Margô
2 A mulher de Niqab
Notas iniciais
Você veio!
Fico feliz de saber que se interessou, pois bem, vamos lá.
Você se lembra ainda de minha decepção com minha nova casa sim? Acredite se quiser, ficou ainda maior quando entrei e dei de cara com paredes cheias de infiltração, tintas descascando e encanamentos expostos em todo lugar.
Tenho uma dica pra você: Nunca, NUNCA, compre no desespero. Seja roupa, comida e principalmente uma casa, NUNCA COMPRE NO DESESPERO.
Bem, dado o meu chilique, vamos em frente.
Minha casa tinha um grande quintal e dois andares, no segundo andar as coisas não estavam tão horríveis, os quartos estavam sim com tinta descascando aqui e ali, mas não havia infiltração e tirando o piso que estava esburacado em praticamente todo lugar, os problemas paravam por ai. Meu quarto tinha janelas grandes que davam para o hotel que ficava ao lado, Grand Beliz Hotel era o nome, e devia ser um hotel de luxo, a janela que ficava em frente a minha era na verdade uma porta que dava para a sacada com varias plantas. Imaginei que fosse ser necessário comprar uma cortina para ter privacidade naquele lugar, providenciei a cortina no dia seguinte mas me arrependi na terceira semana ali, espera, você vai saber porquê.
O quintal de minha casa foi a unica coisa que me salvou de um provável atentado contra o cara que vendeu aquele lugar para mim; era grande e lindo.
Devia ser a unica coisa ali que tinha sido preservada, havia flores em toda parte, e foram plantadas estrategicamente formando um arco-íris em torno de dois Ipês amarelos que estavam lado a lado separados apenas por um balanço velho amarrado em seus galhos, imaginei então -e aderi a esse pensamento toda vez que entrava naquele barraco que chamava de casa — que eu não tinha comprado a casa mas sim aquele jardim, e que de "brinde" tinha ganhado a casa.
Não vou dizer que instantaneamente me consolei com aquele jardim, mas logo eu já não saberia mais o que era estar com a bunda fora daquele balanço.
Assim que terminei de jogar -sim, literalmente- minhas malas no canto do quarto, peguei minha maquina de escrever e sentei-me no chão na frente da janela, escrevi por talvez duas horas se bem me lembro, mas comecei a ter fome e fui obrigado a pegar minha carteira e ir ao mercado.
Duas coisas sobre o Hiper Market -sim esse era o nome da nave mãe de todos os super mercados monstruosos daquela cidade-;
1. Wonka Bar por 1,50
2. Compre duas leve quatro de Segunda a Quinta.
Acho que enchi três sacolas naquele dia, fui pra casa mais feliz do que nunca.
Foi quando estava entrando que eu a vi pela primeira vez.
Admito que fiquei parado encarando-a o suficiente para parecer um psicopata, mas em minha defesa não tinha como não encarar, era a primeira vez que eu via uma mulher vestida com um Niqab.
Só quando notei seus olhos azuis foi que me dei conta de que ela me encarava, fiquei extremamente constrangido e me perguntei se não devia desviar o olhar, mas ela sustentou seu olhar em mim, me encarou até que um homem saiu do hotel e falou com ela, ele a ajudou com as sacolas que trazia e então entraram.
Não tinha percebido que todo esse tempo em que a olhava tinha parado de respirar, coloquei minhas sacolas no chão e fiquei ali parado e ofegante, entrei em casa peguei meus chocolates e subi para meu quarto, e quase morri de vergonha quando olhei pela janela e vi a mulher de Niqab novamente, parada me encarando.
Aquela altura, ela era a psicopata da minha historia agora.
Decidi que iria ignorá-la, ela podia ser casada, se o seu marido me pegasse olhando-a podia ficar extremamente furioso e bater em mim ou nela e não sou do tipo que consegue aguentar uma surra.
Sentei me no chão novamente e voltei a escrever, passei meu olhos pela janela e ela ainda estava lá, voltei a escrever. Quando terminei o que deveria ser a vigésima barra de chocolate ouvi algo como vidro se partindo lá fora, olhei pela janela e não vi ninguém, me levantei e não me pergunte por que, mas gritei pela janela afim de ver a mulher de Niqab novamente:
–Está tudo bem? -gritei.
–Sim — ouvi-a gritar de dentro de seu apartamento. -Eu só... Deixei cair um prato.
–Desculpe. -respondi me sentindo um idiota quase morto. Lembro-me de pensar naquele momento que ela poderia estar apanhando.
Quando me sentei novamente ela estava na janela de novo, ou devia ser ela, pois tinha os mesmos olhos mas já não vestia mais o Niqab e sim um vestido curto de paetês rosa, uma sandália alta e uma pulseira de ouro no tornozelo, seus cabelos eram longos e pretos, a pele era morena deixando o olhos azuis ainda mais em evidencia, os lábios eram grossos e estavam vermelhos e tinha um sorriso de canto enquanto me encarava, provavelmente achando graça da cara de idiota que eu devia estar fazendo.
Queria lhe perguntar se era a mesma mulher que vi lá fora, mas não consegui abrir a boca sem fazer algum som estranho, ela riu, jogou os cabelos para trás do ombro, se virou e saiu andando.
Terminei duas sacolas de chocolate e não consegui tirar aquela mulher de minha cabeça, admito que posso ter esperado acordado até de madrugada com a esperança de que ela voltasse, mas as luzes não se ascenderam mais e não se ouviu mais barulho nenhum no Grand Beliz Hotel.
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