Marcada

18 Capítulo 17


Notas iniciais
Obrigada a todos pelos comentários!

Jasper

Eu corri em direção à boate novamente, esperando entre os carros, meus olhos de vampiro cravando em cada ser humano que saía bêbado do lugar. Um grupo de mulheres chamou minha atenção. Duas loiras e uma morena cambaleavam em direção a um carro vermelho. Eu sorri maliciosamente e caminhei em direção ao grupo.

Elas me viram e ficaram assustadas quando me aproximei silenciosamente, mas eu escutei exatamente três corações baterem mais forte quando as garotas me fitaram. O cheiro de sangue ficou mais acentuado quando eu as vi corando. Eu sorri para as humanas, acenando com a cabeça para elas me seguirem. As três se olharam antes de sorrirem e eu escutei passos na neve.

Às vezes a burrice humana me ajudava.

Eu as conduzi para uma área erma, um beco sem saída. Alguns entulhos estavam jogados por perto, mas eu não importei, eu contornava todos os obstáculos sem fazer barulho, e as idiotas me seguiam, rindo alto. Revirei os olhos e agradeci que não havia ninguém por perto, antes de me virar para o grupo.

Elas pararam rapidamente e me olharam, esperando o primeiro passo para um diálogo, ou para algo que eu definitivamente não ia proporcionar a elas. A única coisa delas que me interessava e eu desejava no momento, estava correndo pelas suas veias.

Eu me aproximei um pouco rápido demais e elas se assustaram. Sem conversas tolas e carinhos promíscuos, eu peguei a primeira loira pelo pescoço e a puxei para meu encontro. Ela gemeu, pensando que eu era apenas um homem direto, mas eu senti a excitação das humanas se tornarem medo quando eu afastei as mechas loiras do pescoço e enterrei meus dentes afiados na carne macia. O sangue jorrou para dentro da minha boca e eu fechei os olhos com a sensação única.

Uma gritou, a outra tentou fugir. Eu peguei as peguei pelos cabelos, impedindo suas fugas, e agora meus ouvidos eram preenchidos com os gritos deliciosos de desespero das três. Duas delas tentando sair do meu aperto, a outra amolecendo à medida que eu bebia todo o líquido divino que ela poderia me oferecer.

O corpo secou e eu a joguei no chão, enfiando meus dentes no pescoço da outra loira. O sangue dela era um pouco mais doce, mas não mais saboroso. A outra mulher havia desistido de fugir e eu escutava apenas o seu choro resignado, enquanto a segunda vítima já estava quase seca.

Tombei o segundo corpo em cima do primeiro. A morena começou a tentar me chutar, mas eu apenas a puxei para meu corpo e a mordi como fiz com as outras. O líquido escorreu pela garganta, satisfazendo minha gula pelo sangue humano. Eu abri meus olhos e esse foi o gesto mais tolo que eu poderia ter feito. Os longos cabelos castanhos me lembravam os cabelos de Isabella, e eu perdi o apetite no mesmo momento, desenterrando meus dentes da pele alva e deixando o corpo cair para se juntar aos das amigas.

A menina já estava morta, de qualquer maneira. Minha garganta já não ardia mais. Pensando melhor, a sede já tinha passado desde que eu bebia a segunda garota, mas no fundo eu sabia que o que eu queria que apagasse no meu corpo, nunca se apagaria.

Tranquei meu maxilar e olhei pela última vez os corpos, deixando-os onde estavam e saindo rapidamente do beco escuro antes que algum humano resolvesse aparecer. Eu corri com velocidade para um lugar que eu sabia que não teria ninguém, um lugar que eu achei conveniente.

Eu me adentrei por um parque abandonado. A neve cobria quase tudo naquele lugar. Os brinquedos infantis não eram mais que montes de gelo e nenhum humano conseguiria entrar e andar pelos caminhos do parque. Eu me sentei em um galho de árvore ali perto e coloquei a cabeça entre as mãos.

Beber as humanas não adiantou muito, confessei para mim mesmo. Minha sede estava saciada, mas minha raiva ainda estava fora do controle. Raiva de Isabella, e raiva de mim mesmo.

Raiva por ela ter certa influência no meu corpo, raiva pelo seu sangue ser sedutor mesmo quando eu estava alimentado, raiva de Isabella ser tão burra a ponto de achar que a culpa era totalmente minha. Culpa pelo seu querido namorado virgem e puro tê-la deixado, culpa pelos Cullen terem a apagado de suas vidas, culpa por ela ser uma garota sozinha no meio dessa merda de lugar. Eu não era inteiramente culpado por tudo. Claro que na época eu poderia ter me controlado um pouco mais quando senti o cheiro de sangue chegando ao meu nariz poderoso. Mas eu era um vampiro; e vampiros gostam de sangue humano, e não daquela merda que os Cullen bebem.

"Você é um monstro."

A voz fina de Alice dizendo essas palavras retumbou em minha mente. Não foi a primeira a me dizer isso, Isabella já havia jogado isso na minha cara. E depois do que eu havia feito, era praticamente uma confirmação de que aquela vampira vagabunda estava certa, ou não.

Mas minha raiva também era direcionada a mim. Como eu poderia ter perdido o controle sobre Isabella dessa forma? Eu sabia que ela havia gostado no final, mas estava mais do que claro de que eu tinha a machucado. Eu poderia ser um filho da puta, mas machucar uma mulher fazendo sexo era algo sério até para um ser desprezível como eu.

Eu soquei o tronco da árvore com força, abrindo um buraco e fazendo-a balançar levemente.

Jasper, o que você fez?

Minha consciência conseguia aparecer nos piores momentos. Eu me fazia essa pergunta a cada dois segundos, procurando o motivo de ter praticamente estuprado Isabella Swan, mas eu sabia que eu não conseguiria achar nenhum motivo além do que eu já sabia. Isabella Swan estava me colocando louco.

E eu não abriria mão dessa loucura. Nem que eu tivesse que machucá-la sempre.

Isabella

Eu acordei com uma fincada no abdômen e gemi. Olhei para o relógio. Quatro horas da madrugada. Eu havia dormido menos de vinte minutos. Fechei os olhos tentando fazer o sono voltar, mas a dor me incomodava muito. Passei minhas mãos pela barriga para tentar aliviá-la, em vão.

Bufei de raiva e tirei as cobertas quentes de cima do meu corpo, que protestou no mesmo instante por causa do frio. Caminhei em direção ao banheiro e acendi a luz. Eu olhei para o espelho. Os olhos estavam inchados devido ao tempo de choro antes de dormir por causa do cansaço, o cabelo bagunçado e a boca seca. Eu fui em direção a cozinha e peguei um copo de água, bebendo-o enquanto acendia a lareira e me sentava no sofá. A dor era forte e eu já sentia minha pressão caindo a cada fincada no abdômen.

Fechei os olhos e esperei a maldita dor passar.

Jasper

Eu desci da árvore, disposto a pedir desculpa para Isabella e tentar fazer com que a menina me odiasse menos. Isso facilitaria minha vida quando eu quisesse usar seu corpo, ou apenas conversar com ela sem sentir sua raiva crescente.

Corri em direção ao seu prédio, que estava ficando cada dia mais familiar para mim. Isso precisava terminar. Eu subi nas paredes rapidamente, indo em direção a janela do seu quarto. A cortina estava um pouco aberta e eu pude enxergar claramente o interior do cômodo. Isabella não estava lá. Vinquei a testa e andei pelo parapeito. Depois percebi que uma luz bruxuleante saía da janela da sala.

Fui em direção a janela. Mesmo fechada, eu conseguia sentir o cheiro dela como se ela estivesse debaixo do meu nariz. Olhei com cautela para dentro do cômodo. Ela estava sentada, olhava para as chamas da lareira e parecia imersa em pensamento. Uma mão sua segurava um copo de água, a outra pousava em seu abdômen.

Engoli em seco quando eu não senti absolutamente nada vindo dela. Isso era algo que estava me intrigando desde que saí de seu apartamento. Isabella me passou raiva, desejo, luxúria, insegurança, tristeza e até mesmo ódio durante a noite. Mas no momento em que a coloquei na cama e ela me mandou embora, algo a bloqueou. O furacão de sentimentos simplesmente deixou de existir, e ela ficou neutra.

Eu perguntei a ela o que ela estava sentindo. Ela não me deu a resposta que eu queria. Mas eu sabia que era praticamente impossível uma humana não sentir nada depois do que Isabella havia passado. Mesmo não conseguindo sentir nada vindo dela, eu podia ver cada lágrima riscando seu rosto, cada respiração descompassada com a dor. O corpo dela tremia ligeiramente.

E ela não estava diferente naquele momento.

Estava neutra, mas pelo seu rosto levemente contorcido, parecia sentir dor. Eu quase me amaldiçoei por causa disso. Eu sabia que eu era o motivo da dor. Eu não dava muita importância para a sua dor emocional, mas a dor física era algo que eu não gostava em uma mulher, principalmente porque eu não sabia ao certo a intensidade dessa dor. Há anos eu não sentia nada, e machucar alguém — para mim — era impossível, já que eu morava com vampiros. Eu teria que trabalhar em cima disso se quisesse conviver com ela.

Uma parte de mim queria sumir e deixar Isabella do jeito que ela estava. O tempo é o melhor remédio para curar feridas de humanos. Esse pensamento fez meu estômago embrulhar, lembrei-me de Edward e suas citações favoritas e ridículas. Quem era ele para conhecer um humano? Cada vampiro que povoava a Terra sabia que humanos eram complexos demais para nossa espécie. Mesmo com o raciocínio rápido, era praticamente impossível entender tais atitudes humanas, sem contar os sentimentos que eram totalmente diferentes. Edward conseguia escutar os pensamentos, mas entendê-los era um dom que ele não possuía. Eu gostaria que ele tivesse meu dom, ele veria o turbilhão de sentimentos que humanos eram.

Humanos na maioria das vezes eram fúteis, chatos e tediosos. Isabella poderia ser irritante, mas ela era passional, verdadeira... e intensa. Eu sabia que parte dessas características me excitava, tornando-a um ser único, um quebra-cabeça, um quebra-cabeça que me fascinava e que a cada dia eu queria resolver mais rapidamente.

Isso me levava a pensar sobre a outra parte. Parte de mim queria ficar onde eu estava, ao lado dela, tentando entender o que se passou com ela desde que fora abandonada. Ela havia tido quantos namorados? Será que ela teve muitas relações sexuais? Como ela superou o abandono? Por que ela escolheu essa faculdade? Por que ela escolheu aquele curso? O que ela pretendia fazer depois de se formar?

Se Isabella fazia minha curiosidade chegar a esse ponto, isso estava ficando preocupante.

Eu senti um movimento dentro do cômodo e fiquei estático, agachado ao parapeito da janela, atrás da cortina fina e branca. Ela se levantou e caminhou para a cozinha, parecia desnorteada com algo e eu já sabia que o efeito da bebida alcoólica já tinha passado. O que ela estava pensando? A neve estava deixando meu corpo ensopado, mas eu não sentia frio, se dependesse de mim, eu ficaria a observando a noite inteira.

Fiquei atento a tudo.

Isabella

Levantei-me novamente e fui em direção a cozinha, enchendo o copo de água de novo. O álcool em excesso sempre me deixava com sede. Caminhei para uma cômoda e abri a gaveta, pegando um cobertor de lã. Sentei-me no sofá e joguei o cobertor por cima do corpo, fitando a lareira enquanto tomava a água.

Eu mandaria uma mensagem para a Senhora Bertha dizendo que não iria trabalhar o resto da semana. Sentia-me cansada fisicamente e emocionalmente. Ela entenderia. Eu poderia conseguir um atestado médico amanhã. Mesmo insistindo que não, no fundo eu sabia que a dor não iria passar enquanto eu não tomasse algum remédio. E ficar dolorida não estava nos meus planos.

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto quando eu pensei na ideia de ir para o hospital. Os médicos iriam considerar estupro, e eu não poderia tirar a razão deles. Eu havia sido estuprada, a única diferença é que no final, eu havia me rendido. Como eu iria explicar isso para os médicos?

"Oi, eu estava sendo estuprada até que comecei a gostar e aproveitei-me disso. A propósito, está doendo muito porque foi um vampiro que me estuprou".

Isso não soava convincente, eles me internariam em um hospício. Mas eu pensaria em algo. Enxuguei as lágrimas com as costas da mão e engoli o resto da água, colocando o copo no chão e tombando minha cabeça no encosto do sofá para pensar em tudo.

Onde Jasper estaria agora? Estaria arrependido? O que ele pretendia fazer depois de tudo o que houve? Ele voltaria?

Eu conhecia bastante sua espécie para saber que Jasper não ia voltar. Seu rosto se virando, confuso, antes de fechar a porta seria a última imagem que eu teria dele. Eu seria mais uma vez usada por um vampiro. E eu sabia perfeitamente como esquecer tal acontecimento. Eu apenas excluiria Jasper da minha mente e da minha vida assim como fiz com os Cullen, e me focaria nos meus estudos, amigos e trabalho.

Era isso.

Corri os olhos pela sala escura. Eu me sentia estranha, como se alguém me observasse. Respirei fundo e voltei a olhar para as chamas da lareira, fechando os olhos para tentar capturar o sono. Mas ele não veio, e eu me conhecia o suficiente para saber que ele não viria tão cedo.

Apertei o cobertor de lã no meu corpo tentando relaxar. Uma sensação de enjôo percorreu meu corpo e eu corri para o banheiro, despejando tudo o que eu havia tomado na boate dentro do vaso sanitário. Merda, eu sabia que não devia ter bebido. Sempre que bebia em excesso ficava enjoada. Eu me levantei e senti as pernas bambas. A pressão já devia estar baixa. Olhei para o espelho apenas para confirmar o que eu já sabia. Meu rosto já branco estava quase transparente, os lábios da mesma cor. Eu abri a torneira e joguei água gelada no meu rosto, escovando os dentes e fazendo a sensação de enjôo passar quando senti o gosto de menta na boca.

Voltei para a cozinha e joguei um pouco de sal debaixo da língua, indo em direção ao sofá e sentando-me. Eu sorri quando me lembrei do meu primeiro porre adolescente. Havia bebido apenas dois copos de vinhos e cheguei em casa trocando palavras. Vomitei a madrugada inteira. Eu lembrava perfeitamente do rosto de Renée, zangado e ao mesmo tempo preocupado. Ela batia o pé no chão do banheiro dizendo que meninas da minha idade ainda eram novas para beber.

De repente eu senti saudades da minha mãe. Tinha muito tempo que eu não ligava para ela. Decidi por fazer isso no dia seguinte, tomando o cuidado com o fuso-horário. Eu gostaria de ouvir sua voz no momento. A de Charlie também. Suspirei.

Uma nova fincada fez meu abdômen protestar pela falta de analgésicos. Eu gemi e pousei as duas mãos na barriga, como se o toque fosse acalmar a dor. Mas ela não diminuiu, apenas aumentou. Fechei os olhos, apertando as pálpebras com força enquanto uma nova fisgada parecia queimar dentro do meu útero. Mas que merda, eu não sabia que sexo com vampiros poderia ter consequências assim.

Decidi por ir ao hospital. Foda-se o que os médicos pensariam, eu só não queria sentir mais essa dor insuportável. Levantei-me de uma vez a fim de pegar a chave no carro. Depois me lembrei de que estava apenas de camisola. Caminhei em direção ao quarto. Foi quando senti uma fisgada mais forte e meu apartamento começou a rodar.

Meu corpo cambaleou e eu fui diretamente em direção ao chão. Em vez de sentir minha cabeça batendo, eu senti dois braços frios ao redor do meu corpo, me puxando para cima. O cheiro de hortelã chegou ao meu nariz e eu abri parcialmente os olhos.

Ele me olhava com os olhos carmins intensos, como se tivesse acabado de se alimentar. Não sorria. Estava sério e os cabelos pareciam molhados.

- Jasper...

Eu disse seu nome em um sussurro contido, antes da escuridão me engolfar definitivamente.

Notas finais
Não, a Bella NÃO está grávida. Vampiros só podem engravidar humanos no universo alternativo e insano de Meyer.