Margaery Tyrell: A Rosa Dourada de Highgarden 🌹
68 A Fazedora de Correntes
O céu estrelado estava encoberto pela densa camada de nuvens pretas, que cuspiam neve copiosamente. As aves que por algum acaso não esvoaçaram para longe (ou não morreram pelo frio) eram rapidamente abatidas por outras aves ressuscitadas pelos seus lacaios. Ela preferia assim, pois sabia que amaldiçoado Corvo de Três Olhos tinham aves consigo.
Uma amiúde de corpos cinzentos e lânguidos se estendia pelo imenso terreno de neve grossa. Todas as plantas estavam mortas — o frio ceifara suas vidas; pelo menos as das que os vivos já não tinham queimado antes. (Eram estranhos, esses vivos, sempre matando a vida, mesmo que dissessem lutar por ela.)
Seus lacaios tratavam de ressuscitar a maior parte dos que morriam — eram muitos, mesmo para ela. Quem encontrasse uma casca vazia primeiro, ressuscitava-a para si.
O poder deles não era como o dos Filhos da Floresta (aqueles traidores ingratos!) e dos homens. Podiam dominar muito mais mentes que eles; todavia, apenas os dos mortos. Prendiam e absorviam a alma remanescente, tirando-a do pós-vida, escravizando-a. A mente lutava, mas era inútil; o corpo pertencia ao vagantes agora.
Logo, esse seria o destino de todos aqueles de sangue quente.
Ela tinha uma memória de sua outra vida; sua vida era simples, vivendo numa aldeia, até seu pai convencer-se de que a família deveria visitar o “novo mundo, para-lá-do-mar”. Talvez porque ambos compartilhassem o amor do mar; talvez por um sonho que ela viu ser coroada por um lindo diadema por criaturinhas verdes — lembrava-se de ter esse sonho várias vezes; mas não lembrava-se de ter falado para seu pai ou mãe.
As coisas não deram muito certo, como a história bem deixou claro.
Muitos estavam a migrar naquela era; eram todos guiados por um cometa de sangue que riscava o céu. Naqueles tempos, muitos acreditavam ser um sinal para a salvação (os que acreditavam ser um sinal para perdição provaram-se mais certos), um sinal dos deuses. O cometa era como uma enorma seta indicando o caminho.
Nesses tempos longíquos, haviam duas luas no mundo; bem bonitas, gordas e brilhantes. Quando o que parecia ser um mini-sol a atingir o maior dos dois corpos celestes, o mundo mudou: um dos imensos fragmentos foi visto, adorado e seguido; a viagem mudou a vida dos povos; até as estações acabaram por terminar mais lentas. (Embora isso talvez seja um efeito da bruxaria dos cantadores de árvores.)
Havia bem mais dos Filhos da Floresta naquela época; agora, porém, eles apenas vivem nessa terra. Nesta chamada “Westeros”, onde os velhos deuses ainda crescem, mesmo que fracamente.
Lembrava-se de que seu pai (seu nome estava perdido para ela; talvez ela assim o quisesse, pois o corpo doía ao lembrar-se dele) a erguendo no ar, beijando-lhe a face. Ela puxou o seu nariz, tal qual os olhos (púrpuras), mas o platinado ela acreditava ter sido de sua mãe — seu pai tinha cabelos pretos.
Não se lembrava do seu nome, mais ainda era capaz de lembrar-se do carinho da voz de seu pai ao chamá-la pelo seu apelido:
— Dany — dizia ele, enquanto a erguia nos braços, girando-a no ar, beijava-lhe as bochechinhas rosadas, com a barba pinicando a pele outrora macia e quentinha de sua amada filha. — Minha pequena princesinha sonhadora. — (Por este motivo ela acreditava ter lhe dito sobre o sonho.)
Fosse como fosse, eles não conseguiram dragões, como aqueles do Império Antigo conseguiram — eles eram de uma casta baixa. Tinham sorte de sequer conseguirem pegar viagem num navio e não serem escravos.
No começo as coisas foram calmas, com eles vivendo à beira mar, perto de um forte de pedra negra, feita pelos fogos dos dragões; mas logo a guerra assolou sua vida e tudo virara cinzas. Ela não se lembrava bem de como fora, apenas que seu pai, irmãos, mãe e sua irmã estavam mortos. Ela não morrera, porém. (Bom, não naquele momento, é claro.)
Não soubera quanto tempo foi, mas lembrava-se de que fora arrastada por bom tempo até terras mais longínquas, até ser largada na frente de um represeiro (“uma simples lenha pagã, perfeita para queimar ou fazer móveis, mas não para rezar”, era o que o povo dela dizia).
No mesmo local, outros de seu povo foram mortos (muitos decapitados ou tendo a garganta cortada, mas sabia que alguns haviam sido desventrados também). Seu sangue e entranhas alimentaram os deuses, encharcando a terra de vermelho. Oh, deuses estavam famintos naqueles tempos, pois muitos represeiros haviam sido destruídos. As raízes absorveram o fluido da vida.
As entranhas foram espalhadas pelos galhos, formando linhas rubras pingantes. (Teria ela vomitado com a cena? Ou chorado? Achava que sim, pois, naquela época, tivera empatia por aquele que era seu povo — agora, regozijava-se ao relembrar-se da cena.)
Lhe forçaram a beber uma grande quantidade de pasta antes de ser sacrificada — sabia agora que eram os miolos moídos de videntes verdes, junto de wargs e troca-peles. Tomara muito, parecendo ter a mente a espiralar.
Um de seus captores pegara uma adaga de vidro de dragão, caminhou até ela, que estava de cócoras no chão — aturdida pela fome, luto e pela pasta.
— Sangue deve pagar por sangue — entoou um xamã na língua dos Filhos da Floresta (ela não reconhecera as falas no momento, pois não falava a língua deles ainda). — Só a morte pode pagar pela vida.
Ela o fitou, viu seus olhos vermelhos, pele branca, cabelo de giz.
— Que o gelo derrote o fogo.
A adaga deu fim naquele ser patético. (Bom, não totalmente: Dany ainda estava em sua mente; mas há muito estava silenciada — a força humana nela ainda parecia ter esperanças de um bom, porém. Era uma tola.)
Após isso, ela adquirira o ódio que os deuses tinham pela vida. Toda a vida devia ser destruída. Ou, em certos casos, convertidas: todos os prisioneiros restantes foram convertidos para ser como ela. Todos a seguiram, aumentando o exército deles com os descrentes que tombavam em guerra.
Antes, os Filhos da Florestas não intrometiam-se, pois sua criação fazia o que lhe era ordenado; mas isso também veio a mudar quando os tolos resolveram apoiar os de Sangue Quente. Isso não os salvou para sempre: outros vieram, e, dessa vez, os andadores da mata fugiram para o gelo.
Tolos, não se pode confiar nos homens; eles sempre traem no fim.
Mas ela era uma líder justa: seu povo, o povo de gelo, não era grande em número (apenas seus escravos eram), nem podiam ir contra as chamas advindas do céu. Para salvar sua sociedade, ela aceitou o acordo: sangue quente jovem, para fazer mais sangue frio.
Mas, como ela sabia, o acordo logo se foi. Os humanos pararam de mandar seus filhotes; mataram aquele velhaco chamado Craster (um sangue quente asqueroso, que vivia desde a construção da maldita muralha em troca de dar um bom sangue quente para ela).
Bem, como retribuição, os filhos mataram as mães e irmãs de sangue quente (as que os próprios humanos deixaram, pelo menos). Muitos falaram que aquela era a prova de mostrar que eles tinham apenas uma mãe na vida deles: A Rainha de Gelo.
Não importava, o seu enviado havia conseguido: o berrante fora tocado; a muralha caíra.
Ah, sim, o Corvo de Três Olhos fez o certo ao deixar aquele monstrinho em forma de gente não ser o seu discípulo…
Mas errou ao não ter tentado finalizar sua vida. Aquele que denominara-se “Olha de Corvo” provou o poder do caos, como outro um dia dele provou — um imperador antigo, que matara a irmã para usurpar o trono, deixando a humanidade cega para a Longa Noite.
No fim, Olho de Corvo podia não ter tanto poder, mas fez o que lhe era devido. Sua mente ainda existia, de alguma forma — quem sabe ela não fosse uma boa rainha e o agraciasse com o renascer de um Sangue Frio? Ele tinha a crueldade certa para tal.
Sabia que, senão ele, outro aceitaria. Os sangue quente eram ávidos por poder e matança. No fim, sempre havia um coração impuro que venderia a alma para ela — o que pulsa no coração dos Sangue Quente sempre é ódio e cobiça. No fim, toda a carne era igual.
Sua montaria de oito patas parou quando ela ordenou. Era uma criatura translúcida, expelia uma certa névoa gelada, tinha seis olhos compostos. Fizera-a pensando nos pequenos seres da vida real, que montavam suas teias e injetavam venenos em suas vítimas. A Rainha queria inspirar o mesmo medo em seus inimigos.
Um de seus soldados aproximou-se. Sua montaria era um cavalo podre, com quase toda a pele solta, principalmente na cara longa. Os olhos estavam perdidos há muito (não que o animal desgarrado realmente precise deles), de modo que não brilho azul.
— Achamos Sangue Quentes minha rainha — revelou ele. Seu nome era Edric, mas ela o chamava de Ned. Era um soldado belo, esse filho dela. Belo e mortal, como bem devia ser. Era um de seus favoritos, pois ele era o que mais gostava de matar, e adorava proferir que cada alma morta era em homenagem a sua bela rainha-mãe.
Seu primeiro dia de treinamento envolveu matar um acampamento dos malditos Sangues Quentes, no qual foi maravilhosamente bem sucedido em fazer. Após isso feito, vieram outros, os malditos corvos advindos da muralha. Um deles lutou valentemente, até a espada partir-se, atingindo-o no olho. O galante idiota foi abatido pelas lâminas de gelo.
Apesar disso, o assunto pouco pareceu importar para a Rainha, que não gostou de ser parada por tal vulgaridade.
— Sim, eu senti o sangue quente na área — disse ela, um tanto seca. — Mas não vejo por qual motivo…
Ned deu-lhe um sorriso cruel e frio — um sorriso pelo qual ela era louca e ele sabia disso.
Havia um desejo entre os dois, um desejo de mãe e filho; deusa e seu adorador; e, talvez o mais remanescente de outra vida, o de um homem desejando a mulher mais bela de todas.
Ela sorriu para ele.
— O que tem para mim?
— Bebês, majestades. Os seus favoritos.
— Deixou-os vivos?
Ele fez que sim com a cabeça.
— O sangue deles está circulando, como vossa majestade bem gosta. A mãe está viva, abraçada ao bebezinho, protegendo-o do mal.
Ela regozijou-se ao ouvir. Ah, a miríade de vozes em sua mente sentiram o mesmo que ela. Sim, um suculento bebezinho, pronto para ser adotado, e tudo na frente de sua mamãezinha.
— Leve-me até ela — ordenou-o, numa voz fria e cruel, e o soldado pareceu quase derreter-se de prazer ao ouvi-la. Sim, todo o seu povo nasceu para ser cruel; mas todos eram submissos ante sua Rainha de Gelo.
Edric curvou-se no cavalo pobre.
— Sim, minha amada Rainha de Gelo.
Era uma simples choupana, o teto meio caído pela neve. Os Wights, seus escravos podres, circundavam a casa, deixando um círculo pequeno de branco em meio a preto. Seus olhos eram a única luz no local, a exceção ao lume dourado advindo da pequena cabaninha de barro e madeira. Os Sangue Gelado faziam guarda, montados em ursos e cavalos mortos, ou em aranhas de gelo.
Os mortos abriram espaço para a rainha. Ela sentia as almas escravizadas neles, cheias de agonia, desejando finalmente partir para o pós-vida, escapar das amarras de gelo mental que os prendiam. Seu desespero e dor a saciavam.
Ela parou sua montaria no limite do círculo de escravos. Apeou, sabendo que todos os seus filhos a olhavam enquanto deslizava para o chão, graciosa. Seus cabelos esvoaçaram com o gesto. Não fez som algum quando seus pés tocaram o chão, nenhum floco de neve voo.
Edric fez o mesmo, saltando do cavalo. Aproximou-se dela, sem parecer tocar os pés no solo.
— Estão assustados, Minha Rainha-Deusa — disse ele, perto dela, quase que sussurrando em seu ouvido. Perto demais. — Sente-os?
Ela virou-se, encarando-o por cima do ombro.
— É claro que os sinto, imbecil! — vociferou, precisando colocá-lo no seu lugar. — Acha que sua Rainha não é capaz de sentir mesmo o mais reles de sangue quente?
Os outros soldados riram. Edric abaixou a cabeça; mas ela sentiu que ele ainda ansiava por ela. Claro, a mente dele, tal qual a de seus irmãos, sempre ansiaria por qualquer nesga de atenção dela.
Ela levou uma mão até o queixo dele, forçou-o a erguer o rosto, fazendo seus olhos azuis encontrarem os dela. Estrelas de gelo contra estrelas de gelo.
— Devia quebrá-lo por isso.
Ele não abalou-se por isso.
— Faça-o, Rainha. Sou seu para o que quiser.
Uma falta de amor, aquele rapaz era…
Perfeito.
Ela alisou sua bochecha. Fria, mas macia. Ele a olhava de forma intensa, pronto para tudo.
— Entregue-me o bebê e será perdoado.
Ele sorriu.
— Claro, minha amada Rainha.
Ambos se viraram, caminharam na neve. A rainha fez um gesto lânguido com o braço; o vento cruel veio, apagando a luz odiosa dentro da moradia dos Sangue Quente, enquanto fazia o teto voar para longe. Pode-se ouvir gritos assustados vindo de dentro.
— O Corvo está próximo — disse ela. Sentia a miríade de mentes videntes e wargas perto de onde estavam. O vento cruel esvoaçava seu vestido, assim como seus cabelos. As joias frias de sua coroa tilintavam. Sabia que seus filhos a olhavam nesse momento; todos viam seu corpo pálido e gelado pelas vestes de gelo. Viam-na como mãe, deusa, protetora, salvadora, amante proibida. Todos eram seus escravinhos.
— Deixai-me matá-lo — disse Ned. — Vou decapitá-lo para vós, minha Rainha.
— Não fará nada disso — avisou ela, sem se virar. — Vou matá-lo, absorvendo a mente do Corvo de Três Olhos. Todas as almas serão minhas, então.
Ele arfou (era mais um instinto humano do que algo que um Sangue Frio faria).
— Oh, Cruel e Poderosa Rainha da Noite…
Ela sorriu, sentindo a emoção em sua voz. A miríade de vozes em seu âmago se desgostaram disso; odiavam as emoções. Azar o deles — a mente coletiva que ela respondeu tinham de entender que, tal qual eles a escravizaram, ela também teria de escravizar alguns. E era sempre jubiloso fazer isso com emoções reais.
Alguém chutou a porta da choupana. Saiu do umbral um rapaz qualquer. Bem magrelo, com espada na mão. Aquilo era decepcionante; não era um guerreiro.
Edric riu.
— Minha Rainha cruel não deve perder tempo com seres pífios.
Mais rápido do que os olhos dos Sangue Quente podiam ver, Ned deslizou, cortando o ar, passos ágeis, sem agitar o vento no ambiente.
O garoto fez um ganido sufocado, escancarando a boca, da qual saiu sangue, arregalando os olhos, sem entender quando de onde a espada de Edric surgira, ou mesmo quando ela tivera tempo para atravessar seu estômago e entranhas, erguendo seu corpinho no ar. Uma mulher, provavelmente a mãe do rapaz, começou a gritar dentro da choupana.
Edric retirou sua vítima de sua lâmina, chutando-a, jogando-a na neve, que espalhou-se no ar com seu impacto. Sangue esvaía-se na neve, conforme a vida estava esvaindo do corpo. O jovem lutava para respirar, produzindo um som engraçado que fez seu assassino rir. Era sempre engraçado como eles lutavam pela vida, mesmo quando era inútil e doloroso.
Edric sorriu para a Rainha, mas ela andou, indiferente, até adentrar na choupana.
Deliciosamente, a mulher chorava e gritava no canto do local, coberta de um manto puído, enquanto segurava um bebê chorão em seus braços.
— O bebê — ela disse.
Edric deslizou para dentro, pronto para fazer o ordenado.
A mulher deu um grito alto quando ele surgiu, quase que do nada, com um sorriso assustador, braços estendidos para ela. Num instante, o bebê fora pego. O animalzinho guinchou com o toque enregelante. A pele gelada deles queimava a dos sangue preto — deixava-a preta.
— Não… — balbuciou a mulher, cheia de lágrimas e ranho. — Por-por favor…
Edric nem lhe deu ouvidos. Girou os calcanhares, indo até a sua rainha num instante. Ajoelhou-se, estendeu o bebê, que chorava de agonia. Devia estar faminto, com medo, sofrendo.
Era delicioso. Um agrado verdadeiramente romântico de Edric.
— Minha oferenda, oh, minha Cruel rainha da Noite! Tome, para ti, mais um filho!
Ela sorriu, deliciada por aquele momento. Antes de pegar seu presente, passou um dedo fino e delicado na bochecha da presa atemorizada. O caminho fez uma névoa pálida surgir, o local percorrido deixava uma fina crosta branca, enegrecia a carne. A oferenda chorou ainda mais, com lágrimas a rolar pelo rostinho avermelhado. A boca estava escancarada, com a língua a debater-se como uma verme.
A Rainha uniu as mãos, sorrindo, analisando a bela cena. Queria que durasse, pois as vozes em sua mente agraciavam-se com a dor dos Sangue Quente. Eram espíritos vingativos, afinal.
Tocou no narizinho pequeno, achatando-o. A pele foi sendo destruída, o bebê se debatia. Edric tomou coragem, levantou o rosto. Pareceu em júbilo ao ver o divertimento que causou em sua rainha.
A mãe rastejava até eles; não deram atenção. Era apenas uma Sangue Quente.
Por fim, a Rainha tomou a oferenda dos Braços de Edric. (oh, como ele tremera com o toque dela.) Analisou a criaturinha em agonia, apreciando o bom som de seus gritos.
Nesses momentos, Dany parecia remexer-se dentro dela, lutando para ser ouvida. Sim, ela sofria pelos indefesos, aquela fraca. Mas, quanto mais ela se debatia, mais viva a Rainha ficava.
Os meus criadores me fizeram assim, pensou, balançado o pequeno feto em seus braços. Eles me criaram com o desejo de vingança, agora só isso me satisfaz. É como eu sou. Todos os crueis desejos humanos estão em mim. A arma perfeita para destruir os sangue quente — ser como a pior versão deles.
Virou-se para Edric. Ele estava com os olhos vidrados nela. Sim, ele a desejava. Sabia que, na mente doentia dele, aquele bebezinho era não apenas um agrado para ela — era como um filho deles. Sim, era um desejo primitivo que ainda residia nele e em seus irmãos transformados.
Ele aguardava que ela fizesse o bebê um deles. Para ele, seria um elo entre ele e sua deusa. Para ela — um entre tantos outros adoradores. No fim, todos eram patéticos.
— Quero que a mãe veja. — Ambos tinham quase se esquecido dela. A figura fraca dela claudicava até eles.
Ele anuiu. Virou-se, pegou-a num chofre, antes que qualquer tolo ataque dela pudesse ser desferido (e fracassar, óbvio), jogou-a com brutalidade no chão, fazendo-a grunhir de dor, ajoelhada. A faca de lâmina que ela segurava caiu perto dela.
A mulher olhou para a rainha. Seu rosto, riscado pelas lágrimas, bochechas sulcadas pela fome, olhos arregalados, boca escancarada, queixo a tremer. Mas que mulherzinha patética essa!
A Rainha sorriu, olhou para o bebê, agora quase a desmaiar, sem fôlego. Tocou-o no meio da testa.
A criança arregalou os olhos no mesmo instante. Olhos estes que logo foram tomados pelo azul ardente, iguais ao de sua nova mãe — não, de sua rainha! A pele logo foi perdendo a cor, enquanto o rosto foi ficando inexpressivo.
Ela largou o corpinho, deixando-o cair no chão, o que fez a mulher chorosa dar um sorriso assustado. O barulho, porém, não foi o de carne molinha batendo em terra batida: foi mais o de uma pedra. Pedra de gelo, dura como aço.
O amontoado de tecido esfarrapado se remexeu. Logo, ergueu, enquanto um animal parecia debater-se nele. Deixando o tecido de lado, uma criaturinha azul-pálida surgiu. Rosto sério, olhos rebrilhantes.
Edric olhou para o “seu filho”, admirado. (Interessante como, não importava quantas vezes o fizessem, os Sangue Frio sempre mostravam-se emocionados com o momento.)
— Não! — gritou a mulher no chão, horrorizada com o que estava diante de seus olhos. — Não!
Rindo, Edric pegou um tufo de cabelo dela, forçando-a a erguer a cabeça, guinchando de dor.
— Sua primeira vítima, garoto — falou o ávido Ned. Ele abriu a palma da mão livre, formando uma pequena lâmina transparente num instante. — Venha, vamos. Banha-te no sangue.
A criança viu a lâmina. Ignorando o olhar suplicante de sua outrora progenitora, estendeu o bracinho, pronto para pegar a lâmina.
— Não — a cadência calma na voz da Rainha parou os dois. Ninguém a desobedecia. Eles a olharam. — O outro filho é melhor.
Entendendo o que ela queria dizer, Ned sorriu, assentiu. Ele começou a reanimar o corpo do lado de fora. Nesse momento, o cabelo da mulher finalmente cedeu, quebrando de vez, caindo em pedaços pequenos e esbranquiçados, como neve; o corpo dela estatelou-se no chão.
Aproveitando o momento, ela esticou o braço, agarrou o cabo da adaga caída, levou-a até Edric. Se fosse uma lâmina normal, nada teria acontecido; mas não era o caso. Era Vidro de Dragão.
A pele de Edric foi facilmente perfurada. Ele guinchou de dor, agarrando o próprio braço, enquanto a pele se quebrava, rangia, derretia. A mulher tapou os ouvidos, agonizando com o estranho grito de gelo morrendo em pura dor.
No fim, apenas uma poça qualquer d’água restava do pobre (e fracassado) Edric. A lâmina residia nela, intocada.
Confusa, mas ainda furiosa, a Mulher pegou o objeto novamente. A criança pulou nela no mesmo instante. Para o azar deste, a fúria de uma mãe foi mais rápida. A lâmina atingiu o pequenino no ventre. Logo, após o guincho, após o longo olhar de agonia e suplica para a Rainha, a criaturinha veio a sumir do mundo, tão rápido quanto veio.
A Rainha nada fez para ajudá-lo — por que o faria? Os fracos sempre eram as melhores perdas; aqueles que morriam, morriam pois eram um peso.
A Mulher agarrou novamente a faca, enquanto a Rainha apenas a olhava, sem nada fazer. Deixou que se levantasse. Quando estava aprumada, a mulher gritou enquanto corria até a figura fria à sua frente.
A Rainha agarrou o braço da mulher pelo pulso, antes que o braço descesse o bastante para atingi-la no olho. A Mulher guinchou de dor, como o bebê fizera antes, quando o toque enregelante começou a congelar seu braço. Soltou a faca, mas a Rainha nem por isso parou.
Num piscar de olhos, o braço inteiro empalideceu; no fim, estilhaçou-se em mil pedrinhas de gelo. A Mulher caiu no chão, contorcendo-se no chão, como uma presa abatida. Indiferente, a rainha a deixou.
Após passar pelo umbral, o corpo desajeitado do rapaz que o derretido Edric matara caminhava para dentro, com os olhos azuis. Alguém o revivera, já que Edric não mais o iria reinvindicar.
A Mulher ainda se debatia no chão enquanto a figura morta se aproximava. Quando o viu, reconhecendo-o, apavorada, ela rastejou para longe. Parou ao sentir a parede contra suas costas. O sangue em seu braço circulava com dificuldade para fora do corpo graças ao congelamento.
Chorando, sem forças para revidar, ela observava seu primogênito erguer as mãos até ela. Tentou empurrá-lo com seu único braço bom, mas era um gesto inútil. A dor e a lágrima cegavam sua visão; pode sentir quando dedos duros, frios e desajeitados apertaram sua garganta.
Fechou os olhos, querendo fugir daquele pesadelo.
X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X
— Edric está morto — anunciou ela, subindo na sua majestosa e assustadora montaria.
Seus lacaios riram ao ouvir aquilo.
— Ned sempre foi um tolo — zombou Jonnel, do alto da sela de seu cavalo peludo e pútrido. — Ele era rápido na espada, mas a mente sempre foi vazia como a de Um Sangue Quente.
Seu irmão, Jeor, do outro lado da Rainha, ecoou suas falas:
— A Rainha não deve perder tempo com imberbes como Edric. Vossa Graça tem a mim — bateu no peitoral de gelo — para fazer os inimigos sangrarem.
Bem, ele está um pouco certo, refletiu. Se Edric servisse para algo, não teria morrido. O mesmo vale para o “bebê” dele e para qualquer outro que perecia.
— Já reanimaram os Wights dele? — indagou ela, fazendo o exército voltar a marchar.
— Sim, minha gloriosa Rainha da Noite Cruel e Eterna — responderam de prontidão, uníssonos.
Como são criativos com esses nomes, pensou ela, enquanto os dois seres enregelantes discutiam quem tinha revivido os Wights de Edric e era o real merecedor dos créditos (mesmo que ela não desse real atenção para aquilo). As alcunhas da Rainha sempre variavam, todos sempre lutavam pelo amor dela; todos aceitavam que apenas teriam seu desprezo — e ficavam felizes com isso.
A marcha continuou. Estavam cada vez mais perto de seu destino: O Corvo de Três Olhos. Não apenas podia sentir ele, como também podia ver onde ele estava: um enorme castelo de trevas erguia, mostrando suas torres tortas, enquanto uma luz era emitida de dentro das muralhas.
— Construção impressionante — falou a Rainha, sabendo que era muito nova do que ela, e que, pelo tamanho que tinha a distância, deveria ser descomunalmente gigante.
Um urrar de fúria ribombou seu cerne. A mente coletiva odiava aquela coisa. Quando ela percebeu que não havia mais os represeiros de outrora, ela entendeu o porquê.
Os Sangues Quentes! Eles sempre destroem tudo!
— Majestade pode fazer um melhor — falou Jonnel. Estava certo. Havia uma imensa construção de cristal onde viviam; cercando a Árvore Coração Gelada, que armazenava a miríade de mentes que a prendiam.
No fim, eu fui mesmo a princesinha do papai, pensou, um tanto divertida com a situação. De alguma forma, lembrar daquele que um dia fora seu progenitor (preferia essa palavra, era menos dolorosa agora) fez-a sentir um vazio. Sempre tivera um vazio consigo, mas esse era pior.
Ele morreu tentando me salvar, lembrou-se, deixando Dany sair um pouco do escuro. Mamãe me abraçava, rezando aos deuses cujo nome foram esquecidos, enquanto papai era atingido por uma saraivada de flechas com pontas de obsidiana e…
SILÊNCIO!, as vozes demandaram. Faça o que deve; ataque! Destrua aqueles que estão no castelo, absorva as mente; depois mate os outros mais a sul!
Ela grunhiu, sentindo as vozes torcendo sua alma. Era culpa dela; não devia lembrar-se da outra vida. Não devia lembrar das mãos macias da mãe; do pai a chamando de princesa; nem de sua irmã mais velha, Visenya, falando sobre a beleza do mar para ela; ou de como seu primeiro amor, um rapaz chamado Edric…
A mente coletiva a machucou de novo. Era como ter o cérebro torcido. Acalmou-se, limpando a mente. As lágrimas não vieram. Não viriam nunca mais; aprendera a controlá-las.
Não posso olhar para trás, ou estarei destruída. Devo marchar para frente, para o sul. Devo ser a morte e a devastação de tudo que os Sangue Quente fizeram.
Dessa vez, ela não falharia. Seu exército era uma infinidade maior; gigantes, lobos, ursos, cabras peludas e chifrudas, homens e mulheres. E, é claro, seus lacaios vagantes.
Quando a vida terminasse, os Sangue Frio estariam livres. Livres para aproveitar o que o Reino dos Sangue Quente deixou. Livre para viverem.
Ao ouvir um rugido de um dragão, conteve um tremor. Os seus lacaios mais antigos sabiam o que era (os mais novos também, mas não por vivência, então não era a mesma coisa). Não importava. Existiam poucos dragões agora, e ambos estavam separados.
Não perderei novamente, prometeu à grande Colmeia de mentes que tinha sua alma sob seu poder, prontos para fazê-la sofrer mais do que a morte.
Com um simples gesto do braço, o vento piorou, devastando tudo à frente do exército. Algumas árvores até chegaram a cair.
Toda a luz que emanava do castelo se apagaram.
Que eles saibam de minha presença, pensou, que tremam com ela!
Os seus filhos riram, com aquela risada retorcida que enchia a mente dos homens de medo.
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