Marcada

2 Capítulo 1


Capítulo 1

Isabella

Dois minutos atrás eu acreditava que as coisas não poderiam estar piores, até Alice abrir a boca e falar que o vampiro sanguinário já sabia minha localização. Um frio estranho percorreu minha espinha quando percebi a gravidade da situação. Olhei para o lado, Alice estava no telefone com o recepcionista, fechando a conta.

Fui para meu quarto e comecei a pegar as roupas espalhadas, enfiando-as de qualquer jeito na mochila já estufada. Escutei duas batidas na madeira atrás de mim, Alice me olhava com calma.

— Bella? Vou descer para acertar a conta do hotel. Volto daqui a pouco.

Assenti e quando pisquei os olhos, ela já não estava mais no quarto do hotel. Continuei a colocar minhas roupas na mochila e sentei em cima dela para conseguir fechá-la. Suspirei e corri os olhos pelo quarto para checar se havia me esquecido de algo. O quarto estava limpo. Joguei a mochila em cima do ombro e abri a porta, saindo do cômodo.

A suíte estava silenciosa. Sentei-me no sofá e escutei as buzinas das pessoas impacientes lá fora. Fechei meus olhos, concentrando-me em não ficar desesperada pela vida da família Cullen e me precipitar em algo, colocando tudo a perder.

— Fique calma.

Assustei-me quando escutei uma voz masculina vinda do meu lado direito. Ao abrir os olhos, observei um vampiro loiro me perfurando com os dele, dourados. Jasper me olhava com calma, mas intensamente. Corri meus olhos na figura a minha frente e percebi que ele não respirava. Eu nunca havia ficado tão próxima de um vampiro além de Edward.

— Estou tentando. – Minha voz saiu tremida e eu não soube se o motivo era meu nervosismo quase palpável, ou pelo fato dele ter colocado sua mão na minha perna.

Jasper curvou seus lábios em um sorriso tranquilo.

— Daremos um jeito em James em um piscar de olhos, Isabella.

Seu hálito frio chegou ao meu nariz e meu coração palpitou dentro do peito. A aproximação era incômoda, de certa maneira, mas não um incômodo completamente negativo. Gaguejei algo sem sentido e levantei-me, caminhando para a janela e olhando o tempo lá fora. Estava fechado, nuvens negras cobriam o céu, a chuva estava chegando. Perfeito para uma luta de vampiros. Estremeci com o pensamento e olhei para a porta quando escutei o barulho da tranca. Alice já chegava com um recibo em mãos e caminhava em direção a Jasper.

— Vamos? – perguntou para o marido e esse assentiu, dando passos largos em minha direção e cruzando o quarto rapidamente.

Ele estendeu a mão e eu não entendi de imediato o que Jasper queria, mas ele mostrou um sorriso curto.

— A mochila.

Claro, vampiros super fortes. Entreguei o objeto pesado para Jasper e sua mão nem se mexeu, o peso era como pluma para ele. Passou a alça para o ombro e foi para a porta, saindo da suíte. Alice fez sinal com a cabeça e olhei para ela.

— Aonde vamos?

Ela passou seu braço fino pela minha cintura, empurrando-me com pressa para fora da suíte.

— Eu te explico no caminho.

Assenti e entrei no elevador. O único barulho no ambiente era da chave, que reconheci ser do carro, que Jasper rodava nos dedos. As portas se abriram e caminhamos para fora do hotel. O carro preto já nos esperava na porta. Jasper acenou para o manobrista e entrou no veículo, jogando minha mochila para o banco de trás. As portas se fecharam e o ronco do motor foi alto quando ele acelerou.

— Edward nos encontrará em uma clareira, Bella. – Alice começou a explicar. — James seguiu seu cheiro e viria para cá, mas não poderíamos ficar aqui por muito tempo.

Abaixei a cabeça e comecei a torcer a barra da minha blusa com as mãos trêmulas. De repente as paredes do hotel que antes estavam me sufocando, pareciam mais convidativas e seguras.

— Por quê?

— Desmembrar um vampiro em um quarto de hotel, com um número significativo de humanos em volta, não é saudável.

A voz masculina chegou aos meus ouvidos e Alice olhou com repreensão para o marido. Ele deu de ombros e voltou sua atenção para a estrada.

— Desmembrar?

Perguntei debilmente para o casal e Alice olhou para trás.

— Um vampiro não morre facilmente, Bella. Nosso corpo é muito forte para algo simples nos matar. Somos únicos até no modo de morrer.

Eu vinquei a testa e senti os olhos dourados de Jasper me perfurarem pelo retrovisor.

— O que Alice quer dizer é que temos que desmembrar James e queimar as partes para matá-lo.

Alice virou-se novamente para frente e eu arfei quando escutei a frase de Jasper, ele não fazia nenhuma questão de me poupar dos detalhes. Eu o agradeceria se fosse em outra situação, mas acho que não adiantou para meu nervosismo saber o que os Cullen deviam fazer para acabar com a vida do vampiro.

Jasper dirigia mais rápido que Edward, o motor fazia barulho, mas dentro do carro estava silencioso. Engoli em seco e pousei minha cabeça no banco, fechando os olhos e repassando mentalmente todo meu dia. James não estava só, eu sabia que ele tinha mais dois vampiros ao lado dele, a ruiva e o vampiro negro. Eram três, será que dariam conta de todos? Alguém poderia se machucar, e isso seria culpa minha.

— Alice, despistaremos James com isso, não?

A vampira deu um riso sem emoção e olhou novamente para trás.

— James vai seguir seu cheiro, Bella, não há nada que possamos fazer...

— Senão matá-lo. – Jasper concluiu a frase da companheira e meu estômago começou a embrulhar.

Fechei os olhos e tentei me desligar do momento, mas era impossível. As árvores passavam rapidamente pela janela e o borrão que antes era cinza, agora estava verde. Chegávamos a uma área isolada, à clareira.

O carro começou a desacelerar e meu coração martelou dentro do peito quando eu vi o Volvo prata conhecido estacionado alguns metros à frente. Jasper parou o carro, abri a porta, saindo trêmula do veículo. Edward já me esperava, corri para abraçá-lo, seus braços agora estavam apertados ao meu redor, mas havia algo errado.

— Onde estão os outros?

Edward passou o braço em volta da minha cintura e suspirou.

— Emmett e Carlisle estão verificando a área. Esme e Rosalie ficaram com Charlie em Forks.

Merda. Três vampiros letais contra cinco vampiros vegetarianos? Edward só poderia estar brincando, ou ele tinha muita coragem, ou uma vantagem que eu não sabia que existia. Alice e Jasper se aproximaram e Edward olhou para o irmão significamente.

— Espero que seu conhecimento nos ajude.

O sorriso de Jasper me impressionou, pois vi certa malícia naquele gesto, malícia que foi capturada facilmente por Edward, que não ficou muito satisfeito com a resposta muda do loiro. Franzi a testa e olhei de um vampiro para o outro, mas esses não se incomodaram em saciar minha curiosidade e me colocar atualizada de tudo.

— O que...

— Voltaram.

Edward me interrompeu antes que eu pudesse perguntá-lo sobre o conhecimento de Jasper, virei a cabeça, dois vampiros conhecidos saíam das árvores altas e corriam velozmente de encontro à família. Edward estava calado e parecia concentrado demais em ler as informações que o patriarca trazia. Mas Alice e Jasper não escutavam pensamentos.

— O cheiro de James já está próximo à campina, perto da lateral da estrada, ele seguiu o carro.

Carlisle falava rápido, mas eu consegui entender cada palavra. Alice ficou imóvel e seus olhos saíram de foco como da última vez dentro do quarto de hotel. Cada vampiro presente parou de respirar, Edward apertou-me de encontro ao seu corpo.

— Dez minutos. – A voz de sino soou estranha quando Alice falou o tempo que tínhamos.

Edward me puxou para longe da família e começou a caminhar a passos largos. Jasper conversava com Emmett.

— Aonde vamos?

— Continue andando.

Engoli em seco e quase tropecei em algumas pedras que estavam no caminho, a clareira era selvagem demais. Edward se aproximou das árvores e colocou-me entre dois troncos específicos. Eram grossos e largos.

— Fique aqui. Mesmo que seu cheiro esteja indicando o caminho, acabaremos com eles antes que cheguem perto de você.

Meu corpo todo tremia, os olhos dourados de Edward agora exibiam dor e pesar.

— Nada vai acontecer a você, Bella, eu prometo.

Assenti para meu namorado e o abracei.

— Edwad! – A voz de Alice ecoou pela clareira.

Eu arfei quando Edward se afastou. Senti meu coração se acelerando, tudo ficou silencioso, observei com atenção cada movimento que meus olhos humanos conseguiam captar.

Os vampiros ficaram em fileiras, Jasper e Emmett estavam na frente, seguidos por Carlisle e Edward. Alice era a última e Jasper estava com os punhos fechados, mostrando sua preocupação com a esposa. Alguns minutos se passaram e finalmente eu vi três silhuetas flutuarem para perto da família Cullen. James, Victoria e Laurent. Meu corpo todo estremeceu ao vê-los. Jasper arqueou o corpo e todos os vampiros acompanharam seu gesto. Parecia a mesma cena do jogo de baseball, dias antes.

— Entregue a menina. – James falava baixo e sibilado, mas alto o suficiente para eu escutar. Edward rosnou. — Ela não é nada, é uma humana. – completou com desprezo e eu escutei outros rosnados ecoarem pela clareira. O vampiro havia tocado em um assunto delicado para a família Cullen.

— Não sei como tratam uma humana como se ela fosse algo além de comida.

Uma voz feminina chegou aos meus ouvidos. Era Victoria. Arrepiei-me ao interpretar sua frase. Escutei um rosnado mais gutural, Jasper agora mostrava os dentes. Vinha dele o barulho, e ele foi o primeiro vampiro a se mexer para frente. James não pensou duas vezes antes de pular para atacar. Foi tudo muito rápido. No momento que James moveu um centímetro em direção a Edward, os vampiros que antes eu conseguia discernir, agora eram apenas borrões.

Piscava várias vezes tentando ver quem ganhava a luta, mas vampiros eram rápidos demais para olhos humanos. Encolhi-me debilmente de encontro ao tronco próximo. Um grito ecoou pela clareira e meu coração disparou ao som. Era o grito de Emmett. Mordi o lábio inferior quando percebi que nenhum borrão havia parado de se mexer. Estaria machucado a ponto de parar de lutar?

Aonde eu fui me meter? Concentrei-me no borrão de cor cinza, a cor da blusa de Edward, mas depois de alguns segundos vi que era inútil tentar acompanhá-lo.

Senti uma mão gelada pegar meu pescoço fortemente e meu coração acelerou ao toque. Estava tão focada nos borrões que não havia percebido a aproximação de alguém. Pelo visto faltava um vampiro na luta. Antes que eu pudesse gritar, meu corpo foi arremessado fortemente contra a árvore mais próxima. Dor. Dor excruciante. Minha cabeça doeu com a batida e pude sentir o líquido quente descer pela nuca. Estava sangrando. O cheiro metálico chegou ao meu nariz e meu corpo ameaçou se desligar do mundo, mas eu lutava contra isso, a última coisa que eu precisava agora era desmaiar.

— Enfim nos reencontramos.

A voz feminina chegou aos meus ouvidos, carregada de desejo pelo líquido vermelho que agora impregnava o ambiente com seu aroma único para os olfatos sobrenaturais. Meus olhos não conseguiam focar a cena e eu os pisquei várias vezes para ver a dona da melodia na minha frente. O anjo ruivo tinha um sorriso doentio no rosto.

Ela pegou meu braço com força, fazendo-me gritar de dor, rezando que isso fosse o suficiente para algum vampiro perceber a ausência da mulher. Tentei puxá-lo, mas fora em vão, cada esforço era uma dor adicionada à anterior. A fincada na cabeça se intensificou e eu senti minhas pernas cederem. Bati as costas novamente na árvore e caí na grama seca da clareira. Victoria agachou na minha frente. Eu podia ver agora sua íris vermelha, cada detalhe dos seus olhos demoníacos me fitando.

— Eu não sei qual graça o vampiro viu em você... – Ela pegou meu cabelo com força e bateu minha cabeça novamente no tronco, a fincada já estava ficando insuportável. — Tão frágil...

Victoria me puxou para cima, levantando-me e me obrigando a ficar de pé novamente. Colocou minha cabeça para o lado, expondo meu pescoço. Eu sabia que minha veia palpitava devido ao coração acelerado, mas isso era pouco comparado ao sangue que saía da minha cabeça e manchava minha roupa.

— James quer seu sangue, mas é um desperdício se antes eu não provar um pouco de algo com o aroma tão delicioso...

Engoli em seco e fitei a vampira nos olhos. Victoria abriu a boca, mas antes que seus dentes pudessem chegar à minha jugular, escutei um barulho de algo se rasgando, um grito doentio ecoou pela clareira e a mão que antes pegava meu cabelo, agora se afrouxava e me soltava. Mais dois barulhos altos de rasgos e o corpo da ruiva tombou na minha frente, a cabeça rolando para os meus pés. Fiquei em estado de choque. Depois de um tempo, levantei o rosto para ver o responsável por tudo. Jasper me fitava com olhos negros e parecia fazer um enorme esforço para não se descontrolar.

— Jasper...

Tentei me aproximar dele, mas ele levantou a mão e apontou para minha cabeça, percebi tarde demais que meu sangue estava por toda parte, na minha roupa, no meu cabelo, na mão de Victoria, na grama e no tronco de árvore. Ele percorreu seus olhos negros por todos os lugares onde havia sangue, dando mais atenção à minha blusa encharcada. Jasper pegou os pedaços do corpo morto.

— Vou chamar Carlisle, fique aqui. Acabou, Isabella.

Correu para longe. Não tive tempo de falar algo, ou agradecer. Jasper salvou minha vida, foi o único que percebeu a ausência da vampira, e não conseguiu ficar perto de mim. Não repreendi em nenhum momento aquela conduta.

Escutei passos por perto e antes que pudesse ver quem se aproximava, meus olhos saíram de foco, o borrão disforme sendo a única imagem que conseguia captar.

— Bella? Você está bem?

O cheiro metálico agora era forte, tentei abrir a boca para responder, mas antes que saísse qualquer som, a escuridão me engoliu, e desmaiei.