Marcada

19 Capítulo 18


Notas iniciais
Obrigada a todos os comentários!

Jasper

Coloquei Isabella na cama. Ela havia desmaiado de dor, e infelizmente eu não conseguia sentir nada vindo dela. Eu poderia até medir a intensidade da dor e seu desconforto, se ela de repente não tivesse virado um maldito escudo.

Ela estava com a boca ligeiramente aberta, deixando o aroma da pasta de dente bater no meu rosto à medida que ela respirava. Eu me aproximei dela e coloquei seus cabelos longos para o lado. Isabella estava arrepiada. Joguei o cobertor por cima do seu corpo, mas ela não se mexeu.

Merda, se eu não estivesse vendo seu peito subir e descer, eu já teria a levado para um hospital. Eu não era médico, e não sabia o que ela estava sentindo. Minha única certeza era que eu era o responsável por isso.

Minhas roupas encharcadas estavam molhando a cama e eu me levantei rapidamente, retirando os tênis e as meias. Coloquei-os debaixo da cama e tirei minha blusa, jogando-a em cima de uma pequena poltrona que ficava no quarto. Balancei a cabeça retirando o excesso de água e respirei fundo olhando para ela.

Parecia que eu tinha voltado para o passado. Voltado para Forks, para ser mais exato. O frio, Isabella dormindo, uma poltrona, meus cabelos molhados. Se eu pudesse voltar no tempo, tudo seria fácil. Eu nunca teria aceitado ajudá-la a dormir usando meu dom, eu não teria a incitado a passar a noite comigo. Edward ainda estaria com ela, dizendo o quanto a amava e todas aquelas coisas imbecis que ele adorava dizer.

Quem estaria zelando pelo seu corpo seria um vampiro virgem e devotado. E não um vampiro ninfomaníaco e que bebe sangue humano.

Mas eu ainda estaria com Alice, ainda estaria sendo enganado. Ela nunca me amou. Disso eu tinha certeza agora. Ela ficava comigo apenas como um conforto, tentando me enquadrar em todas as suas regras. Ela não me aceitava do jeito que eu era, do jeito que eu sou, e se Alice visse a cor dos meus olhos no momento, apenas tentaria me afastar de Isabella.

Ninguém iria me afastar de Isabella.

Eu suspirei quando meus olhos pousaram novamente na humana. Sentei-me na beirada da cama e coloquei a cabeça entre as mãos, apoiando os cotovelos nas pernas e fechando os olhos para pensar.

Eu não estava mais com Alice, então eu não precisaria mais me preocupar com a vampirinha irritante. Eu estava longe demais dos Cullen, e eu nunca mais os veria ou conversaria com um deles. Levantei-me em um salto quando me lembrei dos vampiros, tentando apagar a raiva que crescia gradativamente no meu corpo.

Andei em círculos por minutos, passando a mão nos cabelos em intervalos curtos de tempo. Parei ao lado da cama de Isabella e a olhei novamente. Ela continuava apagada, a respiração agora mais tranquila, os lábios parcialmente abertos.

Não. Definitivamente se eu pudesse voltar no tempo, eu faria tudo exatamente igual. Eu teria tirado sua virgindade, eu teria a ajudado a dormir, eu teria a atacado novamente quando senti o cheiro do seu sangue. Eu teria destruído qualquer vínculo com os Cullen. Eu teria procurado Isabella por cada canto do planeta apenas para estar no quarto com ela, olhando a menina inconsciente, igual eu estava no momento.

Sim, ela havia me salvado de uma forma que apenas eu poderia saber. Ela havia me salvado de uma vida que eu nunca estaria inteiramente feliz. De uma vida manipulada por uma mulher manipuladora. De uma vida em que eu seguia regras que eu nunca gostava de seguir. De uma vida que vivi apenas para agradar os que estavam à minha volta, ignorando minhas próprias vontades. Agradar as pessoas que hoje me achavam um monstro.

E eu salvei Isabella de um jeito que ela nunca poderia saber. Salvei a menina de um vampiro egoísta. De uma família fechada e cheia de preconceitos. De uma vida sem expectativas de coisas novas. De uma vida vazia.

Respirei fundo tentando me controlar. Calma, Jasper. Não comece a ser um maldito vampiro sentimental.

Mas no momento que olhei a inconsciente, eu senti. A dor dela agora saía do seu corpo, fluindo pelo cômodo e chegando ao meu corpo. No começo era branda, mas depois foi se intensificando. Eu arfei quando a dor física me atingiu. Não era possível que eu havia a machucado a esse ponto. Mas algo estava acrescentado a essa dor. E se eu não estivesse tão atento, poderia ter sido pego de surpresa quando a dor emocional me atingiu também. Não era forte como a dor física, mas conseguia ser mais desconfortável. Meu corpo aguentava a dor física, mas a dor emocional não era algo com que eu estava acostumado.

Levantei-me em um salto quando ela suspirou levemente. Os cabelos longos e castanhos estavam jogados pelo lençol branco, ela não se mexeu, e quando a fitei, tive certeza absoluta de que nos próximos dias, eu me dedicaria inteiramente a consertar o estrago que eu havia feito. Tanto o estrago de anos atrás, quanto o estrago feito horas atrás.

A começar pelo estrago feito horas atrás.

Determinado a ajudá-la, tirei o celular do bolso da calça jeans e digitei um número que não digitava há anos, surpreendendo-me de que ainda me lembrava. Infelizmente a memória da nossa espécie era impecável. O telefone chamou apenas duas vezes antes que a voz dele chegasse aos meus ouvidos. Respirei fundo.

- Carlisle? Sim, é Jasper.

Isabella

Comecei a voltar ao mundo gradativamente. Abri meus olhos lentamente e minha visão estava embaçada. Pisquei algumas vezes, me focando em um ponto fixo até que a imagem voltasse ao normal. Eu sentia algo frio no meu abdômen, mas surpreendentemente isso não estava me incomodando, pelo contrário, a sensação de alívio era evidente. Resmunguei algo incoerente e me virei para o lado, sentindo pela primeira vez o colchão um pouco fundo. Jasper me fitava com olhos vermelhos claros, a mão estava pousada no meu abdômen e ele tinha um copo com um líquido amarelado na outra mão pálida.

Assustei-me e tentei sair de perto do vampiro, temendo que ele pudesse estar descontrolado novamente e me machucasse de novo, mas eleme pegou pelo pulso, me impedindo de me afastar de perto dele.

- O que está fazendo aqui? Não me machuque mais...

A mão dele saiu da minha barriga e eu já sentia uma fincada mínima, alertando-me que a dor iria voltar. Ele apertou levemente meu pulso, os olhos me fitando com calma, a postura relaxada.

- Eu não vou te machucar, Isabella.

Meus lábios tremeram e eu senti uma onda de calma tomar conta do meu corpo. Olhei desconfiada para Jasper, sabendo que ele era o responsável pela sensação. Ele deu um sorriso mínimo e eu relaxei, voltando a me deitar onde estava. Ele voltou a colocar a mão no meu abdômen, fazendo a fincada diminuir rapidamente. Eu olhei novamente para ele.

- Sente-se.

Ele pediu calmamente e eu me sentei devagar. Jasper me entregou o copo com o líquido amarelado e eu arqueei uma sobrancelha. Ele apenas sorriu para mim e passou o dedo pela minha bochecha. Infelizmente eu ainda confiava demais nele para não beber o que estava dentro do copo de vidro.

Com um longo gole, empurrei para a garganta o líquido e senti um gosto horrível e amargo. Parecia remédio. Entreguei o copo a Jasper e fiz uma careta. Ele pousou o copo no criado mudo e me olhou.

- O que era?

Ele deu de ombros e pousou a mão no meu colo, meu coração se acelerou um pouco, temendo pelo que ele pudesse fazer com esse gesto. Mas Jasper apenas me empurrou para a cama gentilmente, até que minhas costas fizeram contato com o colchão. Eu respirei fundo e continuei a fitá-lo.

- Isso era um remédio...

Ele parecia escolher as palavras que ia me falar, e eu estava desconfiada da sua cautela. Vinquei a testa, mas não insisti com mais perguntas. Ele me cobriu novamente e eu pisquei algumas vezes, não entendendo o cuidado repentino.

- Jasper, se está fazendo isso porque se arrepende de algo...

Ele pousou um dedo frio nos meus lábios. Se afastou um pouco de mim e se levantou da minha cama. Só depois de tal gesto que percebi que ele estava sem camisa, e descalço. A única peça de roupa em seu corpo era a calça jeans, que aparentava estar encharcada. Meu corpo se arrepiou automaticamente quando eu fitei suas costas pálidas. Ele não era perfeito, todo seu corpo era marcado com cicatrizes de meia lua. E isso tornava o vampiro único.

Ele se virou para mim, e eu não pude conter meus olhos quando esses começaram a correr pelo seu corpo. Mas eu os forcei a subir para o rosto de Jasper. Seus cabelos também pareciam molhados.

- Estou fazendo isso porque estou preocupado com você.

Ele me disse rapidamente, me dando a impressão de que se não o fizesse assim, não teria coragem para terminar a frase. Eu apenas assenti e me encolhi na cama, colocando o cobertor grosso mais para perto do rosto, o quarto estava frio, se ele fosse um ser humano, ele estaria congelando. Mas ele não era um ser humano.

Ele voltou a se sentar ao meu lado, mas parecia relutante em chegar perto de mim. Eu não precisava ser uma empata como ele para saber que ele estava arrependido. Seus olhos vermelhos agora me passavam calma, mesmo que a cor diferente fosse um alerta para eu me afastar. Eu sabia que ele tinha se alimentado depois que saiu do apartamento. Seus olhos não estavam tão claros quando ele me deixou.

Ele estava imóvel, apenas me fitando. O corpo um pouco enrijecido, como se esperasse uma palavra sair da minha boca, xingando-o de monstro ou pedindo para que ele fosse embora.

Depois do que Jasper havia feito comigo, o mais sensato seria pedir distância imediata, mas estranhamente eu não queria que ele fosse embora. Mesmo que ele pudesse me machucar novamente, eu preferia que ele estivesse ao meu lado igual estava do que se ele estivesse longe de mim. O remédio já estava fazendo efeito, a dor era praticamente nula e meu corpo relaxava a cada segundo, e eu o agradecia mentalmente por isso.

Suspirei vagarosamente e retirei o cobertor até a minha cintura, levantei o braço em direção a ele. Minha mão tremia quando eu a levei até o braço dele, descendo pelo pulso, pegando sua mão gelada. O vampiro parecia surpreso com meu gesto e me olhou de forma relutante. Eu apertei levemente sua mão, mas o suficiente para ele sentir, e ele relaxou o braço.

Eu levantei o braço dele e o puxei, colocando sua mão novamente por cima do meu abdômen. Ele deixou, eu sabia que se o vampiro quisesse, eu não conseguiria nem mover o seu braço. Ele começou a fazer carinho no lugar onde sua mão pousava.

- Está melhor?

Perguntou um pouco sem graça, temendo minha resposta. Assenti e dei um sorriso mínimo para ele, abaixando meu escudo completamente e dando uma chance para ele provar que realmente estava arrependido. Ele relaxou, seus olhos fixaram-se em um ponto do quarto. Parecia não querer me olhar diretamente.

- Jasper?

Vi a garganta do vampiro subir e descer, como se ele tivesse engolido algo. Ele me olhou rapidamente e depois voltou a fitar o ponto fixo, me dando a certeza de que estava escutando.

- Você vai ficar aqui essa noite?

Ele se levantou rapidamente, tomando o cuidado de retirar sua mão de cima do meu abdômen sem me machucar. Caminhou em direção a poltrona e colocou a blusa. Eu vinquei a testa e me sentei.

- O que foi?

Ele me olhou um pouco nervoso e depois olhou para a janela do meu quarto.

- Se quiser que eu vá embora, me fale.

Sorri quando percebi o que ele estava pensando. Sua blusa estava encharcada também, os cabelos começavam a secar, mas a calça parecia pesar toneladas.

- Não quero, Jasper. Eu perguntei apenas por perguntar.

Ele relaxou em um minuto. Eu não falaria para ele que o queria exatamente onde ele estava minutos antes. Não agora. Apenas acenei para ele se aproximar, e Jasper começou a andar em direção a cama, mas parou, olhando para um lugar do meu quarto.

- O que foi?

Perguntei sem entender. Ele apontou para a poltrona e pela primeira vez eu vi uma sacola preta ali. Olhei novamente para ele esperando pela resposta.

- Quando fui comprar o seu remédio passei no hotel. Posso colocar roupas secas?

Eu assenti para ele e ele saiu do meu quarto carregando a sacola. Eu sorri quando a imagem de Jasper em uma farmácia do Alasca, comprando remédios pela madrugada para mim assaltou minha mente. Ele voltou com uma calça de moletom preta, combinando com sua blusa regata preta. Ele se sentou perto de mim e voltou a pousar a mão gelada no meu abdômen. Eu voltei a me deitar e relaxei.

A claridade da manhã começou a entrar pela cortina fina à medida que os minutos se passavam e eu bocejei. Ele se levantou e fechou a parte pesada da cortina, deixando o quarto escuro novamente. Ele me olhava de longe, a postura perfeita e elegante.

- Jasper?

Eu o chamei, mas ele não se aproximou, apenas continuou a me olhar do canto do quarto.

- Pode se deitar comigo?

O vampiro parecia desnorteado e pego de surpresa. Isso era raro em sua espécie. Eu sorri para ele, encorajando-o, e bati a mão no espaço do colchão de casal ao meu lado. Ele estava com medo de si mesmo, e não de mim, mas se aproximou lentamente. Jogou o cobertor para o lado e se deitou no colchão, passando os braços para trás da cabeça enquanto a pousava no travesseiro avulso.

Eu cheguei um pouco mais perto dele e deitei minha cabeça no seu peito duro, passando o braço por cima do seu corpo e agarrando um pouco da sua camisa. Eu conseguia sentir a temperatura da sua pele mesmo por debaixo do pano, a ausência do batimento cardíaco, o cheiro delicioso de hortelã exalando do seu corpo. Jasper ficou imóvel, mas depois de alguns minutos relaxou e começou a passar a mão nas minhas costas. Eu gemi baixinho e me aconcheguei ainda mais em seu peito.

Sua mão subiu para meu cabelo, desembaraçando os fios, fazendo carinho com tal gesto. Eu fechei os olhos e suspirei fundo, mas me assustei quando senti os lábios frios dele perto do meu ouvido. Ele depositou um beijo leve ali e eu senti o hálito gelado quando ele abriu a boca.

- Me desculpe.

Eu não disse nada, apenas o apertei no meu corpo e fechei os olhos, dormindo tranquilamente com essas palavras.

Jasper

Senti o corpo de Isabella ficar mais pesado quando ela finalmente dormiu. Já o meu corpo não estava tão confortável com a aproximação. Mesmo eu conseguindo relaxar um pouco, eu o conhecia perfeitamente para perceber que ele ainda estava tenso. Meus dedos acariciavam automaticamente os cabelos longos dela, e a cada contato com os fios, eu me perguntava se o que eu estava fazendo era certo, e o significado por trás dos gestos.

Era um fato comprovado que eu queria consertar o que eu tinha feito com Isabella. Mas se eu quisesse levar meu plano além, eu teria que ter cuidado, eu não queria ter nenhum envolvimento emocional com ela. Minha mão parou imediatamente e meu corpo ficou estático novamente quando eu a senti se mexer. Sua boca abriu e o hálito quente bateu no meu pescoço, causando-me uma sensação muito parecida com um arrepio. Mas eu sabia que eu não podia me arrepiar, afinal, eu era um maldito vampiro.

Eu olhei para ela. Seu corpo estava grudado ao meu, a camisola expondo mais do que devia, seus cabelos jogados para trás, cobrindo parte do meu braço e seu batimento cardíaco estava ritmado... leve... o som do seu coração pulsando era como uma sinfonia para mim, eu podia sentir o cheiro do seu sangue perfeitamente, como se alguém tivesse colocado um copo na minha frente para eu beber. E o cheiro me chamava, convidando-me a saboreá-lo. Mas Isabella tinha algo que eu desejava mais. Seu corpo.

Eu engoli o veneno acumulado na minha boca e desviei meus olhos do corpo dela. Se eu quisesse continuar o que eu pretendia fazer, eu teria que colocar minha luxúria dentro do bolso por um tempo, até conseguir me controlar completamente. Um vampiro excitado era a última coisa que Isabella precisava.

Meu corpo voltou a relaxar com a conclusão e meus dedos voltaram a acariciar os fios sedosos de seu cabelo. Eu olhava para o teto imerso em pensamentos, esperando pacientemente Isabella acordar.