Notas iniciais
escrevi pra tirar do meu sistema. reviews são apreciados.

Marcas

Você não tem ideia do que está acontecendo.

Há poucos meses, marcas inexplicáveis deram de se espalhar por sua pele, com textura de caneta esferográfica e impossíveis de serem retiradas. Frases randômicas, palavras avulsas, pequenas espirais em seus dedos, pulso, coxas.

Há exatamente uma semana, as palavras simplesmente não param de aparecer. Longas listas de comprar, datas, horários. Você perdeu as contas de quantas vezes tentou esfregar o braço com água e sabonete e as marcas não lhe deram uma trégua. Seu antebraço está completamente coberto.

Antes, as marcas desbotavam e eventualmente sumiam. Mas recentemente, elas são apenas substituídas por novas.

Você procura informações na internet. Respostas na biblioteca municipal. Nada.

O verão está chegando, e ainda assim você não abandona os moletons, as blusas de manga comprida, tentando desesperadamente esconder as marcas estranhas que não enxerga em mais ninguém.

É quando a nona marca começa a tomar forma serpenteando por seu pulso, que você decide ligar para sua mãe.

Então, vamos estabelecer algo aqui: não é como se você odiasse sua mãe. Ela só é, como explicar, difícil de conviver? Você não se arrepende do dia em que sua carta de admissão na universidade chegou no correio junto com a notícia que você se mudaria logo.

Sair de casa foi uma das melhores coisas que já fez.

Ainda assim, você se vê tão apavorado quanto as marcas quanto um adolescente concebendo a primeira espinha no meio da testa. Chamativa, incômoda e inexplicável.

Quando ela atende e pergunta como vão as coisas, você a atropela. Conta tudo a ela. Se sente perto de ter um ataque de nervos quando ela pede um minuto e cobre a boca do telefone para falar com seu pai. Está roendo as unhas quando ela volta a lhe dar atenção.

“Lembra de quando eu te contei sobre as almas gêmeas?”

Você faz um esforço para lembrar.

Ela te conta de quando tinha quinze anos, e como marcas coloridas apareciam por seus braços da noite para o dia – flores, listras, caras de bichos, ramos de roseira se espalhavam até o cotovelo sem motivo aparente. Ela te conta sobre como teve quase a mesma conversa com seus avós, pais dela, e como ela ficara sabendo que naquele universo, no seu universo, almas-gêmeas eram conectadas fisicamente.

Por meio de desenhos na pele.

Você começa a se alarmar sem motivo – então, se sua alma-gêmea decidir fazer uma tatuagem, ela vai aparecer na sua pele também?

Sua mãe ri. Achou que isso tivesse ficado óbvio.

A conversa se desenrola, até a despedida. Você fica alguns minutos encarando a tela do celular, sem acreditar nos fatos.

Você ergue seu braço esquerdo, admirando mais longamente a marca recente que só acabara de ser escrita.

“Café na Avenida B às 4pm. Daniel.”

Você tem alguma ideia de onde fica.

Talvez seja hora de tirar essa história a limpo, afinal.

*

Você chegou cedo demais.

Está batucando os dedos na mesa há pelo menos dez minutos, compulsivamente checando o relógio na parede, um mocha café em uma das mãos, já a ponto de esfriar. Cada vez que o sino da porta dá sinal de vida, você vira a cabeça tão bruscamente na direção do som que quase ouve seu pescoço estalar.

Não é para qualquer um, conhecer sua alma gêmea. Você protela a espera e pensa sobre como sortuda foi sua mãe por ter encontrado a dela.

Um artista amador apresentando suas pinturas na galeria da cidade vizinha pela primeira vez. E ela dera a sorte de ter seu quadro mais admirado rascunhado no pulso.

Um riso escapa de seus lábios, e você conserta a postura ao se achar bobo, rindo para o nada. Espera que a balconista não tenha percebido.

Você volta a formar um pequeno ritmo contra a mesa de madeira. Olha o relógio mais uma vez. Quatro em ponto.

Como seria sua alma gêmea, você imagina? Seria homem ou mulher? Talvez nenhum dos dois? Você considera se se atrairia por ela de qualquer forma. É, provavelmente sim. Ela era sua alma gêmea afinal, não era?

Você começa a se preocupar. E se algo acontecesse a ela, e ela nunca chegasse? As marcas em seu braço iriam apenas sumir? E não aparecer mais? Você não lida muito bem com essa pressão. Chegue logo, chegue logo, chegue logo...

A porta abre. Você é atraído pelo som, e vira a cabeça na direção da entrada. Entra todo um grupo de pessoas, e você se vê esticando o pescoço, pateticamente tentando encontrar uma pista, um sinal, uma lista de compras no pulso de uma delas que te dê uma chance de conhecer sua famosa – e aparentemente, esquecida e desorganizada – alma gêmea.

Você torce para que ela não seja a moça com o sobretudo.

O grupo escolhe uma mesa, por sorte, não longe da sua. Faz seus pedidos. Você continua procurando.

E então, você a vê.

Talvez você tivesse perdido a noção do tempo enquanto se questionava mentalmente se ela viria ou não. Ela não estava com o grupo – estava na solitária mesa atrás deles.

Não precisaria estar mais perto dela para você perceber que ela parece distraída. Avoada, você diria. Ela olha para os lados como que estivesse esperando alguém. Daniel?

Não que isso importe. Você vasculha sua bolsa transversal à procura de uma caneta, e tem sorte de agarrar uma permanente depois de quase amassar seus óculos.

Suas mãos estão tremendo quando você reveza o olhar entre a mesa e ela. Então você escreve nas costas da sua mão, bem visível, ao lado de três singelas espirais, fruto do tédio: “Encontrei você”.

Você acompanha as reações da pessoa que imediatamente percebe a marca nas costas da mão correspondente. Ela arregala os olhos, e ergue a cabeça, procurando. Então seus olhos se encontram. Você sorri.

Ela é a pessoa mais linda que você já viu.

Timidamente, ela se levanta. Como se o Daniel que ela estivesse esperando fosse você o tempo todo – mesmo seu nome não sendo Daniel. Seria uma ironia doce se fosse.

E então, o ambiente não importa. Não quando ela vem andando em sua direção, seus sapatos sendo o único som no recinto, as conversas abafadas e os carros lá fora não se relevando nem um pouco.

Ela alcança sua mesa. O sorriso no rosto dela reflete o seu. Ela toca as costas da cadeira bem diante de si, e pergunta:

“Este lugar está vago?”

Notas finais
NÃO SEI VOCÊS MAS EU IMAGINEI ESSA FIC GAY A F
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!