceu a luz pálida que emanava calor. O Nortenho caminhou até ele. Seus cabelos estavam frisados, quebrados em algumas partes. Atrás dele, estavam Lorde Blackwood, usando a armadura verde do pau; Sor Mychel Redfort; Lorde Waynwood e Lorde Yohn Royce, junto de seu filho. Lorde Edmure e Lorde Bracken estavam logo atrás. Stannis sabia que Melisandre estava sussurrando nos ouvidos daqueles dois. Olhos deles tinham de estar bem atentos.

O monarca do Norte aproximou-se de Stannis.

— Conseguiu falar com Benerro?

— E desde quando existe diálogo com fanáticos? — perguntou, irritado. Olhou para Melisandre de soslaio. — Lamento, Milady.

Ela deixou o comentário de lado abanando o ar com a mão.

Jon fitou o supremo sacerdote. Fez um semblante preocupado ao ver o estado de sua esposa, examinada por Benerro.

— Acha que ela sobrevive? — olhou de esguelha para Stannis, fitando-o com seu olho vermelho desconcertante.

Este não respondeu. Bastava esperar.

O líder dos seguidores do Deus Vermelho virou-se. A barra de sua pesada veste balançava de forma ondulada com o vento batendo contra ela.

— Não tenho como salvar o braço dela. O ferimento…

— Corte — Daenerys dissera. Parecera estar sendo doloroso permanecer acordada. — Corte, agora. — Seus olhos de ametista fitavam seu marido. — Agora, Jon. Corte.

Surpresos, todos olharam para o consorte da rainha. Este, por sua vez, apenas acenou com a cabeça, sem parecer titubeante. Caminhou até a esposa, erguendo a espada.

Stannis olhou a cena, incrédulo, como todos os outros. O dragão de Daenerys rugiu. Todos ficaram atemorizados com a possibilidade da fera surtar e começar a matar todos caso algo ocorresse com sua mãe.

Daenerys ordenou que os dois estrangeiros que a seguravam que a ajudasse a se ajoelhar. Nesse momento, alguém começou a dar empurrões na multidão, avançando até perto do triunvirato de monarcas. Era um homem velho, feio, careca, com uma mancha disforme no rosto, baça. O manto branco como a neve estava sujo de cinzas e sangue.

— Khaleesi…

— Quieto, Jorah! Não se meta! — exclamou ela, respirando de forma arrítmica. — Não distraia Jon…

O feio homem que irrompera olhou feio para Jon, mas este nem importou-se, apenas foi até Daenerys.

Dany, pensando que Sor Jorah poderia surtar por conta de sua mente ciumenta, ordenou para que seu velho urso esticasse seu braço destruído.

Jorah arregalou os olhos, piscou um pouco.

— Khaleesi…

— AGORA! — Vociferou com uma força na voz que nem sabia que ainda tinha.

Seu guarda fez o que era mandado. Pegou no braço dela pelo pulso torto, ergueu-o. A Rainha urrou de dor a cada gesto simples que seu braço era forçado a dar. Lágrimas começaram a escorrer. Dany sentia sangue acumular-se na dolorida garganta. Sua pele ferida e rachada ardia ao entrar em contato com os flocos de neve, que pousavam nas feridas e bolhas abertas. Seus joelhos pareciam prestes a explodir, parecendo ser esmagados pelo peso dela. Armadura e cota de malha pareciam estar muito amassadas; parecia uma armadilha esmigalhando o corpo frágil de Dany.

Jorah parou de erguer o braço quebrado na metade do caminho. Não movia-se mais. Ele olhava para a cena com horror, vendo o membro da mulher que amava estando torto, com um osso exposto. Seu rosto deixara o vermelho bruto de lado, ficando pálido, boca aberta.

O braço ainda estava muito baixo.

— Puxe…

Jorah abanou a cabeça.

— Khaleesi… Minha rainha…

— Puxe! Puxeeeaaaa!!! — berrou quando, de chofre, seu membro foi puxado, ficando reto. Osso exposto sumiu, mas o braço ainda estava muito destruído. Um estranho estalo foi-se ouvido. A Rainha não conseguiu conter os soluços e choros.

Jon ergueu a longa lâmina pálida. As chamas azeradas lambiam o ar. Aproximou-a de sua esposa-tia, ajoelhada no chão, chorando, como uma acusada esperando a execução do carrasco. Mas Jon sabia que nos olhos de Dany não havia culpa. Apenas medo e coragem.

Todos observavam, quietos. O dragão da Rainha se agitara. Ao invés, porém, de ameaçar o homem que segurava uma espada contra sua mãe, a fera apenas virou-se, rastejou alguns metros. Borrifou fogo em volta, queimando qualquer um no raio das chamas – fosse vivo ou morto.

Com cuidado, o Rei do Norte desceu a lâmina da espada. Dany respirava de forma profunda, barulhenta. Evitou olhar para a cena, fitando apenas a muralha de chamas criadas pelos seguidores de R’llhor. Rangeu os dentes ao sentir o calor. Por sorte, alguém deu-lhe uma tira de couro para morder.

Fumaça saiu quando o aço leitoso tocou na pele do braço. A Rainha sufocou um grito. Contorceu-se, mas ainda a agarravam firmemente. Ela não tinha forças para se soltar. A lâmina incandescente desceu, cortando e queimando a pele. Daenerys abafou o grito, remexeu-se violentamente, como um animal em agonia querendo fugir, conforme Jon descia mais a carne. O rei olhava de modo frio para a cena, como se apenas olhando um trabalho sendo feito com muito afã e seriedade; nem parecia estar desmembrando a sua jovem esposa, que gritava de agonia.

Melisandre e os outros sacerdotes – os que pausaram suas rezas para ver o que acontecia – olhavam para a horrenda cena com um certo fascínio e muitas interpelações. Era como ver a profecia sendo realizada: o salvador escolhido, enfiando uma espada na amada para salvar o mundo. Seria, então, o Rei Jon o verdadeiro salvador?

Quando a espada encontrou o osso, o monarca de pé moveu um pouco a lâmina, como se fosse uma serra cortando madeira. Dessa vez, Daenerys tremelicou com intensidade, em total sofreguidão. Os homens tiveram que segurá-la com mais firmeza, para que ela não escapasse. O pedaço de couro em sua boca caiu quando ela abriu boca, jogou a cabeça para trás, gritou.

— Pelos deuses… — falou o horrorizado lorde Brynden. Lorde Waynwood virou-se, vomitou. Sor Mychel apenas virou o rosto, não suportando ver aquilo. Lorde Yohn estava com o rosto pálido, de queixo caído, não parecendo acreditar no que via. Lorde Edmure pareceu tentar parar a cena, mas seu companheiro, Lorde Bracken, barrou-o, pousando uma rápida mão no ombro, abanando a cabeça. O dragão rugiu com sua mãe, bateu as agitadas asas, espalhando mais calor no ambiente. Parecia ele mesmo ter um membro decepado.

— Não deixem que ela se mova — ordenou Jon, de olho cravado na ferida que abria. Continuava serrando o membro, lentamente. Os ossos pareciam se desfazer rápido pois a lâmina descia sem muita demora. As placas da armadura começaram a ficar vermelhas, molengas, perdendo a forma solida, soltando o que precia um gritinho estridente de agonia enquanto a espada ancestral dos Daynes lhe derretia. O metal derretido escorria com o sangue. O grito de Daenerys parecia um som gutural agonizante. Mais de uma pessoa, mesmo entre os mais fortes, vomitou e/ou desviou o olhar, não suportando aquilo.

Conforme a Alvorada cortava o braço de Dany como se cortasse uma mera vela de sebo, a carne se contorcia, enegrecendo. O fluxo de sangue, estancado. O forte cheiro de carne queimada subia, defumada, carbonizada, junto do forte cheiro de metal derretido. Um soldado agarrou a cabeça de Daenerys enquanto outro botava um pedaço de madeira para ela morder. A rainha, porém, parecia não ter mais forças, desmaiando. A madeira caiu de sua boca. O homem soltou a cabeça, e esta caiu de lado. Os olhos púrpuras da rainha estavam semicerrados, mas parecia não ver nada.

Por fim, o braço armadurado caiu na neve. Fumaça saia de onde havia sido feito o corte. Uma mancha preta, uma crosta parecida com carvão, expelia fumaça, impedindo sangue de sair. O restante do membro deixava o líquido vermelho jorrar na neve fofa, formando pequenos riachinhos de sangue. Sor jorah – que já havia soltado o membro quando ele pareceu saltar de Daenerys – fitava o braço decepado em silêncio, parecendo tentar assimilar tudo aquilo.

Daenerys estava caída de lado, nos braços de um soldado Dothraki. Não era Jhaqo, pois este já estava morto. Era um Dothraki qualquer, coberto de pele lanosa grosseira. Dany havia feito todos eles serem seus companheiros de sangue. O povo dos montadores de cavalos navegaram no mar por ela. Dariam a vida por ela.

Jon ficava a lâmina na parte cortada de Daenerys, pressionando o aço leitoso e incendiado contra o ferimento exposto, garantindo que ficasse cauterizado. A pele fez um “sssssshhhhh” em protesto, assim como o metal. Quando tirou, a carne estava preta, com detalhes em metal preto e prata-esfumado onde o metal se fundira.

Em silêncio, Jon ajoelhou-se ao lado de sua esposa.

— Daenerys — chamou-a, sussurrando, calmo. — Precisamos que você acorde.

— Ela não… — Stannis começou a protestar quando Jon lhe olhou de soslaio. Não devia se meter.

Dany abriu os olhos, fraca. Olhou para o homem que a segurava. Deu um sorriso fraco, tremendo no canto.

— Drogo? — ela chamou, achando que estava no céu onde o khalasar etéreo cavalgava sobre as estrelas. Livres da guerra do mundo. Livres das traições, do medo, das paranoias. — Nós estamos livres agora? Vencemos…?

— Daenerys. — Ela olhou para onde a voz que a chamava vinha, fazendo esforço para virar a cabeça. Se encolheu, achando que era Viserys, ainda mais monstruoso. Começou a chorar, abraçando seu marido. Estava no inferno? Estava tão frio…

Quando o rugido de seu filho irrompeu no céu, jorrando chamas negras e vermelhas, iluminando mais o mundo, Dany abriu os olhos de chofre. Seu coração disparou no peito. Não era seu irmão a sua frente; era seu marido. Seu quarto marido. Jon. Viserys estava morto. Assim como Drogo.

Ela engoliu seco, tentando se recompor. Afastou-se do homem de pele acobreada, deixou que seu marido a ergue-se. Ele o fez com a gentileza que pode. O corpo dela protestou ao levantar-se, mas ela manteve-se firme em seu gesto. Por instinto tentou mover o braço esquerdo, esquecendo-se, por apenas um instante, que havia apenas um mini-toco no lugar.

Dany varreu o local com o olhar, relanceando-o para a míriade de rostos heterogêneos e desgastados que fitavam-na com espanto. Drogon a encarava, furioso; mas ela via dor no seu esgar. O olhar do lobo albino de Jon também era assim – vermelho, com ódio e dor, sanguíneos.

— Preciso que fique firme — Jon disse. Sua voz era um sussurro nada suave no ouvido dela. Encarava-a, sério. — Todos precisamos.

Daenerys o encarou de volta. Ele dizia a verdade; a humanidade estava sob o fio da navalha. Assentiu com um gesto da cabeça. Fez força para manter-se erguida, mas ele não a soltara. Segurava-a pela cintura, não deixando-a em risco de cair. Dany o fitou com surpresa.

Stannis foi ter com eles, movendo-se enquanto todos ficavam onde estavam, parecendo esquecer-se da luta. Por sorte, Drogon havia incendiado uma boa área, impedindo os mortos de avançarem.

— Tem de mandar Benerro e seus homens entrarem no castelo — falou Stannis, que era um parente relativamente distante de Daenerys (ambos lembravam-se disso de forma aleatória, deixando-os desconfortáveis sempre que o faziam).

O Supremo sacerdote aproximou-se, protestou:

— Eu não…

— Ele tem razão — atalhou Jon. — Eles são fortes demais para ficar expostos. Se os Outros invadirem, precisamos deles unidos e atrás das muralhas, protegendo as pessoas.

Dany ponderou o que lhe fora dito. O raciocínio de seus companheiros fazia sentido. E Harrenhal podia estar precisando de combatentes de fogo para finalizar as criaturas. Encarou Benerro.

— Leve os seus para dentro, mas pode deixar alguns aqui fora. Vamos precisar de suas habilidades com fogo.

Benerro pareceu incrédulo, escancarando a boca.

— Minha iluminada…

— Faça o que lhe ordeno! — vociferou ela, dando um braço para frente. Jon garantiu que ela não caísse.

Mesmo a contragosto, Benerro assentiu. Virou-se, braços erguidos, soltando fogo das mãos, com glifos valirianos. Berrou palavras em outras línguas. Os sacerdotes abaixaram os braços, parando as orações; giraram os calcanhares, correram neve a dentro, indo até o castelo. Poucos ficaram para a luta. A muralha de chama diminuiu, começando a sumir.

— Não vai durar — pontificou Stannis.

O Rei e a Rainha assentiram.

— Vamos cuidar de nos preparar — respondeu Dany. — Leve-me para Drogon. Estou pronta para voar de novo.

Jon anuiu. Sabia do que sua esposa era capaz de fazer para salvar as pessoas.