Marcada
26 Capítulo 25
Capítulo 25
Isabella
Parecia que eu estava em um sonho. Um sonho horrível, um pesadelo. Meu corpo inteiro doía e ardia de uma forma muito estranha. Tentei gritar, mas não saiu nenhuma voz da minha garganta, como se eu fosse impedida por algo invisível. Remexi-me inquieta e meu corpo protestou ainda mais por causa da dor.
Isso só podia ser um sonho.
"Acorde, Bella. Isso é um sonho."
Minha consciência gritou para mim em um tom urgente e ao mesmo tempo calmo. Não objetei, abri os olhos com cuidado e a claridade fez com que eles lacrimejassem, deixando-os momentaneamente embaçados. Odiava essa sensação, sabia que não estava em um local conhecido, eu nunca dormiria em um quarto que tivesse uma luz tão forte, artificial e branca, se eu tivesse escolha.
O cômodo era todo branco e frio. As paredes não possuíam nenhum quadro, um pequeno móvel que estava em frente a minha cama não tinha nenhum objeto, nenhum relógio ou jarro de flores... apenas um copo com água.
Um barulho irritante entrava pelos meus ouvidos sensíveis. Procurei a origem do som e me surpreendi ao ver um frasco de soro em cima de onde eu dormia. As gotas pingavam no recipiente de plástico com lentidão, e apenas esse som estava me incomodando, pois o silêncio do quarto era grande. Não demorou muito para que eu entendesse que estava em um maldito quarto de hospital.
Lembrei-me da noite anterior e minhas mãos automaticamente correram pela barriga. Mas não senti nada, apenas uma leve fincada no abdômen machucado. Eu tirei a coberta fina e olhei para meu próprio corpo. Minha barriga parecia maior do que o normal, e eu não sabia dizer se estava inchada devido aos chutes que havia levado na noite anterior ou devido às enormes faixas que a cobriam.
– Acho que você não vai gostar de se mexer muito.
A voz conhecida do vampiro me fez sair dos meus pensamentos e cálculos. Jasper estava sentado em um sofá de uma cor insossa, com uma postura que daria inveja a qualquer um. As mãos pálidas estavam pousadas nos joelhos, e ele parecia chateado com algo, para não dizer extremamente triste.
Eu tirei as mãos da barriga e deixei a curiosidade sobre o curativo de lado, me cobrindo novamente e me acomodando melhor na cama desconfortável. Os lábios carnudos dele se curvaram minimamente e eu percebi que ele estava aliviado por me ver acordada.
Uma fincada mais forte atingiu meu abdômen e eu fiz uma careta. Assustei-me quando ele estava ao meu lado, sentado na cama. Odiava quando ele fazia isso, odiava sua velocidade anormal.
– Ainda está doendo?
Assenti com a cabeça e perguntei-me mentalmente se Jasper colocaria sua mão em cima do machucado, para fazer a dor passar, igual fez na última vez. Mas o vampiro se limitou a olhar para a porta do quarto e fazer um gesto mínimo com a cabeça.
– Já está quase na hora do seu remédio.
Não entendi muito o afastamento dele, ele estava distante demais, mesmo que estivesse ao meu lado. Os olhos evitavam encontrar os meus e o vampiro parecia... angustiado.
Não tive tempo de perguntar o porquê de Jasper estar de um jeito estranho comigo, a porta se abriu subitamente e eu vi o médico entrar com uma prancheta na mão. Senti falta de Carlisle no mesmo momento, mas sabia que as chances do médico trabalhar em um hospital do Alasca eram mínimas, apenas pelo simples motivo de eu morar na cidade.
O médico não demonstrou nenhum carisma, apenas disse o seu nome e falou que ele que estava prescrevendo o medicamento para que eu ficasse melhor. Olhou para o soro e fez algumas perguntas corriqueiras para mim.
– Meu abdômen ainda dói.
Disse, alertando-o da dor. Ele apenas assentiu minimamente com a cabeça. Olhou para Jasper e pela primeira vez eu percebi que o médico já não estava tão confiante. O doutor depositou duas pílulas na mesa pequena e assinou um papel.
– Dê para ela às cinco horas. Quando ela melhorar, já receberá alta.
Jasper assentiu e a mão do médico tremeu ao colocar o papel na mesa, ao lado das pílulas. Ele não olhou novamente para o vampiro, apenas saiu do quarto e fechou a porta, me deixando a sós com Jasper.
No mesmo momento, ele se levantou da cama e andou em passos normais em direção a janela, fitando a paisagem que estava lá fora. Os olhos vermelhos ficaram mais nítidos devido à claridade que incidia sobre eles. E ele ficava ainda mais bonito.
– Jasper?
Chamei-o, sem saber o motivo disso. Algo estava errado, ele estava pensativo demais, como se ele estivesse com uma carga e um problema enorme para resolver. Ele me fitou e esperou. Eu selecionei uma das milhares de perguntas que eu queria fazer para ele no momento.
– Por que voltou? Digo... você me mandou uma mensagem dizendo que demoraria cerca de dois dias para chegar aqui...
No mesmo momento que fiz a pergunta, eu senti a tensão tomar conta de todo o quarto. O corpo de Jasper se enrijeceu levemente, ele tentou disfarçar o desconforto, mas eu conhecia demais o vampiro para não perceber tal gesto. Os olhos vermelhos me deixaram e voltaram a fitar o vidro da janela.
– Eu não sei...
Revirei os olhos, a impaciência começando a dar sinais no meu corpo. Sabia que Jasper me escondia algo, só não entendia o motivo disso. Ele sentiu o que eu sentia, podia jurar que vi um sorriso mínimo nascer em seu rosto pálido, mas foi rápido demais para eu ter certeza.
– Eu tive uma sensação estranha... como se algo dentro de mim me pedisse para voltar ao Alasca... eu segui seu rastro...
Jasper abaixou a cabeça. Não entendi muito o que ele quis dizer, mas ele parecia com vergonha de admitir tal coisa. Ele seguiu meu rastro? O meu cheiro podia ser sentido de onde ele estava? Não tive tempo de perguntar, no momento que olhei para a janela ele já não estava mais lá, e sim ao meu lado. A mão pálida estava estendida.
Fiz uma careta e peguei os dois comprimidos, colocando-os na boca e tomando um gole de água do copo que ficava ao lado da cama. Ele sorriu, dessa vez mostrando os dentes perfeitos e as covinhas. Eu fiz um esforço para não retribuir apenas pelo fato de amar o sorriso dele.
– Quando vou poder sair daqui?
– Assim que você não sentir mais dor.
– Eu não estou sentindo mais dor.
Menti. Jasper apenas revirou os olhos. Eu sabia que ele podia sentir meu desconforto, mas tudo o que eu queria era sair daquele lugar. Infelizmente eu já havia passado muito tempo em quartos de hospitais, quantidade de tempo nada saudável para uma pessoa com a minha idade.
– Quando você não estiver sentindo dor, eu vou saber.
Ele disse, se aproximando de mim, o cheiro de hortelã ficou mais evidente, e quando ele voltou a falar, o hálito gelado contra meu rosto me deu arrepios.
– E quando isso acontecer, eu te levo para casa.
Percebi que ele não relacionou a casa como se fosse minha casa. Lembrei-me de que havia o convidado a ficar comigo. Não pude deixar de sorrir, o vampiro parecia mais aliviado com o rumo diferente que a conversa havia tomado. Ele retribuiu o gesto, achando que o motivo de eu estar sorrindo era porque eu iria para casa cedo.
Ah... Jasper ainda não me conhecia... não tanto quanto eu o conhecia.
[...]
Jasper
Entrei no apartamento de Isabella com cuidado. Ela estava em meus braços e a mochila que eu havia levado para o hospital nas minhas costas. O peso não me incomodava, eu quase não o sentia, para dizer a verdade. O que estava me incomodando eram as sensações que ela estava emanando. Ela parecia inquieta com algo.
Respirei fundo e a olhei, ela estava com a testa vincada e parecia desconfortável.
– O que foi?
Perguntei sem conseguir me conter. Ela apenas se remexeu no meu colo e corou. Não entendi o motivo disso.
– Não percebe? Parecemos noivos...
Demorei apenas dois segundos para processar a resposta dela e perceber o que estava deixando-a inquieta no meu colo. Eu apenas sorri. Como Isabella era tola. Não era porque eu não queria deixá-la andar e fazer esforço que eu estava pedindo-a em casamento.
– Prefere que eu te solte no chão?
Sua fisionomia fechou e ela me deu um soco no ombro, em uma tentativa idiota de me proporcionar dor.
– Me solte na cama, por favor.
Enrubesceu novamente e eu revirei os olhos, ficando impaciente com essa súbita vergonha dela. Caminhei até o quarto rapidamente já sabendo o caminho, e a coloquei com cuidado na cama. Essa seria a parte que eu tiraria o vestido de noiva lentamente, deixando-a na expectativa, deixando-a louca... essa parte no casamento eu gostava... e poderia até encenar, se ela não estivesse machucada.
Pare com esses pensamentos, Jasper.
Sacudi um pouco a cabeça e ela me olhou, curiosa. Sentei-me ao lado dela e meus olhos encontraram os olhos castanhos. E eu tive que segurar minha vontade insana de beijá-la no momento.
[...]
Isabella
Os olhos vermelhos perfuravam os meus. Jasper estava inclinando-se em minha direção, e parecia não se dar conta disso. Eu não sabia o motivo de me sentir desconfortável ao lado dele, apenas me remexi. Ele saiu do seu estado de torpor e ajeitou a postura.
– Quer comer algo?
Perguntou-me. Eu apenas neguei com a cabeça. A comida que eu havia ingerido no hospital tinha me deixado um pouco enjoada, e não fazia muito tempo que eu tinha me alimentado.
– Quero tomar um banho.
Ele assentiu e eu me levantei com calma. A dor no abdômen havia sumido, mas eu sentia um desconforto por causa das faixas retiradas. Caminhei até o banheiro com Jasper atrás de mim. Virei-me para trás e olhei para ele, arqueando uma sobrancelha. Ele sorriu, um meio sorriso, fazendo suas covinhas aparecerem. Semicerrei os olhos e fechei a porta, caminhando para o chuveiro.
A água correu livremente pelo meu corpo, apagando os vestígios do hospital. Eu fechei os olhos, pensando em tudo o que havia acontecido comigo nas últimas setenta e duas horas. Jasper estaria sempre comigo para me defender de tudo? Eu não poderia ficar dependente de um vampiro novamente... não agora que tinha outros planos para minha vida.
Fechei o chuveiro e saí do box, me enrolando na toalha felpuda. Saí do banheiro e senti meu quarto gelado. Sabia que a presença dele estava ajudando a abaixar a temperatura, e tudo o que eu mais queria era ficar quente.
Fui até o armário e peguei o secador, começando a secar os fios com cuidado. Jasper me observava com atenção, mas não se mexia. Percebi que ele havia mudado de roupa, ficando apenas com uma calça preta e uma blusa de manga branca. Fiz uma força sobrenatural para tirar meus olhos dele e me concentrar no que eu estava fazendo.
Ao terminar de secar meu cabelo, apenas caminhei novamente para o banheiro e escovei meus dentes, me olhando no espelho e percebendo que meu aspecto estava melhor do que quando havia saído do hospital. Fui em direção a cama novamente e caí no colchão, me cobrindo com o cobertor fofo e quente.
Estava com saudade da minha cama, e depois da minha ida para Forks ainda não havia dormido nela. Jasper sentou-se ao meu lado e estendeu a mão para mim, me entregando o remédio da noite e um copo de água.
Engoli as pílulas e me ajeitei na cama. Ele me fitava, calado.
– Eu vou sempre precisar de cuidados, Jasper.
Disse sem pensar. Na verdade, tinha muito tempo que essa ideia estava rondando minha cabeça. Eu gostava de ser humana. Mas ser humana e conviver com um vampiro poderia ser bem irritante. Eu sempre me sentia minúscula, vulnerável e inútil.
Ele ficou um pouco pensativo ao ouvir minhas palavras, os olhos vermelhos que antes me fitavam agora estavam focados no cobertor da cama. Ele se remexeu e pousou a mão na minha perna. Não consegui sentir a temperatura gelada de seu toque.
– Eu pensei em te morder... quando te vi... naquele estado.
Falou pausadamente, como se temesse minha reação. E ele tinha motivos para temer. Eu não queria ser vampira, eu gostava de ser humana, de comer comida saudável, de sentir frio e calor... de sentir meu coração palpitando quando eu estava alegre, ansiosa, com medo... correndo...
– Eu não quero ser transformada, Jasper.
Minha resposta o surpreendeu. Claro que sua reação não poderia ser diferente, Jasper tinha me conhecido em uma época em que eu idolatrava sua raça. Mas não agora. Não... eu definitivamente não queria ser vampira, e eu tinha vários motivos para isso, mas apenas um era fundamental e me impedia de querer o que eu tanto queria anos atrás.
– Por quê?
Ele me perguntou, fitando-me com curiosidade. Eu desviei meus olhos.
– Porque eu não vou ter ninguém para desfrutar da eternidade comigo.
Não o deixei responder, apenas me virei de costas e puxei o cobertor, fechando os olhos. E pela primeira vez eu desconcertei um vampiro a ponto de deixá-lo sem palavras.
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