Sansa, após uma difícil caminhada, agora montava uma égua, acompanhando a marcha em direção ao seu irmão mais novo. Para não cavalgar a trote lento, montando de lado na sela, a princesa rasgara uma parte de sua – já bem destruída – saia, ficando quase até os joelhos descoberta. Retirou uma água, mas manteve as outras, para não passar frio. Uma das mangas boca de sino de seu vestido estava rasgada. Quanto a seu acobreado cabelo – encrespado pelo furdúncio que ocorrera no salão – estava trançado pelos retalhos mais finos de sua saia.

Por sorte suas coxas já estavam duras após os longos períodos de cavalgadas que ela dera de Winterfell até Correrrio. Seus pés e pernas, porém, estavam doloridos após ela ter aguentado tanto tempo em pé no Salão das Cem Lareiras. Pior foi ter tido a ideia de andar com a coorte de pessoas que dirigia-se até Brandon. Seus sapatos e pés logo estavam destruídos pelo andar longo, lento e frio. Pelo menos conseguira um manto grosso de peles de urso para cobrir-se, protegendo-se (em parte) do frio. Mesmo com alguns furos, ainda era de boa qualidade.

O manto fora retirado do corpo morto e rechonchudo de Samwell Tarly, um amigo de Jon. O pobre e rechonchudo patrulheiro morreu garroteado pela própria companheira e seu filho. Um triste fim para os três. O Tarly havia se sujado todo, mas, pela pouca e rara bondade dos deuses, o seu manto velhi de patrulheiro estava em bom estado.

Ao pensar naquilo, Sansa perguntava-se o que diria a Jon caso o reencontrasse e, mais importante, caso tivessem resolvido essa guerra pela vida.

Quanto tempo toda essa batalha já estava durando? Sansa podia dizer que já fazia pelo menos um dia ou dois, mas não tinha como saber se o espaço de tempo fazia sentido. Podiam ter passado apenas um punhado de horas e ela apenas estava exausta e estressada demais para ter noção do tempo real. Parecia impossível dizer – não tinham sol, ou mesmo lua, para saber que tempo do dia podia ser. Uma semana poderia se passar e tudo o que mudaria era a quantidade de neve acumulada.

O exército cansado marchava com dificuldade. Uma horda de mortos poderia surgir do extremo nada; ora atacavam de surpresa, em bando; ora formavam uma barreira que precisava ser derrubada; certa vez até estavam soterrados na neve, apenas aguardando o momento que uma parte do grupo passasse por eles, apenas para atacarem, de supetão, os pés e cascos que passassem por ali.

Nem metade do caminho havia passado e mais da metade do grupo já havia morrido.

O Umber ajudara na batalha do salão morreu contra um urso; de todas as defensoras da guarda pessoal de Sansa, apenas Sor Aly e duas esposa de lança estavam vivas; mais de cinquentas soldados da terra da tempestade estavam mortos; praticamente mais da metade do clã dos Thenns estava morta; todos os soldados Karstark, que serviram como parte da linha de frente com suas lanças, foram massacrados. Nem mesmo Wun Wun parecia durar muito – parte de seu pelo lanudo fora arrancado, principalmente nas pernas, onde haviam alguns locais com ferimentos expostos sangrando. Os mortos-vivos o agarravam sempre que podiam, subiam nele. Certa vez, o tolo gigante caiu, esmagando alguns dos mortos e dos vivos, e pareceu que ali ia morrer de vez – quase fora totalmente coberto pelos revividos, se prenderam a seu grosso pelo como se fossem lêndeas.

Os sentimentos de desespero na jornada piorou quando o dragão caíra do céu. Diversas pessoas dispersaram, correndo em diversas direções, largando armas, comprometendo mais a formação de fileiras de soldados. Foi nesse momento que ela teve certeza de que o inimigo era mais sagaz do que parecia – quando o exército fraquejou, após o tremor do chão causado pelo Wyvern que despencara do céu, os revividos cercaram os vivos por todos os lados; os mortos vieram, cercando por todos os lados, enquanto outros se surgiam de dentro da neve, agarrando quem passava. Fora o ataque em que mais pessoas morrendo; grande parte das montarias fora morta ou tiveram de ser sacrificadas, pois os mortos agarraram suas angulas e pernas, derrubando-os, deixando-os aleijados.

Mas, é claro, a salvação veio dos céus: os corvos. Eles surgiram quando tudo parecia perto da derrota, comendo os corpos dos mortos; ajudando os vivos a ganharem alguma vantagem. Havia lobos também, que agora andavam por perto da caravana humana. Como era de se esperar, todos agradeceram ao “Príncipe Corvo”. Sansa estava percebendo para onde tudo aquilo estava caminhando; será que Jon e Daenerys também? Não queria nem pensar no que a esposa de seu falso irmão mais velho era capaz de fazer.

A maior parte dos que morreram em praticamente todos os ataques era da plebe, em sua maioria os idosos, que padeciam por conta das condições. Grande parte da classe social mais baixa era formada mormente por crianças; variando entre quatorze e dezessete anos, alguns tendo menos de dez. Os mais velhos (os de quatorze, mas alguns com doze) seguravam espadas, porretes, bastões, clavas, facas, machadinhas, enxadas e até enxós. Todos seguravam as suas armas com mãos débeis, parecendo prestes a soltá-las a qualquer momento. A qualquer momento podiam soltar o armamento e sair correndo.

Grande parte da coorte de jovens armados eram meninas e moçoilas – boa parte nunca sequer pensara em segurar uma espada de torneio; mas estavam dispostas a lutar pelas suas vidas (e até pela vida de seus entes, pois algumas das jovens guerrilheiras tinham irmãos e irmãs mais novas consigo; às vezes até um parente idoso).

Era possível separar quem era uma criança (ou um jovem adulto) do Povo Livre e de quem era do sul da muralha: os que viviam nas terras extremistas e invernais eram muito mais corajosos. Mesmo as garotinhas mais novas tinham mais brio do que um rapazola com quase dezesseis dias de seu nome.

O ambiente onde esses “selvagens” cresceram os tornaram pessoas, de fato, selvagens: animais perigosos, frio extremo, luta de clãs, mortos atacantes, dentre tantas outras coisas. Não era uma surpresa Jon acreditar que quando usassem cota de malha e aço completo poderiam ser a maior das ameaças ao reino.

Uma ameaça que ele está disposto a usar. Sansa, que já havia visto a destruição que clãs podiam causar no Vale, perguntou-se o quanto seu irmão era diferente de Daenerys com os seu dothraki.

O Magnar de Thenn estava poucos trotes à frente da princesa. Seus ombros estavam caídos, seu olhar cinzento estava vazio, estava curvado sobre si. Era um viúvo abatido, não pela guerra, mas pelo luto que ela lhe trouxe.

Sansa tentou confortá-lo, mas sem muito sucesso. O líder tribal precisava ver seu clã a salvo. Mais importante – precisava ver seu filho a salvo.

Ela nunca saberia o que ele sentia. Seu marido morto fora um estorvo em sua vida; seu marido vivo, bom… Tyrion fora bom para ela no passado, mas agora, era um inimigo. Ela duvidava que isso mudasse.

Suspirou, segurando as rédeas. Estava tão exausta e cansada. Nem sequer estava acompanhando suas companheiras vivas, assim nem sequer tivera o luxo de chorar pelas mortas.

Perdi tantas pessoas, pensou. Um vazio crescia dentro dela. Sentia que as coisas estavam perdendo o sentido para ela. Valia mesmo a pena viver nesse mundo? Morreriam de qualquer forma – e havia mortes piores do que pelos mortos garroteadores por mais absurdo que isso fosse.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Margaery sentia o sacolejar do carro de boi. Um cheiro forte de merda e urina a acompanhava. Cynthia ainda choramingava, envergonhada por estar toda suja. Robb, o filho de Lady Roslin estava finalmente dormindo em suas próprias fezes e urina, enquanto a mãe ainda o segurava, forçando-se a ficar acordada. Bárbara desmaiara há muito, após vomitar em si mesma. O rosto coberto de vômito e sangue seco. Jeyne estava quieta, no canto oposto ao de Margaery, cabeça baixa. No meio delas, Wylla, introspectiva, olhava para o nada, sem nem se importar com a neve que caia nela.

Margery também estava urinada, não suportando segurar a bexiga por muito tempo; quando mortos quase viraram a carroça no último ataque, ela se desconcentrara, o líquido quente escorreu entre as suas pernas, molhando mais o vestido, que já fedia desde que o imenso e gorducho homem que tombara em cima dela no salão se sujara enquanto a esmagava.

Os bois que puxavam a carroça foram substituídos por cavalos; os cavalos, por homens de ombros largos. O andar da carruagem estava ainda mais lento.

Margaery estava muda em sua dor. Seus pés estavam menos doloridos agora, mas provavelmente era por conta da dormência do frio. Havia vergões neles, circulando a parte onde dos tornozelos. O vermelho escuro em contraste com a pele pálida. O pescoço de Margaery também tinha vergões, assim suas dolorosas costas. Respirar ainda era complicado para ela; tinha medo de que tivesse uma costela quebrada; ou até duas.

Ergueu a cabeça, afastando um pouco o capuz, olhou para o céu. Podia ver os corvos que voejavam acima da miríade de pessoas. Havia corujas e falcões também, mas esses eram uma minoria perdida no mar de penas pretas e brancas. Relanceou para o lado. Haviam alguns lobos ao lado da carroça. Andavam em sentinela.

A visão de tantos animais era aviltante para ela. Cobriu-se com o capuz gorduroso de pele de morsa (muito melhor do que o outro manto puído que usara antes, embora mais gorduroso).

Não gostava nem de imaginar em tamanho poder que o jovem príncipe devia ter para comandar tantos animais. Um príncipe Troca-Peles. Teria ele a capacidade de controlar dragões? Ou mesmo humanos?

Margaery se encolheu, abraçou a si mesma. Sentia uma grande tristeza impregnada nela, junto com o frio. Quando um lobo uivou, começou a tremer mais ainda. Segurava o choro o quanto podia. Deixou escapar apenas um soluço frágil. Tudo estava muito confuso para ela; impossível compreender os rumos que o mundo estava tomando. Tudo era obscuro, assustador, aviltante.

Começou a orar. Orou para todos os sete deuses por qualquer ajuda que pudessem lhe dar. As rezas quase quebravam conforme seu murmúrio fraco lutava contra o choro preso num nó na garganta de Margaery. Será que os deuses ainda ouviam-na? Ou estavam eles longe demais daquela realidade pagã onde ela estava presa? Os sete sequer eram reais; ou mesmo fortes o bastante para impedir todo o desastre que estava acontecendo no mundo, causado por bruxaria obscura?

Queria que sua família estivesse ali. Não teria medo com ela por perto. Não teria medo dentro das muralhas de Highgarden, que eram muito mais belas e seguras do que as de Harrenhal.

Quando um lobo uivou e um corvo grasnou, ela quebrou. Começou a chorar.


X I X I X I X I X I X I X I X I X I X

A Rainha estava desgostosa com os rumos da batalha. Seus deuses estavam satisfeitos com as seguidas derrotas de seus oponente, mas ela não compartilhava de seu júbilo (não totalmente, visto que eles a agraciavam com a sua felicidade; mas ela tentava não deixar sua mente nublar).

Em primeiro lugar, não gostava de como a magia parecia estar forte, mesmo que em apenas alguns pontos; além do dragão e dos wargs e troca-peles, havia surgido uma guerreira com habilidades elementais que estava sendo um irritante empecilho. Flechas de fogo, cajados mágicos, objetos valirianos, agora surgira até com a habilidade de modular água! Como não estava obtendo informações sobre essa pessoa? Nenhuma mente que absorvera lhe dera qualquer informação útil! Quem mais detinha poderes místicos? Havia mais algum mago elemental?

A segunda irritação: o dragão ainda durava. A colmeia de almas que comandava a rainha estava confiante de que logo o animal seria abatido e escravizado por eles; novamente, A Rainha pestanejava em aceitar isso tão facilmente – o dragão que eles detinham, o tal Viserion, não duraria para sempre numa batalha frente a frente com o irmão de sangue quente; uma lufada, tudo estava perdido. E, mesmo que pudessem derrubar e ferir gravemente o dragão ainda vivo, de nada adiantaria deixá-lo alejado – de que serviria um dragão que não voa?

Para piorar: ela sabia de outro dragão, mais a sul dali. A fera penava em seguir para norte, com medo do frio mortal que caminhava; mas A Rainha sabia que eles iriam ter de combatê-lo. Apesar de menor do que a serpente alada e negra, não era uma garantia que caíria com facilidade. Talvez se garantisse ter dois dragões consigo.

Terceiro motivo para irritação: O Corvo. O maldito Corvo! Ele tinha fintas para si, ela sabia. Nenhum dos mortos tinha qualquer informação relevante a respeito dele. O máximo que conseguia era saber que alguns tolos deificavam aquele serzinho porrinhento. Um bando de sacos de carne fracassada. Eram títeres para ele.

Que queria o Corvo? Que planejava? Não ter informação a incomodava. A miríade de mentes inimigas mantinha seus planos bem guardados. A Rainha tinha certeza de que mesmo que matasse alguém que estivesse a par de alguma informação, qualquer que fosse, não teria qualquer revelação pertinente; o inimigo deixava tudo para si. Apenas ele sabia o próprio jogo. Nem mesmo seus aliados (na realidade, seus peões) sabiam o que de fato faziam; apenas eram enganados para achar que sabiam.

Seria por isso que o exército dos vivos estavam nesse imenso castelo (Harrenhal, ela descobrira após escravizar algumas mentes) ao invés de ir para o sul e tentar conquistar o terceiro dragão? Por que ficar aqui? Queria evitar uma outra guerra com batalhas cheias de perdas? Ela achava difícil acreditar nisso; mesmo que derrotassem ela e os deuses antigos, teriam de lutar com o inimigo ao sul de toda forma. Havia algo ali, mas ela nem podia imaginar.

Que queria o Corvo.

Lamentou-se por não poder absorver os Filhos da Floresta. Seus deuses não os absorviam, deixando-os para morte eterna, sem pós-vida. Um castigo pela traição. A Rainha entendia, porém acreditava que seria mais útil escravizar pelo menos a mente de uma das Crianças da Floresta. Pelo menos alguma resposta poderiam obter, mesmo que não por completo. Precisava de alguma resposta.

Que queria o Corvo?

Você perde tempo, declararam as vozes. Deve manter-se na batalha. Agora que a cortina de fogo está frágil, deve avançar.

A Rainha hesitou. A muralha dos malditos magos de fogo não lhe eram qualquer ameaça; apenas os mortos eram barrados. A Rainha, porém, achava melhor não avançar. O fosso que havia ali era repleto de lascas obsidiana bem pontuda. Além disso, o dragão ainda era uma ameaça. Adoraria entrar em batalha, mas não queria se arriscar enquanto a serpente…

AVANCE!, a dor percorreu o corpo dela. Ela sentiu que iria rachar se durasse um instante há mais.

Recomposta, ela suspirou, fez um muxoxo (um débil gesto humano, mania que tinha desde que tinha sangue quente, que voltava quando ela sentia muitas emoções próprias; o que era bem detestado pelos deuses).

Não importa o que fizessem com ela; o espírito humano ainda se mantinha.

Virou um pouco o belo rosto, cabelos esvoaçando no vento frio, os cristais gelados tilintando. Por cima do ombro, falou:

— Façamos o que os deuses declamam. Avancemos.

Os seus seguidores ergueram as espadas finas, azuladas, azurraram em glórias, sedentos por sangue e para trazer glória para sua rainha e seus deuses.

Avançaram, sem fazer qualquer som, seguindo o vento frio do norte. Os deuses ficaram ansiosos, em júbilos; mas a Rainha ainda sentia que havia algo de errado.