Marcus Kalli e a Encruzilhada das Sombras
1 A Aula em que Quase Incendiei Meu Professor
Eu já devia saber que o dia seria ruim quando acordei com o cheiro de enxofre.
Alderya sempre deixava rastros de magia quando estava nervosa — e, pelo cheiro, ela tinha passado a madrugada inteira andando pela casa.
Ótimo. Nada como começar a manhã com sinais de desgraça iminente.
Enquanto colocava a mochila nas costas, a porta rangeu e a empusa apareceu, com seus olhos âmbar brilhando mais do que o normal, como brasa em lenha seca.
— Controle-se hoje, Marcus. — ela disse, arrumando a gola da minha camiseta como se eu estivesse indo desfilar para deuses. — Nada de bruxuleios, nada de impulsos. Seu poder cresceu esta semana.
— Eu percebi — murmuro. — A lâmpada do banheiro implodiu quando eu espirrei.
Ela suspirou, o que, vindo de uma empusa, é como uma ameaça em forma de ar.
— A escola humana não é lugar para testar limites. Observe. Analise. Adapte-se.
As três regras que ela repetia desde que eu era pequeno.
E eu tentava não quebrar pelo menos duas delas todo dia, mas como dizem uma missão imposivel.
O colégio Municipal Jardim das Luzes tinha o charme de uma batata crua. As paredes eram sujas, as mesas riscadas e metade dos alunos fingia que estava ali por vontade própria.
Sentei no fundo, como sempre. De lá eu tinha visão de todas as saídas — hábito que Alderya dizia ser “prudência”, mas que eu sabia que era puro instinto de sobrevivência.
O professor Hermes entrou na sala carregando um monte de apostilas. Ele tinha a energia de alguém que desistiu da vida aos 30.
— Bom dia, turma… — recitou com o entusiasmo de um zumbi gripado.
Eu estava pronto para ignorar tudo e apenas passar o tempo, quando percebi algo estranho.
Hermes caminhava… sem fazer sombra, minhas sobrancelhas se franziram sozinhas, Sombra ausente nunca é um bom sinal, principalmente se você for um meio sangue,a iluminação estava normal, o que so poderia ser uma coisa , uma criatura da névoa.
A luz na sala era horrível, ok. Mas não tão horrível assim, inclinei a cabeça de leve, como quem espreguiça, mas observei cada movimento, o jeito como ele respirava, não de um homem cansado mas de um predador, os passo ritmados e precisos, até o leve tremor nos dedos quando escrevia no quadro, coisas pequenas. Quase imperceptíveis. Exceto para alguém treinado a notar padrões, logo não havia mais duvidas ele não era o Hermes.
A parte humana de mim queria levantar, enfrentar e resolver, a parte divina queria ver Até onde o teatro iria, mas aquela pergunta mudaria tudo .
Hermes se virou para a turma com um sorriso torto demais para ser humano.
— Marcus Kalli — chamou meu nome me encarando coo se olhasse um belo pedaço de carne deliciosa. — Poderia nos lembrar quem foi o primeiro a manipular magia como arma?
Aquilo me gelou por dentro, como se ele soubesse de um segredo que nem mesmo eu saberia, enquanto lambia os lábios ao se aproximar.
Estranhando, respondi:
— Eu realmente não sei , professor ? – respondi na defensiva
— Absoluta — disse ele, e o olhar vazio pousou sobre mim como lâmina, e colocou sua mão sobre a carteira da sala .
Ok, Era isso.
Ele sabia quem eu era, como tentamos de tudo para os monstros não me encontrarem amuletos, magias, rituais. Ou o que eu era, um semi-deus.
Levantei devagar, analisando a distância até a porta (cinco metros), até a janela (três metros), até Hermes, mas como correr se ele estava do meu lado me olhando como um fanático.
O que eu disse a seguir veio de dentro de anos acumulados e guardando o que eu sou .Foi raiva ódio , foi vontade foi sangue, eu queria provocá-lo. Queria que pelo menos pudesse ver aquilo que me mataria.
— O primeiro a manipular magia… — falei em voz clara — …foi alguém inteligente demais para cair em armadilhas óbvias.
Hermes congelou sua feição por poucos segundos até entender minhas palavras, e então sorriu de um jeito que fez todo meu corpo dizer: corre.
Mas eu fiquei, Teimosia é praticamente meu sobrenome.
A pele de Hermes começou a derreter, como tinta preta escorrendo por vidro, a classe inteira congelou, sem entender, presos na ilusão da Névoa. as crianças achavam que o professor estava passando mal.
Eu via a verdade.
Os olhos dele se tornaram cavidades vazias, as mãos, distorcidas um Espírito da Névoa faminto.
— Filho da Tríplice… — sussurrou, a voz como vento dentro de uma tumba. — Sua magia tem o cheiro de amanhecer. Quero prová-la.
Eu deveria estar com medo, mas a verdade?
Eu estava irritado. Muito.
— Péssimo dia para tentar me comer, cara — rosnei. — Eu não tomei café.
Ele avançou, rápido demais, meu corpo reagiu antes da minha mente. A energia veio, selvagem, quente, instável. Um clarão roxo surgiu na minha mão, nesse momento só conseguia pensar na bronca de Alderya, que sempre dizia.
Magia é escolha, Marcus. Escolha guiar, não destruir, mas ali, naquele segundo, eu escolhi sobreviver.
A explosão não foi bonita, como dita nos livros , nem suave, nem sutil.
O Espírito da Névoa se dissolveu em fumaça escura, girando pela sala como poeira num furacão. As luzes piscavam. O chão tremia.
E então… tudo voltou ao normal.
A Névoa encobriu o acontecido.
Os alunos piscaram, confusos.
— O que aconteceu? — perguntou alguém.
Hermes estava simplesmente… sumido.
Mas a Névoa lhes diria que ele teve um mal súbito e foi levado à enfermaria.
A Névoa sempre encobre.
Sempre?
Minha respiração estava acelerada, mas minha mente… calma.
Rápida.
Eu olhei e volta esperando um massacre, nenhum aluno ferido, Minhas mãos Ainda formigavam. E uma dor de cabeça infernal, e o pior minha magia estava crescendo rápido de mais .
E isso era um problema enorme, afinal não sabia controlar esse poder.
Peguei minha mochila e saí antes que alguém fizesse perguntas.
Lá fora, o céu estava nublado, mas eu senti — na pele, nos ossos — que tempestades maiores estavam vindo.
E como sempre, elas vinham por minha causa.
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