Alleras teria de ser Sarella de novo. Não gostava disso. Não gostava de voltar a ser quem não era.
Mas tinha que fazer o que era preciso para salvar sua família.
Margaery de certo tinha outras pessoas envolvidas. Mesmo que ele a matasse, alguém iria delatá-lo pelo assassinato.
A simples possibilidade de ser descoberto era o bastante para encher o coração de Alleras de medo. Sabia o que acontecia a pessoas como ele: Danny Flint, que se disfarçou de homem, para entrar na Patrulha da Noite. Quando foi descoberta, todos aqueles que se diziam “irmãos” dela, violentaram-na antes de matá-la.
Alleras ignorou o calafrio que subia por sua espinha. Tinha de manter a mente limpa. Tinha de ter controle sobre si.
Por sorte Margaery havia lhe dado as roupas de serva para ele. Apesar de Margaery ser uma mulher alta, suas roupas eram apertadas no corpo de Alleras.
Quando o margo Marwyn estava afastado, estando com Daenerys e seu marido, Alleras foi rápido em agir. Retirou as roupas masculinas, descobriu os seios, botou as vestes de servente.
Havia um pequeno glamour com ele. Era uma simples pedra verde, que ele usara para manter a ilusão aos olhos dos outros. Conseguiu-a em Qarth, quando encontrou Daenerys pela primeira vez.
Retirou o objeto, deixando-o escondido em seu saco de roupas.
Após se olhar no espelho de bronze, Alleras viu Sarella: alta, esguia, com lábios carnudos. Não eram muito diferentes em aparência — o próprio Glamour não o mudava muito, apenas dificultando a percepção de que seu corpo era o de uma mulher, além de lhe permitir ter uma voz menos “feminina”.
Era fácil enganar as pessoas, mesmo antes de obter seu Glamour: os Westerosi eram acostumados a mulheres simples, dentro de um padrão de beleza quase inalcançável para alguns, e desacostumados a mulheres como Sarella, pois elas estariam distante da realidade do que a sociedade ditava “ser mulher”.
Alleras deu um sorriso amargo ao pensar em como a ignorância de sua sociedade a torna cega a verdade diante de seus olhos. Sim, nem mesmo os ditos sábios arquimeistres da cidadela eram capazes de pensar que uma mulher seria capaz de estudar e aprender como eles. Jamais sequer imaginariam uma mulher que estivesse fora de seus padrões de aparência supérfluos.
Uma sociedade que se considerava a mais sábia entre as sábias, sendo mais cega do que qualquer outra civilização.
Enquanto via o reflexo de Sarella, Alleras levou uma mão à bochecha. Sentiu a pele macia e escura, parecida com a de sua mãe.
Odiava ver Sarella. Odiava aquela visão. Odiava estar naquele corpo que não era dele. Parecia errado; como se os deuses o amaldiçoassem.
Não. Alleras não era Sarella. Ele era ele. Ele era Alleras, o Esfinge.
Suspirou. Talvez em Dorne sua família fosse mais receptiva, mas, ali, tão ao Norte, estava em perigo, numa terra de estranhos primitivos.
Colocou a adaga em um bolso escondido na manga. Ele mesmo o costurara. Tinha de ser rápido e cuidadoso caso tocasse na lâmina; se acabasse se cortando, o resultado poderia ser falta.
O veneno escolhido não era de seu agrado. Alleras preferia algum de efeito lento, assim, talvez pudessem imaginar que o fracassado e deposto lorde Harrold acabou morrendo por estar com a saúde debilitada. Claro, ainda existiriam suspeitas, mas não passariam de fofoca sem provas.
Entretanto, teve de escolher um veneno rápido e potente: o Estrangulador.
Teria Margaery e seus capangas imaginado que isso atrairia suspeitas sobre Sansa? Possível, embora ela não fosse culpada pela morte de Joffrey.
Talvez, quem sabe, alguém não desse um jeito de culpar a Rainha? Afinal, Daenerys odiava Sansa. Muitos poderiam pensar que ela quisesse incriminar Sansa.
Alleras pegou um pequeno cristal púrpura. Tão pequeno, que era menor que a unha de seu dedo mindinho.
Seu pai era bom com venenos. Sim, ele era bom em muitas coisas. Alleras queria que ele estivesse ali, com ele, para poder guiá-lo.
Se estivesse, Oberyn talvez já tivesse matado Margaery e seus comparsas. E provavelmente diria para Alleras ter logo um caso com a princesa.
Pensar naquilo fez o rapagão sorrir. Sentia falta de sua família, das areias de dorne, do calor abrasivo e fugaz do sol contra sua pele, dos risos de suas irmãs e de sua prima Arianne…
Tudo isso estava longe agora. Sentia que estava em outro mundo; um mundo onde apenas homens governavam, onde mulheres em altas posições eram mal vistas, e os desejos do corpo eram pecado — pelo menos para alguns, é claro.
Deixando seus pensamentos agourentos de lado; suas lamúrias só iriam atrapalhar. Necessitava ser rápido.
O mundo era um negrume sem fim. Apesar de nada ver, Alleras andou sem nenhum lume de luz consigo, preferindo se esconder à vista de todos. Parou num canto, sentindo a neve cair sobre ele, contou até mil, aguardando os olhos se adaptarem.
Quando pôde enxergar melhor, apesar dos flocos de neve enregelante ainda dificultarem sua visão completa do ambiente, voltou a andar.
As cozinhas de Harrenhal eram uma algazarra, mesmo com a praga sendo um medo geral. Claro, os cozinheiros e servos ainda tinham de servir seus senhores, mesmo a custo da própria vida.
Alleras não se importava com os empurrões e cotoveladas que levava. Seu rosto era como o de uma pedra. Sua mente tinha apenas um foco; o que acontecia além disso não importava. Estava cego para todo o resto.
O cheiro de massa assando, do açúcar queimando, da carne a defumar e de frutas sendo cozidas enchia o ambiente. O ar lá dentro era fumegante, quase viciado, e uma longa camada de fumaça era vista, dispersa em vários pontos, tremeluzindo e sumindo conforme subia. O bater de metal das panelas era descompassado e irritante, fazendo Alleras ter dificuldade para ignorá-lo.
Parou em frente a uma das diversas mesas de montar e esperou. Esperou até um momento simples acontecer.
Tigelas iam e vinham. Nenhuma demorava muito; assim que eram botadas na mesa, mãos a pegavam e levavam para longe. Logo, outra tigela vinha substituir a outra.
Os serviçais não conseguiam formar uma fileira ordenada, apesar de o espaço da cozinha ser maior que qualquer salão principal que um castelo de grande porte pudesse oferecer, pois todos tinham tarefas distintas a cumprir, e, na pressa por cumprir seus serviços, o acabavam por esbarrar uns nos outros.
Quando conseguiu chegar mais perto da mesa, Alleras foi rápido em levar os dedos até as tigelas. Infelizmente, não foi na primeira tentativa que conseguiu; assim que estava preste a segurar uma das tigelas, outras mãos a pegaram e a tiraram do local, levando-a.
Tentou outras vezes, sem êxito, ficando irritado. Por sorte, na sétima ou oitava tentativa, obteve sucesso. Segurou com firmeza, com medo de que alguém tentasse lhe tirar
Num rápido rodopio, deu as costas à mesa, novamente cheia de tigelas e tabletes, ignorando a algazarra, e seguiu em frente. Ainda segurava com firmeza, ignorando o calor da tigela. O líquido do grosso mingau quase caiu várias vezes devido aos empurrões que levava. Alguém pisou em seu pé, mas ele ignorou.
Voltando para o lado de fora, sentindo o vento frio engelante agredir seu corpo, Alleras andou até a torre onde Harrold estava. O caminho era longo, e, mesmo usando vestes quentes, ele sentia o calor de seu corpo sumir. Começou a tremer, lutando para não largar o pote de mingau, que já havia perdido todo o seu calor. Seus músculos começaram a se retesar, lutando contra os movimentos de Alleras, que insistia em enfrentar o frio mortal que lhe atacava por todos os lados.
Andar pelos degraus também foi uma luta ainda mais complicada. Suas pernas estavam rígidas, fazendo-o usar uma força de vontade considerável para continuar a se locomover. Eram degraus íngremes, conforme subia mais o vento parecia se enfurecer e gelar; parecia irritar-se com a perseverança do rapaz, querendo-o derrubar.
Se caísse de lá, seria seu fim: antes de sequer chegar na metade da escada, já devia ter passado de cinquenta degraus. De fato, andou tanto, que logo se viu esgotado, esbaforido, quase deixando-se levar pelas furiosas ventanias, deixando-se cair. Por sorte, isso o ajudou a aquecer-se um pouco.
Os dedos pareceram se congelar em volta da madeira da tigela. Já fazia um tempo que ele não sentia os nós dos dedos, nem as palmas das mãos. Os pés, outrora doloridos, agora pareciam nem existir.
Não parava de andar, entretanto. Continuava seu caminho sem abalar-se. Nesse momento, sentia o sangue quente dos Martell em seus veias, aquecendo-o contra o gelo e dando-lhe força para cometer aquele que seria o maior dos pecados: matar um rei.
Nem mesmo Jaime Lannister, que matara Aerys II, o Rei Louco, um dos piores monarcas que já reinaram os Sete reinos, conseguiu livrar-se dessa mácula infame.
Ao pensar que seria amaldiçoado pelos deuses pelo que estava prestes a fazer, Alleras viu-se lembrando das últimas palavras de seu pai para ele, quando disse sobre seu plano de ir para a Cidadela:
— Se você acha que os deuses erraram, então, meu filho, desafie-os. Seja quem você realmente é. Viva a vida. Ame-a, mas, primeiro, ame a si mesmo.
Alleras viu-se perguntando se suas irmãs o apoiariam como o pai. Esperava que sim, mas temia nunca saber a resposta.
Quando chegou ao topo, estava esbaforido, quase caindo de joelhos. Entretanto, Alleras manteve-se firme. Apesar das mãos estarem tremendo de forma frenética, conseguiu manter a tigela. Conforme respirava erraticamente, nuvens de fumaça gelada se formavam, sumia, se formavam, e sumiam…
Andou pelo longo corredor, pouco iluminado, mesmo tendo tochas nas paredes. O local era enorme, negrume, desconfortante…
O vento frio que soprava pelas frestas pareciam sussurros assustadores. Vozes incorpóreas, vagando na obscuridade.
O marido de Sansa estava cercado por dois soldados estrangeiros. Não eram imaculados, nem dothrakis. Pelo tom de âmbar da pele e os cabelos variando entre preto e vermelho, Alleras deduziu serem de povos Ghiscaris.
Para servir comida ao rei, não era preciso um horário certo, mas uma palavra secreta. Por sorte, os contatos de Margaery foram capazes de descobrir a palavra. Tudo que Alleras precisou fazer, foi repeti-la. Então, um dos soldados abriu a porta de metal e ferro, Alleras assentiu, sem nada dizer, entrou no local.
Era um lugar escuro e fedido. Apenas poucas tochas estavam no local. Dado o tamanho do cômodo, as velas dispersas quase não iluminavam o ambiente.
O fedor se dava às necessidades do prisioneiro; o penico estava cheio, mas Alleras acreditava que Harrold andava urinando em vários cantos diferentes. Pelos montes fedorentos e escuros que ele era capaz de visualizar, sabia que Harry fazia suas necessidades em qualquer canto, como se fosse um animal.
Ao ver um movimento no canto da cela, Alleras viu Harrold. Um lorde odiado, um rei deposto e a vítima de Alleras.
O antigo rei era uma coisa triste: agachado na beirada que dividia duas paredes, de costas para todo o resto. Parecia mais um mendigo do que o lorde que mandava em todo um reino.
Harrold virou um pouco a cabeça. Só um pouco, permitindo que Alleras tivesse só uma nesga de sua fisionomia suja e peluda. Seu olho azul estava um pouco visível, mas parecia cego ao mundo. Apesar de cabeludo, seus fios loiros estavam muito sujos para mostrar seu belo louro e havia cabelo faltando e alguns pontos no couto cabeludo.
Aquela visão encheu Alleras de medo.
Parecendo estranhar a sua demora, Harrold finalmente disse.
— Deixe… Deixe perto do fogo…
Alleras assentiu, deixou o mingau, agora frio, embaixo de uma tocha — embora não achasse que fosse esquentar muito —, girou os calcanhares, dando as costas para aquele estranho homem, louco para sair dali, deixou o ambiente. O guarda fechou a porta atrás dele.
Descer os degraus foi mais difícil do que subir; estava cansado, enjoado, com o estômago se contorcendo, a garganta parecia se fechar, como se fosse ele quem tivesse tomado o veneno. Olhar para baixo, para a escuridão sem fim dos degraus, que sumiam de vista nas sombras dado que a torre tinha, deixava ele mais enjoado e nervoso ainda. Parecia prestes a cair.
Quando estava terminando os degraus, ele estava se esgueirando na parede, esbaforido, suando, zonzo, quase tropeçando nos próprios pés. O coração batia violentamente contra seu peito, parecendo prestes a explodir. Queria sair logo dali.
Quando sentiu seus calcanhares afundarem na neve fofa e açucarada, Alleras sentiu-se mais seguro, apesar de ainda sentir-se atordoado.
Conforme andava, sentia os flocos imensos de neve, com seus belos e complexos formatos, tocarem seu corpo quente e sua, derretendo, esfriando o calor corporal.
Enquanto andava, viu uma mulher de pele escura indo contra a sua direção. Havia uma tigela em suas mãos, coberta por um pano, para manter o calor da comida.
Sabia que era para Harrold.
Ele esbarrou nela. A mulher quase derrubou a tigela, dando um pequeno e agudo grito de dor. Ela alisou a região do cotovelo, olhando Alleras, que seguia em frente, sem nem olhar de volta para a mulher que o fitava, um tanto irritada.
— Desculpe — ele disse enquanto continuava a andar na neve.
Ele sabia que a mulher nunca iria chegar até Harrold. Morreria antes, muito provavelmente ainda nos degraus. Provavelmente, como ela ainda tinha um pote de mingau consigo, iriam imaginar que ela foi morta antes de entregar comida. Do contrário, iriam achar que era a moça que acabara de dar mingau frio ao prisioneiro e foi morta para esconder seus rastros.
O veneno de manticora era potente. Assim que chegasse ao coração, em apenas alguns instantes, aquela serva estaria junto aos deuses estrangeiros dela, fossem quem fosse.
Foi bem simples tirar e esconder a lâmina. Ele era rápido, e a escuridão lhe deu auxílio.
Foi ainda mais fácil do que colocar o veneno no mingau.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
Harry estava agachado no escuro. Apesar da fome, ainda não tinha ido até o mingau. Não queria comer, queria morrer, mas não lhe permitiam.
Sabia que teria de comer de qualquer jeito; caso não o fizesse, os guardas iam obrigá-lo a comer, enfiando comida pela boca dele à força.
Suspirou. A mulher idiota que havia deixado o mingau o pousou no chão, longe do fogo.
Puta burra.
Fazendo um esforço, levantou-se, grunhindo com a dor dos músculos, que imploravam para ele parar de se mover. Andou até o pote, fazendo os grilhões cantarem na escuridão lúgubre.
Sua barba estava coçando. Ele tentou lutar contra, mas acabou não resistindo e coçou o queixo. Como as suas unhas estavam enormes, acabou por se arranhar, como sempre. Seu queixo, bochecha e cabeça estavam cheios de arranhões, sangue seco e cascas escuras de feridas.
Quando aproximou-se da tocha fulgente, estreitou os olhos e botou uma mão na frente da vista, para impedir a luz de machucarem os olhos.
Apesar de arder, ainda era melhor do que a escuridão.
Agachou-se, curvando as costas, dobrando os joelhos, gemendo de dor, pegou o mingau em suas mãos sujas de comida e fezes, ergueu-o até o queixo.
Estava frio. Frio demais, mas a fome estava muito forte, parecendo ter bichos comendo a carne de Harry.
Ele ergueu um pouco mais o pote. Quando sentiu-o em seus lábios, ergueu-o, fazendo o mingau frio escorrer lentamente.
A pasta parecia quase areia fria, mas entrou pela boca e desceu pela garganta. A maior parte escorreu para fora, empapando a barba de Harry, assim como seus pescoços e vestes, mas ele nem ligou.
Apesar de não sentir o sabor do alimento — fazia tempo que não sentia o gosto de nada —, Harry quase chorou de alegria ao sentir a barriga sendo cheia. Sim, isso era bom. Passava muito tempo sem comer, mas, quando o fazia, parecia até melhor que sexo.
Ele percebeu que exagerou quando engasgou.
Afastou o mingau e tentou limpar a garganta tossindo. Tossiu bastante, tentando tirar o que parecia ser mingau parado na sua garganta.
Apesar de tossir bastante, não conseguia fazer aquela situação passar. Virou-se, tentando ver onde deixara a sua jarra, para ver se havia alguma água para beber e…
De repente, respirar pareceu impossível. Sua garganta começou a fechar, sem deixar nem uma nesga de ar passar. Assustado, soltou a tigela, que caiu no chão, espatifando-se, levou uma mão até a garganta, fazendo os grilhões começarem outro tilintar.
Começou a rasgar a gola puída da roupa, sem bons resultados. Mil punhos invisíveis feitos de ferro se fechavam em sua garganta, enquanto Harry lutava com todas as forças que tinha para conseguir o mínimo de ar possível.
Desesperado, vendo que fora envenenado, Harrold foi até a porta de ferro e madeira de sua prisão. Ao invés de bater nela com os punhos, jogou-se com toda a força que tinha contra ela, enquanto agarrava a própria garganta.
Quando demorou para abrirem, ele tentou gritar, mas apenas um grito sufocado e inumano saiu. Um estalo. Algo que mais parecia um animal abatido.
Ninguém apareceu. Provavelmente porque ele já havia tido aquele surto antes — ou, mais provavelmente, eles o ajudaram a envenena-lo e estavam só esperando que ele morresse logo.
Não suportando mais, achando que nunca morreria, Harrold levou suas unhas afiadas até a garganta exposta, cravando-as contra a carne suja e endurecida. A ardência de seus cortes em nada era comparada à agonia de não ter ar. Nem pareceu importasse quando o sangue começou a escorrer pelos dedos desengonçados e vorazes. Era como se o desespero e dor tivesse feito sua energia voltar.
Continuou a cavar a própria carne, numa tentativa desesperada de que aquele gesto desesperado abrisse uma passagem de ar. Sentia a pele morna e molenga se abrindo, como se cavasse um túnel.
Doía, assim como doía sentir os músculos da garganta se apertando cada vez mais.
Nenhum doía mais do que a falta de ar, entretanto. O desespero de todo o corpo acelerando, lutando por um resfolegar que nunca se acontecia. Um movimento incompleto que não conseguia deixar de ser feito; cada vez que não conseguia botar ar para dentro, a mente lutava mais e mais para respirar. Era instintivo, Harrold nada podia fazer para parar.
Teria sido Sansa? Rolland? Seu cunhado? Todos eles?
Mil pensamentos pensamentos passavam pela sua mente, frenéticos, desordenados, avulsos, desbotados: Seu treinamento, sua primeira foda, o nascimento de seu primeiro filho, o encontro com Alayne, seu casamento com Sansa, suas mãos em volta do pescoço dela, a traição dos lordes em Harrenhal…
A mente de Harry não podia fazer nada; os pensamentos vinham sem ser convidados. Todos eram interrompidos, entretanto, conforme ele se lembrava de tentar respirar, não conseguia, tentava de novo, não conseguia, e tentava novamente…
Queria respirar. Um simples folêgo. Era como se fosse acontecer a qualquer momento. Seria rápido, simples, prazeroso, terminaria com seu desespero…
Mas não acontecia. Lutava mais e mais, mas sem sucesso.
Sentia-se além das dores provocadas pelos grilhões que o prendiam, das picadas dos insetos, do rasgar da carne que estava se auto-infligindo conforme usava suas unhas como pás para cavar. Nem a perda de sangue o fez descansar. Não podia. Não conseguia.
Seu cérebro não parava de mandar ele buscar ar: respire, respire, respire, respire…
Não conseguia. Não conseguia nem se manter em pé, pois, quando deu por si, o chão o atingiu no lado direito do rosto. Estava se debatendo no chão frio.
Harrold queria morrer antes, quando perdeu tudo. Agora, porém, queria morrer mesmo. Deixar aquela dor de lado, perder-se no sono da morte…
Sua mente não lhe permitia tal conforto, entretanto. Seu coração parecia um tambor, enquanto suas tripas e a bexiga perdiam a força e expeliam os últimos fluidos dele.
Começou a bater a cabeça contra o chão, começou a chutar e socar também. Na esperança de que aquela dor fizesse a agonia do sufocamento. Ou, quem sabe, o fizesse perder a consciência e morresse mais rápido.
Apesar da dor e perda de sangue, ainda vivia. Quando pareceu fraco demais para se machucar, tudo começou a girar mais e mais… Nem parecia sentir mais nada…
Infelizmente, por um instinto incontrolável, voltou a tentar pegar um pouco de ar. Fazia um barulho triste a todo o instante, tentando, em vão, fazer o ar entrar em sua garganta destruída.
Não se debateu. Não tinha forças para isso. Continuou ali, tentando respirar, de novo e de novo… sem sucesso. Sua visão o havia abandonado, ficando confusa e baça. Nada mais existia no mundo além da busca por ar. Uma busca sem sucesso e sem fim.
Quando suas pálpebras começaram a pesar, sua visão sumia de vez, sua garganta parecia apertar mais e mais, Harry ficou um pouco feliz, pois estava perto de morrer. A agonia ia logo terminar…
Mesmo assim, cada tentativa agonizante de viver faziam parecer que duravam séculos.
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