Margaery estava realmente farta de suas grandes caminhadas em Harrenhal — tudo naquele castelo tinha de ser tão longínquo? Pelos deuses, como ela parecia ser a única a reclamar disso? Teriam todos ficado tão insanos para agir como se aquele castelo fosse normal? (Se bem que ela imaginava a resposta para esta última indagação, pelo menos para os membros Starks.)

Seguia logo atrás da princesa Sansa, com Wylla as separando. Ambas usavam mantos escuros, com as cabeças cobertas por largos capuzes, às escondendo na escuridão; trevas andando na treva. Vagueavam em meio a uma maré de pessoas que ia e vinha, de lá para cá, com algumas acompanhadas de animais ou levando carroças e cestos. Margaery havia passeado por entre os plebeus no passado, embora sempre com guardas para lhe proteger, e acompanhada por suas irmãs. E geralmente estava sempre em cima da cela de um cavalo (ah, como sentia saudades de cavalgar e passear nos campos verdejantes, onde comeria nozes cozidas e seu irmão estaria ao seu lado, enquanto um bardo tocava seu alaúde para ela!).

Tempos passados, esses. Agora seus calcanhares estavam doídos e o frio enrijecida os ossos. Rilhou os dentes, infeliz com o seu estado atual, tanto físico quanto emocional.

Não entendia o motivo para toda aquela andança. Sansa não estava feliz costurando, pelos deuses? Para que obrigar Margaery a participar em mais uma andança?

Por fim, entraram em uma fileira de pessoas que andava em linha quase reta. Quase todos, plebe. Eram um bando de esmilinguidos, com poucos tendo mais do que uma manta de lã mal tingida não tingida para proteger-lhes do friúme cruel.

A sola dos sapatos marrons (maldição, não tinham botas para a neve sobrando?) batiam contra um solo de pedras negras cobertas de neve, até passarem para um solo de terra batida (também coberta de neve, para variar, é claro).

O bosque Sagrado de Harrenhal era mais uma imensa floresta; abetos, pinheiros, carvalhos, macieiras, imensas sequoias, olmos, pau-ferro, entre tantas outras diversas espécies de árvores que se aglomeração e se entendiam em amiúde no local, salpicados pela neve. A grande maioria estava sem folha alguma, e grande parte teve seus galhos e troncos retirados para lenha. Os matinhos acabaram por não resistir e morrer de frio, tornando-se um amontoado frio de galhos mortos, finos e brancos que pareciam garras de osso que saiam do solo para agarrar os andantes que ali passavam e puxá-los pelo pé. Até a erva daninha e as rosas de inverno padeceram.

No meio da escuridão do bosque, era possível ver um vislumbre ou outro de olhos dourados brilhantes e fendidos, como olhos de gatos — mas todos sabiam que não eram gatos ou mesmo qualquer felino que os observavam.

Conforme adentravam, treva a dentro, os troncos retorcidos e pálidos começavam a se denotar no ambiente gélido. Eram como vermes pálidos brotando da terra, agarrando pequenos Filhos da Floresta. Algumas das pequenas criaturas estavam num estado avançado de enraízação, com folhas vermelhas brotando deles e a pele ficando dura e branca como osso. Estão virando represeiros.

Apesar disso, os seres ainda estavam vivos: era possível ver seus olhos observando viandantes que por eles passavam, queimando como fogo fátuo dourado na noite. Aqueles que ainda podiam falar algo, murmuravam estranhos sons guturais que Margaery não era capaz de compreender, mas que pareciam uma canção triste e solitária. Um som triste, para uma visão sinistra.

Nada era sinistro, porém, do que a horrível Árvore Coração dos deuses que havia no centro do bosque; a boca distorcida em ódio, como um deus em fúria eterna. Os olhos pareciam sangrar pela seiva rubra que saltava deles, e os troncos cor-osso pareciam enormes braços que possuíam dezenas de mãos sangrentas. Os corvos estavam empoleirados nos galhos, olhando para todos que ali passavam, escrutinando-os com astúcia silenciosa.

No meio de todo aquele horror místico, estava o príncipe Bran Stark; o qual tinha muitos nomes agora: o príncipe de Winterfell, o príncipe corvo; Bran, o Quebrado, Bran, o perdido, dentre amiúde doutras alcunhas.

O príncipe usava um gibão de prata com renda prateada em forma de lobos a correr e rosnar, com uma capa de pano de prata forrada de arminho. Sua tiara de príncipe era de madeira de represeiro, com rostos esculpidos em diversas partes — todos distorcidos e horrendos, diga-se de passagem. Seus cabelos acobreados caiam até as espáduas.

Havia algo no pequeno Stark que enervava Margaery, mas ela não sabia bem o que era, nem porquê. Nunca nem esteve perto do rapaz para ter algo contra ele. (Se bem que o sobrenome Stark não estava em boas relações com ela de qualquer forma.)

Protegendo o Represeiro onde o Príncipe Corvo estava, uma fileira de selvagens e alguns soldados nortenhos faziam uma muralha humana, acompanhados de Filhos da Floresta. Flanqueando o tronco pálido e torcido da Árvore Coração, estava Lady Meera, uma cranogmana baixa e magra, usando uma armadura de escamas de bronze (que fazia Margaery lembrar-se dos primeiros homens, estes usavam tal material para armaduras e espadas ao invés de aço), segurando um tridente; junto delas, Roose Cassel, usando couro fervido e cota de malha, segurando o cabo da espada embainhada.

Dos dois lados do Represeiro, atrás da muralha de humanos e Filhos da Floresta, estavam pessoas que Margaery nunca havia visto: pessoas altas, pele verde, cobertos de folhas escuras, com chifres colados nas cabeças.

Homens verdes, ela imaginou, lembrando-se das lendas de que este povo místico vivia na ilha do Olho de Deus, afastados de todo o resto dos Sete Reinos.

Eram eles mesmos? Mesmo que não fossem lendas, ouvira que Euron os matara e comera a carne — se bem que esta era uma história muito estapafúrdia para ser real.

Margaery olhou de relance para Sansa, inclinando um pouco a cabeça para ter melhor vislumbre de seu semblante. A princesa Stark olhava fixamente para o irmão, escrutinando-o emudecida. Os dois eram bem parecidos: pele pálida, cabelos de cobre, maçãs do rosto bem altas e avermelhadas; a maior diferença estava nos olhos: os de Sansa eram de um azul profundo, enquanto os de Bran eram de um estranho tom verde-musgo bem profundo e penetrante.

O olhar de Bran não era um verde-esmeralda como o de Cersei e outros Lannisters; era algo mais parecido com a natureza vegetal. Parecia anormal.

Um filho da floresta — que, diferente da maioria dos seus iguais, tinha pele branca-osso, cabelos pálidos e olhos vermelhos —, subiu até o “trono” de Bran, deu-lhe uma tigela com pasta branca, a qual o príncipe bebeu. Após isso, ele fechou os olhos, ficou emudecido. Após uns instantes, abriu as pálpebras, fitando a multidão no solo de neve e relva congelada e morta.

— Existem aqueles que acreditam nos deuses — falou o príncipe quebrado, após largar sua afonia. — E existem aqueles que acreditam de verdade. Aqueles que enxergam a verdade, não apenas a verdade que criou.

Margaery franziu o cenho, achando que nada do que Brandon Stark falava tinha sentido. Teriam lhe dado cogumelos estragados?

— Quantos realmente rezam a deuses pela verdade? Quantos entendem o que realmente fazem? Quantos dos que dizem entender o próximo o fazem de verdade? Apenas os que estão dispostos a fazer os que amam sofrer pelo bem maior são capazes de saber a dor que vem com a alcunha de herói! Herói é aquele que chora ao saber o que fez!

— Do que ele está falando? — indagou Wylla a Sansa, num sussurro.

— Xiu! — Sansa a calou, irritada. Voltou a fitar o irmão. Existia uma agonia em seus olhos azuis, como se ela esforçasse sua mente para decifrar os enigmas do irmão mais novo.

Ele continuava a balbuciar:

— Ser heróico não é glória; é dor! Solidão! Vencer é a pior das derrotas para a alma; mas é o que faz ser uma vitória real! A dor é o que azerada a alma!

Margaery podia ver a dor na voz do rapaz, que parecia contorcer-se em seu trono de raízes, semelhantes a cobras ou vermes pálidos que o comprimiam. Ele girou um pouco a cabeça, contorcendo o rosto numa expressão de dor.

— Meu pai, Lorde Eddard, que deuses o tenham, morreu como um herói ao escolher a desonra e o amor ao invés de honra! Fico feliz que, diferente de seus filhos vivos, meus amados irmãos, ele não verá quando eu escolher o dever e a dor para o amor de milhões! — Continuou: — Meu irmão, o Rei Jon — agora a dor na voz era mais aguda —, ele é o herói que virá, e por isso sofrerá, pois ele seguirá o caminho de nosso pai!

Para a surpresa de Margaery e de muitos outros, lágrimas começaram a saltar dos olhos de Bran, escorrendo pelas suas altas maçãs do rosto, riscando-lhe a pele. Seus olhos brilhavam mais, parecendo fogo fátuo. Margaery sentia aquele olhar a fazer sentir-se compadecida pelo pobre rapaz.

Os filhos da Floresta e os Homens Verdes começaram uma estranha cantiga, uma mistura da língua antiga com sons da natureza (um rio a correr, o vento a soprar nos galhos e fazendo folhas voarem; o gorgolejo de aves, uma pedra a cair), que ecoou pelo Bosque Sagrado de Harrenhal, fazendo a noite ganhar vida de uma forma triste. Vários homens e mulheres começaram a chorar também, parecendo compartilhar da dor do rapaz.

Margaery percebeu que também estava chorando. As lágrimas queimava sua pele, embaçava sua visão. Seu coração doía a cada batida. Wylla e Sansa também choravam. Todos choravam. Todas as almas parecem compartilhar as suas dores em um ato uníssono, mesmo sem nem conhecerem uns aos outros.

Sentiu o sal das lágrimas nos lábios ao passar a língua neles. Sua mente espiralou, junto de seu coração, para mundos distantes do passado. Lembrou-se de campos verdejantes onde cavalgara; do sorriso de Loras; da risada de Elinor; os festejos com máscaras, as barcaças no rio Vago; o abraço solidário de sua mãe, um beijo na testa de seu pai; os jantares com seus irmãos.

Ao sentir o toque acalentador de uma mão, ela deixou suas memórias de lado por um instante, percebendo, surpresa, que Sor Wylla segurava sua mão, enquanto também chorava. E Sansa segurava a outra mão desta.

A outra mão de Margaery foi pega por um homem desconhecido, também unido ao choro. Todos no campo de neve seguravam as mãos, como quando as pessoas oravam juntos numa grande multidão em um septo. Era uma oração aquilo? Talvez. Ou talvez todos só quisessem compartilhar as dores e desilusões há tanto guardadas.

Margaery, apesar de relutante, deixou-se ficar ali, junto da multidão em coro. Fechou os olhos. Sentiu que não estava sozinha; estava, de alguma forma, completa. Ela não era a única a ter por quem chorar. Não era a única a, após tanto tempo, poder tirar a angústia de anos do peito.

Nobres, plebeus; homens, mulheres; adultos, crianças; Westerosis, estrangeiros. Todos eram um, ali. Uma mente. Um coração. Um ser.

A tristeza ainda estava nela, mas não só dela e não apenas dela. O frio não mais incomodava. Não lutava contra as lágrimas; deixou-as virem, tal qual os soluços.

Sorriu, após tanto tempo. Apesar da tristeza, ainda existiam os bons momentos para ser lembrados. Suas memórias do passado não eram apenas sobre o que ela perdera; eram sobre o que lhe fizeram feliz.

Um bater de asas perto dum dos seus ouvidos a fez abrir os olhos num chore, com o som parecendo transpassar sua mente embotada. Por algum motivo, o adejar fez seu coração disparar. Olhos para o lado, de esguelha. Um corvo estava empoleirado no ombro de Sansa, que o olhava de soslaio, com os olhos brilhantes d’água, rosto molhado e vermelho, respiração entrecortada. Não parecia assustada; apenas estava afetada pela sensação do coro mágico de Bran.

— Nossa outra irmã precisa de você, irmã — o corvo falou, sem olhar para o rosto da princesa chorosa. — Ela está aprontando e está em agonia.

Sansa bufou, acenou com a cabeça. O corvo deu um crocitar, bateu as asas, voltando para um dos galhos imensos do Represeiro feio onde outros corvos estavam. Quando a ave ominosa deixou seu ombro, a princesa girou os calcanhares, fazendo seu manto chicotear o ar com violência, agitando a neve, afastou-se de todos ali, aos empurrões.

Margaery arregalou os olhos, chocada com o vira e ouvira. Wylla a deu um puxão, fazendo-a voltar um pouco a si. Moveu-se, desajeitada, por entre as pessoas, ainda abalada com tudo aquilo. Tremia, não pelo frio, mas pelas emoções que perpassaram em seu corpo com tanta velocidade e intensidade.

O corvo. O corvo era Bran Stark, ela sabia que sim. A questão era, se Bran era mesmo um Warg, capaz de adentrar na mente de outros animais e escravizá-los, vendo o mundo por seus olhos… Por que ele não falou nada dos planos de Margaery e seus comparsas? Ele não sabia, não era tão poderoso? Ou apenas ignorava aqueles que achava insignificantes?

Sentiu-se abatida por ter estado diante de tal poder. Agora parecia-lhe que o príncipe a enfeitiçara, assim como fizera com a mente dos outros que ali estavam para deificá-lo. Ele entrará na mente dela, assim como entrara na dele? Mexeu em sua mente? O corpo e mente dela não eram mais dela? A pertubação a fez voltar a chorar. Sentia-se quase que violada ao pensar no estranho evento que compartilhou (que fora obrigada a compartilhar sem saber, na verdade).

O bater e crocitar das aves agourentas ainda ecoavam na mente de Margaery, sobressaindo-se sobre o canto triste das mil vozes, enchendo o coração dela de medo.

De repente, o frio voltou a imiscuir-se nela.